Antonio Maria e Fernando Lobo e a polêmica parceria em “Ninguém me ama”

Antonio Maria e Fernando Lobo (Pai de Edu Lobo) eram amigos pernambucanos, radicados no Rio de Janeiro. Ambos eram compositores, jornalistas, radialistas. Eles tinham um acordo, segundo o qual eles cederiam reciprocamente a parceria em cada uma de suas músicas.

Antônio Maria E Fernando Lobo - Mpb - Lp - Vinil Ótimo | MercadoLivre

Assim, Fernando Lobo compôs “Preconceito”, que teve um sucesso bem modesto, mas consta a parceria com Antônio Maria.

Porque você me olha com esses olhos de loucura?
Por que você diz meu nome?
Por que você me procura?
Se as nossas vidas juntas
Terão sempre triste fim
Se existe um preconceito muito forte
Separando você de mim
Por que esse beijo agora?
Por que, meu amor, esse abraço?
Se um dia você vai embora
Sem passar os tormentos que eu passo
De que serve sonhar um minuto?
Se a verdade da vida é ruim
Se existe um preconceito muito forte
Separando você de mim

Pai de Edu Lobo e figura notável da música brasileira, Fernando Lobo nascia  há 100 anos | Viver: Diario de Pernambuco
Fernando Lobo

Antônio Maria, por sua vez, compôs um clássico do samba-canção de fossa: “Ninguém me ama”, e deu a parceria a Fernando Lobo.

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa
De fracasso em fracasso
E hoje distante de tudo
Me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando
E eu chegando ao fim.

Ocorre que “Ninguém me Ama” fez um estrondoso sucesso. Ruy Castro, nos livros em que conta a história da Bossa-Nova, inclusive, chega a dizer que a Bossa Nova, com sua praia, mar, sol, barquinhos e leveza, era antítese dos sambas-canções dos anos 50, sendo que “Ninguém me Ama” seria o seu principal símbolo.

Antônio Maria, cronista maior da noite carioca, tinha lábia e porrada -  16/03/2021 - Ilustrada - Folha
Antonio Maria

Renato Vivacqua, pesquisador de música brasileira, conta :

(Fernando Lobo e Antonio Maria) Tinham feito um trato de que cada um cederia a parceria ao outro em determinada música. Fernando aterrissou como gracioso em “Ninguém me Ama” e Antônio entrou na composição “Preconceito” de Fernando. Acontece que “Preconceito” nem deu sinal de vida enquanto “Ninguém me Ama” estourou. Aí Antonio Maria deslumbrado pelo êxito, dedurou que o companheiro não tinha tido participação alguma na feitura da canção. Então foi zarabatana para lá e para cá.

Lobo declarou irônico: “Eu coloquei as vírgulas nos versos. Sou portanto o autor das vírgulas, mas isso só fica bem, dito por mim.”

Maria contra atacava: “A arrumadeira do hotel está indignada com Fernando Lobo. Todos os dias muda a roupa de cama e à noite Fernando deita a cabeça e suja tudo.

“Fernando: “Não estou rompido com Antonio Maria não. Apenas ele é muito gordo, tem muita banha. Afastei-me neste verão, por causa do calor…” Eis o pomo da discórdia:

Pesquisando na internet, achei uma notinha sobre o assunto no Jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 7 de maio de 1958:

PATERNIDADE — Chegamos à conclusão que o sr. Fernando Lobo é um homem injustiçado. Embora êle afirme que foi o autor de “Ninguém me ama”, todos atribuem n paternidade da música a Antônio Maria. Agora que Carlos Machado parece lançar, finalmente, nova produção baseada na “Viúva Alegre”, o sr. Fernando Lobo afirma ter sido êle o autor do musical. Parece que estão todos contra êle, “roubando” suas obras. A respeito comentou uma das “show-glrls” mais bonitas do elenco, Mariza Reynold: “E eu que pensava que o autor de “Viúva Alegre” havia sido Franz Lehar

Fontes: http://memoria.bn.br/pdf/089842/per089842_1958_19971.pdf

http://www.renatovivacqua.com/parceria-e-confraria-na-mpb/

De Palavra em Palavra – Uma homenagem de Paulo César Pinheiro a João Gilberto (e que foi acusada de plágio)

Paulo César Pinheiro é um grande compositor e que se notabilizou por muitas parcerias que construiu na vida. Uma delas é Miltinho, violonista do MPB-4.

Eles se conheceram em torno de 1970, durante uma gravação de um álbum com parcerias de Paulo César Pinheiro com Baden Powell, e na ocasião, Miltinho lhe entregou uma fita com dois sambas de sua autoria. Uma delas tornou-se um belo samba, “Cicatrizes”, lançada por Roberto Ribeiro e mais recentemente gravada por Roberta Sá.

