A velha polêmica Chico x Caetano…

Caetano e Chico admiram-se mutuamente. São dois grandes artistas, verdadeiros símbolos daquilo que se convencionou chamar MPB, estilo musical que pode ser considerado um filho da bossa nova e dos festivais. Antes de se tornarem astros centrais da música popular brasileira, Caetano e Chico participavam – como principais rivais e concorrentes – do programa Esta noite se improvisa, da TV Record, em meados da década de 60 em que ambos disputavam quem tinha melhor memória musical.

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Ambos apareceram como grandes protagonistas dos festivais. Chico Buarque, no começo de sua carreira, era conhecido pelo seu sucesso “A banda“, vencedor, junto com Disparada (Geraldo Vandré), do Festival da Música Brasileira, realizado pela Record, em 1966. Caetano Veloso, no ano seguinte e no mesmo festival, apesar de não ser o vencedor, provocou um enorme rebuliço com “Alegria, Alegria“, que ficou em quarto lugar. O próprio Caetano, no seu livro Verdade Tropical,  admite que “Alegria, Alegria” é uma espécie de antítese de “A banda“. A música causou o maior repercussão pois já era tropicalista, uma fusão do som brasileiro com a guitarra elétrica, tão combatida na década de 60 por ser uma espécie de símbolo do imperialismo americano.

A vencedora do Festival em 1967 foi Ponteio, de Edu Lobo, mas com grande destaque para a música de Gilberto Gil, Domingo no Parque,  a segunda colocada, e Roda Viva,  de Chico, que ficou em terceiro lugar.

Mais adiante, ambos protagonizaram vaias, no Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, em 1968.Caetano, com sua provocativa apresentação de É proibido proibir, e a famosa entrada em cena de um hippie americano que dançava de maneira não usual e falava coisas desconexas, em inglês. A vaia foi tamanha que Caetano, acompanhado pelos Mutantes, não conseguia mais cantar, até que, em determinado momento, Caetano parou de gritar e fez um famoso discurso que chegou a ser gravado em disco e chegou a ser tema de vestibular.

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Chico Buarque, no mesmo festival, inscreveu uma linda música, Sabiá, em parceria com Tom Jobim, que foi vencedora, em detrimento de Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, mais do que manifesto, uma palavra de ordem contra a ditadura.

Surgem, então, as manias de etiquetar próprias da mídia, pois Chico Buarque foi classificado como um novo Noel Rosa, um homem refinado, de esquerda, e que alguns radicais entendiam como musicalmente conservador. Lembro-me (na verdade, não me lembro, pois nasci na década de 70 e não acompanhei pessoalmente a questão), ou melhor, lembro-me de ter lido uma resposta de Tom Zé, quando questionado sobre sua opinião acerca de Chico Buarque: “a gente tem que respeitar muito o Chico Buarque, afinal, ele é o nosso avô“.

Caetano era tido, pela maioria do “pensamento universitário de esquerda”, pelo menos até ser preso pela ditadura militar, como um alienado, um vendido, um descomprometido com causas sociais. E, no seu livro  Verdade Tropical, Caetano comenta como a mídia tratava a polêmica:

Uma moça simpática, entrevistando-me para a revista InTerValo (com T e o V maiúsculos indicavam ser uma publicação especializada em televisão), perguntou-me como eu via a diferença entre mim e Chico. Eu, estimulado pela oportunidade – e crendo que minha “aula” ia ser publicada -, expliquei-lhe que o que eu fazia era expor o aspecto de mercadoria do cantor de TV. Que tanto eu quanto Chico estávamos dizendo muitas coisas com nossas canções, mas que, do ponto de vista da televisão, eu era um cara de cabelo grande e Chico um rapaz bonito de olhos verdes; e que quanto mais desmascarado estivesse esse jogo, mais nossas canções e nossas pessoas estariam livres. Poucos dias depois saiu a reportagem com minha declaração sumária de que “Chico Buarque não passa de um belo rapaz de olhos verdes”.

A partir da década de 60, iniciou-se uma dicotomia, na qual fãs de Chico buscam diminuir a obra de Caetano, e vice-versa, como se o reconhecimento de um representasse a negação do reconhecimento do outro.

