Rede Globo e as 30 músicas do século XX

 

No ano 2000, na virada do século, a Rede Globo promoveu um especial para escolher as mais importantes músicas do Século XX, no especial “100 anos de música”. Eu assistia o programa com minha irmã, e tentava adivinhar as músicas que seriam escolhidas. Não era uma escolha pelas melhores músicas, mas sim daquelas que tiveram uma significativa importância musical.

Eu tinha certeza que “Aquarela do Brasil” ganharia, sabia que lá estaria “Chega de Saudade”, “Carinhoso” e “Asa Branca”. Imaginava “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo. Apesar de entender a importância de Tom Jobim, achei em certa medida exagerada a inclusão de 8 músicas suas entre as 30 (que, na verdade, são 31).

Senti a ausência de referências a músicas tropicalistas, parece que não houve Rock no Brasil no século XX (talvez Secos e Molhados, Rita Lee ou Raul Seixas, pelo menos um deles mereceria uma referência, ou, para o fim do século, Renato Russo ou Cazuza).

Não acho que Sampa seja a mais importante de Caetano, nem  O que será  a mais importante de Chico (embora estivesse também presente Retrato em branco e preto, em parceria com Tom Jobim). Novos Baianos, Nação Zumbi, Assis Valente, todos mereceriam menções honrosas. Mas toda lista desse estilo é polêmica.

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São 8 músicas de Tom Jobim, 4 de Vinícius de Moraes; 2 de Chico Buarque, Ary Barroso, Noel Rosa, Vadico e Dorival Caymmi. Os demais têm uma música. A lista:

Campeã: Aquarela do Brasil

1: “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro)
2: “Garota de Ipanema” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
3: “Asa branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
4: “Águas de março” (Antônio Carlos Jobim)
5: “Chega de saudade” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
6: “As rosas não falam” (Cartola)
7: “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant)
8: “Desafinado” (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça)
9: “Eu sei que vou te amar” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
10: “Chão de estrelas” (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas)
11: “Se todos fossem iguais a você” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
12: “Luar do sertão” (Catulo da Paixão Cearense)
13: “Samba do avião” (Antônio Carlos Jobim)
14: “Brasileirinho” (Waldir Azevedo)
15: “Retrato em branco e preto” (Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque)
16: “O que será” (Chico Buarque de Holanda)
17: “Saudade da Bahia” (Dorival Caymmi)
18: “Manhã de carnaval (Luiz Bonfá e Antônio Maria)
19: “No rancho fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo)
20: “O bêbado e o equilibrista” (João Bôsco e Aldir Blanc)
21: “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu)
22: “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico)
23: “Feitiço de oração” (Noel Rosa e Vadico)
24: “Marina” (Dorival Caymmi)
25: “A noite do meu bem” (Dolores Duran)
26: “Foi um rio que passou em minha vida” (Paulinho da Viola)
27: “Aquele abraço” (Gilberto Gil)
28: “Sampa” (Caetano Veloso)
29: “Detalhes” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
30: “Meu bem querer” (Djavan)

 

Fontes http://redeglobo.globo.com/videos/t/variedades/v/especial-100-anos-de-musica-escolheu-a-maior-cancao-brasileira-do-seculo-xx/3860555/

 

O inusitado encontro de João Gilberto e Elza Soares, na narratiiva de Ronaldo Bôscoli

 

Recentemente, li o livro “Eles e Eu”, que conta as memórias de Ronaldo Bôscoli. Para quem não sabe, Ronaldo Bôscoli foi um dos principais corifeus da Bossa Nova, compositor, produtor, namorou Nara Leão, Maysa, foi casado com Elis Regina e tem muita história para contar.

Uma delas diz respeito a João Gilberto. João, no final da década de 50 e começo de 60, era o verdadeiro guru da bossa nova, ritmo que criou com sua inigualável batida de violão. Bôscoli (que João chamava de “Ronga”), então, conta no livro o quanto João é persuasivo, inclusive, como ele usou o suéter de Bôscoli na foto do famoso álbum “Chega de saudade”.