Miltinho e Paulo César Pinheiro

A segunda transformou-se na canção “De palavra em palavra”, a qual, como Pinheiro conta no seu Livro “História das Minhas Canções” (Leya, 2010, p.181-2), remete a João Gilberto e acabou gerando uma certa polêmica. Conta Paulo César:  

A estrutura melódica (do samba que Miltinho lhe enviou numa fita cassete) remeteu-me a João Gilberto, a quem eu já adorava, e resolvi homenageá-lo. Foi uma tarefa complicada e insana. Cismei de construir um mosaico. A letra seria uma colagem de letras do repertório do João. Só que pra isso tinha que caber os versos de Antônio Maria, Vinícius, Tom, Caymmi, Bôscoli, Ary Barroso, Haroldo Barbosa, na música que se me apresentava. E, lógico, o papo tinha que fazer sentido. Destrinchei os discos do cantor. Decorei-os. E partir pra montagem. Fui conseguindo e me empolgando. Termino com um carinhoso abraço no João, motivo de minha admiração maior. Batizar foi relativamente fácil. Um dos grandes sucessos do baiano era o samba de Lucio Alves e Haroldo Barbosa, “De conversa em conversa”, e pra fechar o tributo saquei o “De palavra em palavra” do penúltimo verso. Me deu muito trabalho essa invencionice, mas ficou um primor.

De palavra em palavra

Manhã tão bonita a manhã (Manhã de Carnaval – Luiz Bonfá/Antônio Maria)
E muita calma pra pensar (Corcovado – Tom Jobim)

Eu amei ai de mim muito mais do que devia amar (Amor em Paz – Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
Sim fiz projetos pensei (Só em teus braços – Tom Jobim)
Mas esse mundo é cheio de maldade e ilusão (Saudade da Bahia – Dorival Caymmi)
Pra que trocar sim por não se o resultado é solidão (Discussão – Tom Jobim/Newton Mendonça)

O amor o sorriso e a flor (Meditação – Tom Jobim/Newton Mendonça)
Meu sabiá, meu violão
O que ficou pra machucar meu coração (Pra machucar meu coração – Ary Barroso)

Pois é tantos versos eu fiz (A Primeira vez – Alcebíades Barcelos e Armando Marçal)
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz (Saudade da Bahia – Dorival Caymmi)
Alimentei a ilusão de ser feliz (A Primeira vez – Alcebíades Barcelos e Armando Marçal)

O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (Amor em Paz – Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
Dói no coração de quem sonhou demais (Este seu olhar – Tom Jobim)
Eu vivo sonhando, ai que insensatez (Vivo Sonhando – Tom Jobim/ Insensatez – Tom Jobim/Vinícius de Moraes)

Até você voltar outra vez (Outra Vez – Tom Jobim)

Eu tenho esse amor para dar (Só em teus braços – Tom Jobim)
Agora o que é que eu vou fazer (Doralice – Dorival Caymmi)
Porque esse é o maior que você pode encontrar (Desafinado – Tom Jobim/Newton Mendonça)


Mas de conversa em conversa (De conversa em conversa – Lúcio Alves e Haroldo Barbosa)
Eu só quis dizer de palavra em palavra
João Gilberto um abraço a você
Oba-la-lá (Hô-Ba -La-Lá – João Gilberto)

Historia das minhas canções - Paulo César Pinheiro | Amazon.com.br

Percebe-se, portanto, que a letra é um mosaico  de trechos de canções gravadas por João Gilberto no decorrer da vida. Trata-se de uma samba, estilo bossa nova, mas que não deixou de causar uma polêmica, relatada por Paulo César Pinheiro   

 Tempos depois, Miltinho inscreveu a composição num festival de Juiz de Fora. Um jornalista membro do júri, influenciando a opinião dos outros, desclassificou o samba alegando plágio. Depois de tamanho esforço pra o que eu considero um achado, a visão torta de um crítico soa como uma imbecilidade sem propósito. Porém, são essas as pedras que Drummond detectou no nosso caminho de criação. Já me acostumei com os antolhos alheios.

E pra concluir, o parceiro de Miltinho na música era Maurício Tapajós que eu nem conhecia pessoalmente, e com quem só vim esbarrar em outro momento. Com esse encontro noutra ocasião.

As 33 Parcerias de Paulo Coelho e Raul Seixas – E as duas que Paulo gostaria de ter feito

Entre 1973 e 1978, Raul Seixas e Paulo Coelho compuseram juntos 33 canções, que foram gravadas nos discos de Raul. Com exceção do disco “O Dia em que a Terra Parou”, em 1977, Paulo Coelho foi parceiro de Raul em 5 álbuns, com uma relação muito intensa, mas também com muita competitividade.

Paulo Coelho se manifesta sobre Seixas denunciá-lo à militares na ditadura  - Jornal de Brasília

Mas esta postagem não é para falar das músicas que eles compuseram juntos (cuja lista segue abaixo). Vou falar das músicas compostas por Raul que Paulo Coelho gostaria de ter composto.

