“Nós não vamos nos dispersar….” Chega de Mágoa – 1985

Muita gente se lembra de “We are the world“, cação de Michael Jackson e Lionel Ritchie, no qual vários artistas americanos gravaram a canção para ajudar as vítimas da fome na África. O exemplo se espraiou pelo mundo, mas aqui no Brasil, em 1985, muitos artistas se reuniram para gravar “Chega de Mágoa”, para arrecadar fundos para os flagelados da seca no Nordeste brasileiro. 

Conta Nelson Motta, na biografia que escreveu sobre Tim Maia (Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia), que a música foi composta por Gilberto Gil, que fez também parte da letra, que teve a participação de Chico Buarque e Milton Nascimento, além de palpites de Djavan, Fagner e Erasmo Carlos. O Brasil se via ali, no baiano Gil, nos cariocas Chico e Erasmo, no alagoano Djavan, no cearense Fagner e no mineiro Milton. No entanto, a obra foi assinada como “criação coletiva”.

Segue a narração de Nelson Motta: 

O Sindicato dos Músicos, que assumiu a coordenação da produção do disco, convocou 155 cantores e instrumentistas para três sessões de gravação em um estúdio na Barra da Tijuca. O maestro Dori Caymmi foi escolhido para escrever o arranjo e reger a orquestra e o coro. Com uma tiragem inicial de 500 mil, o compacto seria vendido em todas as agências da Caixa Econômica, patrocinadora do projeto.

Sem maiores controvérsias, foram escalados Antonio Carlos Jobim, Milton Nascimento, Rita Lee, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, as duplas formadas por Elba Ramalho e Gonzaguinha, Caetano Veloso e Simone, Chico Buarque e Fafá de Belém e Roberto e Erasmo Carlos, com Elizeth Cardoso representando a velha guarda e o duo Paula Toller, do Kid Abelha, e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, a ala jovem. E naturalmente, Tim Maia.

Rascunho da letra

Depois da introdução com o piano soberano de Tom Jobim, Milton começava emocionado, acompanhado por Wagner Tiso, cantando as palavras de Tancredo Neves como herança das esperanças da Nova República:


O disco só podia ser comprado nas agências da Caixa Econômica Federal e teve uma tiragem de 500 mil cópias numeradas. Para adquiri-lo era preciso fazer um depósito do valor de 10 mil cruzeiros (moeda da época)

(MILTON)
Nós não vamos nos dispersar
Juntos é tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão

Seguia-se a voz de Djavan e Rita Lee

(DJAVAN)
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida
(RITA LEE)
Chega
Brinca na fonte
Desce do monte
Vem como amiga

E as 150 vozes famosas atacavam o refrão como uma torcida em um estádio, cada um com seu estilo, no seu ritmo…

(CORO)
Te quero água de beber, um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã

Seguiam-se os solos de Gal Costa e das duplas Elba Ramalho e Gonzaguinha, Chico Buarque e Fafá de Belém, Simone e Caetano Veloso.

(GAL)
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida
(GONZAGUINHA)
Chama,
(ELBA)
Tem que ter feira,
(GONZAGUINHA)
Tem que ter festa,
(GONZAGUINHA E ELBA)
Vamos pra vida
(CHICO)
Te quero terra pra plantar,
(CHICO E FAFÁ)
Te quero verde
(CAETANO)
Te quero casa pra morar,
(CAETANO E SIMONE)
Te quero rede

As jovens vozes de Roger e Paula entravam harmonizadas em terças, e a inconfundível Bethânia entoava:

(PAULA TOLLER E ROGER)
Depois da chuva o sol da manhã

(MARIA BETHÂNIA)
Chega de mágoa,
Chega de tanto penar

Voltava novamente o coro…

(CORO)
Canto, o nosso canto,
Joga no vento
Uma semente, gente
Olha essa gente

Logo depois, chega a “Divina”: Elizeth Cardoso cantando  o refrão e Gil fazendo as respostas. Elizeth, a veterana do grupo, foi quem teve o privilégio de solar em mais de um verso.:

“(ELISETE CARDOSO)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
(GILBERTO GIL)
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
(ELISETE CARDOSO)
Depois da chuva o sol da manhã

Depois do coro, a dupla não podia deixar de ser Roberto e Erasmo Carlos:

(CORO)
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
(CORO)
Gente
(ROBERTO CARLOS)
Quero te ver crescer bonita
(CORO)
Olha essa gente
(ERASMO CARLOS)
Quero te ver crescer feliz
(CORO)
Olha essa gente
(ROBERTO E ERASMO)
Olha essa terra, olha essa gente
(CORO)
Olha essa gente
(ROBERTO CARLOS)
Gente pra ser feliz, feliz

Aí entrava o coro, e o vozeirão do contracanto (que em We are the World ficou com Ray Charles), ficou com Tim Maia, para que Fagner, que ali deixava sua marca, encerrando a canção: 


(CORO COM TIM MAIA)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o sol da manhã
( FAGNER )
Chega de mágoa
Chega de tanto penar.

Nelson Motta ainda conta uma peculiaridade sobre Tim Maia:

Em evento tão coletivo, solidário e politizado, era a única função possível para um anarquista, musical: solto, fazendo o que lhe desse na telha, movido a uísque, brizola e bauretes, que ofereceu generosamente no estúdio. Inclusive à “Divina” Elizeth, que recusou como uma prima-dona:”Tirem esse elefante daqui!”.

Para quem não sabe, “brizola” e “bauretes” eram gírias para maconha.

A lista de todos que participaram do projeto: 

Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles (MPB-4), Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton e Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Leo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Magro (MPB-4), Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho (MPB-4), Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger (Ultraje a Rigor), Rosemary, Rubão, Rui (MPB-4), Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.

Fonte: Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia (Nelson Motta. Ed. Objetiva)

Não prendam Nara Leão!

Dia 27 de maio de 1966 Carlos Drummond de Andrade publicou um poema contra um suposto desejo dos militares de que Nara Leão fosse presa depois de uma entrevista que ela deu na imprensa.