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Apenas citar dois exemplos, tirados de alguns blogs na internet:

Quem prefere Caetano:

“Prefiro Caetano a Chico por duas razões: suas músicas são mais complexas e líricas (o Chico é bem direto sempre) e a Tropicália, movimento musical que quebrou os parâmetros da esquerda burra. Além disso, Caetano não vive do passado, está sempre em busca de novidades e é bastante antenado. Já citou de Racionais a funkeiros em seus discos e shows. Relembrou a música brega do ótimo Peninha com “Sozinho” (ao ponto de me deixar p. da vida com o tanto que a música bombou). Embora seja superintelectual, ele sabe como transitar em todas as áreas.” (http://cinthyasamsa.blogspot.com/2009/07/cartola-e-caetano.html)

Quem prefere Chico

“Aliás, ultimamente, Caetano só faz sucesso com composições dos outros: “Sozinho” do Peninha e “Você não me ensinou a te esquecer” de Fernando Mendes. Aliás, estas músicas são tudo ao contrário do novo e ainda carregadas de tintas da breguisse. Pra quem acha que Chico só faz letras com qualidade (o cronista disse que Chico é medíocre musicalmente), é bom lembrar que ele ganhou o Festival da Record com a “Banda”, de autoria só dele – coisa que Caetano nunca conseguiu, pelo menos em festivais de renome como o da Record. “Carolina” é só dele; assim como são as letras e músicas de “Quem te viu, quem te vê”; “Olê, Olá”; “Roda Viva”; “Noite dos mascarados”; “Folhetim” todas de ótima musicalidade, além de outras centenas. Daqui a cem anos – podem ter certeza – que a “Banda” e “Folhetim” serão tocadas em quaisquer FM da vida – gravadas por qualquer pop star – ao contrário de Haiti, “Tieta” e “Leãozinho” que já não tocam nem em Santo Amaro da Purificação, cidade de Caê. (http://www.dm.com.br/materias/show/t/chico_versus_caetano)

Na verdade, costuma-se associar Chico a uma refinada evolução do samba, de uma tradição que vem de Noel e da bossa nova, grande letrista, ou, como disase certa vez Tom Jobim, “depositário da cultura popular brasileira”. Quem gosta, reconhece todo o mérito, mas quem não gosta, termina por predicar Chico como musicalmente conservador, que se resume a resgatar e fazer releituras sobre gêneros musicais do passado, ou, no aspecto político, alguém que se tornou chato pelas suas canções engajadas.

Caetano Veloso, por sua vez, é identificado com a ousadia, com suas figuras de linguagens incomuns, como um reinventor e descobridor de ritmos, sendo capaz de extrair musicalidade de onde o senso comum não espera, de emprestar dignidade a letras e sons tidos como “vagabundos” (no aspecto, a repercussão da abertura do show no festival de verão de 2010, quando cantou Cole na Corda, música da banda de pagode Psirico). Mas quem não gosta, associa Caetano como um vaidoso polêmico que resvala para o brega, quando não se aborda a suposta alienação política de suas canções.

Na verdade, essa comparação, essa polêmica serve apenas e tão somente para demonstrar o quão grandes são estes dois compositores. Mas aqui, como Vinícius dissera no disco que gravara em homenagem aos dez anos de parceria com toquinho, não gosto de critérios competitivos. Eles são diferentes e admiráveis.

Gosto de Chico, as tristezas imensas de Pedaço de mim, Trocando em miúdos e Todo sentimento, parece que ele personifica o personagem quando canta… me impressiona em Futuros amantes, quando alguém faz uma música a partir de uma ideia de escafandristas (“E quem sabe, então/O Rio será/Alguma cidade submersa/ Os escafandristas virão/Explorar sua casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos”), gosto muito de “Se eu fosse seu patrão”, da Ópera do malandro,  e Quem te viu, quem te vê, como a crônica de um sambista que viu sua cabrocha virar madame.

Gosto também de Caetano, fico admirado com letras como Língua e O quereres, me impressiono a simplicidade absolutamente linda de Cajuína (“Existirmos, a que será que se destina”), gosto muito de Vaca Profana, e me emociono toda vez que ouço Alguém cantando.