No documentário “Raul, o Início, o Fim e o Meio” (2012), Paulo Coelho conta quais seriam as músicas que ele gostaria de ter composto:

A personalidade do Raul é de uma pessoa muito ligada ao destino dos amigos,  muito leal", diz Jotabê Medeiros | GZH

Tem duas músicas que eu gostaria de ter feito, e não fiz: uma é metamorfose ambulante… porra, eu podia ter feito, eu tava ali, ao lado, ele falou e eu disse :”coisa horrorosa, metamorfose ambulante, isso não tá com nada, é uma dessa coisa, não tá com nada. E a outra é a obra prima que é Maluco Beleza (parceria com Cláudio Roberto) . Deixa eu te responder a pergunta que não quer calar . O mais importante parceiro do Raul se chama Raul seixas. era ele com ele, essa dualidade, controlando sua maluquês… (a partir do minuto 7:42 do vídeo abaixo)

1973 – Krig Ha Bandolo 1973

  1. As Minas do Rei Salomão” Raul Seixas / Paulo Coelho
  2. “Al Capone” Raul Seixas / Paulo Coelho
  3. “Rockixe” Raul Seixas / Paulo Coelho
  4. “Cachorro Urubu” Raul Seixas / Paulo Coelho
Krig-ha, Bandolo! – Wikipédia, a enciclopédia livre

1974 – Gita

  1. “Super-Heróis” Raul Seixas / Paulo Coelho 3:11
  2. “Medo da Chuva” Raul Seixas / Paulo Coelho 3:00
  3. “Água Viva” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:02
  4. “Moleque Maravilhoso” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:16
  5. “Sociedade Alternativa” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:55
  6. “Loteria da Babilônia” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:30
  7. “Gîtâ” Raul Seixas / Paulo Coelho 4:50
Gita" (Philips, 1974), Raul Seixas

1975 – Novo Aeon

  1. “Tente Outra Vez” Raul Seixas / Paulo Coelho / Marcelo Motta 2:20
  2. “Rock do Diabo” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:10
  3. “A Maçã” Raul Seixas / Paulo Coelho / Marcelo Motta 3:25
  4. “Caminhos” Raul Seixas / Paulo Coelho 1:45
  5. “Tu És o MDC da Minha Vida” Raul Seixas / Paulo Coelho 3:30
  6. “A Verdade Sobre a Nostalgia” Raul Seixas / Paulo Coelho 2:05
  7. “Caminhos II” Raul Seixas / Paulo Coelho / Eládio Gilbraz 0:45
Discos para descobrir em casa – 'Novo aeon', Raul Seixas, 1975 | Blog do  Mauro Ferreira | G1

1976 – Há 10 mil anos atrás 1976

  1. Canto Para Minha Morte (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  2. Meu Amigo Pedro (Raul Seixas/Paulo Coelho
  3. Ave Maria da Rua (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  4. Quando Você Crescer (Raul Seixas/Paulo Coelho/Gay Vaquer
  5. Eu Também Vou Reclamar (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  6. As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  7. O Homem (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  8. Os Números (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  9. Cantiga de Ninar (Raul Seixas/Paulo Coelho)
  10. Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (Raul Seixas/Paulo Coelho)
Há 10 Mil Anos Atrás - Wikipedia

1978 – Mata Virgem

  1. “Judas” – Raul/Paulo Coelho
  2. “As Profecias” – Raul/Paulo Coelho
  3. “Tá Na Hora” – Raul/Paulo Coelho
  4. “Conserve Seu Medo” – Raul/Paulo Coelho
  5. “Magia De Amor” – Raul/Paulo Coelho
CD Raul Seixas - Mata Virgem - galleryrock

“Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”…. Jorge Maravilha, canção de Julinho de Adelaide (mas que é de Chico)

Julinho de Adelaide foi um personagem fictício que Chico Buarque criou na década de 70 para driblar a censura. Julinho da Adelaide nasceu quando Chico Buarque passou a ser muito conhecido entre os censores do regime militar, na década de 70. Seu nome estava marcado, e suas músicas eram proibidas somente porque Chico era o compositor.

Chico, então, criou um alter-ego, um heterônomo, um sujeito chamado Julinho da Adelaide, supostamente oriundo da fevela da Rocinha. Assim, Chico (ou melhor, Julinho) compôs três canções, em 1973/4, gravadas por Chico: Acorda, Amor (em que o eu-lírico diz para a mulher chamar o ladrão, pois a polícia está chegando), Jorge Maravilha e Milagre brasileiro (em que critica o chamado “milagre econômico”).

A vida curta e gloriosa de Julinho da Adelaide | Pega na Geral

Vou contar aqui um pouco da canção “Jorge Maravilha”, que tem um refrão bem conhecido “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, que, segundo as lendas, seria um recado para a filha do então presidente do Brasil, Ernesto Geisel. 

