Dez razões para admirar Gal Costa

 Existem muitas razões para admirar Gal Costa. E tantas outras para considerá-la a maior cantora do Brasil. Gal poderia, ao longo de sua vida, ter se conformado com sua voz, que não é uma “mera voz”, como ela reconheceu recentemente numa entrevista dada juntamente com Caetano Veloso a Jô Soares. Já foi chamada, justamente por isso, de “João Gilberto de saias”.

Mas Gal Costa foi além. Como disse na sua entrevista no Roda Viva, em 1995: “Quem conhece a minha história sabe que eu sou ousada e que eu faço essas coisas. Eu sei que elas têm um preço, mas eu encaro”.

E ela, no decorrer da sua história arriscou, e arriscou bastante, e justamente por sua capacidade de arriscar e não se conformar com sua voz fenomenal que a coloca no patamar mais alto de qualquer lista de grandes cantoras do Brasil. 

Faço aqui uma lista de dez momentos e razões para considerar Gal genial. 

1 – Divino Maravilhoso. Quando Gal apresentou a canção “Divino Maravilhoso”, em novembro de 1968, no 4º Festival de música Brasileira, da TV Record, todos se surporeenderam: ela, considerada um João Gilberto de saias, por sua voz suave, Gal cantou a música com um cabelo estilo black power, com um enorme colar de espelhos no pescoço comportando-se de maneira agressiva e explorando os agudos, num estilo totalmente chocante e anti-bossa nova. Entre aplausos e vaias,  a música ficou em 3º lugar no festival. 

2 – FA-TAL. Gal a Todo vapor. Um marco na carreira de Gal. Gravado a partir de uma turnê de shows entre 1971 e 1972. Com um repertório que passava por Roberto Carlos e Caetano Veloso, ao estrondoso lançamento de Pérola Negra, de Luiz Melodia, e Vapor Barato, de Jards Macalé e Waly Salomão,  Com passagens de samba-de-roda, Jorge Ben, Ismael Silva, Geraldo Pereira e Luiz Gonzaga,  é overdadeiro disco solo tropicalista de Gal, que, novamente, não teve medo de arriscar.

3 – Índia. Em 1973, no auge da ditadura militar, Gal arrisca-se mais uma vez. A capa do disco contém a foto em close da região do umbigo às coxas de Gal, que veste somente uma pequena tanga vermelha.  Na contracapa, duas fotos de Gal fantasiada como índia, com os seios a mostra. O resultado foi o disco ser um dos censurados do ano, tendo sido vendido nas lojas coberto por um invólucro preto. E a própria gravação de Índia, uma versão em português da guarânia paraguaia “Índia”, clássico sertanejo gravado originalmente pela dupla Cascatinha e Inhana, mostra que ela não tinha medo de flertar com o chamado “brega”, numa época de patrulhamento ideológico musical.  

4 – Folhetim. Wagner Homem conta, no livro que escreveu sobre as canções de Chico, que a  música “Folhetim”,  foi composta entre 1977/78 para a peça “Ópera do Malandro”.  Mas Chico disse que a música tinha a cara de Gal. E quando ela canta: “Se acaso me quiseres, sou destas mulheres que só dizem sim“, parece que ela se veste no eu-lírico da canção, ela se transforma naquela mulher que na manhã seguinte, vira a página do folhetim. Gravado no disco “Água Viva”, de 1978. 

5 –Tom, Caymmi, Ary, Chico, Caetano. Ao mesmo tempo em que se arrisca, Gal consegue reeternizar clássicos gravando discos com canções de grandes compositores. Foi com Caymmi (1976), Ary Barroso (1980) Tom Jobim (1999), Chico e Caetano (1995). Algumas músicas parecem ter sido feitas para Gal gravar. Talvez seja dela a versão definitiva de Aquarela do Brasil…

6 –O Convite a Elis Regina. Diziam que gal e Elis eram rivais. O que Gal fez:  convidou Elis para seu especial da série Grandes Nomes, e para quem se lembra foi um dos melhores momentos da televisão, Elis cantava de olhos fechados,  não conseguia encarar os olhares carinhosos de Gal. 

7. Brasil. No show O sorriso do Gato de Alice, idos de 1993/94, Durante a música Brasil (Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim), de Cazuza, Gal, que cantava com algo que parecia um pijama, abriu a blusa e cantou com os seios à mostra. Foi praticamente capa de todos os jornais do Brasil. Vieram inúmeras críticas, piadas; alguns, mais moralistas, indignados; outros, fãs de Gal, aturdidos.

8. Autotune autoerótico. Já consagrada, conseguiu explorar os limites de sua voz em Autotune Autoerótico,sem medo de brincar com música eletrônica. 

9. Um dia de domingo. No show ao vivo do álbum Recanto, ela consegue cantar “um dia de domingo”, primeiro, com sua voz; em seguida, com a voz de Tim Maia. Imitando os trejeitos de Tim Maia. Não é para qualquer um. 

10 – Sua voz. Não se trata de uma mera voz. Cada um desses itens mereceria uma postagem por si só. Alguns já viraram, outros virão. Mas a voz de Gal Costa é única e inconfundível. Quando ela canta, não há dúvida de que se trata dela. Pela voz e por muito mais. 

domingo 21 abril 2013 13:52 , em Listas

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O Mestre-sala dos Mares (João Bosco/Aldir Blanc). Homenagem ao Almirante Negro, João Cândido

Algumas músicas se tornam mais interessantes quando se descobre a história por trás da canção. As musas, as inspirações, as circunstâncias em que uma música surgiu podem torná-la mais bonita. É o caso, sem sombra de dúvida, da canção “O mestre-sala dos mares“, de João Bosco e Aldir Blanc, em 1975, em homenagem ao marinheiro João Cândido, conhecido como “O Almirante Negro“, que liderou a “Revolta da Chibata”, em 1910. 

Para quem não sabe, a Revolta da Chibata foi um movimento idealizado por Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, e depois liderado pelo cabo da Marinha João Cândido, o “Almirante Negro”,  semi-analfabeto, que se insurgia contra os desmandos na marinha: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais (chibatadas), que tinham sido reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.Por isso a revolta, iniciada em novembro de 1910, ficou conhecida como Revolta da Chibata.