Preferi, propositadamente, escolher cinco músicas de cada um, a partir de uma escolha afetiva, impulsiva e instantânea. Não me importa, na hora que ouço tais músicas, fazer uma análise histórico-sociológico-musical, mas sim ouvi-las, senti-las. Agora já, me lembro de outras músicas de Caetano e Chico, que me escapara nessa lista de preferidas, que é sempre incompleta, sempre mutável.

Interessante ponderação faz Priscila Gomes Correia, nos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP – USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008, em relação aos manifestsos de Chico e Caetano, nos seus primeiros discos. Caetano diz, em 1967: “a minha inspiração não quer mais viver apenas da nostalgia de tempos e lugares, ao contrário quer incorporar essa saudade num projeto de futuro”. Chico, por sua vez, em 1966: “melodia e letra devem formar um só corpo (…). Por outro lado, a experiência em partes musicais (sem letra) para teatro e cinema provou-me a importância do estudo e da pesquisa musical, nunca como ostentação e afastamento do ‘popular’, mas sim como contribuição ao mesmo”

Nelson Motta, em seu livro Noites Tropicais, faz referência ao show que gravaram em 1972 no Teatro Castro Alves,

“Chico vive seu melhor momento criativo e transforma-se, contra a vontade, num herói da resistência. Mas ainda é visto e ouvido e discutido como oposto a Caetano, a quem os admiradores de Chico acusam de  individualismo internacionalizado, de fazer o jogo da direita. Já os fãs radicais de Caetano consideram Chico um tradicionalista e populista, um atraso para a revolução socialista libertária. Os dois se incomodam com as divisões, que consideram injustas e estúpidas.

A melhor maneira de acabar com as polêmicas foi a mais bonita, a que eles encontraram, sob o sol de verão na Bahia: um show dos dois no Teatro Castro Alves, para ser gravado e transformado no disco Chico e Caetano -juntos e ao vivo. Um cantando músicas do outro, os dois cantando juntos. Show e disco tiveram extraordinário impacto e sucesso, o encontro foi uma das melhores notícias que o Brasil recebeu num ano de poucas boas, de escalada da luta armada e da repressão, da tortura e da intolerância. Para mim a questão do “um ou outro”, por todos os motivos, artísticos, políticos e afetivos, nunca existiu. Sempre os considerei complementares e indispensáveis. O encontro histórico teve especial repercussão entre os fãs radicais de Chico e de Caetano nas esquerdas brasileiras, nos muitos grupos e tendências em que se dividiam. Juntos e ao vivo era, além de um extraordinário encontro de dois grandes artistas muito diferentes, uma metáfora de união e de tolerância, da harmonia por contraste.”

Tolerância… parece que o bom gosto é sempre o nosso gosto, que o gosto do outro não presta. Caetano e Chico, dois grandes que passam alheios às discussões de seus fãs. Basta ver o que cada um diz do outro. Chico Buarque, no seu site: (www.chicobuarque.com.br):

“Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo. Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. ”

“Eu sou inteiramente diferente dele. Por isso mesmo que a gente se entende bem. Essa história desse Fla-Flu que se criou… Eu até comentei com ele esses dias… é uma coisa artificial. Vai ser difícil me jogar contra ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido continuamente. Mas eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou que o Caetano faça as minhas músicas. Acho bom que ele faça as dele e que eu faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A nossa formação é comum: a bossa-nova. Mas a cabeça dele é…. da minha. Eu me entendo com ele e acho que a minha música se entende com a dele também. “

Caetano, em duas passagens

“Às vezes penso que minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque. Mas é uma perseguição amorosa. E tem dado tão bons resultados já faz tanto tempo, que desta vez, ao contrário do que aconteceu com “Você não entende nada” – música que nomeei “Sem açúcar” (parafraseando “Com açúcar, com afeto”) porque à época julgavam haver entre nós uma rivalidade reles -, não temi pôr o nome “Pra ninguém” na canção que, como o “Paratodos” de Chico, lista virtudes de colegas. Chorei tanto quando Chico, em sua casa, me mostrou “Paratodos”, que estava certo de nunca fazer nada para macular esse sentimento.” (release do disco “Livro”)

“O Chico é deslumbrante, ele é bom improvisador, é rápido em rima, tem um talento para poesia inacreditável” (Numa entrevista à Jô Soares).

