Partido Alto – Chico Buarque

Partido alto

 

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(Chico Buarque)

Diz que deu, diz que dá, diz que Deus dará
Não vou duvidar, ô nega
E se Deus não dá como é que vai ficar, ô nega
Diz que Deus diz que dá
E se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará

Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria, eu nasci batuqueiro (brasileiro)
Eu sou do Rio de Janeiro

Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica
Como é que pôs no mundo esta pobre coisica (pouca titica)
Vou correr o mundo afora, dar uma canjica
Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca
E aquele abraço pra quem fica

Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mão no meio
Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio

Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia
Deus me deu muitas saudades e muita preguiça
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
Pra correr atrás de bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia

Essa música de Chico Buarque, gravada em 1972, e imortalizada no show/disco que “Caetano & Chico – juntos e ao vivo”, gravado no Teatro Castro Alves, em 10 e 11 de novembro de 1972, revela como a censura da época atuava. Mais recentemente, em 2001, foi regravada no cd Acústico de Cássia Eller.

A música é como se fosse um partido-alto, isto é, uma espécie de samba cantado em forma de desafio por dois ou mais contendores e que se compõe de uma parte de coral (refrão ou “primeira”) e uma parte solada com versos improvisados ou do repertório tradicional, os quais podem ou não se referir ao assunto do refrão

No livro da coleção “História de canções”, sobre as histórias das músicas compostas por Chico Buarque (Ed. Leya, 2009), Wagner Homem relata o despacho da censura:

 “Se é engraçado ou uma infelicidade para o autor ter nascido no Brasil, país onde vive e encontra esse povo generoso que lhe dá sustento comprando seus discos, e pagando-o regiamente nos seus shows, afirmo que ele está nos gozando. Opino pelo veto.

 Para resolver a quizila, Chico teve que substituir a palavra “titica” por “coisica”, e substituir “brasileiro” por “batuqueiro”. E ainda assim, mesmo com a música liberada, teve que ouvir uma singular apreciação de sua obra:

 Como é que você, que fez uma música tão bonita como ‘Construção’, agora vem com esta, falando de titica e saco cheio?

 Parece pré-histórico, mas foi há menos de 50 anos. Parece impensável que questões tão pequenas, e que parecem ridículas diante de determinadas letras da atualidade, chamavam a atenção da censura. Tratava-se de um juízo moral, que não tinha nada a ver com os pretensos objetivos do governo militar.

publicado originariamente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em março de 2010

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