No dia 22 de maio de 1966, foi publicada uma entrevista da cantora, em que o título da matéria já falava por si. “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”. Não por coincidência, no mesmo dia, o mesmo jornal ostentava uma manchete do futuro presidente, o General Costa e Silva. “Costa e Silva: governarei com o povo”

Embora a manchete não correspondesse exatamente àquilo que Nara tivera dito na entrevista, ela já seria suficiente para causar estardalhaço: disse que os militares poderiam entender de canhões e metralhadoras, mas não de política; disse que o mundo seria melhor se não existisse exército; que numa guerra moderna, o Exército brasileiro não serviria para nada; e que um país desigual como o Brasil teria outras prioridades, como escolas e hospitais.

Segundo Tom Cardoso, na biografia que escreveu sobre Nara (Ninguém Pode com Nara Leão – ed. Planeta, 2021), o mudo teria caído sobre Nara. Os jornais teriam repercutido a notícia, e o pai da cantora, o advogado Jairo Leão, teria sido intimado a comparecer no Palácio Duque e Caxias, onde ficava o Ministério da Guerra. No entanto, ele teria dito a Mario andreazza, chefe de gabinete de Costa e Silva:

– Minha filha é maior de idade e livre para dizer o que pensa

Não foi convencido, portanto, a fazer Nara desmentir o que dissera ao Jornal.

No entanto, já circulava na imprensa boatos de que o governo pretendia enquadrar Nara leão na Lei de Segurança Nacional e que ela poderia ser presa. Havia pressão da linha mais dura do Exército no sentido de que a suposta afronta não ficasse impune.

Segundo a biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral (Lazuli, 2000), o serviço secreto do Ministério da Guerra, temendo a repercussão da entrevista, sugeriu três alternativas a Costa e Silva, Ministro da guerra e futuro presidente do Brasil:

a) o próprio exército responder ao artigo, “focalizando a atuação do exército na conjuntura do país”

b) responder indiretamente, por meio de artigo em que se focalizasse a atuação do exército “através de articulista identificado com a revolução”

c)verificar os antecedentes de Nara Leão e difundir na imprensa.

Havia, no entanto, rumores de que setores mais rigorosos do exército recomendariam a prisão imediata de Nara Leão.

O Jornal do Brasil ,em editorial, afirmou que nara teria sido vítima “da extravagância de um repórter”

Ibrahim Sued, conhecido colunista da época, insinuou que Nara estaria sendo “joguete da esquerda festiva”, estaria fazendo declarações que seus “mentores não teriam coragem de fazer”. E ainda afirnou que ela “como talento não era lá grande coisa”.

Do outro lado, diversos artistas prestaram solidariedade a Nara, como Edu Lobo, Fernanda Montenegro, Mario Lago, Ferreira Goulart, Tonia Carrero, Flavio Rangel, João do Vale e Odete Lara. Foi feito um abaixo-assinado contra a prisão de Nara, com assinaturas de mais de 150 artistas.

Além disso, teve manifestações públicas favoráveis na imprensa de Rubem Braga, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, entre tantos outros.

Moacyr Werneck de Castro mandou um blilhete a Nara: “Você é uma menina de atitudes claras. Deus a conserve assim. Você tem uma visão geral das coisas e por isso sua aceitação pelo público não está na dependencia dos caprichos moda. O Brasil precisa de você, que não é boneca de microfone, mas pensa nos problemas da arte”

No entanto, o mais conhecido manifesto contra a prisão de Nara Leão veio de ninguém mais, ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. O poeta publicou um poema no Correio da Manhã, no dia 27 de maio de 66:


  APELO
(excerto)

“Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (…)

A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?

Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?

Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (…)

Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?

Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?

E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (…)

Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.

Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.”

Carlos Drummond de Andrade

Depois de tanta manifestação, o governo recuou. Mem de Sá, Ministro da Justiça, disse que não enquadraria Nara na Lei de Segurança Nacional, embora considerasse seus comentários “atrevidos” e o seus conceitos “injustos”

Nara não se fez de rogada Na biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral, consta que Nara consultou Ferreira Goulart e recebeu desta a recomendação de não fazer novas declarações contra os militares. Disse que estava exausta e não tinha vocação para Joana D’arc. Disse que tudo aquilo valeu a pena pela inspiração a um de seus poetas preferidos.

Deus, o Diabo, o carnaval e a censura

Em 1973, a censura fazia parta do cotidiano dos artistas brasileiros. Depois do AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, institucionalizou a censura, vetando, mutilando e reprimindo qualquer manifestação que pudesse ser interpretada como sendo nociva ao Regime.

Mas se engana quem pensa que a censura se limitava a questões político-partidárias. Havia censura por questões morais, por questçoes de “bom gosto” ou até mesmo por ignorância, pura e simples.

Uma das canções que pode ilustrar como a atuação da censura no Brasil, para além do alinhamento com a ditadura militar, beirava o moralismo ou mesmo a paranoia é a marcha carnavalesca, “Deus e o Diabo”, de Caetano Veloso, composta em 1973, mas somente gravada em 1977.

A música é uma ode ao carnaval. Uma marcha simples, que alude ao carnaval como antítese do medo e do pavor, e que se manifesta nas ruas do Rio e da Bahia.

Você, tenha ou não tenha medo

Nego, nega, o carnaval chegou

Mais cedo ou mais tarde acabo

De cabo a rabo com essa transação de pavor

O carnaval é invenção do diabo

Que Deus abençoou

Deus e o diabo no Rio de Janeiro

Cidade de São Salvador

Não se grile

A rua Chile sempre chega pra quem quer

Qual é! qual é! qual é!

Qual é! qual é!…

Quem pode, pode

Quem não pode vira bode

Foge pra Praça da Sé

Cidades maravilhosas

Cheias de encantos mil

Cidades maravilhosas

Os pulmões [bofes] do meu Brasil

No entanto, a música incomodou a censura No livro “Mordaça: Histórias de Música e censura em tempos autoritários” (João Pimentel e Zé McGill. Sobnora, 2021), narra-se um pouco do episódio:

Voltando ao tempo das vacas gordas da censura, em 1973, a marchinha “Deus e o Diabo” foi outra composição de Caetano a gerar atrito com os censores, que muitas vezes se colocavam na condição de educadores, tutores da sociedade – como se esta fosse uma criança indefesa que precisa ser protegida da realidade. A música foi vedada e, no verso do documento oficial com o parecer do censor, há a seguinte justificativa:

  1. Conteúdo desrespeitoso à imagem da pátria (por conta do verso ´Dos bofes do meu Brasil`);
  2. Figura semântica insurrecional (´A Rua Chile sempre chega pra quem quer`);
  3. Possível distorção da pronúncia em ´Quem pode, pode.”