Mas o quanto ainda vai se escrever sobre os dois….

O samba nasceu na Bahia?

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em fevereiro de 2010

Ainda hoje há quem insista numa polêmica, em certa medida ultrapassada, sobre a origem do samba. Engraçado que a frase de samba da bênção, de Vinícius de Morais, diz “Porque o samba nasceu lá na Bahia”… e a partir daí, começam debates, amiúde  apaixonados e maniqueístas, em que se enaltecem as características de um e se deprecia as características do outro. Por exemplo, no site http://www.samba-choro.com.br, há um comentário, em certa medida indignado, pelo fato do samba de roda da Bahia ter sido, em novembro de 2005, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco, e o samba do Rio não ter sido. “O samba carioca, sem dúvida, o que reflete melhor a história e os costumes brasileiros. No entanto, só nós sabemos disso. Os gringos só sabem que a gente rebola.” Na verdade, dizer que o samba do Rio melhor reflete a história e os costumes brasileiros, comparado com o samba da Bahia, não parece ter nada a ver com o samba em si, mas pelo fato de que, quando o samba surgiu, o Rio de Janeiro era a capital federal.

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Parece que o samba do Rio, do morro e da Escola de samba, reflete uma identidade carioca para o Brasil, assim como o samba da Bahia, menos onipresente do que o samba no Rio de Janeiro, reflete uma identidade cultural do Recôncavo Baiano, identidade esta que nem é própria de todo o Estado da Bahia (de dimensões muito maiores e com vários tipos de identidades culturais), e nem é exclusiva, pois se identifica a Bahia com outros ritmos. Segundo diversas fontes de pesquisa, o samba de roda da Bahia é mais antigo, surgido por volta de 1860, como manifestação da cultura dos africanos que vieram para o Brasil. Tendo suas origens no recôncavo, na Região onde ficam os Municípios de Santo Amaro e Cachoeira, na Bahia. Costuma dizer que “A manifestação está dividida em dois grupos característicos: o samba chula e samba corrido. No primeiro, os participantes não sambam enquanto os cantores gritam a chula – uma forma de poesia. A dança só tem início após a declamação, quando uma pessoa por vez samba no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já no samba corrido, todos sambam enquanto dois solistas e o coral se alternam no canto.”

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O ritmo, todavia, se espalhou por várias partes do país, chegando, entre fins do século XIX e Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, Capital Federal, apropriou-se de algumas características do samba baiano original e agregou outras, adquirindo forma, ritmo e identidade próprias, de modo que hoje existe uma identificação quase imediata do samba com o Rio de Janeiro (assim como a Bossa Nova se identifica com o Rio de Janeiro, apesar de um dos seus criadores – João Gilberto e sua batida de violão, sem a qual não haveria bossa nova – ser baiano, e baiano de Juazeiro, da Região do  Rio são Francisco).

Vinícius de Morais, em dois artigos reunidos na coletânea Samba Falado, organizado por Miguel Jost, Sergio Cohn e Simone Campos, trata da origem baiana do samba carioca:

“O samba nasceu do êxodo dos negros baianos para o Rio de Janeiro. No antigo mercado, eles ficavam executando seus ritmos e cantando suas melopeias, dançando e batendo palmas. Essa é a forma primitiva da ‘batucada’ – o conjunto de instrumentos de percussão que posteriormente se iria instalar nas janelas de morros, com a população mais pobre da cidade”

E se uma personagem baiana se destaca, entre aquelas que foram para o Rio de Janeiro: é a santamarense Tia Ciata, nascida Hilária Batista Almeida, cuja história é relatada em obra de Roberto Moura “Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro” (FUNARTE, 1983).  No aspecto, a  referência:

“Na sala (da casa de Tia Ciata), o baile onde se tocavam os sambas de partido entre os mais velhos, e mesmo música instrumental quando apareciam os músicos profissionais, muitos da primeira geração dos filhos dos baianos, que freqüentavam a casa. No terreiro, o samba raiado e às vezes as rodas de batuque entre os mais moços. (…) As grandes figuras do mundo musical carioca, Pixinguinha, Donga (filho de mãe baiana), João da Baiana (idem), Heitor dos Prazeres (também filho de mãe baiana), surgem ainda crianças naquelas rodas onde aprendem as tradições musicais baianas a que depois dariam uma forma nova, carioca.” (pág. 103)