Os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais não fossem suprimidos. Em Princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas  medidas que acabam com as chibatadas, bem como  um projeto que anistia os amotinados. 

Mas a anistia não durou dois dias. Em 28 de novembro, os marinheiros foram surpreendidos pela publicação do decreto número 8400, que autorizava demissões, por exclusão, dos praças do Corpo de Marinheiros Nacionais “cuja permanência se torne inconveniente à disciplina“. O Governo traiu os revoltosos, que foram presos, perseguidos, e encaminhado para uma prisão subterrânea na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Quase todos morreram sufocados, pois a cela era subterrânea, sem ventilação e estava cheia de cal. Apenas João Cândido sobreviveu, juntamente com o soldano Naval João Avelino. João Cândido foi perseguido, considerado louco e morreu aos 89 anos, em 1969, quase no anonimato, como vendedor de peixes.

João Cândido

No auge da ditadura militar, João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem ao “Almirante Negro”. Numa entrevista, Aldir Blanc afirmou:  

“Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:

 – Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…

– Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

– O problema é essa história de negro, negro, negro…”

Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente “O Mestre-Sala dos Mares”, saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo “Um herói, uma canção, um enredo – Noite do Navegante Negro”, da Escola de Samba União da Ilha, em 1985.

Noutra ocasião, Aldir Blanc disse:

O João [Bosco] no início da carreira era da [gravadora] RCA. Havia um funcionário lá, muito malandro, que levava de presente dezenas de LPs para aqueles caras da censura. Um dia, ele encosta na gente e diz assim: “Eles estão pedindo a tua ida lá pra falar sobre ‘Almirante Negro'”.

Aí eu fui ao Palácio do Catete, para onde tinha se mudado a censura, procurei o setor.

Vi uma coisa cômica. Logo na entrada, tinha três escrivaninhas iguais, com três sujeitos já bem idosos, de cabelo branco. Aí eu sentei na primeira escrivaninha, onde mandaram eu sentar, o cara me fez algumas perguntas e disse: “Passa para a segunda escrivaninha”.

O cara me fez exatamente as mesmas perguntas e disse: “Passa para a terceira escrivaninha”.

Outra vez a mesma merda, e o cara falou “pode entrar”. Ou seja, aquilo era um tremendo cabide para policial aposentado ou qualquer coisa assim. Eu entro -aí é que eu acho um negócio revoltante-, vem um cara de paletó e gravata, com o paletó aberto com o coldre aparecendo, andando de um lado para o outro. A coronha do revólver só faltava passar no meu nariz.

João Bosco e Aldir Blanc

O cara de repente diz para mim assim: “Mas, então… Vocês estão errando o foco. Vocês estão mudando a letra, insistindo, insistindo e o problema é ó…”. E esfregava o dedo na pele do braço. Eu não entendi. “Toda hora esse troço na letra aí, o negro isso, o negro aquilo.”

Isso me deu um mal-estar tremendo. E eu fui salvo por um escândalo. Um cara na sala ao lado começa a gritar que tinham que matar o Ney Matogrosso. Porque ele tinha entrado em casa e encontrado um neto dançando com uns panos imitando o Ney Matogrosso.

Eu nunca consegui saber se aquilo era verdade ou se era um processo de intimidação para sobrar para mim, porque era meio teatral demais, meio armado demais.

Aí o cara volta, fica parado assim, abre o paletó, coloca a coronha quase dentro da minha narina e diz: “Acho que deu para entender, né, cara? Esse negócio do negro tá pegando!”. Aí eu saio de lá zonzo, tomo uma cerveja a um quilômetro dali, falo com o João sobre esse troço e a gente transforma em “O Mestre-Sala dos Mares”.​

A música, para ser aprovada pela censura, sofreu várias modificações, que podem ser vistas na tabela abaixo:

Fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html; http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/canhoes-chibata-433714.shtml

https://www.folhape.com.br/diversao/diversao/musica/2020/06/01/NWS,142441,71,581,DIVERSAO,2330-ALDIR-BLANC-ENTREVISTA-COMPOSITOR-LEMBRA-COMO-VERTEU-HISTORIAS-REAIS-CANCOES.aspx

quinta 15 setembro 2011 06:21 , em MPB

Gonzaguinha. 22 de Setembro de 1945.

22 de setembro é o dia de aniversário de Gonzaguinha. Nascido em 1945, faleceu em 29 de abril de 1991. Um dos raros casos de filho de compositor que buscou seu caminho, brilho e sucesso de modo independente de seu pai, Gonzagão.

Ele não fazia questão de ser simpático. Se achava feio, e disse que uma das coisas mais importantes foi que seu pai não teve tempo de tê-lo ajudado como gostaria, isto é, ele teve que traçar seu próprio caminho. 

Numa entrevista dada no Bar Academia, ele se mostrou o quanto é importante colocar-se como pessoa. Provocado numa entrevista sobre como os “machos decadentes” se colocam diante de suas “musas” mulheres, Gonzaguinha responde: 

“Não é questão de que o macho é superado, de que a femea é superada. Sinto a necessidade de ser pessoa, de me colocar como pessoa; A questão que eu entendo e sempre entendi de que como pessoa eu sou muito mais útil, com o pessoa eu aproveito muito mais; como pessoa eu dou e recebo; como pessoa o amor é muito maior. Como não proprietário e não propriedade, as coisas são muito mais soltas, mais leves, os céus são muito maiores mais amplos…”

Assim, colho aqui alguns depoimentos de artistas, logo após a morte do artista: 

Ney Matogrosso
“É tão súbito que nem sei o que dizer. Éramos amigos e há, pouco tempo, chegamos a estar bem próximos mesmo sem ter trabalhado juntos. Mais do que seu trabalho, gostava dele como pessoa”

Fagner
Era muito ligado a ele e a toda a sua família. Tudo que posso dizer nesse momento é que estou chocado”

Joanna
Gonzaguinha era um poeta contemporâneo, que abordava a alma feminina de uma forma completa. Através da palavra, desnudava o universo da mulher> Ele tinha a sensibilidade à flor da pele. Na minha obra é de extrema importância. Sempre esteve presente nos meus trabalhos, desde que fez a música “Agora” para o meu primeiro LP.”