Além da justificativa, estão marcados com um X os versos “Dos bofes do meu Brasil”, “A rua Chile sempre chega pra quem quer” e “O carnaval é a invenção do Diabo que Deus abençoou”.

Neste último caso, não é difícil supor que o verso tenha se tornado antipático aos censores por motivos de religião. Já no verso da rua Chile, a suposta “figura semântica insurrecional” estaria ligada ao fato de que a ditadura de Pinochet havia se instalado no Chile no mesmo ano de 73. Por tanto, o censor julgava que aquela seria uma metáfora em alusão à insurreição contra a ditadura chilena. Quanto à “possível distorção da pronúncia” em Quem pode, pode”, podemos presumir que havia um receio de que, na gravação, Caetano contasse o verso no passado, mudando a conjugação do verbo de “pôde”, ou, quem sabe, trocando a letra p pela letra f…

Nota-se, também os grifos aos versos “mais cedo ou mais tarde acabo com essa transação de pavor”, o que pode ser uma alusão ao fim da ditadura militar.

Manchete de O Globo, 21/12/73

Voltando ao Livro de João Pimentel e ZÉ McGill:

Conversando sobre a censura a “Deus e o Diabo”, Caetano se lembra do contratempo com a palavra “bofes”, mas não com os outros versos: “Eles falaram que não poderia ficar o verso Os bofes do meu Brasil; e eu disse:Mas bofe quer dizer pulmão. Eu estou dizendo que são os pulmões do Brasil.Eles achavam que “bofe” era uma palavra chula. As atrizes de teatro rebolado chamavam os homens, os caras que elas pegavam, de bofes e as bichas adotaram essa gíria das vedetes. Eu botei Os bofes do meu Brasil’ na letra, que tem um ar de conversa de bicha, mas, ao mesmo tempo, era porque eu estava dizendo: Rio de Janeiro/Cidade de São Salvador/ os pulmões do meu Brasil. Então, eu falei: Se vocês estão grilados com a palavrabofes, eu boto pulmões’ mesmo... E tem uma vantagem: do ponto de vista da prosódia, pulmões’ fica até melhor, porquebofestem um defeito de prosódia. Sobre os outros versos nunca me disseram nada. Pode ser que eles tivessem essas questões lá entre eles, mas nunca chegarem até mim. Só chegou o bofe. Eu mudei pra pulmões’ e a música foi liberada. Agora, ´O carnaval é invenção do Diabo que Deus abençoou` é uma coisa subversiva para o lado católico que eles tinham, mas não me pediram pra mudar isso, não.”    

Ainda assim, segundo reportagem do Globo, de 30/12/73, ainda assim a expressão “pulmões” foi desaconselhada, porque eventualmente ela poderia ser substituída pelo populares por algum terno chulo… O censor certamente desconhece Salvador e a Rua Chile, umas das ruas famosas do circuito do carnaval baiano, sobretudo nos anos 70. O censor, todavia, pensava referir-se à situação política do Chile, quando o General Pinochet instituiu uma ditadura após a deposição de Salvador Allende, em detembro de 1973.

Mas a música acabou liberada com a substituição de “bofes” por “pulmões”, e foi gravada no álbum “Muitos carnavais”, em 1977

Revista Amiga 15/01/1974

20 canções que falam de Salvador

Dizem que nenhuma cidade foi tão cantada quanto a Cidade do Salvador, da Bahia de Todos os Santos, primeira capital do Brasil. Fundada em 29 de março de 1549, onde já habitavam os índios Tupinambás, Salvador, muitas vezes também chamada de “Cidade da Bahia” pode ser descrita por suas inúmeras canções.

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Há autores, inclusive, que cantam a Bahia em muitas canções (talvez Caymmi seja o maior exemplo); outros cantam a Bahia sem mesmo serem baianos (como o mineiro Ary Barroso), o fato é que as canções sobre Salvador fazem a cidade entrar no imaginário coletivo, em cada pedacinho de letra, em cada nota de canção.

Não é por acaso que Salvador é uma cidade essencialmente musical. Como diz Carlinhos Brown, num jingle que fez para a prefeitura de Salvador:

Cidade miscigenada / Arrodeada de água / De alma boa e batucada / Felicidade aqui não custa nada / Uma cidade é seu povo / E o povo somos nós / Pra ela todos cantam juntos em uma só voz / Nasci aqui e aqui / Não canso de viver/ Somos movidos pela força do dendê / E de você / Felicidade Salvador / Não custa nada / A cidade mais feliz do mundo voltou a sorrir

Assim, segue uma lista de 20 canções que cantam a Bahia e que atravessam o tempo:

  1. São Salvador – Dorival Caymmi

São São Salvador, Bahia de São Salvador/ A terra de Nosso Senhor/ Pedaço de terra que é meu / São Salvador, Bahia de São Salvador/A terra do branco mulato/ A terra do preto doutor

São tantas músicas de Caymmi sobre a Bahia. Mas, para escolher uma, vale aquela simples e genial:

2. Na Baixa do Sapateiro – Ary Barroso

Oi, Bahia, ai, ai/Bahia que não me sai do pensamento, ai, ai

Ary Barroso cantou muito a Bahia. De tantas canções, talvez a mais emblemática seja aquela em que o amor pela Bahia se confunde com o amor da morena “frajola” que foi encontrada na Baixa dos Sapateiros

3. Bahia com H – Denis Brean

E já disse um poeta/Que terra mais linda não há/Isso é velho e do tempo/Em que já se escrevia Bahia com H!

