Copo Vazio

A música “Copo Vazio”, composição de Gilberto Gil, foi gravada por Chico Buarque no disco “Sinal Fechado” (1974), em que Chico grava canções de outros compositores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura. A letra da canção é magnífica, misturando o vazio do copo que está cheio de ar, com o olhar vazio de um rosto que está cheio de dor; o ar é substituído pelo vinho, que visa substituir a dor, que está cheia num rosto vazio, assim como vazio está o copo – mas cheio de ar.

A música foi feita sob encomenda para Chico Buarque, e Gil conta como fora a composição da Música:

Quando Chico me pediu, pensei: “meu Deus, fazer uma música para Chico!”. Achei melhor procurar algo que ficasse entre o fazer e não-fazer. À noite, o pessoal já tinha ido dormir, peguei o violão, acendi um cigarro, pus vinho num copo e fiquei pensando. Quando olhei, o copo estava vazio. Mas estava cheio de ar. Aí bateu: “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. “Isso é filosofia popular, o Chico vai gostar”, pensei”…

No livro “Todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, Gil complementa:

Chico Buarque estava sendo hiper-censurado [pela ditadura militar] naquele momento e quis responder a isso fazendo um disco só com músicas de colegas [trata-se do disco Sinal fechado, lançado por Chico Buarque em 1974]. Por isso, pediu ao Paulinho da Viola, a Caetano [Veloso], a mim e a outros que compusessem para ele. Eu estava em casa, sentado no sofá, já de madrugada,…”, aí eu já tomando o processo da criação: “…tinha tomado um copo de vinho no jantar e o copo tinha ficado na mesa. Pensando no que é que eu ia fazer para o Chico, eu, de repente, vi o copo vazio e concentrei o olhar nele para dali extrair emanações de imagens e significados. A princípio, como se para nada obter, mas logo constatando: ‘O copo está vazio, mas tem ar dentro!’ Disso, me vieram idéias acerca das camadas de solidificação e rarefação que vão se sucedendo nas coisas. E, disso, a música. A letra faz uma viagem ao mundo das coisas sutis, transcendentes. Mas suas primeiras frases são muito significativas nos termos do que estava acontecendo: regime de repressão, censura, o Chico privado de sua liberdade artística plena, etc. Embora não fosse essa a intenção principal, as dificuldades da situação contingencial estavam necessariamente metaforizadas e qualquer crítica à canção, em termos de fuga da realidade, esbarraria no fato de que, ao contrário, a letra parte da realidade e não foge dela. Foge com ela, se for o caso.”

 

Gilberto Gil depois regravaria a canção no disco Gil Luminoso, em 2006. Chico e Gil gravaram juntos a canção no projeto do filme “Rio, eu te amo”, em 2014.

 

Fontes: Gilberto Gil: Todas as letras. Org. Carlos Rennó

http://www.nordesteweb.com/not07_0906/ne_not_20060902b.htm

 

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.com.br em 26 de fevereiro de 2010

Dez Sambas de Chico Buarque

Chico Buarque, como um Fernando Pessoa da música, é conhecido pelos seus diversos personagens musicais: o lírico feminino, as canções políticas, o teatro… O sambista. Chico Buarque tem no samba e na bossa nova sua base harmônica e rítmica, e alguns sambas de Chico Buarque são verdadeiramente especiais. Aqui segue uma lista de meus dez, que, como toda lista, é reducionista e gera polêmicas….

1-     Vai Passar (1984);

2-     Meu caro amigo (1976);

3-     Deixe a menina (1980);

4-     Samba do grande amor (1983);

5-     A Rita (1965);

6-     Quem te viu, quem te vê (1966);

7-     Desalento (1970);

8-     Acorda, amor (1974- gravada com o pseudônimo Julinho da Adelaide);

9-     Morena de Angola (1980);

10- A Rosa (1979).

 

Publicado originariamente em http://musicaemprosa.musicblog.com.br/240377/Dez-sambas-de-Chico-Buarque/ em fevereiro de 2010

Adeus, batucada

Caetano Velloso e Gilberto Gil provocaram uma verdadeira revolução com a Tropicália no final da década de 60. Modernizaram a música popular brasileira, cuja vertente “universitária”, típica dos Festivais da Record, e em seguida, da Globo, era extremamente conservadora.