Simone
Era uma pessoa de quem gostava muito.Tinha um grande talento. Estou muito chocada agora para dizer mais alguma coisa”

Aquiles (MPB-4)
Nós éramos muito amigos. Sempre tivermos uma ligação forte porque o MPB-4 gravou muitas músicas dele. Ele nunca nos negou uma composição inédita. Nossas posições políticas também eram parecidas

Abel Silva

A música brasileira perde um grande compositor de apelo popular, que dizia ass coisas com muito precisão e coragem. As canções que ele deu para a Bethânia por exemplo vão ficar. Na última vez que o vi, ele disse: ‘tenho saúde, resto a gente tira de letra.”

Nana Caymmi
Tinha um carinho grande pelo compositor e pelo ser humano. Vai ficar faltando um pedaço. À importância da obra dele é enorme. Com o tempo sentiremos falta de sua música. Ele lutava pela pátria. Sempre fui sua amiga e era muito ligada a ex-mulher dele, Ângela.Nossos filhos cresceram juntos. È horrível e inacreditável que isso tenha acontecido.”

Por fim, uma frase do próprio Gonzaguinha:

quarta 11 abril 2012 15:24 , em MPB

A briga de Beth Carvalho com Elis Regina por conta de “Folhas Secas”

“Folhas Secas” é uma das maiores composições de Nelson Cavaquinho, em parceria com Nelson Antônio da Silva e Guilherme de Brito. Está na história do cancioneiro nacional. Trata-se de uma homenagem à Estação Primeira de Mangueira, música cantada num tom nostálgico, em que o eu-lírico, ao pisar em folhas caídas de uma mangueira, se lembra da sua escola, na qual, por inúmeras vezes, subiu o morro cantando…

Em seguida, vem um anúncio de um tempo em que a velhice vem chegando e que o cantor não poderá mais cantar, mas sentirá saudade de seu violão e da sua mocidade, e uma frase que tem um duplo sentido “e assim vou me acabando…”, de cantar? Ou será que tem a ver com o envelhecimento?

O fato é que a canção rendeu muitas polêmicas, e não por conta de sua letra. Sua gravação é que gerou polêmicas. Na verdade, Elis Regina e Beth Carvalho gravaram a música no mesmo ano (1973). A versão de Beth, um samba, com direito a “laraiá” e tudo; a versão de Elis é quase um samba-canção, com uma interpretação mais intimista e com um andamento mais lento.

Três livros contam versões diferentes sobre o tema:

Na biografia de Elis escrita por Arthur de Faria, consta que Elis teria ouvido a canção na fita que Beth Carvalho enviara a César Camargo Mariano e teria “pulado na frente”;

Cumpre ressaltar que César era quem faria os arranjos do disco de Beth Carvalho, mas casaria com Elis naquele ano (1973).

Danilo Casaletti, no livro organizado por Célio Albuquerque (1973 – O ano que reinventou a MPB), conta que César teria mostrado para Elis, ao piano em casa, a canção em que estava trabalhando para o disco de Beth. Elis teria ficado encantada e pediu a música para Nelson Cavaquinho. O compositor, mesmo já tendo prometido a faixa a Beth, foi incapaz de dizer “não” ao pedido – sobretudo pelo fato de que Elis tinha mais destaque, por ser contratada de uma grande gravadora (Philips).

Sérgio Cabral, na Biografia que escreveu sobre Tom Jobim, conta que César Camargo ouvia a fita em casa, com a voz de Nelson Cavaquinho, tentando elaborar o arranjo para o disco de Beth. Elis escutou e não pensou duas vezes: “Que Beth Carvalho, que nada! Este samba vai para o meu disco”.

Mas quem terminou por trazer novas luzes sobre o tema foi Leonardo Bruno, no livro Canto de rainhas – O poder das mulheres que escreveram a história do samba. E quem assumiu a responsabilidade foi Roberto Menescal, compositor e produtor do disco de Elis.

    No epicentro do terremoto estava César Camargo Mariano, amigo que Beth havia convidado para fazer o arranjo do compacto Só quero ver, em 1971, e que chamou novamente para a produção de Canto para um novo dia. Na seleção de repertório para o no LP, Beth escolheu a canção de Nelson Cavaquinho e mostrou a César. O que Beth não sabia era que ele estava namorando Elis Regina. Pouco tempo depois, Beth descobriu que o disco Elis, que seria lançado pela Philips, traria “Folhas secas”. A sambista ficou furiosa. Apressou sua gravação da canção e pediu à Tapecar que colocasse no mercado um compacto simples com o registro, o que foi feito com velocidade razoável.

    Mas as “Folhas secas” de Elis chegaram primeiro as rádios, com formação de jazz (piano-baixo-bateria) e uma percussão suave, numa interpretação mais lenta. As de Beth vieram logo depois, com a instrumentação mais tradicional de samba, abertura com direito a “laralaia”, andamento mais pra frente e acompanhamento do conjunto nosso samba. Ambos os arranjos são de César Camargo Mariano.

    As duas versões fizeram sucesso radiofônico. Mas a que entrou para a história foi mesmo a gravação de Beth Carvalho, até por ter na faixa o violão de Nelson Cavaquinho, em seu estilo peculiar, tocado com apenas dois dedos. O curioso é que Nelson também lançou um disco no mesmo ano de 1973, considerado o melhor de sua carreira, e resolveu incluir “Folhas secas” – que, no fim das contas, teve três registros memoráveis num espaço de poucos meses.

    Mas, afinal, como a música escolhida por Beth foi parar no disco de Elis? Há algumas versões para a história, e um consenso de que a ligação de César Camargo Mariano com Elis foi o caminho para que a fita chegasse aos ouvidos da Pimentinha.

        A versão de Beth Carvalho é que ela adorava o trabalho de César Camargo e achou natural convidá-lo para fazer os arranjos e a regência do novo disco. Escolheu o repertório e mandou para ele numa fita de rolo. Tempos depois, ouviu o boato de que Elis Regina teria gravado “Folhas secas” e telefonou para o músico, que negou. Mas o zum-zum-zum foi aumentando. Nesse meio tempo, encontrou César no trânsito, emparelhados num sinal. Abriu a janela e perguntou: Ô, César, qual é o nome da música do Nelson Cavaquinho que a Elis vai gravar?” Ele disse que não se lembrava. Uma semana depois, uma jornalista prima de Beth, que entrevistara Elis, tirou a dúvida: a Pimentinha havia gravado “Folhas secas”. Elis não me deu nenhuma satisfação por isso. Fiquei muito chateada, nunca mais falei com ela”, contou Beth. O rompimento com César Camargo também durou mais de uma década.