Augusto Duarte Ribeiro, paulista de Campinas, escreveu em 1955 um samba que se tornou imortal na voz de João Gilberto. Bahia com H

4. Eu vim da Bahia – Gilberto Gil

Eu vim da Bahia cantar/Eu vim da Bahia contar/Tanta coisa bonita que tem/Na Bahia, que é meu lugar

Gilberto Gil, faz uma canção saudosa sobre a Bahia, da festa de rua, do samba de roda, do mar…

5. Você já foi à Bahia – Dorival Caymmi

Nas sacadas dos sobrados/Da velha São Salvador/Há lembranças de donzelas/Do tempo do Imperador/Tudo, tudo na Bahia/Faz a gente querer bem/A Bahia tem um jeito/Que nenhuma terra tem!

Salvador durante muito tempo era chamada de Cidade da Bahia. Esta música de Caymmi virou um clássico, cuja letra Caetano pegou um pedaço para incluir na canção “Terra”

6. Retrato da Bahia – Riachão

Quem chega na praça Cayru/E olha pra cima, o que é que vê?/Vê o Elevador Lacerda/
Que vive a subir e a descer

Um clássico de Riachão, que começa com a Praça Cayru, talvez a imagem mais icônica da cidade…

7. Salvador é um Porto Seguro – Moraes Moreira

É um porto, é um porto sete portas/Sempre abertas pra magia/De todos os santos/
Que vem baixar na Bahia

Moraes Moreira compôs uma ode à Salvador, dizendo ser um Porto Seguro de portas abertas… bela gravação com participação de Gilberto Gil,

8. A Bahia te espera – Chianca de Garcia/Herivelto Martins

A Bahia da magia, dos feitiços e da fé/Bahia que tem tanta igreja, que tem tanto candomblé

Composição do português Chianca de Garcia e fluminense Herivelto Martins, destaca tanto o sincretismo quanto os saveiros… Tornou-se imortal na voz de Dalva de Oliveira

9. É D’Oxum – Gerônimo

Nessa cidade todo mundo é d’Oxum/Homem, menino, menina, mulher/Toda essa gente irradia magia

Um clássico instantâneo. a canção de Gerônimo se tornou atemporal e sempre citada como um dos hinos da cidade

10. Chame GenteMoraes Moreira, Armandinho

Ah! Imagina só que loucura essa mistura/Alegria, alegria é um estado que chamamos Bahia

Certamente o hino do carnaval da Bahia, o sagrado e o profano, a mistura, todos os santos, encantos e Axé….

11. We are the world of carnavalNizan Guanaes

Ah! Que bom você chegou/Bem-vindo a Salvador/Coração do Brasil

Em 1988, a Ótica Ernesto fez uma campanha institucional que reuniu artistas e personalidades baianas de destaque da época. O clipe teve a participação de muitos artistas baianos. Virou um clássico

12. Raiz de Todo Bem – Saulo Fernandes

Salvador, Bahia/Território africano/Baiano sou eu, é você, somos nós/Uma voz de tambor

A canção de Saulo, do ano de 2013, transformou-se numa obrigatória referência de música sobre a cidade. Ressalta as raízes africanas e o locus nordestino de Salvador, cheio de imagens e referências próprias da baianidade

13. Duas Cidades – Russo Passapusso – Baiana System

Diz em que cidade que você se encaixa/Cidade Alta/Cidade Baixa

Os contrastes entre as duas cidades de Salvador, e o que elas significam. falar em Cidade Alta e Baixa quer falar das muitas divisões e segregações que ocorrem na Cidade da bahia

14. Bahia, Minha Preta – Caetano Veloso

Ê ô, Bahia, fonte mítica, encantada/Ê ô, expande o teu axé, não esconde nada/Ê ô, eu grito de alegria ecoa longe, tempo e espaço/Ê ô, Rainha do Atlântico

Feita por Caetano para Gal Gravar, Caetano homenageia muitos que personificam a Bahia, e ao Chamar de Bahia, Minha Preta, fala tanto das raízes africanas da Bahia quanto uma forma carinhosa de se chamar alguém em Salvador

15. Rebentão – Carlos Pita

Moro numa cidade cheia de ritmos/Que sobe e que desce ao som da maré

A música de Carlos Pita exalta o povo de Salvador, uma cidade cheia de ritmos, que “faz samba na porta do ônibus” e que “dança com a lata na cabeça”

16. Cidade Voa – Carlinhos Brown

Minha cidade é linda de ver/Seja bem-vindo ao nosso QG/São Salvador nasceu pra você

Canção feita por Carlinhos Brown para comemorar o aniversário de 450 anos de Salvador, em 1999. Música alegrem, que ressalta a felicidade de estar em salvador

17. Igual a Salvador Não HáLuiz Caldas

Pode procurar que um lugar igual em Salvador no mundo não há

Luiz Caldas destaca o caráter único, de raiz e de felicidade da Cidade de Salvador…

18. Solvador Bahia de Caymmi – Tom Zé

Aqui em Solvador Bahia tudo/capitalista ou vagabundo/tênis, gravata ou cabelo branco/todo mundo tem um santo

Tom Zé faz um ensaio sobre a cidade da Bahia, de Caymmi e da usura, a quem chama de “Solvador”

19. Vu – Saulo Fernandes

Todo mundo igual, todos de tambor/Todo mundo junto Rubro negro – Tricolor/So-te-ro-po-li-ta-no, Salvador!

Saulo faz um passeio pela cidade de Salvador, seus bairros e gírias…

20 . Cidade Elétrica – Jorge Zarath e Manno Goes

Chuveiro de água benta pra lavagem de escada/Alma lavada de fé/Um choque de alegria/Na força da fantasia/Axé, axé, axé

A música de Jorge Zarath e Manno Goes ressalta uma série de imagens e conexões de uma cidade elétrica…

Parabéns, Salvador!!!!!

Amoroso – Biografia de João Gilberto por Zuza Homem de Mello

A Biografia de João Gilberto, escrita por Zuza Homem de Mello, é um livro recheado de emoções. Inicialmente, cumpre salientar que Zuza morreu poucos dias depois de concluir a obra. Ercília Lobo, sua esposa, teve a tarefa de cuidar da edição. Assim, a biografia de João termina sendo também um legado de Zuza, um grande melômano, pesquisador musical e, sobretudo, fã de João Gilberto.

