Da cor do pecado… para uma mulher chamada Felicidade

Esse corpo moreno cheiroso e gostoso que você tem…”

Com esses versos, Bororó compôs uma das músicas sensuais de sua época. Da cor do pecado revela, em cada verso, o desejo que o eu-lírico sente pelo corpo moreno, delgado, depois passando pelo beijo, “molhado, escandalizado”, e depois a voz, que responde “umas coisa com graça”,   e depois o cheiro de mato, saudade tristeza, para enfim voltar ao corpo moreno.

É uma música sinestésica, pois vai descrevendo as sensações do eu-lírico ao chegar perto da dona desse corpo, do beijo, do cheiro, da voz, tudo isso presente no corpo moreno.  “Da cor do pecado” é um grande samba, talvez o melhor que se tem notícia que tenha sido composto por Bororó (Alberto de Castro Simões da Silva), gravado por Silvio Caldas, mas também por João Gilberto, Elis Regina, Nara Leão, Ney Matogrosso, entre outros.

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 Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello contam um pouco da musa desta canção, gravada em 1939:

Brejeiro, malicioso, possui uma das letras mais sensuais de nossa música popular: “Este corpo moreno / cheiroso, gostoso/ que você tem / é um corpo delgado / da cor do pecado / que faz tão bem…”.

Segundo o autor, “a musa desses versos chamava-se Felicidade, uma mulher de vida pregressa pouco recomendável”, que trabalhava em frente ao Tribunal de Justiça e lhe foi apresentada por Jaime Távora, oficial de gabinete do ministro José Américo. Iniciou-se assim um romance de vários anos em que Bororó foi responsável pela mudança de vida da moça. Mais tarde ela se casaria com um médico, tendo morrido ainda jovem em consequência de uma gripe mal curada.

De melodia e harmonia elaboradas, acima da média dos sambas da época, “Da cor do pecado” tem seu aspecto mais interessante nas modulações da primeira para a segunda parte e na volta desta para a primeira. Ainda quanto à melodia, tal como se repetiria em “Curare”, a frase final – “eu não sei bem porquê / só sinto na vida o que vem de você” – é um primor de preparação para o acorde de dominante que conduz ao tom da primeira parte.

Fontes: Instituto Moreira Salles – Acervo Musical; A Canção no Tempo – Vol. 1 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34.

 

 

 

Every breath you take. Uma canção de amor ou uma canção sinistra?

 

Certa vez compareci numa cerimônia de casamento em que uma das músicas da trilha sonora é a conhecida “Every breath you take”, do The Police. Achei curioso como certas pessoas enxergam nessa canção como um hino de devoção e cuidado, como se o sujeito estivesse acompanhando cada passo, cada respiração, cada movimento da pessoa amada, que, ao final, “pertence” ao eu-lírico.

Na verdade,  “Every breath you take” sempre me assustou. Não gostaria de receber uma declaração de amor por intermédio dessa canção. O eu-lírico se posiciona como um vigia, como um grande irmão que acompanha todos os seus passos, suas vacilações, suas imperfeições, enfim, é alguém que sufoca através do amor que, na verdade, se transforma em uma obsessão.

E não sem razão, que consultando o livro “Músicas e Musas”, de Michael Heatley e Frank Hopkinson, encontrei duas declarações de Sting que corroboraram minha tese sobre o caráter obsessivo da canção, por intermédio da qual alguém se vê obcecado por outra pessoa.

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Segundo Sting, a música é “uma canção fruto da experiência de ciúme e possessividade… uma canção sinistra, perversa, disfarçada num contexto romântico”

Repare que a introdução inconfundível da canção poderia muito bem ser usada num filme de suspense, de perseguição.

Sting compôs a canção no refúgio jamaicano de Goldeneye, segundo Sting, na mesma escrivaninha em que Ian Fleming (criador do 007) escrevera a próxima aventura de james Bond.

Sting, numa entrevista à BBC, afirmou: “Eu acho que a canção é muito, muito sinistra e cruel, e as pessoas a interpretaram como uma singela canção de amor”. 

Percebe-se claramente o quão egoísta é a canção. O eu-lírico afirma textualmente que percebe o que o ser amado não consegue perceber: o fato de que ele (ser amado) pertence ao eu lírico, que de maneira obsessiva observa, segue, persegue e não consegue suportar a dor de não ser correspondido naquele instante.

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Na canção, o sujeito observa cada respiração, cada passo, cada sorriso, cada promessa, cada movimento, cada noite, e não se conforma, afinal, a musa “lhe pertence”. Acabou sendo uma precursora daquilo que hoje se conhece como “stalkers”

O baixo é preponderante (Sting é baixista), a estrutura melódica e harmônica é simples, e consta que a canção teria sido inspirada no fim do casamento entre Sting e sua primeira esposa (Frances Tomelty). “Every Breath You Take” foi lançada no disco “Synchronicity” em 1983, e foi um sucesso estrondoso, talvez o maior sucesso da banda.

Imagem relacionadaSting e Frances Tomelty