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Uma das histórias bem divertidas, contadas por Bôscoli, foi quando João Gilberto pediu a ele para intermediar um encontro com Elza Soares, pelo telefone, num trem do Rio Para São Paulo. Transcrevo aqui um pequeno trecho, na narrativa de Bôscoli:

Fomos a São Paulo, para um programa do Tom, chamado o Bom Tom, na TV Tupi, nós três – Tom, João e eu. Fomos de trem porque o Tom tinha pavor de avião. Fizemos até uma música bem bonita, que depois se perdeu. Tom estava de olho na Elza Soares, uma mulata boa paca. Foi o que bastou para João entrar na disputa. Estávamos no mesmo quarto de hotel e João chegou pra mim:

– Ronaldo, você conhece a Elza Soares?
– Conheço. Por quê?
– Eu tinha vontade de ficar com ela.
– Tudo bem. Te dou o telefone, te ponho em contato com ela.
– Não, rapaz. Não sou carioca, sou burrão, sou tímido. Não sei falar com as pessoas. Não sei cantar ninguém, só música.
– O que você quer, então?
– Quero que você cante ela pra mim.
-Mas João, vai pegar mal…

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Não houve jeito. O João me convenceu a cantar a Elza Soares pra ele, imaginei. Parti pra esse ridículo. Liguei pra Elza.

– Elza, você conhece o João Gilberto?
– Conheço. Acho simpático, gostoso.
– Ele queria falar com você.
– Então chama ele aí.
– Não, Elza. Eu tenho que falar…
– Que é isso, está me gozando?

Durante o papo, João me dava instruções. Minha missão era realmente facílima. Eu tinha que cantar a Elza pra ele convencê-la a esperar por ele na cama, debaixo das cobertas, já despida, com a luz apagada. Ela devia ficar esperando até ele chegar. Ele falava pra mim, eu falava pra ela, ela respondia, eu falava pra ele, ele pra mim, etc. Acabamos convencendo a Elza daquela loucura.

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João voltou do apartamento dela e só voltou de manhã, encantado.

– Puxa Ronga. Que mulher maravilhosa!

Tempos depois, expliquei tudo pra Elza. Ela era uma mulher fantástica e compreendeu perfeitamente.

Mais uma das idiossincrasias de João Gilberto….

sexta 12 agosto 2011 05:14 , em Bossa Nova

O Filho Que Eu Quero Ter

Vinícius de Moraes, quando conta a história de como foi feita “O Filho que eu quero ter”, adjetiva como, ao mesmo tempo, “linda” e “patética”. Isso porque  na praia de Boa Viagem, no Recife, Toquinho contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”

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Toquinho, então, mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.

Ao que consta, Vinicius emocionou-se ao escrever a letra. No fim da tarde, quando Toquinho retornou, o encontrou em prantos, com a letra da música nas mãos.

Percebe-se os três pedaços da música: No primeiro, o nascimento, o sonho e o amor de se ter um filho; a segunda parte, ao vê-lo crescer, ao perguntar um “porquê que não tem fim“, mas que as dores da vida o aguardam; por fim, o trecho relata o pai, no leito de morte, ao ser embalado pelo filho com a mesma canção e o sonho de também ter um filho.

Em três estrofes, narra a trajetória do amor de pai para filho e de filho para pai..

 

Toquinho então afirmou: “Essa música contém uma magia que emociona. Possui uma melodia quase infantil, uma espécie de moldura para a ideia da letra”. Trata-se de uma das mais comoventes canções da parceria Toquinho/Vinícius. As imagens do sonho do nascimento, do crescimento, até a despedida na hora da morte.

 

Gravada por Chico Buarque, em 1974, é uma verdadeira homenagem à paternidade. Vale muito o registro.

 

 

Fontes:

Ruy Godinho. Então, foi assim?, vol. 1/

João Carlos Pecci e Wagner Homem. Toquinho: Histórias de canções

 

Toquinho/Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter 

 

 

 

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