Para quem lê o livro, não espere fofocas sobre a vida amorosa de João, as suas relações com Astrud, Miúcha, Maria do Céu ou Cláudia são sempre acidentais, relacionadas sempre com o centro em torno do qual o livro é construído: a música de João.

O livro é sinestésico: Não foram poucas as vezes que, lendo o livro, fui atrás dos álbuns e dos shows para ver e ouvir aquilo que era magistralmente descrito por Zuza. Ele fala de cada acorde, de cada arpejo, de cada homenagem, de cada momento que antecede uma apresentação…

E neste contexto o livro é sublime: desde sua infância em Juazeiro, sua passagem pelo Rio, Salvador, Porto Alegre e Diamantina, tudo se relaciona com o aprendizado musical de João Gilberto. E à música de João é dada a devida homenagem. Em determinado momento do livro é dito que, sem João Gilberto, Tom e Vinícius seriam responsáveis por modernizar o Samba ou a MPB, mas não haveria Bossa Nova.

Zuza e João Gilberto

Assim, Zuza relata, de maneira claramente afetuosa, cada apresentação relevante de João, desde o famoso show no Carnegie Hall até o festival de Iacanga, em Águas Claras-SP; da sua apresentação no Japão até o show no Au Bon Gourmet, no Beco das Garrafas, com Tom e Vinícius; Sua apresentação no festival de Montreaux até seu último show, na Bahia, no Teatro Castro Alves (em que tive a honra de estar presente).

Lá, são contados cada momento antes do show e os tradicionais atrasos de João Gilberto. Suas homenagens a cada público onde cantava, de Porto Alegre a Lisboa, suas particularidades, sua mania de falar ao telefone por horas, seu ouvido absoluto….

Também cada disco é escrutinado, não só pelo aspecto técnico, que Zuza conhece muito bem, mas também pelo aspecto emocional. O livro viaja em cada canção, em cada acorde ou arpejo em que João recria cada música todas as vezes em que toca. Vai atrás das influências musicais e harmônicas, fala de sua batida diferente.

O livro também passa ao largo do senso comum da considerada personalidade “exótica” de João. Defende, na verdade, duas teses essenciais. A obsessão de João pela sonoridade perfeita, e o fato dele não gostar de sair quando já está acomodado (são contadas histórias divertidas quando ele permanecia por dias a fio nos hotéis depois de encerrada a apresentação)

Claro que, no último capítulo, o derradeiro do livro e da vida de João, há momentos de emoção.

Mas, no fim das contas, o disco é uma homenagem. A um dos maiores cantores do mundo, ao respeito que lhe foi creditado por onde passou. E ele acabe recheado de emoção. Dá para sentir a emoção de Zuza, em cada show que presenciou, além da sua convivência com João Gilberto.

Um livro essencial. Não há nenhuma revelação bombástica. mas há uma análise amorosa e detalhada da trajetória musical de João. Cantor seminal da Bossa Nova e referência musical em todo o mundo. Vale a pena ser lido.

As musas por trás da canção “Tigresa”, de Caetano Veloso

A canção “Tigresa”, de Caetano Veloso, sempre gerou controvérsias de quem seria a musa que inspirou a canção. A necessidade de se personificar a mulher “de unhas negras e íris cor de mel” gerou uma série de discussões, que se iniciaram com o lançamento da música, no álbum Bicho, de 1977.

Na verdade, Tigresa é um mosaico de várias mulheres, que Caetano contou, à época, e depois foi publicado na compilação “O mundo não é chato”

Gente” ainda não estava de todo pronta quando fiz, sem pensar, a melodia do que veio a se chamar “Tigresa”. Algumas pessoas estavam conversando aqui na sala de som da minha casa e eu não estava a fim de prestar atenção na conversa delas. Fiquei tocando violão e assoviando e cantarolando qualquer coisa. Fui dormir sem planos de voltar a pensar nela, uma vez que meu projeto era compor canções doces suingadas. Mas a música era linda mesmo e resolvi fazer uma letra. Mas não sabia o que dizer com palavras, uma coisa que ficasse dentro do clima que já era para nós essa melodia. Mas também não quis forçar muito a cabeça“.

Portanto, primeiro veio a música. A inspiração da letra veio depois. Conta Caetano:

Um dia estava com Moreno vendo um seriado de televisão no qual apareciam uns meninos indianos que andavam com um elefante e encontravam outro menino, que era selvagem e não sabia falar e reagia como um felino. Quando eles tentavam se aproximar do menino selvagem, um grande tigre vinha protegê-lo. O menino tinha sido criado por aquele tigre que, na verdade, era fêmeo. O fato é que pensei que tigre fêmeo diz-se tigresa, e aí estava a palavra.  Dessa palavra parti para inventar uma letra que mantivesse o clima da música. Imaginei logo uma mulher e queria algo assim como uma história. Essa mulher foi se nutrindo de imagens de mulheres que conheço e conheci, e essa história foi se nutrindo de histórias que vivo.

Imagino que a série seja Maya, inspirada num filme de 1966, e que foi transmitida pela NBC nos Estados Unidos, e no Brasil pelas Tv’s Record e Tupi na década de 70.     E assim Caetano prossegue:

Terminou pintando também um pouco de história, uma vez que o interesse que as pessoas da minha classe e da minha geração uma vez demonstraram pelo assunto política aparece datado. Mil pessoas me perguntaram quem é a “Tigresa”, ou para quem a música foi feita.

Pois bem. Depois da mamãe tigresa da televisão, a primeira imagem de mulher que veio à minha cabeça foi a de Zezé Mota, e isso está bem evidente nas unhas e na pele. Mas terminei descobrindo que os olhos cor de mel são da Sônia Braga, embora não deixem de ter um parentesco com os cabelos da menina Maribel. Mas Bethânia e Gal já estavam lá. E Norma Bengell, Clarice, Claudinha, Helena Ignêz, Maria Ester, Silvinha Hippy, Marina, muitas outras meninas que eram bebês em 1966, Suzana e Dedé. Por fim a “Tigresa” sou eu mesmo. É minha primeira canção parecida um pouco com Bob Dylan.