No livro “História das canções”, Wagner Homem esclarece o fato: 

Para conseguir a liberação. Chico criou novo subterfúgio, que consistia em inserir a parte que lhe interessava misturada a outros tantos textos que não tinham pé nem cabeça. A canção foi enviada à Polícia Federal, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, entre as estrofes abaixo:

A primeira parte não interessava:

Você não entendeu/Que o amor dessa menina/É a chama que ilumina/A minha solidão/O meu amor por ela/É uma cidadela/Construída com paz e compreensão

Aqui vinha a letra da que interessava:

E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca, petisca
Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Depois, mais uma parte descartada:

E o meu amor por ela/É uma cidadela/Construída com paz e compreensão/Somente paz e compreensão/Para sempre paz e compreensão/E eu vou velar por ela/Como uma sentinela/Guardando paz e compreensão/Somente paz e compreensão/Paz sempre paz e compreensão

“Como não havia obrigação de gravar todo texto aprovado, as estrofes inicial e final foram simplesmente excluídas, restando o que de fato interessava.

Os intérpretes de entrelinhas logo vislumbraram na letra uma referência ao general Geisel, cuja filha, Amália Lucy, manifestara admiração pelas obras do autor.

O nascimento de Julinho da Adelaide – MÚSICA BRASILEIRA VIVA: A MPB na  linha de frente

Em entrevista a Tarso de Castro na Folha de S. Paulo, Chico revela a origem da imagem utilizada: “Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança, e no elevador o cara me pedir um autógrafo para a filha dele. Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo de delegado”. Foram vãs as tentativas de esclarecimento, porque até hoje muita gente crê na interpretação fantasiosa.

Respondendo à mesma questão em 2007 para a revista Almanaque, ele diz:

Nunca fiz música pensando na filha de Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado ou de outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhes passaram pela cabeça. Achavam que a maioria dos artistas só fazia música pensando em derrubar o governo. Depois da ditadura, falam que o artista só faz música para pegar mulher. Mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.

Nesse ponto, a letra contém vários subterfúgios para burlar a censura:

a) o pretexto de um diálogo entre o eu-lírico e o pai da filha com quem o sujeito mantém uma relação bem física (aliás, segundo a letra, mais vale uma filha na mão do que dois pais voando);

b) A letra com cacos não utilizados no começo e no final;

c) A composição com o pseudônimo Julinho da Adelaide;

A música passou pela censura e foi gravada. Em 1975, uma  matéria sobre censura publicada no Jornal do Brasil revelaria que Julinho da Adelaide e Chico Buarque eram a mesma pessoa. Por causa dessa revelação, o serviço de censura do Governo Militar passou a exigir cópias do RG e do CPF dos compositores.

segunda 26 janeiro 2015 20:02 , em As lendas

Amor, meu grande Amor

 

“Amor, meu grande Amor” foi o primeiro grande sucesso de Ângela Ro Ro, gravado no seu primeiro disco, em 1979. A letra é de Ana Terra, que sequer conhecia Ângela antes de surgir a letra.

A música fala de características de um amor desejado, talvez idealizado, mas que não se enxerga como eterno (‘só dure o tempo que mereça”).

Ao mesmo tempo, representa uma crença num amor à primeira vista, num desejo de que venha de repente, e que possa, como num passe de mágica, fazer sentir como que dentro de uma bolha, em que o eu-lírico seja “a última e a primeira”

A história da canção, Ana Terra contou a Ruy Godinho, no primeiro volume do seu livro “Então, foi assim?”, bem como numa entrevista no youtube a Rodrigo Faour (https://www.youtube.com/watch?v=PteIxC8_Oso), como a letra foi feita:

Ana terra

Ângela Ro Ro estava selecionando repertório para a gravação de seu primeiro disco, em 1979 e Paulinho Lima empresário dela na época – perguntou para Ana Terra se ela dispunha de alguma letra para Ângela musicar. Ana lembrou-se que tinha algo fresquinho, escrito naquela semana. “Lembro bem que foi numa madrugada em que cheguei meio de porre do baixo Leblon e não conseguia dormir”, comenta.

Ana, na ocasião, já estava separada de Danilo Caymmi, com quem fora casada desde 1973. “Sentia-me muito só. Deseja viver outra vez um grande amor. E eu só acredito em amor à primeira vista, um reconhecimento sincrônico e imediato. Pensava nessas duas energias que se tocam harmonicamente e geram uma terceira força, essa coisa mágica chamada amor. Mas que nunca se pode prever, marcar hora, estabelecer regras, fingir que sente, pensar que sabe”, recorda-se a letrista.

