Marina (Lima). Fullgás. Quando os discos tinham encarte

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes.

Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia.

Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua “ordem”. E a ordem dos caretas e, e sempre foi, a da fidelidade às tais “raízes” ou “purezas” ou sabemos lá o que…

Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer “arte”, mas de viver.

Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave…

Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.

Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente.

Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da “vanguarda” sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais “vulgar” que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo”. Fullgás (Marina Lima e Antônio Cícero)

 É por essa e outras razões que sinto falta dos discos (LP’s ou CD’s) que pouco a pouco vão sendo substituídos por MP3 players, downloads e coisas do gênero. Os encartes dos discos. Talvez numa época em que se discutia música.

Esse texto está no encarte do disco FULLGÁS, lançado por Marina (depois Marina Lima) em 1984. O disco representa um momento pré-Rock in Rio, quando a música brasileira, apesar da Tropicália, ainda guardava muitas resistência ao elétrico e às influências da música internacional.

É uma justificativa do ingresso cada vez mais presente de referências ao pop-rock internacional, e uma certa crítica ao patrulhamento ideológico-musical. Trata-se, portanto, de uma espécie de manifesto pós-tropicalista, e que valoriza a liberdade.  

E nesse momento a música brasileira começa a descobrir o mundo sem preconceito. Em 1984 já havia Thriller, de Michael Jackson, e começavam a se descortinar as portas para o rock nacional. Nesse contexto Marina e seu irmão Antônio Cícero produzem um manifesto contra um conservadorismo musical, segundo o qual toda música nacional deve observar suas origens e raízes, como se tudo o que se gravasse no Brasil deveria ser derivado do samba, forró ou bossa nova.

Faz uma velada crítica à música engajada politicamente, e termina por ser um texto claramente pós-tropicalista, mesmo que escrito mais de 15 anos após. Começava a abertura de um novo capítulo na Música Brasileira. Fullgás….

PUBLICADO NO http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 09 de abril de 2010

 

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