O fato é que a primeira pessoa a se “apropriar” da canção foi Sônia Braga. Protagonista da novela “Espelho Mágico”, cujo tema musical era a “Tigresa”, na voz de Gal Costa. No ano seguinte, Sônia Braga protagonizava a novela “Dancin’ Days”, interpretando uma ex-presidiária. Mais um ponto que ligava Sônia Braga à canção.

Zezé Motta e Caetano

Além disso, Sônia era atriz e trabalhou no espetáculo Hair. Rosane Queiroz conta um pouco desta história no seu livro “Musas e Músicas ”

“Roubei ‘Tigresa’ para mim”, admitiu Sônia Braga, em uma entrevista que fizemos em 2006, publicada na Marie Claire. “Comecei a encontrar Caetano na praia, não lembro bem a época, só sei que a gente acordou juntos pra assistir o casamento da Lady Di [1981]. Foi uma relação bonita, de amor mesmo. A gente fez uma viagem de trem inesquecível de São Paulo ao Rio, daí ele compôs ‘Trem das cores’ para mim (Teu cabelo preto/ Explícito objeto…). A ‘Tigresa’ ele começou pensando na Zezé Motta, logo depois a gente se conheceu”, diz ela.

Caetano e Sônia Braga

Tanto que Ivete Sangalo, em 2012, no especial que fez com Gil e caetano, perguntou se a música teria sido feita para Sônia Braga, ao que Caetano respondeu “Mais ou Menos”. “Nós mulheres sempre achamos que as músicas são feitas para nós”, brincou a cantora…. “‘Trem das cores’ eu fiz para Sônia, mas ‘Tigresa’ não, encerrou o compositor.

Zezé Mota, também na história contada por Rosane Queiroz, se apresenta:

“Só o fato de ter meu nome associado a uma música tão bonita do Caetano já é o máximo…

“A pele marrom e as unhas negras eu sei que são minhas. Eu usava esmalte preto, que comprava na Biba [boutique famosa em Ipanema, nos anos 1970]. Hoje a cor é comum, mas naquele tempo não. Eu fazia o estilo exótico, com os cabelos curtinhos e o batom também preto.

Mas não trabalhei no Hair nem namorei Caetano. O trecho que diz ‘com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher’, vamos combinar, serve para todas nós, né? [risos] Mas quando ele fala de ‘uma mulher, uma beleza que me aconteceu’, evidentemente se refere a alguém com quem teve um caso afetivo. Notei que a letra não era só para mim.

Encontrei Sônia Braga em vários momentos. Gravamos juntas o filme Tieta, mas nunca falamos nesse assunto de a canção ser mais dela. Não importa que ‘Tigresa’ seja uma colagem. Na época, Caetano era casado com Dedé (Gadelha), acho que até ela entrou na história. O que importa é que estou no pacote.

Mais recentemente, Caetano fala mais uma vez sobre a canção e Zezé Motta, relatada por Cacau Hygino, na biografia de Zezé Motta :

A música Tigresa foi escrita na época da [discoteca] Dancin’ Days. Zezé tinha as unhas pintadas de preto. A figura física da Tigresa veio muito mesmo de Zezé. E ela sabe disso. Mas a canção não é sobre ela só. Tem muito Sônia e pensamentos sobre as mulheres daquele tempoFaz anos, me fizeram essa pergunta numa revista e eu disse que tinha Zezé e Sônia, mas também muitas outras mulheres. Finalmente, eu preferia fazer como Flaubert (que disse ‘Madame Bovary c’est moi’): a ‘Tigresa’ sou eu”, diz Caetano

Fontes:

Caetano Veloso, O mundo não é chato, Cia das letras, 2005

Rosane Queiroz, Musas e Músicas: A mulher por trás da canção, Tinta Negra, 2017

Cacau Hygino, Zezé Motta: Um canto de luta e resistência, Companhia Editora Nacional, 2018

Uptown Girl – De Billy Joel Para Elle Macpherson e Christie Brinkley

Em 1983, Billy Joel lançava uma de suas mais conhecidas canções: Uptown Girl, do seu álbum An innocent man. A música relata uma daquelas situações típicas em que um “downtown man”, ou seja, um homem simples, de classe média, deseja uma “uptown girl”, que numa tradução livre, poderia ser considerada uma “Patricinha”, que vive num mundo de luxo.

A música parece um desejo, um sonho de um sujeito comum, que primeiro idealiza a garota, que vive num “white bread world”, que seria algo como um mundo de elite cor-de-rosa. Esta garota, segundo a canção, ficaria cansada do seu mundo, seus garotos  e seus presentes de luxo, e vai se acabar se apaixonando por um cara comum – como o eu-lírico da canção. Ele diz que não poderá comprar-lhe pérolas, mas quando ele souber quem ela é, ela ficará com ele, e ele poderá, não sem orgulho, dizer que aquela “uptown girl” lhe pertence. 

An Innocent Man: Amazon.com.br: CD e Vinil
An Innocent man

Pode-se ver, sem muito esforço, que a canção tem por detrás aquela velha história conhecida do cara comum que está encantado com a moça rica, bonita, mas inacessível, e com o sonho de que ela esqueça de seu mundo fútil e venha cair nos seus braços…

O interessante é que essa música tem, na verdade, mais de uma musa inspiradora. Segundo o livro  “Música e Musas”, de Michael Heatley & Frank Hopkinson,  Billy Joel estava de férias no Caribe quando ele conheceu três modelos que estavam no mesmo hotel – Ellen Macpherson, Christie Brinkley e uma jovem e então desconhecida chamada Whitney Houston. Ele estava tocando piano quando as três ficaram maravilhadas vendo-o tocar o instrumento. 

Elle Macpherson | Supermodels, Elle macpherson, 80s swimsuit

Elle Macpherson

Joel conta que conseguiu atrair a atenção das mulheres apenas com o poder da música (embora o fato de ser um popstar deva ter ajudado). Ele disse: “Olhei para cima e havia essas três estonteantes mulheres olhando para mim do outro lado do piano ”

Inicialmente, Billy Joel começou a sair com Macpherson. ele estava recém-divorciado do seu casamento com Elizabeth Weber. Ele diz que eles estavam saindo (“dating”), mas não estavam comprometidos. Depois, quando ela foi para a Europa, ele começou a sair com Christie Brinkley, com a qual acabou se casando. 