Vinicius de Morais faz uma referência semelhante:

“O samba verdadeiro nasceu dos Terreiros circunvizinhos da antiga Praça XI, sobretudo no de uma negra baiana chamada Tia Ciata. Esse terreiro Pixinguinha, Donga, João da Baiana conheceram quando meninos. Foi ali que se desenvolveu e onde foi criada a forma primitiva do choro, do qual Pixinguinha é o maior mestre, e onde foram criados os primeiros sambas do populário carioca, feitos para saíremn no carnaval”

Tamanha foi a importância das Baianas (Tia Perciliana, Tia Amélia, etc.), que as escolas de samba do Rio de Janeiro até hoje desfilam a Ala das Baianas, em sua homenagem. No entanto, assim como a partir do trio elétrico o frevo pernambucano ganhou um novo formato nos carnavais da Bahia, o samba carioca logo adquiriu características próprias que o identificam claramente com o Rio de Janeiro. Francisco Bosco, na excelente obra sobre Dorival Caymmi, analisa as distinções entre o samba baiano e o samba carioca:

“Ora, o samba baiano não é um samba malandro, sua forma não traduz esteticamente o ethos da malandragem, já que esse ethos, pelo menos em sua configuração mais definida, é típico da formação social do Rio de Janeiro. Como já foi indicado, o samba baiano é atravessado pela religiosidade, é melodicamente diferente do samba carioca (embora seja difícil elucidar teoricamente essa diferença, que soa tão clara aos ouvidos), e ainda é ritmicamente diferente, pois a síncope não possui o mesmo sentido nas duas tradições”

Discutir, então, se o samba nasceu na Bahia não faz do samba carioca menos rico ou menos autêntico. Na verdade, foi como ritmo por excelência do Rio que o samba transformou-se num ritmo “nacional”, enquanto na Bahia o samba-de-roda divide atenções com outros ritmos e manifestações musicais baianas.

P.S. O termo ethos significa, de um modo geral, “os traços característicos de um grupo, do ponto de vistasocial e cultural, que o diferencia de outros. Seria assim, um valor de identidade social

Dezessete e setecentos

Dezessete e setecentos

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Não se fazem mais músicas como essa. Essa Música é de Luiz Gonzaga e Miguel Lima, e dá origem à própria carreira de cantor de Luiz Gonzaga. Diz o próprio sítio oficial de Luiz Gonzaga (www.luizluagonzaga.com.br): “Nessa época (1943), irritado com a interpretação dada por Manezinho Araújo para a sua “Dezessete e Setecentos”, parceria com Miguel Lima, o sanfoneiro passa a cantá-la. Chovem cartas pedindo que ele continue cantando e a RCA acaba se convencendo a deixá-lo gravar com sua voz.”

Essa música me leva a uma reflexão. Numa época em que continuam pululando canções de amor, quando não descambam em alguns casos para a sexualidade explícita – bem interessante é cotejar a música Canção de Protesto, de Caetano (De minha parte/Às vezes não aguento/Noventa e nove e um pouco mais por cento/Das músicas que existem são de amor/E quanto ao resto) com a conhecida Silly Love songs,  de Paul McCartney (You’d think that people would have had enough of silly love songs. But I look around me and I see it isn’t so.), todas as pessoas que conheço, ao ouvir a antiga música Dezessete e setecentos, de Luiz Gonzaga, inevitavelmente abrem um sorriso, gostam dela, querem ouvi-la de novo.

Fico imaginando o momento de criação dessa música, um matuto, achando-se o senhor da matemática, “metido a besta”, como se fala no Nordeste, que acha que, pagando vinte mil-réis uma conta de três e trezentos o troco seria de dezessete e setecentos, enquanto o comerciante afirma, de modo categórico, “dezesseis e setecentos”. O “cabra” acredita piamente que a sua conta está certa, terminando por ceder apenas porque “não gosta de discutir com gente ignorante”.

