Vira Virou… A história de um fado brasileiro

Kleiton Ramil, o irmão mais velho da dupla Kleiton e Kledir, tem uma composição que é, ao mesmo tempo uma homenagem a Portugal, à liberdade e à mulher portuguesa.

 

Talvez seja efetivamente um dos mais belos fados brasileiros, e representa uma inegável e bela conexão com Lisboa.

A canção, escrita no final da década de 80 tem uma bela história, contada por Kleiton a Ruy Godinho, no voilume 3 de seu livro “Então, foi assim?”

 

A Almôndegas, a minha primeira banda, tinha acabado em 1978, 79. Eu namorava uma menina que havia viajado para a Europa e me convidou pra ir junto, já que os pais dela moravam lá. Não lembro bem como é que foi, mas o namoro acabou e eu fui viajar sozinho. Fiquei uns dois meses e pouco viajando com um violão a tiracolo. Foi muito enriquecedor, eu nunca tinha ido à Europa. No meu retorno, o último País que passei foi Portugal. Lá, conheci uma cantora, que não era profissional ainda. Ela tinha uma voz muito bonita e eu fiquei falando: “Ah! Por que você não canta, não faz alguma coisa com música”? Quando voltei pro Brasil, ela me pediu pra compor uma canção”, relata.

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“Então, Vira virou foi feita para essa cantora que era muito novinha, devia ter uns vinte e poucos anos. Mas a música – isso que eu acho mais interessante – fala de Lisboa, fala do passaredo, que eu realmente vi enquanto tomava uma cervejinha, vendo os pássaros voando, muito bonito. A música, na sua essência representa não só a história de Lisboa. Eu escrevi falando de Lisboa porque era uma cantora portuguesa e eu achava interessante o argumento. Mas o conteúdo emocional, fala de uma paixão pela Europa. Até porque meu avô era espanhol e eu fiquei maravilhado.

A música tem uma força particular porque essa viagem me deixou magnetizado com algo muito bonito que eu não sei explicar com palavras. É como se a minha aura tivesse triplicado nessa viagem. Eu fiquei muito feliz, o meu coração estava cheio de felicidade”, regozija-se.

 

E agora a história interior, que segundo Kleiton é a parte musical.

“Eu a compus em Porto Alegre, em 1979. Lembro que estava desenvolvendo um encadeamento de acordes onde uma nota era mantida fixa para passar pro acorde seguinte, ou seja, coisas que eu estava experimentando há muito tempo em composição e funcionou com perfeição. Depois de muitos anos tentando, chegou. E a outra coisa interessante é que eu criei a melodia e a harmonia juntas. A melodia começava num acorde e penetrava de forma dissonante no acorde seguinte. Os músicos entendem isso com facilidade. Eram notas que se eu fosse usar de uma maneira simples, podia não funcionar bem. Mas como eram notas de passagem, o final de uma frase melódica entrava no acorde seguinte. 

 

Então, quando escrevi: Quero ver o passaredo/ pelos portos Lisboa/ voa,voa, que eu chego já a rima não está no final, está no meio da frase. Eu fiquei muito atento a isso na letra inteira”, explica.

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Numa interpretação mais apurada, Kleiton nos reserva outras abordagens sobre a criação desta música.

 

“E tem também, além dessa questão técnica, uma questão mais espiritual. Eu sempre fui uma pessoa, até certa idade, bastante… não digo pessimista, mas muito fechada, muito pesada. E eu lutava contra isso. Quando criei a letra de Vira virou me coloquei o compromisso de não escrever a palavra “não”, nem escrever palavras negativas: “nunca”, “jamais”. Eu me policiava pra não escrever. Então a música tem todos os elementos. Por isso que eu tenho o maior carinho por essa canção, Eu percebi que ali eu atingi uma maturidade como compositor. O que seria um presente pra uma cantora de Lisboa, voltou pra mim como um dos maiores presentes na minha vida”, conta emocionado.

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Mas não é só. Assim como Chico Buarque compôs “Tanto Mar”, mais explicitamente dedicada à revolução dos Cravos, em 1974, há esse componente também em “Vira Virou”. Numa entrevista ao Portal Lusa, Kleiton afirmou:  

“Quando falo a frase ‘Levo terra nova daqui’, significa em parte que estamos juntos nessa luta de renovação. Aprendemos com Portugal e desejamos que nossas experiências positivas, as lutas no Brasil, também tenham reflexos”, 

Ramil revelou que escreveu a canção após conhecer Lisboa, em 1979.