Assim a música que originariamente se chamaria “uptown girls”, passou a se chamar “uptown girl”, e a musa inspiradora pouco a pouco passou a ser Christie…

The Dream Tiger — Christie Brinkley, 1983

Christie Brinkley

Joel, que é de Long Island, Nova Iorque, se identificou como o cara comum que conseguia atrair tão belas modelos, a ponto de dizer numa entrevista: 

O fato de que eu possa atrair uma mulher tão linda como Christie deve dar esperança a cada cara feia no mundo!”

A música, como todo o disco “An innocent man” foi uma homenagem à música pop dos anos 60. Divertida, leve e com uma história por trás…

O clipe mostra bem a cena. Se passa numa oficina mecânica, quando chega a “uptown gilrl” (a mulher no clipe é Christie Brinkley, uma das inspiradoras da canção e então já mulher de Billy Joel) com seu motorista particular. Vejam as danças típicas dos anos 80, inclusive o “break”

Fontes:

Música e Musas, de Michael Heatley & Frank Hopkinson. Trad. Christina Bazan e Christiane de Brito Andrei. Gutemberg, 2011

http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1327163/Billy-Joels-Uptown-Girl-inspired-Elle-Macpherson-Christie-Brinkley.html#ixzz1liP6rNXF

Rita Lee no museu da Imagem e do Som

Foi prorrogada até o dia 20 de fevereiro a exposição, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, da mostra sobre a carreira de Rita Lee, uma das mais representativas artistas da música brasileira.

O que a mostra tem de de mais divertido são os diversos figurinos que Rita Lee utilizou durante sua carreira, por intermédio da qual é contada sua história. Além disso conta com diversas outras curiosidades, como itens pessoais, depoimentos, capas de revista, instrumentos musicais, enfim, uma série de objetos que remetem à carreira de Rita Lee desde os anos 60, com os mutantes e o tropicalismo, com destaque também para sua relação com seu maior parceiro musical e de vida, Roberto de Carvalho

A mostra teve a curadoria de João Lee, filho da cantora, e se deve, segundo ela mesmo relata, da sua característica de acumular um monte de “tralhas” durante a sua vida:

Sou dessas acumuladoras que não jogam fora nem papel de embrulho e barbante. Vou adorar abrir meu baú e dividir as histórias que as traquitanas contam com quem for visitar. Tenho recebido ajuda de uma turma da pesada: o grand maestro da cenografia é do meu querido Chico Spinosa, meu figurinista e carnavalesco da Vai-Vai; a direção é do meu multitalentoso Guilherme Samora e a curadoria é do meu filho João”

A exposição, com uma breve mostra do que era a casa de Rita antes dela se tornar artista, termina por mostrar a relevância de Rita Lee como artista, seja como compositora, seja como mulher de vanguarda, que abriu portas para uma série de artistas que vieram em seguida. Por isso mesmo, vez ou outra ela tinha problemas com a censura, e a mostra conta isso também.

Enfim, para quem gosta de uma exposição cheia de imagens, cores e figurinos, e para quem gosta de Rita Lee (inclusive com dezenas de vídeos com momentos histórico e icônicos, como seus especiais, participação em filmes, novelas ou mesmo no programa do Chacrinha), vale a pena conferir para quem estiver em São Paulo

Chico e Caetano falam sobre Elza Soares

No dia 20 de janeiro de 2022 falece Elza Soares. Talvez seja impossível classificar seu estilo, sua voz, sua vida. A história de Elza é única. De tantas homenagens que recebeu, vale aqui a transcrição dos textos de Chico Buarque e Caetano Veloso sobre a cantora, quando ela fez 90 anos:

Músicas, vídeos, estatísticas e fotos de Elza Soares | Last.fm

Se acaso você chegasse a um bairro residencial de Roma e desse com uma pelada de meninos brasileiros no meio da rua, não teria dúvida: ali morava Elza Soares com Garrincha, mais uma penca de filhos e afilhados trazidos do Rio em 1969. Aplaudida de pé no Teatro Sistina, dias mais tarde Elza alugou um apartamento na cidade e foi ficando, ficando e ficando.

Se acaso você chegasse ao Teatro Record em 1968 e fosse apresentado a Elza Soares, ficaria mudo. E ficaria besta quando ela soltasse uma gargalhada e cantasse assim: “Elza desatinou, viu.”

Se acaso você chegasse a Londres em 1999 e visse Elza Soares entrar no Royal Albert Hall em cadeira de rodas, não acreditaria que ela pudesse subir ao palco. Subiu e sambou “de maillot apertadíssimo e semi-transparente”, nas palavras de um jornalista português.

Elza Soares: Chico Buarque e Caetano Veloso escreveram textos inéditos nos  90 anos da cantora - Jornal O Globo

Se acaso você chegasse ao Canecão em 2002 e visse Elza Soares cantar que a carne mais barata do mercado é a carne negra, ficaria arrepiado. Tanto quanto anos antes, ao ouvi-la em “Língua’’ com Caetano.

Se acaso você chegasse a uma estação de metrô em Paris e ouvisse alguém às suas costas cantar ‘Elza desatinou’, pensaria que estava sonhando. Mas era Elza Soares nos anos 80, apresentando seu jovem manager e os novos olhos cor de esmeralda.

Se acaso você chegasse a 1959 e ouvisse no rádio aquela voz cantando “Se acaso você chegasse’’, saberia que nunca houve nem haverá no mundo uma mulher como Elza Soares.

Caetano, por sua vez, fez a seguinte homenagem:

Elza Soares é uma das maiores maravilhas que o Brasil já produziu. Quando apareceu cantando no rádio, era um espanto de musicalidade. Logo ficaríamos sabendo que ela vinha de uma favela e desenvolvera seu estilo rico desde o âmago da pobreza.

