Zeca Baleiro – Por onde andará Stephen Fry?

Zeca Baleiro tem esse apelido por causa de ser um implacável consumidor de doces, balas e toda sorte de guloseimas, de modo que as pessoas sempre o procuravam, porque ele sempre tinha alguma guloseima disponível. É um daqueles cantores que brinca com as palavras, e se mantém fiel a si mesmo mais do que fiel a um rótulo ou a um estilo musical. Ele mesmo afirmara, numa entrevista em 2003:

Rótulo é um mal necessário. A indústria e a imprensa precisam dele, é óbvio, mas o artista não. A partir do momento em que você aceita um rótulo, você vira escravo dele, e o maior bem de um criador é a sua independência, sua liberdade. E se amanhã eu quiser fazer um disco de samba, quem vai me impedir, ou um disco de hardcore?… Nada me proíbe de transitar por praias diversas, vários gêneros, etc. Não há limites ou freios para a criação. Tenho tentado mostrar isso com meus discos esquizofrênicos.

Há vários trechos, de várias letras que surpreendem pela originalidade e pela musicalidade, e além disso, pelo sentido que Zeca Baleiro atribui a ela. É do Maranhão, mas absolutamente universal .

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Apesar de ter já uma carreira como artista “underground”,como disse Luis Antônio Giron ao apresentar o primeiro disco “Por onde andará Stephen Fry?”, o marco da sua carreira,que jogou os spots sobre sua qualidade musical, foi sua participação no CD “Acústico”, de Gal Costa, em 1997 (na época, Zeca Baleiro já tinha 31 anos, embora sua carreira tivesse começado desde os 19. No disco, há um Pot-Pourri entre um clássico de Gal Costa, chamado “Vapor Barato” com a música “Flor da Pele”, cuja letra é de Zeca Baleiro; “Um barco sem porto/Sem rumo, Sem vela/Cavalo sem sela/ Um bicho solto/Um cão sem dono/Um menino, Um bandido/Às vezes me preservo noutras suicido.”

Para não fazer um texto longo demais, vou, primeiro, fazer uma análise do seu primeiro disco, gravado em 1997, pela Universal.

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Nesse primeiro disco, já se percebe seu universalismo, sem perder suas referências de cantor maranhense e sua bagagem cultural, mas chama atenção o tempero entre lirismo, bom-humor, e um sutil e ácido tom crítico em algumas canções.

Começando, por exemplo, com Heavy Metal do Senhor, descrito como um “metal-repente diabólico”, e me divirto comparando a letra e os arranjos de Zeca com os Gospel-rocks que a gente vê por aí.

Vejo também a irônica homenagem à beleza de uma mulher, na suingada “salão de beleza”, na qual ele relata a beleza da mulher que é maior do que a beleza de qualquer salão, em que revela a “a beleza do erro do engano da imperfeição.

A brincadeira e o trocadilho do “parque do Juraci”, com Jurassic Park, com participação do impagável Genival Lacerda e a participação de Chico César em “Mamãe Oxum”.

Mas, para mim, a melhor música do disco é Bandeira, com a sua clássica referência à poesia de Manuel Bandeira, que merecerá um comentário à parte…

Um grande sucesso de Zeca Baleiro foi gravado por Simone, que, com um sotaque bem baiano, gravou “Lenha”, que tem uma harmonia simples, cujas notas lembram o dos básicos rocks dos Titãs, mas cuja letra é também intrigante. Um trecho de Letra: “eu não sei dizer/o que quer dizer/o que vou dizer/eu amo você/mas não sei o que/isso quer dizer/eu não sei por que/eu teimo em dizer/que amo você/se eu não sei dizer/o que quer dizer/o que vou dizer”

Sobre o fato da Música ter virado um Hit, para quem o considera um cantor Cult,  ele responde, com tranqüilidade:

É bom, o destino das canções é esse mesmo, a banalização. Quero ver o porteiro do prédio assoviando minha música.

 

sábado 27 março 2010 23:39 , em Musica Contemporanea

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Esperando Aviões – Vander Lee (para sua mulher Regina|)

Há duas semanas, Vander Lee morreu surpreendente e repentinamente. Seu estilo romântico, suas canções à flor da pele, em carne viva, deixaram um legado. Mesmo as suas canções mais suaves possuem por trás delas uma carga dramática.

Uma de suas músicas mais conhecida é  “Esperando Aviões”, que foi composta para sua mulher, Regina. Certa feita, Vander Lee disse como teria sido feita a música:

Fiz esperando aviões para minha mulher. Tava em Montes Claros assim meio sozinho, cheguei de avião e vendo aquela pista naquele deserto, no norte de Minas, seco, pouca vegetação, aquele cerrado… Me deu uma saudade danada da minha mulher. De noite no hotel, aquela imagem ficou na minha cabeça.. Me soou poetico aquela pista vazia esperando aviões… E aí queria falar dessa saudade, da distância,de sexo e ai as imagens vão se formando e entrando coisas que não são veridicas… Me lembro de ter ligado pra ela as 4 da manha e tocado..ela quase morreu do coração e chorou a noite toda, nem dormiu mais.. (Vander Lee)

 

Meus olhos te viram triste
Olhando pro infinito
Tentando ouvir o som do próprio grito
E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
Você me amou de um jeito tão aflito
Que eu queria poder te dizer sem palavras
Eu queria poder te cantar sem canções
Eu queria viver morrendo em sua teia
Seu sangue correndo em minha veia
Seu cheiro morando em meus pulmões
Cada dia que passo sem sua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões
Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações

 

Quem lê a letra de esperando aviões pode pensar que o eu-lírico está num estado de tristeza, de saudade, mas de uma saudade amarga, de ter encontrado uma pessoa triste, aflita, “tentando ouvir o som de um próprio grito”, em que o amor e o sexo, representados de modo aflito, parecem ser uma verdadeira fuga…

No entanto, Vander Lee, em entrevista a Ruy Godinho, no livro “Então, foi assim? Vol. 3”, dá á canção uma carga sexual bem mais forte…

Pois é, essa música é bacana porque ela tem uma história. Eu estava indo de avião para Montes Claros [MG] fazer um show e me lembro da paisagem, da pista vazia, cercada por uns montinhos verdes, pequenas árvores. Era uma época seca, em volta tinham aqueles montes claros, aquele clima de Cerradão do Norte de Minas. Aquilo visto de longe me lembrou um órgão genital. Começou na brincadeira, tirei uma foto e tal. Parecia um paraíso, Aquela imagem, o avião descendo, pra mim foi mais pornográfica ainda, né?  Então fiquei com essa imagem na cabeça. À noite, no hotel, depois do show, na madrugada, veio o santo, o cavaleiro veio. E me pediu emprestado essa imagem ‘Pô, faça alguma coisa com isso’. E eu fiz”, revela.

O eu-lírico procura, através do canto “incantável” e do dizer “indizível” aquele sentimento e necessidade de plenitude que existem entre casais por determinados momentos (que jamais duram para sempre, ou, aliás, são para sempre, mais ainda assim, momentos), e por isso a necessidade de ver o sangue do ser amado correndo nas veias, o cheiro percorrendo os pulmões, mas, que ao final, se vê perdido e solitário sem o seu amor. o diário perdido cheio de história para serem lidas, e o mote da canção: a pista vazia esperando aviões, pois são os aviões que dão sentido à pista, assim como o ser amado acaba conferindo sentido ao amante, numa metáfora tipicamente idealizadora e romântica do século XIX.

Da inspiração sexual veio a canção, como Vander Lee arrematou: “A canção não é de distância, é de penetração” 

“Eu estava meio assim com a minha mulher, mais ou menos. Aí eu quis falar pra ela. E fiz a música pra ela, tentando pegar no traço o nosso encontro. Foi isso. E a imagem da pista vazia, esperando aviões. Pra mim é puro sexo, é quase uma mulher esperando um homem. O próprio lamento no canto da sereia, esperando o naufrágio das embarcações, pra mim é sexo também. As pessoas leem mitologia, tem gente que acha que tem tudo ali, mas pra mim é puro sexo. Só Freud explica isso, né? As pessoas sempre pensam que é uma música de distância. E ela é de penetração. O assunto do refrão é todo penetração: Sou um velho diário perdido na areia/ esperando que você me leia.. Para mim eu vejo uma mulher nua, me esperando: Eu sou uma pista vazia esperando aviões … É pura sensualidade. As pessoas veem mais do que eu digo, na verdade. Eu fui fazendo, tecendo imagens de amor, do encontro amoroso com a mulher e, ao mesmo tempo, a música parece extremamente triste. Parece que o cara vai morrer de amor. Mas é o encontro, não o desencontra”, desvenda.

Fontes: osvanderloucos.blogspot.com/…/sobre-esperando-avies.html ”

Godinho, RUY. “Então, foi assim?”. Vol. 3 Abravideo.

 

Marina (Lima). Fullgás. Quando os discos tinham encarte

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes.

Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia.

Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua “ordem”. E a ordem dos caretas e, e sempre foi, a da fidelidade às tais “raízes” ou “purezas” ou sabemos lá o que…

Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer “arte”, mas de viver.

Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave…

Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.

Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente.

Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da “vanguarda” sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais “vulgar” que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo”. Fullgás (Marina Lima e Antônio Cícero)

 É por essa e outras razões que sinto falta dos discos (LP’s ou CD’s) que pouco a pouco vão sendo substituídos por MP3 players, downloads e coisas do gênero. Os encartes dos discos. Talvez numa época em que se discutia música.

Esse texto está no encarte do disco FULLGÁS, lançado por Marina (depois Marina Lima) em 1984. O disco representa um momento pré-Rock in Rio, quando a música brasileira, apesar da Tropicália, ainda guardava muitas resistência ao elétrico e às influências da música internacional.

É uma justificativa do ingresso cada vez mais presente de referências ao pop-rock internacional, e uma certa crítica ao patrulhamento ideológico-musical. Trata-se, portanto, de uma espécie de manifesto pós-tropicalista, e que valoriza a liberdade.  

E nesse momento a música brasileira começa a descobrir o mundo sem preconceito. Em 1984 já havia Thriller, de Michael Jackson, e começavam a se descortinar as portas para o rock nacional. Nesse contexto Marina e seu irmão Antônio Cícero produzem um manifesto contra um conservadorismo musical, segundo o qual toda música nacional deve observar suas origens e raízes, como se tudo o que se gravasse no Brasil deveria ser derivado do samba, forró ou bossa nova.

Faz uma velada crítica à música engajada politicamente, e termina por ser um texto claramente pós-tropicalista, mesmo que escrito mais de 15 anos após. Começava a abertura de um novo capítulo na Música Brasileira. Fullgás….

PUBLICADO NO http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 09 de abril de 2010