“Para um brasileiro, pisar pela primeira vez em terras lusitanas é, no mínimo, mágico” e “senti a necessidade de criar algo que eternizasse essa experiência que mudou a minha vida. A canção está ancorada no amor declarado a Lisboa, mas foi elevada acima disso, como símbolo de amor à liberdade”.

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Por fim, a inspiração. A cantora que pediu a música foi Eugenia Melo e Castro, portuguesa que já tem mais de 35 anos de carreira….

E foi na voz do MPB4 que “Vira Virou” se tornou sucesso

 

Artigo publicado no portal da Lusa(link is external) dedicado aos 40 anos do 25 de Abril.

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Beware of Young Girls. De Dory Previn para Mia Farrow. Uma não-homenagem

 

Dory Previn não é exatamente uma cantora muito conhecida. Nascida em 1925, Dory casou-se em 1959 com André Previn, fazendo com ele uma parceria de sucesso. Eles compuseram para os filmes de Hollywood diversas canções, chegando, inclusive, a ganhar duas indicações ao Oscar de Melhor Canção Original.

Ocorre que um episódio da sua vida acabou sendo inspiração para sua música mais conhecida, gravada em 1970: Beware of Young Girls, uma espécie de desabafo e aviso.

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A canção teve como inspiração a atriz Mia Farrow. Conforme relatam Frank Hopkinson e  Michael Heatley, no livro “Músicas & Musas – A verdadeira história por trás de 50 clássicos pop“, no ano de 1968 André Previn, marido de Dory, passou a ser regente da Orquestra Sinfônica de Londres. Nessa época, ele começou a ter um affair  com Mia Farrow, que tinha 23 anos (Dory tinha 43 em 1968). Mia era ex-mulher de Frank Sinatra.

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Mia Farrow

Mia engravidou de Andre Previn, e a descoberta da gravidez por Dory, no início de 1969, levou ao fim do seu casamento com André. Como consequência, Dory teve um sério colapso, a ponto de ter sido internada e recebido  terapia eletroconvulsiva.

Quando se recuperou do trauma e voltou a trabalhar, Dory descobriu que suas composições estavam contribuindo para sua terapia e se tornando mais introspectivas. Um dos primeiros produtos de sua autoanálise foi “Beware of Young Girls”, de 1970. O arranjo musical e a letra possuem uma leveza de toque através do qual jorra seu mais amargo sentimento de traição“.

 

Quem presta atenção na letra percebe a amargura explícita de Dory, que se viu traída pelo marido, que engravidara uma mulher 20 anos mais jovem. A letra narra Mia como uma mulher traiçoeira, que se aproveita da confiança e da amizade de Dory para usurpar-lhe o marido. Em diversas passagens, as advertências:

Cuidado com as jovens que chegam à sua porta melancólicas e pálidas, com 24 anos trazendo margaridas com suas mãos delicadas

Muitas vezes elas anseiam para chorar num casamento e dançar em um túmulo

Quando ela olhou  minha cama desfeita, ela admirava minha cama desfeita

As referências a como Mia Farrow entrou na sua casa, como ela foi “amiga” de Dory, à dor que sentiu e ao vaticínio de que um dia, essa jovem de 24 anos iria deixar o seu amado estão impregnadas na canção.

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O fato é que André Previn e  Mia Farrow acabaram casando-se, tiveram  seis filhos, entre naturais e adotivos, e mantiveram boas relações depois que se divorciaram em 1979. Em 1980, Farrow começou a sair com o diretor de cinema Woody Allen, apenas nove anos mais velho que ela.

Ironicamente, o casamento de Mia Farrow com Woody Allen desmoronou publicamente em 1992, quando Farrow descobriu que Allen tinha um caso com Soon-Yi Previn, uma das filhas adotivas dela e de André, 35 anos mais jovem que Allen.

“Em 1997, Woody e Soon-Yi se casaram. Mia se recusou a voltar a ver Soon-Yi, e naquele mesmo ano publicou uma autobiografia na qual, com muito atraso, pediu desculpas a Dory. Dory voltou a trabalhar com André em 1997, a primeira vez desde 1967, em uma peça de 17 minutos para orquestra e soprano intitulada The Magic Number.”