Elza Soares: Caetano Veloso lamenta morte da cantora e amiga: 'Fui fã'

Ela cresceu, brilhou, quis sumir, não deixei, ela voltou, seguiu e prova sempre, desde a gravação de “Se acaso você chegasse’’ até os discos produzidos em São Paulo por jovens atentos, que o Brasil não é mole não.

Celebrar os 90 anos e Elza é celebrar a energia luminosa que os tronchos monstros não conseguirão apagar da essência do Brasil.

Depois de tão belas homenagens, só se pode dizer que Elza sempre será uma estrela da música e da vida.

Porque cantar, parece com não morrer, é igual a não se esquecer, que a vida é que tem razão

O Trecho é de uma música cantada por Ednardo (composição Ednardo/Climério), cujo título é “Enquanto eu engomo a calça”.

A música parece uma pequena história cantada enquanto o eu lírico engoma sua calça. Cantar parece como algo necessário à sobrevivência… afinal,  o autor diz que cantar parece com “não morrer”. Não diz que cantar é viver, mas sim uma forma de permanecer vivo.

Em seguida, se faz a referência a um “voar maneiro”, que não foi ensinado pelo passarinho, mas pelo pelo olhar do seu amor….

Mas, ao final, há um lamento da vida de artista, que perde um amor para a distância (São Paulo), e o outro amor, pela segurança (representada pelo dentista). 

O interessante é que a canção, pelo que consta, foi feita em menos de 5 minutos, quando Climério estava passando férias na casa de Ednardo, enquanto Rosane (esposa de Ednardo) estava passando (engomando) a calça que estava amassada.

A história é contada no volume 2 do livro de Ruy Godinho, “Então, foi assim?”

ENTÃO FOI ASSIM? (Vol. 2) - Ruy Godinho - A melhor seleção da música  brasileira!

Conta Ednardo:

Em 1978 eu estava passando férias em Fortaleza e convidei o Climério para ficar uns dias junto com a gente. Ele foi e ficou hospedado na minha casa. Coincidiu do Dominguinhos estar fazendo shows na região (…) E coincidiu também que o apartamento em que ele morava era na frente do meu”

E nós pegamos uma aposta naqueles 20 dias de férias para  ver quem fazia mais músicas.

Letras de canciones de EdnardoEdnardo

No final de um destes dias, Ednardo convidou Climério para tomar uma cervejinhas .

“A gente ia saindo, a Rosane, minha mulher, disse assim: ‘Ednardo tua calça está toda amassada. Parece que saiu de dentro de uma garrafa. Deixa eu engomar aqui’ -que lá  no Nordeste o povo diz engomar para o ato de passar a roupa.  Ai eu concordei e permiti que ela engomasse’

Enquanto Rosane engomava a calça, Ednardo afirma que transcorreu o seguinte diálogo.

– Climério, não repare não, mas enquanto engoma a calça vamos fazer mais uma música’?

-Mas uma bem curtinha, fácil de cantar:

-Por que cantar’? ‘

-Por que cantar? Porque parece com não morrer, igual a não se esquecer  que a  vida é que tem razão: ‘

‘Aí, pronto. A música saiu em dois e meio a três minutos. Foi uma das músicas mais rápidas que eu já vi, em melodia e letra. Até o arranjo a gente já pensou na hora. Foi assim que nasceu’:

Ednardo - Ednardo (1979) - Estilhaços Discos

“Tinha um piano na sala, um violão e ali mesmo a gente fez. Essa é a história que eu lembro” conta Climério

Climério Ferreira - Geleia TotalClimério Ferreira

Ednardo, todavia, narra a inclusão da parte final da letra, que só foi introduzida depois.

“‘Tem um trechinho dela que a gente não tinha feito na hora. Eu achei a música muito curta.  E como eu estava lendo o livro Bar do Pedro e Outras Canções,  e eu encontrei esta pérola: ‘ah, mas como é triste vida de artista, depois de perder Vilma pra São Paulo, perder Maria Helena prum dentista.  Incluí e gravei sem o Climério saber. Ele já tinha viajado. Quando eu lancei o disco, já em 1979, eu mandei para ele, que ficou surpreso. “Mas rapaz, você botou outra coisa aqui ? Pois e, mas é sua também.

Em entrevista ao site farofafa, em setembro de 2021, Climério contou de onde vem Vilma e Maria Helena:

Não tinha esses versos na canção original. Ednardo acrescentou para me fazer uma surpresa. Quando eu trabalhava no INPE fiz uma canção chamada “Baderna” – na verdade, uma brincadeira com a despedida dos amigos de projeto. Vilma era a gerente do projeto e, muito competente que era, foi contratada pela editora Abril, indo, portanto pra São Paulo; e, no mesmo tempo, Maria Helena – uma das produtoras de rádio do nosso projeto – casou-se com o dentista que nos atendia em São José dos Campos. Sentindo que o nosso projeto estava sendo desmontado com a saída das pessoas, fiz ‘Baderna’”:

“Baderna” (Climério Ferreira)

Foi a maior baderna

Quando Vilma foi embora

A vida perdeu a perna

A saudade deu o fora

Apagou-se o riso largo

Na boca de quem sorria

E eu fui tomar um trago

No mesmo dia

Ai, pobre de nós

Nós que só vivemos de ilusão

Que temos que ouvir rádio sem voz

E sem imagem assistir televisão

Ah, mas como é triste

Essa nossa vida de artista

Depois de perder Vilma pra São Paulo

Perder Maria Helena prum dentista.

E assim surgiu um clássico da MPB, que continua a ser cantada … afinal, cantar parece com não morrer….

 

Arrepare não
Pois enquanto engomo a calça eu vou lhe cantar
Uma história bem curtinha fácil de contar
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Não foi passarinho
Foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho quando olhou meu coração

Ai, mas como é triste
Essa nossa vida de artista
Depois de perder Vilma pra São Paulo
Perdi Maria Helena pro dentista

domingo 15 agosto 2010 05:44 , em MPB

Fontes:

GODINHO, Ruy. Então, foi assim? vol. 2. Abravideo, 2010

https://farofafa.com.br/2021/09/23/climerio-ferreira/