   Mal sabia Ana Terra que, daquele momento de carência afetiva e aflorada solidão estava surgindo mais uma letra que seria sucesso nacional. “Escrevi o que estava desejando naquele momento. Sempre escrevo meus desejos para que eles ganhem forma e força”, afirma revelando-se adepta da neurolinguística, ciência que põe o universo para conspirar em favor dos desejos e metas. “Entreguei-a para a Ângela que tinha uma música com letra em inglês e onde o meu texto se encaixou perfeitamente. Ela gravou e é um sucesso até hoje.”

Angela Ro Ro (álbum) – Wikipédia, a enciclopédia livre
Disco de Ângela Ro Ro em que a canção foi gravada

   Ana diz que é completamente diferente de Ângela, só vindo a conhecê-la pouco antes dela gravar a canção, que foi gravada no LP Ângela Ro Ro, lançado pela Polydor, em 1979.

   Em 1996, a música foi regravada pelo Barão Vermelho.

Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões e as palavras

Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo ou se sou água

Amor, meu grande amor
Me chegue assim bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir o que não sente

Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo

Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira

Enquanto me tiver
Que eu seja a última e a primeira
E quando eu te encontrar
Meu grande amor, me reconheça

Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo

¹Ângela Maria Diniz Gonçalves 05/12/1949 Rio de Janeiro-RJ

² Ana Maria Terra Borba Caymmi 20/5/1950 Rio de Janeiro-RJ

³ Entrevista concedida ao autor, em março de 2006, por e-mail.

Doces Bárbaros: “O seu amor” – Composição de Gilberto Gil

Eu sempre tive uma relação afetiva com a música “o seu amor”, cantada em 1976 pelos Doces Bárbaros (grupo formado por Caetano, Gil, Gal e Bethânia, esta última idealizadora do grupo como forma de comemorar dez anos de carreiras do quarteto baiano).

A música consegue passar uma mensagem política e uma mensagem de amor ao mesmo tempo.

Centrada na frase “O seu amor, ame-o e deixe-o”, é uma evidente mensagem dirigida ao famigerado bordão “Brasil; ame-o ou deixe-o” do governo Médici na década de 70, consegue dizer que havia quem amava o Brasil, e ainda assim  o deixava.

Brasil ame ou deixe o – https://bemblogado.com.br/site/

Este bordão, Ame-o ou deixe-o, nada mais é do que uma cópia do bordão “América: love it or leave it”, de Walter Winchell, um apoiador do Macartismo e a caça aos comunistas nos Estados Unidos.

A letra subverte a lógica da frase:

  1. De uma disjunção exclusiva “Ame-o ou deixe-o” em que a ideia é de quem ama, fica, quem não ama, deixa,
  2. Para uma conjunção, “Ame-o e deixe-o”, quando é possível deixar, mesmo amando (detalhe: Gil e Caetano foram exilados em 1969).

E, assim, além de ser possível amar e deixar, o canto passa a homenagear o amor não egoísta, o amor que preza a liberdade do ser amado, diferentemente de muitos amores possessivos e egoístas, que, sob o pretexto da intensidade de sofrimento, querem o ser amado só para si e transformam a relação numa prisão, em que a obrigação supera o afeto. 

Ame-o e deixe-o livre para amar | Revista Fórum

Sempre gostei do canto do amor verdadeiro, que, mesmo sendo arrebatador, permite que o ser amado ame como liberdade, e não como dever. É também a mensagem da música de Gil. 

No livro “Todas as letras”, de Gilberto Gil e organizado por Carlos Rennó (Cia das letras, 1996), há o comentário sobre a canção:  

A intenção foi brincar com o slogan da ditadura, ‘Ame-o ou deixe-o’, promovendo, através da substituição de uma conjunção, um corte profundo de ruptura no significado reducionista, possessivista e parcial do aforismo oficial, símbolo do fechamento e da exclusão maniqueísta, para criar um outro, com outra moral, a do amor – e, portanto, absolutamente generoso, democrático e libertário. A concepção de ‘amor livre’ é também reiterada, reintroduzida como objeto de respeito e admiração à liberdade no amor, e ampliada até para um sentido mais cristão, de amor irrestrito.

OLHO NA HISTÓRIA: Atividades de História do Brasil - DITADURA MILITAR OU  REGIME MILITAR

 Minimalista já na escolha de uma máxima tão concisa e conclusa, a letra também o é na construção – na maneira como suas significações se sobrepõem como degraus de uma escada tosca, de pedreiro, somando-se com certo desejo geométrico e uma ambição de organização aritmética de fatores numa conta de adição feita com números muito simples”

A música depois foi gravada por Gil, no seu disco Gil Luminoso, e por Caetano e seus filhos, no disco Ofertório

 O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor 
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser 
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é

Todas as letras, Cia das letras, 1996

sábado 07 agosto 2010 13:50 , em MPB

O Toque de Silêncio (TAPS). A lenda por trás de uma das canções militares mais conhecidas

É comum, em cerimônias militares, que seja tocada uma canção, chamada de “Toque de Silêncio”, também conhecida como “Taps”. A referida canção tem uma história de composição relativamente simples, mas se criou uma versão melodramática que circula pela internet e pelas redes sociais sobre o tema.