Ela parecia, afinal, estar em paz consigo mesma. “O mundo vasculhou a minha vida, – conhece todos os meus segredos. Estou aqui para isso.”

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E, como tinha feito as pazes com Mia, foi indagada em 2008 se a traidora tinha escutado “Beware of Young Girls”. “Com o ego que tem? É claro que sim. Provavelmente emoldurou o disco e pendurou no banheiro!”

Uma canção muito triste, confessional, e várias histórias tristes que a seguiram… Dory Previn morreu em 15 de fevereiro de 2012.

A letra:

Beware
Of young girls
Who come to the door
Wistful and pale
Of twenty and four
Delivering daisies
With delicate hands

Beware
Of young girls
Too often they crave
To cry
At a wedding
And dance
On a grave

She was my friend
My friend
My friend
She was invited to my house
Oh yes
She was
And though she knew
My love was true
And
No ordinary thing
She admired
My wedding ring
She admired
My wedding ring

She was my friend
My friend
My friend
She sent us little silver gifts
Oh yes
She did
Oh what a rare
And happy pair
She
Inevitably said
As she glanced
At my unmade bed
She admired
My unmade bed
My bed

Beware
Of young girls
Who come to the door
Wistful and pale
Of twenty and four
Delivering daisies
With delicate hands
Beware
Of young girls
To often they crave
To cry
At a wedding
And dance
On a grave
She was my friend
My friend
My friend
I thought her motives were sincere
Oh yes
I did
Ah but this lass
It came to pass
Had
A dark and different plan
She admired
My own sweet man
She admired
My own sweet man

We were friends
Oh yes
We were
And she just took him from my life
Oh yes
She did
So young and vain
She brought me pain
But
I’m wise enough to say
She will leave him
One thoughtless day
She’ll just leave him
And go away
Oh yes

Beware
Of young girls
Who come to the door
Wistful and pale
Of twenty and four
Delivering daisies
With delicate hands

Beware
Of young girls
To often they crave
To cry
At a wedding
And dance
On a grave

Beware of young girls
Beware of young girls
Beware

Dory PrevinMia Farrow

segunda 25 junho 2012 02:30 , em Mulheres e suas canções

Gilberto Gil cantando Marighella?

 

Quem assistiu o filme “O que é isso, Companheiro” (dirigido por Bruno barreto inspirado na obra homônima de Fernando Gabeira),  percebe, numa cena perto do final do filme, a personagem interpretada por Fernanda Torres dizer que Gilberto Gil, numa determinada canção, gritaria o nome “Marighella”… para em seguida dizer que, para que fosse ouvido o nome corretamente, teria que ser ouvido ao contrário.

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Fiquei curioso e fui atrás da famosa canção. Em inúmeros sítios digitais e blçogs, encontrei a alegada resposta: o Grito estava na canção Alfômega, que consta de um disco gravado por caetano em 1969 (o LP tem a capa branca com a assinatura de Caetano. Foi gravado pouco depois que saíram da prisão).

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No meio da canção, Gil faz algumas onomatopeias vocais, e vi muita gente jurar que Gilberto Gil gritava nitidamente o nome “Marighella”. E, para quem não sabe, Marighella foi um dos principais personagens da luta armada contra a ditadura militar no Brasil, morto pela ditadura em novembro de 1969.

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Marighella

No livro “O que é isso, companheiro”, Gabeira relatou, após o sequestro do embaixador americano, sua mania de ouvir discos bem baixinho, quando estava escondido, na clandestinidade, para não incomodar os vizinhos:

“…Num deles, Gil gritava Marighella. No princípio foi interessante reconhecer aquele nome, mais ou menos gritado às pressas, propositalmente, não articulado. Depois era fácil acompanhar a música que, dentro de alguns segundos, ia dizer Marighella. Finalmente, era insuportável ouvir aquele grito de Marighella, repetido mil vezes, ao longo daqueles dias. Sobretudo porque num deles a televisão anunciava a morte de Marighella, assassinado em São Paulo. A morte de Marighella foi a resposta que o governo deu ao sequestro do Embaixador americano...” 