    Beth Carvalho deixou evidente seu desagrado com o episódio quando foi lançar o disco no Sambão, da TV Record, programa apresentado por Elizeth Cardoso, uma das “rivais” de Elis. Ao ser anunciada para cantar “Folhas secas”, Beth entrou no palco, pegou o microfone e, já com a banda dando a introdução da música, aproveitou para dar uma alfinetada: “Antes eu quero dar uma palavrinha. Essa música que eu vou cantar é de um compositor que eu adoro, Nelson Cavaquinho, em parceira com Guilherme de Brito. Mas antes de eu gravar, eu cantei essa música num teatro, e Elizeth Cardoso estava presente. Eu soube que ela adorou a música e queria gravar também. Mas quando ela descobriu que eu ia gravar, ela disse: ´Não, então se a Beth já vai gravar, mais tarde eu gravo; Por isso é que ela é a Divina Elizeth Cardoso! (vídeo abaixo)

    Em entrevista para este livro, Roberto Menescal dá uma nova versão, assumindo a responsabilidade pelo entrevero e de certa forma absolvendo César e Elis. Menescal, autor da primeira música gravada por Beth, “Por quem morreu de amor”, a esta altura era produtor de Elis Regina, e muito amigo do casal Elis-César Camargo. Além disso, atuava como diretor artístico da gravadora. “Eu fiz uma ´baianada` com a Beth. César era casado com a Elis e estava produzindo o LP da Beth Carvalho. Ele fez um arranjo da música ´Folhas secas’, do Nelson Cavaquinho, e me mostrou. Eu disse: Eu vou gravar essa música. O César falou: ´Não, Menescal, eu não posso fazer isso com a Beth. Respondi: ´Fala que fui eu que peguei a música. Fizemos um arranjo pra Elis e estouramos. Beth nunca me falou nada, mas deve ter ficado mordida. César ficou mal com a situação. Elis não sabia de nada. Depois eu mandei um recado pra Beth Carvalho: Beth, me desculpe, mas pelo meu artista eu faço qualquer coisa.’”

    Enfim, Roberto Menescal assumiu a responsabilidade pela polêmica que fez com que Elis e Beth Carvalho jamais se falassem de novo… Paulinho Lima, no seu livro, “Anjo do Bem, Gênio do Mal”, disse ter perguntado a Nelson Cavaquinho qual das gravações ele gostava mais. Ele, de forma relutante, disse: “A de Beth…”

“Como fosse um par, que nessa valsa triste…” A história de Bandolins, de Oswaldo Montenegro

Foi em 1979 que Oswaldo Montenegro gravou “Bandolins”, música sobre uma moça que dança sozinha, como um par…

A música foi inspirada, ao que consta, na cunhada de Zé Alexandre, amigo do cantor, que era uma bailarina que tinha um namorado também bailarino. O casal, contudo, teve que se separar, pois o namorado foi morar na França, e a bailarina, por ser menor, não pôde acompanhá-lo, pois a família da moça não permitiu. Oswaldo diz que, na música, tentou retratar “esta moça dançando sozinha”

A história é retratada por Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano, no segundo volume do livro “A canção no tempo” 

Bandolins” foi um presente de aniversário que Oswaldo Montenegro ofereceu a uma amiga bailarina. A intenção era reanimá-la, pois na ocasião a moça estava inconformada por seu namorado ter viajado para a França, enquanto ela, menor de idade, fora impedida de acompanhá-lo.

Daí o imaginário ‘pas de deux’ narrado na letra, que ela dança sozinha: “Como se fosse um par / que nessa valsa triste se desenvolvesse / ao som dos bandolins / e como não e por que não dizer / (…) / ela valsando só na madrugada / se julgando amada / ao som dos bandolins…”

Oswaldo estava mesmo a ponto de desistir da carreira, quando surgiu a oportunidade de inscrever “Bandolins” no Festival 79 de Música Popular da TV Tupi. Na realidade, ele não se sentia muito esperançoso de um bom resultado. 

Foi nesse estado emocional que Oswaldo pisou o palco do Anhembi, em São Paulo, para mostrar sua valsa, ao lado do amigo José Alexandre. Mas, para sua surpresa, a reação da platéia ao ouvir “Bandolins” foi altamente positiva, tendo a canção conquistado o terceiro lugar e projetado Oswaldo bem mais até do que os dois concorrentes que chegaram à sua frente. Então, além de um compacto inteiro, a Warner deu- lhe o segundo elepê e sua carreira deslanchou.

 (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Oswaldo Montenegro, no vídeo acima, conta:

“Bailarina: ela namorava um bailarino que foi dançar na França e ela não pôde ir, ela perdeu o partner e o namorado ao mesmo tempo, e eu fiz para ela como presente de aniversário. Por isso que a música fala de uma mulher que está se julgando amada e dançando um ‘pas de deux’ quando na verdade ela está sozinha, ela está louca achando que está acompanhada, é o retrato dela… foi um presente para ela….”

Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins

E como não,
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim?
Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins

Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim

E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim

Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim

Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins…

“Não se afobe não, que nada é pra já…”

Somente Chico Buarque conseguiria transformar a palavra “escafandristas” numa poesia. A ideia de se encontrar vestígios daquele amor não vivido nas ruínas submersas da cidade, em que o passado das águas vai resgatar um amor que não morreu, mas que também não foi plenamente vivido.

Esse é o mote da canção “Futuros Amantes”, de Chico Buarque, gravada no disco “Paratodos”, em 1993. Na história de um amor que não é vivido no presente, mas que pode esperar, haja vista sua eternidade. Um amor recôndito, em silêncio…

Na verdade, ele deseja ser vivido, quer ser vivido, mas termina por esperar, em silêncio, escondido,e que deixará um legado nas ruínas da cidade submersa, que ensejarão discussões sobre o significado deste amor, e que inspitrarão futuros amantes, assim como hoje ainda o fazem  Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Lancelote e Guinevere.