 A “Frente única da Música Popular Brasileira” negava qualquer influência estrangeira, sobretudo das guitarras elétricas, vistas como uma espécie de símbolo do colonialismo americano (vide uma passeata contra a guitarra elétrica promovida e liderada por Elis Regina, Geraldo Vandré e Edu Lobo, em 1967 – o alvo era Roberto Carlos e a Jovem Guarda, vista como mera imitação do iê-iê-iê decorrente da Beatlemania).

 O movimento da chamada “verdadeira” MPB também rechaçava a produção nacional tida como popularesca e de mau gosto – O símbolo máximo da breguice era Chacrinha.

 Ocorre que, em 1967, Gilberto Gil, com Domingo no parque, e Caetano Velloso, com Alegria, Alegria, causaram furor no festival da Canção da Record, mesmo não tendo vencido o festival (Gilberto Gil ficou em segundo; Caetano, em quarto. A vencedora foi Ponteio, de Edu Lobo). Tudo isso se devia menos ao uso das guitarras elétricas, e mais pelo caráter moderno das músicas, sobretudo a sinestesia que provocam, pois ambas são músicas muito visuais.

 Em 1968, no Festival Internacional da Canção da Rede Globo, o choque ficou mais intenso, comQuestão de Ordem, de Gilberto Gil, e, principalmente, com Proibido Proibir, de Caetano, cujo discurso diante das vaias do público do festival repercute até hoje.

 Caetano e Gil foram presos, e, em seguida, exilados em Londres. Pelos relatos na bibliografia sobre o assunto, parece que Gil encarou melhor a prisão e o exílio do que Caetano. Carlos Callado, no seu livro Tropicália – a História de uma revolução musical, narra que Gil conseguiu um violão no presídio, e, uma vez em Londres, procurou um curso de inglês, frequentava shows de música, buscava formar uma banda, enquanto Caetano ficava triste, deprimido. Callado cita um trecho de Caetano, publicado no Pasquim  de 27 de novembro de 1969:

“Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos” 

O disco que Caetano gravou no exílio também deixa claro esse espírito, sobretudo em If you hold a Stone, Maria Bethânia e Asa Branca.

 Em janeiro de 1971 Caetano obtém permissão para voltar ao Brasil. Não definitivamente, mas para assistir às bodas de rubi de seus pais, Seu Zezinho e Dona Canô. Conta Callado, na obra acima citada, que Caetano foi interrogado, intimidado, proibido de dar entrevistas ou cortar o cabelo e, para atribuir uma aparente normalidade, uma apresentação no programa Som Livre Exportação,  da Rede Globo.

 Em 4 de fevereiro de 1971, para quem esperava um Caetano ainda mais revolucionário quando voltasse de Londres, com mais sons modernos e psicodélicos (lembrando que há 40 anos não havia computador, internet, celular), Caetano saiu-se com um samba lindo de Sinval Silva, Adeus, batucada, imortalizado na voz de Carmen Miranda. A letra:

 Adeus, adeus
Meu pandeiro de bamba
Tamborim de samba
Já é de madrugada
Vou-me embora chorando
com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada

Em criança com o samba eu vivia sonhando
Acordava, estava tristonha chorando
Jóia que se perde no mar só se encontra no fundo
Samba mocidade
Sambando se goza nesse mundo
E do meu grande amor sempre me despedi sambando
Mas da batucada agora eu despeço chorando
E trago no peito esta lágrima sentida
Adeus batucada, adeus batucada
Querida

 Nelson Motta, em seu Noites Tropicais, comenta o fato:

“Mas na gravação do programa, no Rio, ele surpreendeu o auditório jovem e roqueiro, que esperava dele algo elétrico, pesado, mais próximo de Os Mutantes do que de Elis e Ivan Lins. Ao contrário, sem gritos nem guitarras, apenas se acompanhando ao violão, Caetano cantou, radicalmente gilbertiano, um antigo e belíssimo samba de Sinval Silva, gravado por Carmen Miranda.  