E a interpretação de Gonzagão para essa música é fenomenal… você tem a sensação, quase certeza, de que ele é o matuto da história, como mais do que um cantor, alguém que dá vida ao personagem contido na música.

Uma música a partir de uma pequena quizila por causa de um troco numa conta… parece que não se fazem mais músicas leves e descomprometidas como essa… continuamos com ‘Silly Love Songs”, quando não há coisa pior….

 

 

Dezessete e setecentos

Eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
– Dezesseis e setecentos!
–  Dezessete e setecentos!
–  Dezesseis e setecentos!…

Mas se eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
– Dezesseis e setecentos!
– Mas dezesseis e setecentos?
– Dezesseis e setecentos!
Porque dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Sou diplomado
Freqüentei academia
Conheço geografia
Sei até multiplicar
Dei vinte mango
Prá pagar três e trezentos
Dezessete e setecentos
Você tem que me voltar…

– É dezessete e setecentos!
– É dezesseis e setecentos!
– É dezessete e setecentos!
-É dezesseis e setecentos!

Eu acho bom
Você tirar os nove fora
Evitar que eu vá embora
E deixe a conta sem pagar
Eu já lhe disse
Que essa droga está errada
Vou buscar a tabuada
E volto aqui prá lhe provar…

Não, pera aí
Mas se lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
– Dezesseis e setecentos!
– Mas porque
Dezesseis e setecentos?
– Dezesseis e setecentos!…

Mas olha aqui rapá
– Dezesseis e setecentos!
– Dezesseis e setecentos?
– Dezesseis e setecentos!
– Mas não é dezessete e setecentos?
– Dezesseis e setecentos!
– Dezesseis e setecentos?
– Dezesseis e setecentos!…

Então deixa
É por isso que não gosto
De discutir com gente ignorante
Por isso é que o Brasil
Não “progrede” nisso..

“Aqui na terra tão jogando futebol”

Em épocas de comunicação quase instantânea, você imaginaria uma correspondência feita por intermédio de um isco? Através de uma canção?

Foi justamente esse o mote que inspirou Chico Buarque a escrever uma carta-canção para seu amigo Augusto Boal, que estava exilado em Portugal.

Augusto Boal

O Brasil vivia uma ditadura (1976), mas começavam a ganhar força as vozes que clamavam pela volta da democracia. Só que Augusto Boal estava exilado em Portugal (também passara antes por Argentina, Peru, e depois iria a Paris), e reclamava da falta de notícias do Brasil.

Assim, de forma bem-humorada, Chico conta a rotina do Brasil, em que se joga futebol, tem samba, choro e rock’n roll, mas que a coisa no Brasil está preta, restando então, as alternativas de fumar, de beber e  de se amar pra esquecer um pouquinho as coisas tristes ue aconteciam por aqui.

Como não dá pra fazer uma visita, a tarifa do telefone “não tem graça” e o correio “anda arisco”, Chico acaba fazendo uma canção histórica, narrada assim no livro organizado por Wagner Homem – História das canções”. A Cecília referida na obra é a esposa de Augusto, Cecília Boal… A Marieta, é Marieta Severo, então casad com Chico. Augusto Boal faleceu em 2009.

chico historiaaaaa

O teatrólogo Augusto Boal, exilado em Portugal, vivia se queixando de que  os amigos não mandavam notícias do Brasil. Na ocasião, Chico estava tentando  fazer a letra para uma música romântica, mas não conseguia avançar. 

Pediu a  Francis Hime um chorinho — e, utilizando como refrão “a coisa aqui tá preta”,  atualizou a correspondência e informou não só o amigo, mas todos os  brasileiros, sobre a situação do país. 

Em depoimento para o livro Chico  Buarque do Brasil, organizado por Rinaldo de Fernandes, Boal descreve a  emoção de ouvir a homenagem pela primeira vez:  

Foi assim, tranquilo e a gosto, que me lembrei do dia em que estávamos  almoçando bacalhau à Braz — com Paulo Freire, sua esposa e sua  equipe, Darcy Ribeiro e outros amigos exilados — na casa onde  morávamos Cecília, eu e nossos filhos, em Lisboa, no Campo Pequeno —  onde ainda se humilham touros com bandeirolas coloridas espetadas no  sangue, sendo retirados da arena depois da faina, vivos, mas  envergonhados, por doze vacas corpulentas com guizos no pescoço! —, quando, na sobremesa, minha mãe visitante me disse que tinha trazido do Brasil uma carta do Chico.  Pusemos a carta-cassete na vitrola e, pela primeira vez, ouvimos “Meu caro amigo”, com Francis Hime ao piano. Falávamos tristezas, e ouvimos um canto da esperança.