Ouvindo atentamente a canção, parece que, em certa altura, Gil, canta algo que parece ser assim: “iê, ma-ma-mar-guella!”  Veja no minuto 1:31 do vídeo abaixo 

Só que recentemente, Gilberto Gil, no documentário: “Canções do exílio: a labareda que lambeu tudo”, (que conta a trajetória de Gil, Caetano, Jorge Mautner e Jards Macalé sobre as prisões que sucederam ao AI-5, no fim de 68), desmente que tenha gritado o nome de Marighella na canção:

“Dizem, as pessoas, muita gente diz que ouvia num trecho de uma das músicas daquele disco que eu fiz quando saí do Brasil, que eles ouviam o grito do Marighella, coisa que eu nunca fiz. Eu insistentemente ouvia pra ver e eu não achava nem parecido com alguém gritando Marighellla. E na verdade o que acontecia ali eram aqueles gritos normais que eu dou até hoje no meio das minhas músicas, uma daquelas onomatopeias típicas do meu modo de me exprimir musicalmente. Mas nunca, nunca fiz menção ao Marighella, até porque eu tenho impressão que era muito destemor, seria muito destemor da minha parte, naquele momento, diante daquela situação toda fazer esse tipo de coisa.  É um mito, é uma lenda…” 

 

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Está aí a canção. Reparem nos vocais de Gil. Está no minuto 1:30 do video aqui postado.  Conseguem perceber? Ou será que é apenas uma lenda?

domingo 12 fevereiro 2012 02:10 , em As lendas

Rede Globo e as 30 músicas do século XX

 

No ano 2000, na virada do século, a Rede Globo promoveu um especial para escolher as mais importantes músicas do Século XX, no especial “100 anos de música”. Eu assistia o programa com minha irmã, e tentava adivinhar as músicas que seriam escolhidas. Não era uma escolha pelas melhores músicas, mas sim daquelas que tiveram uma significativa importância musical.

Eu tinha certeza que “Aquarela do Brasil” ganharia, sabia que lá estaria “Chega de Saudade”, “Carinhoso” e “Asa Branca”. Imaginava “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo. Apesar de entender a importância de Tom Jobim, achei em certa medida exagerada a inclusão de 8 músicas suas entre as 30 (que, na verdade, são 31).

Senti a ausência de referências a músicas tropicalistas, parece que não houve Rock no Brasil no século XX (talvez Secos e Molhados, Rita Lee ou Raul Seixas, pelo menos um deles mereceria uma referência, ou, para o fim do século, Renato Russo ou Cazuza).

Não acho que Sampa seja a mais importante de Caetano, nem  O que será  a mais importante de Chico (embora estivesse também presente Retrato em branco e preto, em parceria com Tom Jobim). Novos Baianos, Nação Zumbi, Assis Valente, todos mereceriam menções honrosas. Mas toda lista desse estilo é polêmica.

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São 8 músicas de Tom Jobim, 4 de Vinícius de Moraes; 2 de Chico Buarque, Ary Barroso, Noel Rosa, Vadico e Dorival Caymmi. Os demais têm uma música. A lista:

Campeã: Aquarela do Brasil

1: “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro)
2: “Garota de Ipanema” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
3: “Asa branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
4: “Águas de março” (Antônio Carlos Jobim)
5: “Chega de saudade” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
6: “As rosas não falam” (Cartola)
7: “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant)
8: “Desafinado” (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça)
9: “Eu sei que vou te amar” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
10: “Chão de estrelas” (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas)
11: “Se todos fossem iguais a você” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
12: “Luar do sertão” (Catulo da Paixão Cearense)
13: “Samba do avião” (Antônio Carlos Jobim)
14: “Brasileirinho” (Waldir Azevedo)
15: “Retrato em branco e preto” (Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque)
16: “O que será” (Chico Buarque de Holanda)
17: “Saudade da Bahia” (Dorival Caymmi)
18: “Manhã de carnaval (Luiz Bonfá e Antônio Maria)
19: “No rancho fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo)
20: “O bêbado e o equilibrista” (João Bôsco e Aldir Blanc)
21: “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu)
22: “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico)
23: “Feitiço de oração” (Noel Rosa e Vadico)
24: “Marina” (Dorival Caymmi)
25: “A noite do meu bem” (Dolores Duran)
26: “Foi um rio que passou em minha vida” (Paulinho da Viola)
27: “Aquele abraço” (Gilberto Gil)
28: “Sampa” (Caetano Veloso)
29: “Detalhes” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
30: “Meu bem querer” (Djavan)