O amor que não é vivido preserva o consolo de eternizar-se em amantes do futuro, o amor que ficou guardado.

Chico, falando no DVD Romance, explicou a inspiração da canção… (Publicado no Livro Chico Buarque- História de Canções – Wagner Homem. Leya, p. 271) 

Eu estava mexendo no violão,  comecei a fazer a melodia,  e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa,  isolada de tudo…  Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. E eu tinha que ir atrás depois,  tinha que explicar essa cidade submersa,  tinha que criar uma história.  

Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado,  esse amor que fica pra sempre, né? 

Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas.

Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor.” 

Trata-se, portanto, de um amor incompleto, não realizado – ou, pelo menos, não realizado na sua integralidade – mas que permanece latente. Trata-se quase de um consolo, uma resignação com o fato de que este amor, de alguma forma, ficará preservado e será, de alguma forma, concretizado.

quinta 15 agosto 2013 10:26 , em canções de amor

“Nós não vamos nos dispersar….” Chega de Mágoa – 1985

Muita gente se lembra de “We are the world“, cação de Michael Jackson e Lionel Ritchie, no qual vários artistas americanos gravaram a canção para ajudar as vítimas da fome na África. O exemplo se espraiou pelo mundo, mas aqui no Brasil, em 1985, muitos artistas se reuniram para gravar “Chega de Mágoa”, para arrecadar fundos para os flagelados da seca no Nordeste brasileiro. 

Conta Nelson Motta, na biografia que escreveu sobre Tim Maia (Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia), que a música foi composta por Gilberto Gil, que fez também parte da letra, que teve a participação de Chico Buarque e Milton Nascimento, além de palpites de Djavan, Fagner e Erasmo Carlos. O Brasil se via ali, no baiano Gil, nos cariocas Chico e Erasmo, no alagoano Djavan, no cearense Fagner e no mineiro Milton. No entanto, a obra foi assinada como “criação coletiva”.

Segue a narração de Nelson Motta: 

O Sindicato dos Músicos, que assumiu a coordenação da produção do disco, convocou 155 cantores e instrumentistas para três sessões de gravação em um estúdio na Barra da Tijuca. O maestro Dori Caymmi foi escolhido para escrever o arranjo e reger a orquestra e o coro. Com uma tiragem inicial de 500 mil, o compacto seria vendido em todas as agências da Caixa Econômica, patrocinadora do projeto.

Sem maiores controvérsias, foram escalados Antonio Carlos Jobim, Milton Nascimento, Rita Lee, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, as duplas formadas por Elba Ramalho e Gonzaguinha, Caetano Veloso e Simone, Chico Buarque e Fafá de Belém e Roberto e Erasmo Carlos, com Elizeth Cardoso representando a velha guarda e o duo Paula Toller, do Kid Abelha, e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, a ala jovem. E naturalmente, Tim Maia.

Rascunho da letra

Depois da introdução com o piano soberano de Tom Jobim, Milton começava emocionado, acompanhado por Wagner Tiso, cantando as palavras de Tancredo Neves como herança das esperanças da Nova República:


O disco só podia ser comprado nas agências da Caixa Econômica Federal e teve uma tiragem de 500 mil cópias numeradas. Para adquiri-lo era preciso fazer um depósito do valor de 10 mil cruzeiros (moeda da época)

(MILTON)
Nós não vamos nos dispersar
Juntos é tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão

Seguia-se a voz de Djavan e Rita Lee

(DJAVAN)
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida
(RITA LEE)
Chega
Brinca na fonte
Desce do monte
Vem como amiga

E as 150 vozes famosas atacavam o refrão como uma torcida em um estádio, cada um com seu estilo, no seu ritmo…

(CORO)
Te quero água de beber, um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã

Seguiam-se os solos de Gal Costa e das duplas Elba Ramalho e Gonzaguinha, Chico Buarque e Fafá de Belém, Simone e Caetano Veloso.

(GAL)
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida
(GONZAGUINHA)
Chama,
(ELBA)
Tem que ter feira,
(GONZAGUINHA)
Tem que ter festa,
(GONZAGUINHA E ELBA)
Vamos pra vida
(CHICO)
Te quero terra pra plantar,
(CHICO E FAFÁ)
Te quero verde
(CAETANO)
Te quero casa pra morar,
(CAETANO E SIMONE)
Te quero rede

As jovens vozes de Roger e Paula entravam harmonizadas em terças, e a inconfundível Bethânia entoava:

(PAULA TOLLER E ROGER)
Depois da chuva o sol da manhã

(MARIA BETHÂNIA)
Chega de mágoa,
Chega de tanto penar

Voltava novamente o coro…

(CORO)
Canto, o nosso canto,
Joga no vento
Uma semente, gente
Olha essa gente

Logo depois, chega a “Divina”: Elizeth Cardoso cantando  o refrão e Gil fazendo as respostas. Elizeth, a veterana do grupo, foi quem teve o privilégio de solar em mais de um verso.:

“(ELISETE CARDOSO)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
(GILBERTO GIL)
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
(ELISETE CARDOSO)
Depois da chuva o sol da manhã

Depois do coro, a dupla não podia deixar de ser Roberto e Erasmo Carlos:

(CORO)
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
(CORO)
Gente
(ROBERTO CARLOS)
Quero te ver crescer bonita
(CORO)
Olha essa gente
(ERASMO CARLOS)
Quero te ver crescer feliz
(CORO)
Olha essa gente
(ROBERTO E ERASMO)
Olha essa terra, olha essa gente
(CORO)
Olha essa gente
(ROBERTO CARLOS)
Gente pra ser feliz, feliz

Aí entrava o coro, e o vozeirão do contracanto (que em We are the World ficou com Ray Charles), ficou com Tim Maia, para que Fagner, que ali deixava sua marca, encerrando a canção: 


(CORO COM TIM MAIA)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o sol da manhã
( FAGNER )
Chega de mágoa
Chega de tanto penar.

Nelson Motta ainda conta uma peculiaridade sobre Tim Maia:

Em evento tão coletivo, solidário e politizado, era a única função possível para um anarquista, musical: solto, fazendo o que lhe desse na telha, movido a uísque, brizola e bauretes, que ofereceu generosamente no estúdio. Inclusive à “Divina” Elizeth, que recusou como uma prima-dona:”Tirem esse elefante daqui!”.