Eis a versão:

Tudo começou em 1862 durante a Guerra Civil, quando o Capitão do Exército da União, Robert Ellicombe, estava com seus homens perto de Harrison’s Landing, na Virgínia. O Exército Confederado estava do outro lado da estreita faixa de terra.

Durante a noite, o Capitão Ellicombe ouviu o gemido de um soldado que estava mortalmente ferido no campo. Sem saber se era um soldado da União ou da Confederação, o capitão decidiu arriscar a vida e trazer o ferido de volta para atendimento médico.

Rastejando sobre o estômago através do tiroteio, o capitão alcançou o soldado atingido e começou a puxá-lo em direção ao acampamento. Quando o capitão finalmente alcançou suas próprias linhas, ele descobriu que era na verdade um soldado confederado, mas o soldado estava morto.

O capitão acendeu uma lanterna.

De repente, ele recuperou o fôlego e ficou entorpecido pelo choque. Na penumbra, ele viu o rosto do soldado. Era seu próprio filho. O menino estava estudando música no Sul quando a guerra estourou. Sem contar ao pai, ele se alistou no Exército Confederado.

Na manhã seguinte, com o coração partido, o pai pediu permissão a seus superiores para conceder a seu filho um enterro militar completo, apesar de seu status de inimigo.

Seu pedido foi parcialmente atendido. O capitão perguntou se ele poderia fazer um grupo de membros da banda do Exército tocar uma canção fúnebre para o filho no funeral.

Esse pedido foi recusado porque o soldado era um confederado. Por respeito ao pai, eles disseram que poderiam dar-lhe apenas um músico.

O capitão escolheu um corneteiro. Ele pediu ao corneteiro que tocasse uma série de notas musicais que encontrara em um pedaço de papel no bolso do uniforme de seu filho morto. Esse desejo foi atendido. Essa música era a melodia assustadora que agora conhecemos como “Taps”, usada em todos os funerais militares.

A história, todavia, é bem mais simples, e esclarecida pelo site snopes.com:

‘Taps’ foi composta em julho de 1862 em Harrison’s Landing, na Virgínia, mas, além desse fato básico, a peça fantasiosa citada acima de forma alguma reflete a realidade das origens daquela melodia.

Não havia filho morto, confederado ou não; nenhum corneteiro solitário sondando a última composição do menino morto. O modo como o chamado surgiu nunca foi nada mais do que um soldado influente decidindo que sua unidade poderia usar um toque de clarim para ocasiões particulares e se preparando para inventar um.

Se alguém pode dizer que compôs ‘Taps’, foi Brig. Gen. Daniel Butterfield, Comandante da 3ª Brigada, 1ª Divisão, V Corpo de Exército, Exército do Potomac, durante a Guerra Civil Americana. Insatisfeito com o disparo habitual de três tiros de rifle na conclusão dos enterros durante a batalha e também querendo um toque de clarim menos severo para sinalizar cerimonialmente o fim do dia de um soldado, ele provavelmente alterou uma peça mais antiga conhecida como “Tatuagem”, um toque de clarim francês usado para sinalizar “luzes apagadas” na chamada que agora conhecemos como ‘Taps’.

Convocando o corneteiro de sua brigada, o soldado Oliver Willcox Norton, para sua tenda em uma noite de julho de 1862, Butterfield (tenha ele escrito ‘Taps’ direto do punho ou improvisado algo novo reorganizando uma obra mais antiga) trabalhou com o corneteiro para transformar a melodia em sua forma atual. Como o soldado Norton escreveu mais tarde sobre a ocasião:

O general Daniel Butterfield … mostrando-me algumas notas em um cajado escrito a lápis no verso de um envelope, pediu-me para tocá-las no clarim. Fiz isso várias vezes, tocando a música conforme escrita. Ele mudou um pouco, alongando algumas notas e encurtando outras, mas mantendo a melodia como ele primeiro a deu para mim. Depois de obtê-lo de forma satisfatória, ele me orientou a soar aquela chamada para ‘Taps’ depois disso, no lugar da chamada regulamentar. A música era linda naquela noite tranquila de verão, e foi ouvida muito além dos limites de nossa brigada. No dia seguinte, fui visitado por vários corneteiros de brigadas vizinhas, pedindo cópias da música, que forneci com prazer. Acho que nenhuma ordem geral foi emitida pelo quartel-general do exército autorizando a substituição desta pela chamada de regulamento,

‘Taps’ foi rapidamente assumido por ambos os lados do conflito e, em poucos meses, estava sendo soado por corneteiros das forças da União e da Confederação.

Então, como agora, ‘Taps’ serve como um componente vital nas cerimônias de homenagem a militares mortos. Também é entendido pelos militares como um sinal de fim do dia de ‘luzes apagadas’.