 

Fontes http://redeglobo.globo.com/videos/t/variedades/v/especial-100-anos-de-musica-escolheu-a-maior-cancao-brasileira-do-seculo-xx/3860555/

 

O inusitado encontro de João Gilberto e Elza Soares, na narratiiva de Ronaldo Bôscoli

 

Recentemente, li o livro “Eles e Eu”, que conta as memórias de Ronaldo Bôscoli. Para quem não sabe, Ronaldo Bôscoli foi um dos principais corifeus da Bossa Nova, compositor, produtor, namorou Nara Leão, Maysa, foi casado com Elis Regina e tem muita história para contar.

Uma delas diz respeito a João Gilberto. João, no final da década de 50 e começo de 60, era o verdadeiro guru da bossa nova, ritmo que criou com sua inigualável batida de violão. Bôscoli (que João chamava de “Ronga”), então, conta no livro o quanto João é persuasivo, inclusive, como ele usou o suéter de Bôscoli na foto do famoso álbum “Chega de saudade”.

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Uma das histórias bem divertidas, contadas por Bôscoli, foi quando João Gilberto pediu a ele para intermediar um encontro com Elza Soares, pelo telefone, num trem do Rio Para São Paulo. Transcrevo aqui um pequeno trecho, na narrativa de Bôscoli:

Fomos a São Paulo, para um programa do Tom, chamado o Bom Tom, na TV Tupi, nós três – Tom, João e eu. Fomos de trem porque o Tom tinha pavor de avião. Fizemos até uma música bem bonita, que depois se perdeu. Tom estava de olho na Elza Soares, uma mulata boa paca. Foi o que bastou para João entrar na disputa. Estávamos no mesmo quarto de hotel e João chegou pra mim:

– Ronaldo, você conhece a Elza Soares?
– Conheço. Por quê?
– Eu tinha vontade de ficar com ela.
– Tudo bem. Te dou o telefone, te ponho em contato com ela.
– Não, rapaz. Não sou carioca, sou burrão, sou tímido. Não sei falar com as pessoas. Não sei cantar ninguém, só música.
– O que você quer, então?
– Quero que você cante ela pra mim.
-Mas João, vai pegar mal…

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Não houve jeito. O João me convenceu a cantar a Elza Soares pra ele, imaginei. Parti pra esse ridículo. Liguei pra Elza.

– Elza, você conhece o João Gilberto?
– Conheço. Acho simpático, gostoso.
– Ele queria falar com você.
– Então chama ele aí.
– Não, Elza. Eu tenho que falar…
– Que é isso, está me gozando?

Durante o papo, João me dava instruções. Minha missão era realmente facílima. Eu tinha que cantar a Elza pra ele convencê-la a esperar por ele na cama, debaixo das cobertas, já despida, com a luz apagada. Ela devia ficar esperando até ele chegar. Ele falava pra mim, eu falava pra ela, ela respondia, eu falava pra ele, ele pra mim, etc. Acabamos convencendo a Elza daquela loucura.

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João voltou do apartamento dela e só voltou de manhã, encantado.

– Puxa Ronga. Que mulher maravilhosa!

Tempos depois, expliquei tudo pra Elza. Ela era uma mulher fantástica e compreendeu perfeitamente.

Mais uma das idiossincrasias de João Gilberto….

sexta 12 agosto 2011 05:14 , em Bossa Nova

O Filho Que Eu Quero Ter

Vinícius de Moraes, quando conta a história de como foi feita “O Filho que eu quero ter”, adjetiva como, ao mesmo tempo, “linda” e “patética”. Isso porque  na praia de Boa Viagem, no Recife, Toquinho contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”

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Toquinho, então, mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.

Ao que consta, Vinicius emocionou-se ao escrever a letra. No fim da tarde, quando Toquinho retornou, o encontrou em prantos, com a letra da música nas mãos.

Percebe-se os três pedaços da música: No primeiro, o nascimento, o sonho e o amor de se ter um filho; a segunda parte, ao vê-lo crescer, ao perguntar um “porquê que não tem fim“, mas que as dores da vida o aguardam; por fim, o trecho relata o pai, no leito de morte, ao ser embalado pelo filho com a mesma canção e o sonho de também ter um filho.