 Caetano comenta essa passagem no seu livro Verdade Tropical

A plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham uma idéia pop-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Era bem uma platéia sintonizada com essa sigla, tal como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da minha saída e eu me via frente a frente com o pós tropicalismo. Os garotos nus da cintura pra cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e mais sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com samba – jazz carioca. Entrei apenas com meu violão e cantei Adeus Batucada, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante como samba – jazz e com a fusion, uma referência à Carmen Miranda – e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que “ia embora chorando, mas com o coração sorrindo”, pois ia” deixar todo mundo valorizando a batucada”. A garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou despercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.

Não quero aqui fazer comentários, mas apenas suscitar a imaginação de vocês… Caetano, preso, exilado, visita o Brasil num clima de terror, participa de um programa de televisão (Som Livre Exportação, apresentado Por Ivan Lins e Gonzaguinha) que o próprio Caetano diz ser um “filho do tropicalismo”, encontra um público jovem, ansioso por novidades, e encontra Caetano em seu violão, lírico e metafórico, cantando Adeus, batucada…

 Publicado orignalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em fevereiro de 2010

Movimento contra a “alienação” musical, exclusão das guitarras e preservação de uma chamada “verdadeira” música popular.

Conferir o site http://historia.abril.com.br/politica/censura-brega-434196.shtml

Caetano na Contracapa do Tapajós

Qual era o cenário musical em 1980? A mistura do frevo com o ijexá já começava a aparecer nas ruas. Moraes Moreira era o rei do carnaval, e o Trio Elétrico Tapajós era uma referência no Carnaval da Bahia. Orlando Campos, também conhecido como Orlando Tapajós, foi o primeiro seguidor do Trio Elétrico de Dodô e Osmar. Orlando foi responsável pelo trio ter-se perpetuado e se expandido como referência do carnaval baiano.

Em 1972, o Tapajós lançou a Caetanave para homenagear Caetano Veloso, que voltava do exílio em Londres, o que causou a Caetano uma emoção indescritível.

caetanave

Assim, em 1980, era lançado o disco (LP) Tapajós- Ave Caetano, e nada mais  justo do que Caetano fazer o texto da contracapa do disco. Segue aqui o texto de Caetano, num depoimento histórico:

“O primeiro disco de trio elétrico que se fez no Brasil foi um disco do TAPAJÓS e eu tive a honra de, então, escrever a contracapa. Agora, mais de dez anos depois, estamos aqui outra vez. Seria talvez melhor dizer: estamos aqui ainda. Uma das maiores emoções da minha vida foi, em 72, voltando do exílio em Londres, ver a CAETANAVE surgir no topo da Ladeira da Montanha e entrar na Praça Castro Alves sob a forte chuva que começava, tocando meu frevo Chuva, Suor e Cerveja. Eu não sabia que o carro deles naquele ano levaria esse nome e, se já estava chorando quando o caminhão entrou na praça, dobrei o choro quando li a nova palavra escrita na proa da transcendental embarcação. A essa altura da minha vida eu já tinha muito o que agradecer ao TAPAJÓS e aos trios elétricos em geral. A partir daquele momento de imenso carinho minha dívida se multiplicou por mil. Eles me ajudaram a curtir a adolescência, a bolar o Tropicalismo (que abriu espaço pra Milton casar barroco mineiro com Edu Lobo e Beatles; para a gente ouvir sem susto a transa de Egberto; pra Hermeto misturar jazz com rock e xaxado; pra mil coisas) e depois, a explicar o Tropicalismo e justificá-lo. E, naquele carnaval de 72, me davam a compensação afetiva para a prisão e o exílio. É muito.

Da época em que o primeiro disco do trio foi gravado pra cá, muita coisa rolou. Este disco é muito mais bem gravado do que o outro, do que os outros. Sobre a beleza única desse som de trio elétrico não posso dizer nada. Apenas quero registrar que é lindo que o TAPAJÓS não tenha ficado indiferente à volta de Dodô e Osmar com as inovações de Armandinho e muito menos às conquistas geniais de Moraes Moreira que entre outras coisas, casou o trio elétrico com com o afoxé (meu sonho com o de Gilberto Gil). E chega de muitas palavras, eu fico baiano demais quando se trata desse assunto de trio elétrico. Vamos ouvir o TAPAJÓS e continuar agradecendo a generosidade. Ave TAPAJÓS.”

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