 Chico resistia, aqui no Brasil, escrevendo “Apesar de você” e “Vai passar”; e nos ajudava a resistir, lá fora, cantando sua amizade. Sua  lírica era a mais pura poesia épica: seu caro amigo eram todos os nossos  amigos, e todos os nossos amigos eram seus.


Meu caro amigo, me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus!

 

Sentimento ilhado…

Revelação, uma composição de Clodo e Clésio, tornou-se nacionalmente conhecida na voz de Fagner.

Uma música com letra curta, mas muito forte, que revela um sentimento tido como morto, que o eu-lírico tenta a todo custo mantê-lo guiardado, escondido, mas que num dia vestido, de saudade viva, o sentimento ilhado volta a aparecer.

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Sentimento ilhado....Clodo, Climério e Clésio

O que poucos sabem é que a música já teve outras letras, até chegar na versão final.

Quem conta é Clodo, que compôs a música junto com Clésio (eles formavam um trio, Clodo, Climério e Clésio). A história é contada no livro Então foi assim, de Ruy Godinho:

 

 

‘’ Essa melodia é do Clésio. E ele me disse que tinha feito para o poema de uma moça, mas por algum motivo não explicado, ele não continuou com o poema. Eu não conhecia o poema original e sabia da história vagamente. De repente o Clésio apareceu cantando a música – numa coincidência inacreditável – em cima de um poema de Drummond que fala: ‘As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão, mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” Clodo refere-se a poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade:

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Sentimento ilhado....Drummond

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

 Esse poema é do tamanho da música Revelação sem tirar nem botar uma sílaba. Você pode cantá-lo inteirinho com a melodia do Clésio”, sugere Clodo. Atendi à sugestão do Clodo, cantei e bateu certinho. “ Aí ele chegou e disse: ‘Clodo, esse poema de Drummond é exatamente do tamanho da música’. Aí passamos a cantá-la com a letra de Drummond. Cantamos um ano, talvez. Chegamos a cantar em palco e as pessoas achavam bonita. Mas um dia o Clésio chegou para mim e disse: ‘Clodo, eu soube que alguém já musicou esse poema. De novo a minha música está sem letra’ “, relembra. Clésio tinha razão. Memória fora musicado por Alcyvando Luz e Carlos Coqueijo.

 “Aí Clésio resolveu: Vou querer outra letra pra minha música’. Como eu era íntimo dela, sabia o poema, fiz outra letra com a mesma métrica, que hoje eu vejo que dialoga, de alguma forma, com a de Drummond. Ele fala que “as coisas findas, ficarão”. E eu falo que elas voltarão a incomodar. Eu procurei fazer uma letra trabalhando esse tipo de assunto”, justifica Clodo.

Melodia criada, letra devidamente trocada, perguntei ao Clodo como foi que a música foi parar nas mãos de Fagner, aliás, na voz. “O mais interessante é que quando a gente gravou o São Piauí, o nosso primeiro disco, esta música já estava feita e por algum motivo nós não a incluímos no L.P. No dia do show de lançamento do disco, eu a cantei. E nesse show Fagner participou como convidado. Ele estava em início de carreira e iria entrar logo depois de mim. Eu cantei e quando voltei aos bastidores ele falou: ‘Eu queria que você guardasse essa música pra mim’.

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Sentimento ilhado....

Na hora eu não entendi direito. Em seguida ele foi pra França e mandou um cartão-postal reafirmando: ‘Guarda aquela música pra mim’. E eu fiquei guardando. Quando ele chegou, gravou e a música arrebentou, foi um sucesso danado”, revela Clodo. Revelação foi lançada por Fagner no LP Eu Canto – Quem Viver Chorará (1978) e ficou entre as músicas mais tocadas nas emissoras de rádio de todo país nos dois anos seguintes. 

A letra: 

Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar