Balé da Bola. A Copa do Mundo na visão de Gilberto Gil.

Músicas sobre a copa do mundo costrumam ser datadas. Eles fazem referências a fetos e circunstâncias muito particulares que se vinculam emocionalmente ao evento. Foi assim com “Pra frente Brasil”, na copa de 70, ou “Sangue, suingue, cintura”, na copa de 1982.

Em certa medida, “Balé da Bola”, uma homenagem de Gilberto Gil à Copa de 1998, não deixa de ser uma música datada. Mas linda. Uma música que faz inúmeras referências, mágicas, gregárias e antropológicas sobre a experiência de estar perto de um gramado de futebol.

Gil faz a referência aos olhos, que então se voltavam para a França, em que o início da Copa do Mundo representa à felicidade, ao amor, e ao ardor de torcer por sua seleção.

 

Em “Todas as letras”, Gil conta um pouquinho da história, pois ele faria apresentações na Europa durante o verão Europeu, e estaria na França durante a Copa de 1998:

 

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“Eu escrevi “Balé da bola” por causa da Copa, poucos meses antes da competição, e a gravei pouco antes de viajar para Europa, para cantá-la ali. O show era aberto com ela. Engaçado: do ponto de vista da qualificação da canção, do seu estar dentro e fora do tempo, foi interessante que o Brasil não tenha ganho essa Copa – porque ela não era uma daquelas músicas de torcida brasileira (era, mas ao mesmo tempo não era…)”.

 

Mas não é só uma partida de futebol. Os magos e bailarinos do futebol transformam as dores e os dramas da vida no “Balé da Bola”. E a cada gol marcado, é possível reviver a ancestral tradição da China, dos Astecas, da Grécia, da França medieval, dos homens correndo em torno de uma bola.

 

Gil coloca em cada lance de uma Copa do Mundo como um pequeno pedaço da humanidade preservado, sendo a bola um símbolo desejado, querido, que faz cada um dos admiradores do “ludopédio” um torcedor, e cada jogador que um dia pisou o campoi de uma copa do mundo encontra aqui o seu olimpo.

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É uma música sobre a copa de 1998. Mas continua sendo um lindo samba sobre o futebol como atividade humana. Logo depois da Copa, Gil contou:

 

Aí, no dia da seguinte à final, nós estávamos já em Madri, onde faríamos um show, e na hora da passagem de som os músicos perguntaram: “Mas como é que vamos abrir o show?”. “Mas é claro que vamos abrir com ela, qual é o problema? Qual é o problema?”, eu disse. “É uma música sobre o futebol, imagina”. Porque ela foi feita a propósito da Copa da França – o que incluía todas as seleções.

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E, nesse sentido, era interessantíssimo que a França tivesse sido campeã… Porque era ali, em Paris, e porque o samba tinha essa coisa de “Pelé e Platini”, porque era um ballet…

Tenho paixão por essa música. Por ser meu primeiro samba-enredo, fazendo uma viagem extraordinária por toda coisa do futebol. E também pelo seu lado musical, pela fluidez do samba, junto com a letra

 

Quando meu olhar beijar Paris
Terei mais amor
Serei mais feliz
Sentirei no ar a emoção, no ar o ardor
Meu coração de torcedor
Esperou tanto tempo por esta ocasião
Que um dia o menestrel sonhou

Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola

Quando a seleção marcar um gol
Serão séculos
E mais séculos
Desde que na velha China, no velho Japão
Jogava-se com um balão
E na antiga Grécia ou na França medieval
Praticava-se o futebol

Quando a seleção marcar um gol
Serão séculos
E mais séculos
Transcorridos desde que os astecas e os tupis
Conforme a voz da lenda diz
Pelejavam com a lua-bola e o balão-sol
Num jogo de viver feliz

E hoje a bola rola mais perfeita
Esfera mágica, elevação
Nos pés dos ídolos deste planeta
Tem seu momento de consagração
A bola símbolo da perfeição
Tem seu momento de consagração

Quem lembrar Pelé ou Platini
Sabe o que se comemora aqui
Tantos que eu vi, tantos que eu não vi não (bis)
Todos tem aqui seu panteão

Drão – a bela música de separação contada por seus protagonistas

Quando me perguntaram certa vez sobre músicas de separação, as duas que me apareceram foram de Chico: “Eu te amo” e “Trocando em miúdos”. Duas músicas belíssimas, pungentes, contém frases como “se confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu hei de partir”, na primeira, ou “não vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado”, na segunda. Mas há um outro lado da moeda. Um desatar de um casamento não como mágoa ou desamor, mas como um amor que muda…

Ainda criança, ouvia “Drão”, de Gil, e a música não me dizia nada. “Drão” foi o apelido dado por Maria Bethânia para Sandra Gadelha, que, na época da composição da música, estava se separando de Gilberto Gil. A música continua universal. Hoje, percebo ser uma das mais belas músicas de separação já escritas. Escrita para desmentir a história que a separação é o fim do amor e o começo de desamor, mas de um amor que se transforma e se eterniza.

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Por isso mesmo, quis juntar, numa música de separação, os depoimentos de Gil e de Sandra sobre a música e a época. E agradecer aos dois por serem musa e artista de uma das mais belas canções de Gil:

Gilberto Gil, no disco “Todas as letras” (Cia das Letras, 2000), diz:

Sua criação apresentou altos graus de dificuldades porque ela lidava com um assunto denso – o amor e o desamor, o rompimento, o final de um casamento; porque era uma canção para Sandra [apelido de de Drão – daí o título de música] – e para mim. ‘como é que eu vou passar tantas coisas numa canção só?’, eu me perguntava.”  

Resultado de imagem para gilberto gil drãoGil e Sandra no Exílio 

 Sandra Gadelha, como inspiradora da canção, conta a história de como Gil lhe mostrou a música, numa reportagem da revista Marie Claire:

Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.

Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.

Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos.

No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.  A primeira vez em que ouvi ‘Drão’ depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: ‘Os meninos são todos sãos’. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo.

Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve ‘Drão’. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou, Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de Drinha.

Vale a pena escutar.

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Primeiramente, Gil faz um paralelo entre Drão e o grão, oamor que é a semente que tem que morrer para germinar, fazendo referência à semeadura, e ao neologismo “caminhadura”, que faz referência à dura caminhada de uma relação.

Em seguida, Gil exorta ao não sofrimento, e que o amor transcende e se estende, e no final há um jogo de palavras entre o amor que é “vão”, mas que ao mesmo tempo é sólido como um monolito (estrutura geológica a partir de uma só rocha).

Por fim, Gil faz referência aos filhos sãos, assume os pecados, mas não pede perdão, já que não há o que perdoar, e que assim é o amor que morre nasce trigo, vive e morre pão.

P.S.  Eu podia aqui divagar sobre o “catar feijão”de João Cabral de Melo Neto no processo criativo e falar sobre o elemento confessional na criação artística. Mas isso fica para outra viagem…

Fontes: Gilberto Gil. Todas as Letras (Org. Carlos Rennó). 2ª Ed, Cia das letras, 1996; http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao6.htm

domingo 29 agosto 2010 03:35 , em Mulheres e suas canções