Em três estrofes, narra a trajetória do amor de pai para filho e de filho para pai..

 

Toquinho então afirmou: “Essa música contém uma magia que emociona. Possui uma melodia quase infantil, uma espécie de moldura para a ideia da letra”. Trata-se de uma das mais comoventes canções da parceria Toquinho/Vinícius. As imagens do sonho do nascimento, do crescimento, até a despedida na hora da morte.

 

Gravada por Chico Buarque, em 1974, é uma verdadeira homenagem à paternidade. Vale muito o registro.

 

 

Fontes:

Ruy Godinho. Então, foi assim?, vol. 1/

João Carlos Pecci e Wagner Homem. Toquinho: Histórias de canções

 

Toquinho/Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter 

 

 

 

.

 

“Pérola Negra, te amo, te amo”

A música perde muito com a morte de Luiz Melodia. Com uma voz inconfundível, é um daqueles cantores cujo timbre é difícil de se comparar. Nascido no Rio de Janeiro, no Morro de São Carlos ,ele aprendeu violão no instrumento de quatro cordas de seu pai.

Ele é um cantor difícil de classificar, transitando entre a bossa nova e a jovem guarda, ele vai muito além do samba. Além de compositor, um grande intérprete. Quero contar aqui um pouco da sua inspiração, numa entrevista dada a Ruy Godinho, e que fez parte do volume 3 do Livro “Então, foi assim?”, da Abravideo, editado em 2013:

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“Pois é rapaz, essa coisa pra mim é uma surpresa. Lembro quando eu era ainda jovem e descobri que compunha. Foi escandaloso, foi saboroso, né?  .Mostrava pra minha mãe, pros meus amigos, as primeiras melodias, as primeiras letras. Então é um processo que surpreende até o próprio compositor. É como o nascer de um filho. Não é um processo doloroso, é um processo em que você fica louco pra terminar logo o que você está fazendo, tanto a melodia como a letra” 

E continua:

“Daqui a pouco você não gosta mais de certas frases ou da melodia. Você para com tudo e pensa no que é que está errado. Mas depois quando a obra fica pronta, você se sente bem, relaxado, posso até dizer: livre – no bom sentido. Porque ela te obriga emocionalmente. É uma situação bacana, mas que te exige. É genial. Eu acho que criar é um privilégio de poucos”

A Resultado de imagem para "perola negra"  "luiz melodia" gaytrajetória musical de sucesso de Luiz Melodia começa por “Pérola Negra”, lançada por sua “madrinha” Gal Costa no show “Fa-Tal: Gal a todo vapor”, em 1972. Os amigos poetas Wally Salomão e Torquato Neto levaram uma composição de Luiz Melodia para Gal Costa. Ela adorou, gravou e a música virou um sucesso.

Numa entrevista no Fantástico, Luiz Melodia recordou a composição. “Pérola Negra é uma mulher. Mas tinha composto pra uma menina que eu namorava na época em que estava servindo o Exército. A mulher brasileira é uma fonte, posso dizer assim, de inspiração em cinquenta por cento das minhas composições”, disse.

Para o Jornal “o Dia”, em 2013, Melodia disse que compôs “inspirado por uma menina com quem eu saía quando tinha uns 18 anos. Mas eu era o segundo cara. Quando o namorado dela chegava, eu tinha que sair correndo pelos fundos”.

Quando se analisa a letra de Pérola Negra, percebe-se os sentimentos conflitantes, entre o “te amo” o “não sei se te amo”. Há um pedido, às vezes uma súplica do eu-lírico de que o objeto de desejo se coloque na sua posição, “passando o que ele está passando”, “usar a roupa que estou usando”.

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Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar pois estou te amando
Baby, te amo, nem sei se te amo

Tente usar a roupa que eu estou usando
Tente esquecer em que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva num pano
Pérola Negra, te amo, te amo

Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor mostre teu novo canto
Escreva num quadro em palavras gigantes
Pérola Negra, te amo, te amo

Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro querendo eu te empresto
Se inteire da coisa sem haver engano

Baby, te amo, nem sei se te amo
Baby, te amo, nem sei se te amo
Baby, te amo, nem sei se te amo