Quando “Taps” é tocado em um funeral militar, o protocolo exige que os militares façam continência se estiverem uniformizados ou coloquem a mão sobre o coração, caso não estejam .

Fonte: http://www.snopes.com

Ô coisinha tão bonitinha do pai….

Almir de Souza Serra quase ninguém conhece. Ele tinha um apelido, Almir Magnata. Depois, de magnata virou Almir Guineto. Ele integrou um grupo musical que fez sucesso nos anos 60, chamado Originais do Samba (Mussum talvez seja o membro mais conhecido do grupo). Atribui-se a Guineto, , inclusive, a introdução do Banjo em grupos de samba (objeto de controvérsia, que não cabe tratar aqui, por enquanto). O certo é que Almir teria uma forma particular de tocar banjo, cujo volume, ao contrário do cavaquinho, era capaz de soar mais alto junto aos instrumentos percussivos.

Compacto 7" - Os Originais Do Samba ‎– Os Originais Do Samba

Almir, carioca do morro do Salgueiro, teve que se mudar para São Paulo junto com o grupo Originais do Samba. E morava numa casa com vários homens. Ali surgiu “Coisinha do pai”, que é contada por Ruy Godinho, no volume 1 de seu livro “Então, foi assim?”

“Eu comecei a fazer na Rua Aurora, 544 apto 105, eu e o Luiz Carlo Chuchu. Nós morávamos juntos no apartamento do meu irmão Chiquinho, que era um dos integrantes dos Originais do Samba, no tempo do Mussum. E ali só morava homem: Eu, Chiquinho, Luiz Carlos Chuchu e Lelê, que também fazia parte do grupo. Cada dia era um que fazia a comida ou a limpeza. E nesse dia era meu dia de limpar. Eles até brincavam: ‘hoje a Raquel é você!’ cada um tinha o seu dia de sofrimento. E, de madrugada, eu, embriagado como sempre, pintou essa música: “Ô coisinha tão bonitinha do pai/ô coisinha tão bonitinha do pai…”

Homenagem Almir Guineto - Marcinho Moreira [ SÓ NO BANJO ]
Almir Guineto

Eu fiz a primeira parte. Aí o Luiz Carlos, que é um compositor muito bom, botou a segunda parte: “Você vale ouro todo o meu tesouro/Tão formosa da cabeça aos pés”

O Beto Sem Braço era o parceiro que iria fazer a terceira parte, já estava até na cabeça dele. Mas o Jorge Aragão ouviu a gente cantar e e pediu para botar a terceira parte, em homenagem à filha dele que tinha nascido: Vou lhe amando lhe adorando/Digo mais uma vez/Agradeço a Deus por que lhe fez

Assim, despretensiosamente, o samba caiu no colo de Beth Carvalho, que a gravou em 1979, no disco “Pagode”. Foi um sucesso absoluto. A letra, que inicialmente sugere uma relação de admiração pela mulher, no aspecto sensual, termina por desembocar numa relação de amor pai-filha, indicada nos versos finais de Jorge Aragão.

 

Flor de Lis/Djavan – A lenda de que teria sido feita para uma filha que morreu no parto

A mulher e a filha de Djavan morreram durante o parto? Mais cedo ou mais tarde você vai receber uma mensagem com essa, entre tantas lendas que circulam pela internet. Estas histórias circulam pela rede com a mesma intensidade que nossos avós falavam da mula-sem-cabeça… Os autores da lenda buscam dar credibilidade à história citando alguma suposta fonte (que ninguém se dá ao trabalho de conferir), e essa notícia se espalha e as pessoas começam a citá-la como verdade. 

Djavan – Flor De Lis (1987, CD) - Discogs

Uma dessas lendas do ciberespaço diz respeito ao primeiro sucesso de Djavan, Flor de Lis, gravado no seu primeiro álbum: A voz, o Violão, em 1976. Ninguém sabe ao certo como e onde ela surgiu, mas o certo que antes da internet ela não existia…

Segundo circula na internet, Djavan era casado com uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas sua mulher teve um problema na hora do parto e ele teria que optar por sua mulher ou por sua filha…. seguindo a lenda, Djavan teria pedido ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas, mas o destino foi duro e a mulher e a filha faleceram no parto. Essa seria a inspiração de Flor de Liz.

Djavan, no Palco MPB, em novembro de 2010, esclareceu a história:

“Existe uma explicação na internet completamente falsa, nada daquilo jamais aconteceu, não é uma experiência pessoal, é uma invenção. De um modo geral a minha composição não fala de mim mesmo. É claro que eu não posso negar que está embutido ali coisas da minha experiência de vida, até coisas que aconteceram realmente, mas não são autobiográficas, de modo algum, essa não é a intenção. (…) E a explicação que deram pra “Flor de Lis”, que eu tive uma mulher, que deu a luz a uma criança, e a mulher morreu no parto, isso é de uma imaginação incrível, Muitas vezes  Minhas canções, embora tenham algo de mim, não possuem intenção autobiográfica. A primeira vez que eu li isso eu fiquei assustado. As pessoas realmente tem muita criatividade”.