Para quem não sabe, “brizola” e “bauretes” eram gírias para maconha.

A lista de todos que participaram do projeto: 

Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles (MPB-4), Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton e Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Leo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Magro (MPB-4), Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho (MPB-4), Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger (Ultraje a Rigor), Rosemary, Rubão, Rui (MPB-4), Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.

Fonte: Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia (Nelson Motta. Ed. Objetiva)

Não prendam Nara Leão!

Dia 27 de maio de 1966 Carlos Drummond de Andrade publicou um poema contra um suposto desejo dos militares de que Nara Leão fosse presa depois de uma entrevista que ela deu na imprensa.

No dia 22 de maio de 1966, foi publicada uma entrevista da cantora, em que o título da matéria já falava por si. “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”. Não por coincidência, no mesmo dia, o mesmo jornal ostentava uma manchete do futuro presidente, o General Costa e Silva. “Costa e Silva: governarei com o povo”

Embora a manchete não correspondesse exatamente àquilo que Nara tivera dito na entrevista, ela já seria suficiente para causar estardalhaço: disse que os militares poderiam entender de canhões e metralhadoras, mas não de política; disse que o mundo seria melhor se não existisse exército; que numa guerra moderna, o Exército brasileiro não serviria para nada; e que um país desigual como o Brasil teria outras prioridades, como escolas e hospitais.

Segundo Tom Cardoso, na biografia que escreveu sobre Nara (Ninguém Pode com Nara Leão – ed. Planeta, 2021), o mudo teria caído sobre Nara. Os jornais teriam repercutido a notícia, e o pai da cantora, o advogado Jairo Leão, teria sido intimado a comparecer no Palácio Duque e Caxias, onde ficava o Ministério da Guerra. No entanto, ele teria dito a Mario andreazza, chefe de gabinete de Costa e Silva:

– Minha filha é maior de idade e livre para dizer o que pensa

Não foi convencido, portanto, a fazer Nara desmentir o que dissera ao Jornal.

No entanto, já circulava na imprensa boatos de que o governo pretendia enquadrar Nara leão na Lei de Segurança Nacional e que ela poderia ser presa. Havia pressão da linha mais dura do Exército no sentido de que a suposta afronta não ficasse impune.

Segundo a biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral (Lazuli, 2000), o serviço secreto do Ministério da Guerra, temendo a repercussão da entrevista, sugeriu três alternativas a Costa e Silva, Ministro da guerra e futuro presidente do Brasil:

a) o próprio exército responder ao artigo, “focalizando a atuação do exército na conjuntura do país”

b) responder indiretamente, por meio de artigo em que se focalizasse a atuação do exército “através de articulista identificado com a revolução”

c)verificar os antecedentes de Nara Leão e difundir na imprensa.

Havia, no entanto, rumores de que setores mais rigorosos do exército recomendariam a prisão imediata de Nara Leão.

O Jornal do Brasil ,em editorial, afirmou que nara teria sido vítima “da extravagância de um repórter”

Ibrahim Sued, conhecido colunista da época, insinuou que Nara estaria sendo “joguete da esquerda festiva”, estaria fazendo declarações que seus “mentores não teriam coragem de fazer”. E ainda afirnou que ela “como talento não era lá grande coisa”.

Do outro lado, diversos artistas prestaram solidariedade a Nara, como Edu Lobo, Fernanda Montenegro, Mario Lago, Ferreira Goulart, Tonia Carrero, Flavio Rangel, João do Vale e Odete Lara. Foi feito um abaixo-assinado contra a prisão de Nara, com assinaturas de mais de 150 artistas.

Além disso, teve manifestações públicas favoráveis na imprensa de Rubem Braga, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, entre tantos outros.

Moacyr Werneck de Castro mandou um blilhete a Nara: “Você é uma menina de atitudes claras. Deus a conserve assim. Você tem uma visão geral das coisas e por isso sua aceitação pelo público não está na dependencia dos caprichos moda. O Brasil precisa de você, que não é boneca de microfone, mas pensa nos problemas da arte”

No entanto, o mais conhecido manifesto contra a prisão de Nara Leão veio de ninguém mais, ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. O poeta publicou um poema no Correio da Manhã, no dia 27 de maio de 66:


  APELO
(excerto)

“Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (…)

A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?

Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?

Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (…)

Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?

Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?

E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (…)

Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.

Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.”

Carlos Drummond de Andrade

Depois de tanta manifestação, o governo recuou. Mem de Sá, Ministro da Justiça, disse que não enquadraria Nara na Lei de Segurança Nacional, embora considerasse seus comentários “atrevidos” e o seus conceitos “injustos”

Nara não se fez de rogada Na biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral, consta que Nara consultou Ferreira Goulart e recebeu desta a recomendação de não fazer novas declarações contra os militares. Disse que estava exausta e não tinha vocação para Joana D’arc. Disse que tudo aquilo valeu a pena pela inspiração a um de seus poetas preferidos.

Deus, o Diabo, o carnaval e a censura

Em 1973, a censura fazia parta do cotidiano dos artistas brasileiros. Depois do AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, institucionalizou a censura, vetando, mutilando e reprimindo qualquer manifestação que pudesse ser interpretada como sendo nociva ao Regime.

Mas se engana quem pensa que a censura se limitava a questões político-partidárias. Havia censura por questões morais, por questçoes de “bom gosto” ou até mesmo por ignorância, pura e simples.

Uma das canções que pode ilustrar como a atuação da censura no Brasil, para além do alinhamento com a ditadura militar, beirava o moralismo ou mesmo a paranoia é a marcha carnavalesca, “Deus e o Diabo”, de Caetano Veloso, composta em 1973, mas somente gravada em 1977.

A música é uma ode ao carnaval. Uma marcha simples, que alude ao carnaval como antítese do medo e do pavor, e que se manifesta nas ruas do Rio e da Bahia.

Você, tenha ou não tenha medo

Nego, nega, o carnaval chegou

Mais cedo ou mais tarde acabo

De cabo a rabo com essa transação de pavor

O carnaval é invenção do diabo

Que Deus abençoou

Deus e o diabo no Rio de Janeiro

Cidade de São Salvador

Não se grile

A rua Chile sempre chega pra quem quer

Qual é! qual é! qual é!

Qual é! qual é!…

Quem pode, pode

Quem não pode vira bode

Foge pra Praça da Sé

Cidades maravilhosas

Cheias de encantos mil

Cidades maravilhosas

Os pulmões [bofes] do meu Brasil

No entanto, a música incomodou a censura No livro “Mordaça: Histórias de Música e censura em tempos autoritários” (João Pimentel e Zé McGill. Sobnora, 2021), narra-se um pouco do episódio:

Voltando ao tempo das vacas gordas da censura, em 1973, a marchinha “Deus e o Diabo” foi outra composição de Caetano a gerar atrito com os censores, que muitas vezes se colocavam na condição de educadores, tutores da sociedade – como se esta fosse uma criança indefesa que precisa ser protegida da realidade. A música foi vedada e, no verso do documento oficial com o parecer do censor, há a seguinte justificativa:

  1. Conteúdo desrespeitoso à imagem da pátria (por conta do verso ´Dos bofes do meu Brasil`);
  2. Figura semântica insurrecional (´A Rua Chile sempre chega pra quem quer`);
  3. Possível distorção da pronúncia em ´Quem pode, pode.”

Além da justificativa, estão marcados com um X os versos “Dos bofes do meu Brasil”, “A rua Chile sempre chega pra quem quer” e “O carnaval é a invenção do Diabo que Deus abençoou”.

Neste último caso, não é difícil supor que o verso tenha se tornado antipático aos censores por motivos de religião. Já no verso da rua Chile, a suposta “figura semântica insurrecional” estaria ligada ao fato de que a ditadura de Pinochet havia se instalado no Chile no mesmo ano de 73. Por tanto, o censor julgava que aquela seria uma metáfora em alusão à insurreição contra a ditadura chilena. Quanto à “possível distorção da pronúncia” em Quem pode, pode”, podemos presumir que havia um receio de que, na gravação, Caetano contasse o verso no passado, mudando a conjugação do verbo de “pôde”, ou, quem sabe, trocando a letra p pela letra f…

Nota-se, também os grifos aos versos “mais cedo ou mais tarde acabo com essa transação de pavor”, o que pode ser uma alusão ao fim da ditadura militar.

Manchete de O Globo, 21/12/73

Voltando ao Livro de João Pimentel e ZÉ McGill:

Conversando sobre a censura a “Deus e o Diabo”, Caetano se lembra do contratempo com a palavra “bofes”, mas não com os outros versos: “Eles falaram que não poderia ficar o verso Os bofes do meu Brasil; e eu disse:Mas bofe quer dizer pulmão. Eu estou dizendo que são os pulmões do Brasil.Eles achavam que “bofe” era uma palavra chula. As atrizes de teatro rebolado chamavam os homens, os caras que elas pegavam, de bofes e as bichas adotaram essa gíria das vedetes. Eu botei Os bofes do meu Brasil’ na letra, que tem um ar de conversa de bicha, mas, ao mesmo tempo, era porque eu estava dizendo: Rio de Janeiro/Cidade de São Salvador/ os pulmões do meu Brasil. Então, eu falei: Se vocês estão grilados com a palavrabofes, eu boto pulmões’ mesmo... E tem uma vantagem: do ponto de vista da prosódia, pulmões’ fica até melhor, porquebofestem um defeito de prosódia. Sobre os outros versos nunca me disseram nada. Pode ser que eles tivessem essas questões lá entre eles, mas nunca chegarem até mim. Só chegou o bofe. Eu mudei pra pulmões’ e a música foi liberada. Agora, ´O carnaval é invenção do Diabo que Deus abençoou` é uma coisa subversiva para o lado católico que eles tinham, mas não me pediram pra mudar isso, não.”    

Ainda assim, segundo reportagem do Globo, de 30/12/73, ainda assim a expressão “pulmões” foi desaconselhada, porque eventualmente ela poderia ser substituída pelo populares por algum terno chulo… O censor certamente desconhece Salvador e a Rua Chile, umas das ruas famosas do circuito do carnaval baiano, sobretudo nos anos 70. O censor, todavia, pensava referir-se à situação política do Chile, quando o General Pinochet instituiu uma ditadura após a deposição de Salvador Allende, em detembro de 1973.

Mas a música acabou liberada com a substituição de “bofes” por “pulmões”, e foi gravada no álbum “Muitos carnavais”, em 1977

Revista Amiga 15/01/1974

20 canções que falam de Salvador

Dizem que nenhuma cidade foi tão cantada quanto a Cidade do Salvador, da Bahia de Todos os Santos, primeira capital do Brasil. Fundada em 29 de março de 1549, onde já habitavam os índios Tupinambás, Salvador, muitas vezes também chamada de “Cidade da Bahia” pode ser descrita por suas inúmeras canções.

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Há autores, inclusive, que cantam a Bahia em muitas canções (talvez Caymmi seja o maior exemplo); outros cantam a Bahia sem mesmo serem baianos (como o mineiro Ary Barroso), o fato é que as canções sobre Salvador fazem a cidade entrar no imaginário coletivo, em cada pedacinho de letra, em cada nota de canção.

Não é por acaso que Salvador é uma cidade essencialmente musical. Como diz Carlinhos Brown, num jingle que fez para a prefeitura de Salvador:

Cidade miscigenada / Arrodeada de água / De alma boa e batucada / Felicidade aqui não custa nada / Uma cidade é seu povo / E o povo somos nós / Pra ela todos cantam juntos em uma só voz / Nasci aqui e aqui / Não canso de viver/ Somos movidos pela força do dendê / E de você / Felicidade Salvador / Não custa nada / A cidade mais feliz do mundo voltou a sorrir

Assim, segue uma lista de 20 canções que cantam a Bahia e que atravessam o tempo:

  1. São Salvador – Dorival Caymmi

São São Salvador, Bahia de São Salvador/ A terra de Nosso Senhor/ Pedaço de terra que é meu / São Salvador, Bahia de São Salvador/A terra do branco mulato/ A terra do preto doutor

São tantas músicas de Caymmi sobre a Bahia. Mas, para escolher uma, vale aquela simples e genial:

2. Na Baixa do Sapateiro – Ary Barroso

Oi, Bahia, ai, ai/Bahia que não me sai do pensamento, ai, ai

Ary Barroso cantou muito a Bahia. De tantas canções, talvez a mais emblemática seja aquela em que o amor pela Bahia se confunde com o amor da morena “frajola” que foi encontrada na Baixa dos Sapateiros

3. Bahia com H – Denis Brean

E já disse um poeta/Que terra mais linda não há/Isso é velho e do tempo/Em que já se escrevia Bahia com H!

Augusto Duarte Ribeiro, paulista de Campinas, escreveu em 1955 um samba que se tornou imortal na voz de João Gilberto. Bahia com H

4. Eu vim da Bahia – Gilberto Gil

Eu vim da Bahia cantar/Eu vim da Bahia contar/Tanta coisa bonita que tem/Na Bahia, que é meu lugar

Gilberto Gil, faz uma canção saudosa sobre a Bahia, da festa de rua, do samba de roda, do mar…

5. Você já foi à Bahia – Dorival Caymmi

Nas sacadas dos sobrados/Da velha São Salvador/Há lembranças de donzelas/Do tempo do Imperador/Tudo, tudo na Bahia/Faz a gente querer bem/A Bahia tem um jeito/Que nenhuma terra tem!

Salvador durante muito tempo era chamada de Cidade da Bahia. Esta música de Caymmi virou um clássico, cuja letra Caetano pegou um pedaço para incluir na canção “Terra”

6. Retrato da Bahia – Riachão

Quem chega na praça Cayru/E olha pra cima, o que é que vê?/Vê o Elevador Lacerda/
Que vive a subir e a descer

Um clássico de Riachão, que começa com a Praça Cayru, talvez a imagem mais icônica da cidade…

7. Salvador é um Porto Seguro – Moraes Moreira

É um porto, é um porto sete portas/Sempre abertas pra magia/De todos os santos/
Que vem baixar na Bahia

Moraes Moreira compôs uma ode à Salvador, dizendo ser um Porto Seguro de portas abertas… bela gravação com participação de Gilberto Gil,

8. A Bahia te espera – Chianca de Garcia/Herivelto Martins

A Bahia da magia, dos feitiços e da fé/Bahia que tem tanta igreja, que tem tanto candomblé

Composição do português Chianca de Garcia e fluminense Herivelto Martins, destaca tanto o sincretismo quanto os saveiros… Tornou-se imortal na voz de Dalva de Oliveira

9. É D’Oxum – Gerônimo

Nessa cidade todo mundo é d’Oxum/Homem, menino, menina, mulher/Toda essa gente irradia magia

Um clássico instantâneo. a canção de Gerônimo se tornou atemporal e sempre citada como um dos hinos da cidade

10. Chame GenteMoraes Moreira, Armandinho

Ah! Imagina só que loucura essa mistura/Alegria, alegria é um estado que chamamos Bahia

Certamente o hino do carnaval da Bahia, o sagrado e o profano, a mistura, todos os santos, encantos e Axé….

11. We are the world of carnavalNizan Guanaes

Ah! Que bom você chegou/Bem-vindo a Salvador/Coração do Brasil

Em 1988, a Ótica Ernesto fez uma campanha institucional que reuniu artistas e personalidades baianas de destaque da época. O clipe teve a participação de muitos artistas baianos. Virou um clássico

12. Raiz de Todo Bem – Saulo Fernandes

Salvador, Bahia/Território africano/Baiano sou eu, é você, somos nós/Uma voz de tambor

A canção de Saulo, do ano de 2013, transformou-se numa obrigatória referência de música sobre a cidade. Ressalta as raízes africanas e o locus nordestino de Salvador, cheio de imagens e referências próprias da baianidade

13. Duas Cidades – Russo Passapusso – Baiana System

Diz em que cidade que você se encaixa/Cidade Alta/Cidade Baixa

Os contrastes entre as duas cidades de Salvador, e o que elas significam. falar em Cidade Alta e Baixa quer falar das muitas divisões e segregações que ocorrem na Cidade da bahia

14. Bahia, Minha Preta – Caetano Veloso

Ê ô, Bahia, fonte mítica, encantada/Ê ô, expande o teu axé, não esconde nada/Ê ô, eu grito de alegria ecoa longe, tempo e espaço/Ê ô, Rainha do Atlântico

Feita por Caetano para Gal Gravar, Caetano homenageia muitos que personificam a Bahia, e ao Chamar de Bahia, Minha Preta, fala tanto das raízes africanas da Bahia quanto uma forma carinhosa de se chamar alguém em Salvador

15. Rebentão – Carlos Pita

Moro numa cidade cheia de ritmos/Que sobe e que desce ao som da maré

A música de Carlos Pita exalta o povo de Salvador, uma cidade cheia de ritmos, que “faz samba na porta do ônibus” e que “dança com a lata na cabeça”

16. Cidade Voa – Carlinhos Brown

Minha cidade é linda de ver/Seja bem-vindo ao nosso QG/São Salvador nasceu pra você

Canção feita por Carlinhos Brown para comemorar o aniversário de 450 anos de Salvador, em 1999. Música alegrem, que ressalta a felicidade de estar em salvador

17. Igual a Salvador Não HáLuiz Caldas

Pode procurar que um lugar igual em Salvador no mundo não há

Luiz Caldas destaca o caráter único, de raiz e de felicidade da Cidade de Salvador…

18. Solvador Bahia de Caymmi – Tom Zé

Aqui em Solvador Bahia tudo/capitalista ou vagabundo/tênis, gravata ou cabelo branco/todo mundo tem um santo

Tom Zé faz um ensaio sobre a cidade da Bahia, de Caymmi e da usura, a quem chama de “Solvador”

19. Vu – Saulo Fernandes

Todo mundo igual, todos de tambor/Todo mundo junto Rubro negro – Tricolor/So-te-ro-po-li-ta-no, Salvador!

Saulo faz um passeio pela cidade de Salvador, seus bairros e gírias…

20 . Cidade Elétrica – Jorge Zarath e Manno Goes

Chuveiro de água benta pra lavagem de escada/Alma lavada de fé/Um choque de alegria/Na força da fantasia/Axé, axé, axé

A música de Jorge Zarath e Manno Goes ressalta uma série de imagens e conexões de uma cidade elétrica…

Parabéns, Salvador!!!!!