O boato na imagem abaixo

flor de lis | Segura o Picumã

Mas o mais incrível é que gente na internet divulga, e ainda diz que pouco importa que seja verdade ou não, alguns dizem que a “história é linda, mesmo que não seja verdadeira”.  

Djavan efetivamente teve uma esposa chamada Maria: Maria Aparecida dos Santos Viana, com quem viveu entre 1972 e 1998. Mas ela está bem viva, e estava com o cantor quando do lançamento da música.

Em 2013 o cantor contou, numa entrevista ao programa Viva Voz, falando de  sua intenção com a letra:

Eu nunca tive por essa música uma impressão de tristeza, embora ela fale sobre um grande amor que não aconteceu. É uma música que conta uma história, de maneira leve, e a conclusão é isso [E o meu jardim da vida ressecou, morreu/Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu…]com o refrão], mas ele não está se lamentando. Ele está concluindo a história que acabou de contar. É a enésima vez que eu estou falando, nunca aconteceu nada disso, essa música nem mesmo fala de uma experiência pessoal…

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“Flor de Lis”

“Valei-me, Deus! É o fim do nosso amor

Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu.

Mas não sei o que fez, tudo mudar de vez.

Onde foi que eu errei?

Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei.

Será talvez que a minha ilusão, foi dar meu coração,

com toda força, pra essa moça me fazer feliz,

e o destino não quis, me ver como raiz de uma flôr de liz.

E foi assim que eu vi nosso amor na poeira, poeira.

Morto na beleza fria de Maria.

E o meu jardim da vida ressecou, morreu.

Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu.

E o meu jardim da vida ressecou, morreu.

Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu…

Originalmente publicada em janeiro de 2011. – Flor de lis – a lenda

Poema. A canção póstuma de Cazuza…

Cazuza tinha um grande amor por sua avó paterna, Maria José. Segundo conta Lucinha Araújo, mãe do cantor (Só as mães são felizes , Globolivros, 2004) ela era uma das válvulas de escape do artista, em cuja casa de Vassouras ele passou as férias dos 3 aos 15 anos. Relata que na casa da avó Cazuza era era tratado como um príncipe, cercado de todos os mimos.

A avó materna de Cazuza, a Vó Lice, morreu quando Cazuza tinha 17 anos. Ele, então, fez um poema, cujos versos estão gravados hoje no túmulo de sua avó:

Você foi embora

deixou vazia a casa

o riso num álbum de fotografias

e aquela imagem de Santa Rita…

e eu fiquei lá fora

brincando de cidade deserta

chupando manga

pedindo um beijo…

e agora é a velha história

você virou saudade

daqueles tempos de carochinha

daquela vida que eu inventei

daquela reza que decorei…

agora eu vou vivendo

no mundo sem sonho ou lenda

e só de noite, quando me lembro

eu sinto um troço no meu peito

e durmo…

Seu neto

Lucinha Araújo, tanto no Livro “O Tempo Não Para – Viva Cazuza”, quanto em entrevista a Pedro Bial (https://globoplay.globo.com/v/6643455), conta que a avó paterna de Cazuza disse, então, que ele não esperasse que ela morresse para que recebesse um poema dele, pediu para que ele desse a ela um poema enquanto ela estivesse viva. Numa tarde, Cazuza presenteou sua avó com este poema.

Depois da morte de Cazuza, sua mãe (Lucinha Araújo) começou a fazer um acervo com o material pertencente ao filho. Ela sabia que sua sogra guardava com carinho o poema escrito pelo neto, e pediu a ela o poema, para que fizesse parte do acervo. Mas a avó de Cazuza recusou, pois disse que não poderia entregar um presente.

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Após o falecimento de Maria José, as cunhadas, filhas de Maria José, ´perguntaram se Lucinha desejaria alguma lembrança dela. Lucinha pediu então as fotos que ela tinha com Cazuza e alguns LP’s autografados, e tinha um papel dobrado, escrito “poema para Maria”.

Tornada conhecida 23 anos depois, Lucinha ligou para Roberto Frejat (parceiro musical de Cazuza com quem fazia parte na Barão Vermelho), perguntando se ele aceitava idealizar uma música a partir do poema. Frejat atravessou uma noite e transformou o poema em música.

A pessoa escolhida para cantar não poderia ser outra senão Ney Matogrosso, grande responsável pelo boom da carreira do Barão vermelho, com “pro dia nascer feliz”, em 1985. Ney gravou a canção em 1999, no seu álbum “Olhos de Farol”. É, inclusive, a canção mais tocada na voz de Ney.

Eu hoje tive um pesadelo

E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás