“Marcha da quarta-feira de cinzas”

 

Em 1963, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes escreveram uma das canções icônicas, com uma temática diferente daquela levada a cabo pela ala jovem da Bossa Nova; a Marcha da Quarta-Feira de Cinzas.

Carlos Lyra foi o responsável pela melodia, e a letra ficou a cargo de Vinícius.

 

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no volume 2 de sua canção no tempo, fazem um comentário sobre as canção:

“Composta antes de 1964, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC (Centro Popular de Cultura) em que Carlos Lyra incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil…”).

14357

Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou…” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a plateia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão, teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 1963 .

A canção, feita em 1963, permitiu que, nos anos seguintes, se fizesse interpretar como uma alegoria sobre a ditadura militar, que eclodiu em 1964, quando se dizia que “acabou nosso carnaval” , e que ninguém cantava feliz e restavam apenas saudades e cinzas.

Resultado de imagem para carlos lyra e vinicius de moraesVinícius e Carlos Lyra

Mas, ao mesmo tempo, incita de que “no entanto é preciso cantar”, como se fosse uma incitação à resistência política.

Assim, a música ficou registrada no imaginário popular como uma canção de resistência ao golpe de 1964. Mas, segundo Carlos Lyra, “a música não tinha implicação política, a melodia não conta nada dessas coisas”.

Lyra explica que a letra, no entanto, “levou muita gente a pensar que fosse uma resposta ao golpe. Era uma canção de premonição”, afirma, especulando que talvez seu parceiro, Vinicius de Moraes, “tivesse bola de cristal”. As duas pessoas da bossa nova que eram ligadas à esquerda “éramos eu e Vinicius”, assegura.

 

https://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u927.jhtm

As dunas de Gal. Um texto de José Simão em 2005.

Em junho de 2005, José Simão escreveu um texto sobre Gal Costa que acaba sendo um retrato, não só da década de 70, como da importância de Gal  para a música brasileira. Na verdade, Gal poderia contentar-se com sua voz, que está muito longe de ser uma “mera voz”.

Gal encarnou o espírito tropicalista, alternando momentos de suavidade, sensualidade, polêmica, escândalo. Poucas cantoras se arriscaram tanto na sua carreira, e nenhuma conseguiu sincretizar tão bem o clássico com o moderno. Desde canções de Caymmi, Ary Barroso e Tom Jobim, passando pela capa absolutamente provocativa em Índia, bem como gravando música eletrônica, rock, mostrando-se arriscando, não é à toa que Simão, no texto abaixo, disse que era “da Geração de Gal”.

E no texto Gal Costa acaba sendo a metáfora perfeita dos anos 70, um símbolo de uma geração colorida e de desbunde…Segue o texto, disponível no sítio digital de Gal Costa:

(http://www.galcosta.com.br/sec_textos_list.php?page=1&id=23&id_type=3):

As dunas de Gal
José Simão – 30/06/2005

Até hoje uma amiga comenta: “É mesmo, os tempos mudaram. Eu também era esquálida e todos me achavam gostosíssima. Agora eu tenho o corpo da Matilde Mastrangi e ninguém repara”. E pano rápido. Porque gostosa mesmo era a Gal. O símbolo da gostosura dos seventies, dos 70. 

Engraçado, editor pensa que colaborador é repentista. Dá um tema e a gente sai cantando. Em disparada, na maior embolada. E na maior embolada, no ritmo rápido era do repente eu vou cantar pra vocês as dunas da Gal, uma verdadeira lisergia tropical. 

É que outro dia eu estava na Rádio Cultura comentando o disco da Gal, o LeGal, quando me perguntaram o que eu estava fazendo no início da década de 70. Ai minha Santa Periquita do Bigode Louro, santa ingenuidade! É claro que eu não estava fazendo nada. N-A-D-A. Nada! A maioria das pessoas na década de 70 não fazia nada. Só faziam a cabeça. Como eu, que tinha de fazer e bater a cabeça todas as manhãs nas dunas da Gal, vulgo dunas do barato, píer de Ipanema. Depois eu tinha que esticar na areia minha sábia preguiça solar e bolar alguns capítulos do meu livro-espetáculo Folias Brejeiras. E depois tinha de fazer a chamada pra ver se ninguém tinha pirado no dia anterior. E depois tinha de bater palmas pro pôr-do-sol. Sair da praia antes do pôr-do-sol era blasfêmia! E ainda por cima tinha que ir em romaria todas as noites assistir o show Gal a Todo Vapor. Era Pouco? Ufa! Bem que o Groucho Marx tinha razão quando disse: “Como sofre uma baiana”. 

Gal a Todo Vapor, o grande sucesso da temporada, todas as noites, lá no Teresão. A todo vapor mesmo. Era só a banda dar os primeiros acordes que a turma das dunas desfiava o resto, de cor. E pior, ninguém queria pagar. Pagar era um insulto. O teatro era o Teresa Raquel, vulgo Teresão, lá em Copacabana. E o diretor do show era o Waly Salomão. E dá-lhe convites. Principalmente quando descia o Morro de São Carlos com o Melodia e toda aquela roda de bambas e compositores de sambas. E ficavam na porta. Aí o Waly dava uns abraços psicodélicos na Teresa Raquel e ficava falando loucuras no ouvido dela. Ai convite virava chuva de confete. Os convites eram tantos que a Teresa Raquel ficava nervosa, andando pelo saguão do teatro, num cáften até os pés, gritando: “ Eu não sou Jesus Cristo”.
E numa dessas noites, ao som da Gal, ao som da dona dos mais belos trinados do planeta, eu e Jorge Salomão tivemos a brilhante ideia de combinar nossas roupas com o cenário da Gal. Seria um happening. Era como se fosse uma extensão do próprio cenário. E fomos lá e catamos os restos de cetim do cenário criado pelo Luciano Figueiredo e Oscar Ramos, medimos bem e chegamos à conclusão: Dá! E fizemos duas camisas maravilhosas, de cetim. A minha era dourada. Pra combinar com a palavra-destaque também dourada lá do fundo do palco: FA-TAL. A do Jorge era branca. Pra combinar com a palavra-destaque branca: VIOLETO. E estava formada a dupla de destaque, um par de jarros. Fatal e Violeto

E Gal corria de um lado pro outro do palco cantando. E encantando: “Vejo o Rio de Janeiro”. Lábios vermelhos, de fogo: “Vejo o Rio de Janeiro”. Um sol. 

Gal Costa nos anos 1970 - Foto: Divulgação

Um sol. Pois é. Acho que tudo começou num dia de sol, quando Gal saiu de sua casa na Farme de Amoedo em direção à praia e resolveu estender sua toalha e sua plástica bem em cima de um monte de areia, uma duna, ao lado do píer de Ipanema. Pronto. A crème de la creme da lisergia tropical se apinhou a sua volta, fervendo, a festa já preparada, estava lançado o point mais badalado dos anos 70, o auge da contracultura: as dunas da Gal ou as dunas do barato ou, para os mais íntimos, o morro da Gal. Ainda bem que ela escolheu Ipanema. Tivesse escolhido a praia de Ramos, nós estávamos fritos. Já imaginaram aquela turma de calção e cabelão e frutas e discos e livros e idéias e slogans e palavras de ordem e colares, horas dentro de um ônibus? Não ia dar certo. Ou ia.

O caso é que, onde Gal ia, todo mundo ia atrás. Gal era quieta. Mas sua presença acionava o motor. Ou melhor, o rotor. Porque o babado era quente. Não era só o sol que se escancarava. Tudo ali se escancarava. As cores, as pessoas, as fofocas, os namoros, e as comportas do comportamento, escancaradas. Mas Gal ficava lá, quieta. Semideitada, como uma maja desnuda tropical, com os cotovelos enfiados na areia, fitando o infinito, o horizonte, lá onde o azul do céu se encontra com o azul do mar e o barquinho vai e o barquinho vem. 

 

Todo mundo ficava em pé. Ninguém sentava. Só a Gal. Em pé conversando e conversando. Não sei o que tanto a gente conversava. Acho que bolando um novo espetáculo. E o Cazuza louco pra se enturmar. Ficava na toalhinha vizinha, louco pra se meter na conversa. E as pessoas começaram a levar frutas para a praia, talhos de melancia, cachos e mais cachos de uvas, mangas e seringuelas, verdadeiros banquetes tropicais. Era a alegria, o barato. Ondas eram plumas. E no dia em que Brian Jones morreu, Vilma Dias apareceu com uma camiseta onde se lia Brian Jones is dead, em vermelho!. Ela deve ter pintado em casa, às pressas, com esmalte. Nunca vi tantas idéias. Verdadeiros vulcões. As pessoas se alimentavam de lançamentos. 

Quando Gal se levantava, negra de sol, pra ir embora com aquela cesta indígena na cabeça, era uma deusa. Pra mim, ela era Elvira Pagã. Tudo ela levava naquela cesta indígena, de palha. Toalha, cocker spaniel, filtro solar, as chaves da Fiat vermelha, o telefone do João Gilberto, a partitura de Vapor Barato, recados, torpedos. Não sei que milagre que ela não botava até o Waly lá dentro. Botar a Cotinha e o Moleque Pereira, a Maria Guilhermina enrolada na bandeira do Flamengo, o Mautner, o Jacobina, o Melodia, a Pinky Wainer, a Scarlet Moon, e o Steve que atropelava táxis. E o Jorge Salomão, o Bacana e a Puppy. E o Anjo. Ela devia botar a duna inteira lá dentro da cesta. E levar pra oca dela. Lá na Ladeira do Tambá. Que todo mundo ia adorar. 

 

Todos Resultado de imagem para gal costa  anos 70de tanga, sunga, quase nada. O chic era deixar um pouco dos pentelhos de fora, um tufo, aparecendo. E a barriga bem pra dentro, estilo faquir, ou no máximo uma barriga bronzeada e torneada como um mamão papaya. 

Ninguém cumprimentava quem ousasse usar relógio. Um dia um amigo, de tanto a mãe insistir, arrumou um emprego. E tinha que sair da praia às três da tarde. Isso mesmo, às três da tarde! Era uma heresia. Isso era considerado um crime. E o coitado saia meio escondido, envergonhado.

Era uma heresia abandonar aquela orgia SOLAR, ingênua e sensual. A geração Gal. Quando hoje me perguntam qual a minha geração, eu respondo: “Eu sou da geração Gal!” E ponto final. Porque tudo isso aconteceu quando eu era um bebê de colo. É que eu não gritava buábuá buá. Eu gritava Gal, Gal, Gal. A todo vapor.?

“Vamos comer Caetano”. A Homenagem de Adriana Calcanhotto

Tendo como pretexto uma frase de Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto compôs uma bela canção manifestamente tropicalista, denominada “Vamos Comer Caetano”, gravada no disco Maritmo, em que mar e ritmo se juntam numa só palavra.

Caetano compôs a canção “Vamo Comer”, gravada com Luiz Melodia em 1987.

Resultado de imagem para vamos comer caetano

 

Na canção, há manifestas referências ao antropofagismo, como atitude estético-cultural de “devoração” e assimilação crítica dos valores culturais estrangeiros transplantados para o Brasil, com realce para elementos e valores culturais internos reprimidos pelo processo de colonização.

A referência vem desde Oswald de Andrade, no seu Manifesto Antropofágico de 1928, e que foi, em certa medida, um dos motes do movimento tropicalista da década de 60.

Na canção, Caetano passa de sujeito a objeto, de devorador a devorado, como alguém que deve ser desfrutado, absorvido, devorado.

Imagem relacionada

Além de todas referências, há uma proposital brincadeira  com o  cunho dúbio e erótico da expressão “comer” , quando faz referências a “lamber a língua”, ou comê-lo “pela frente, pelo verso”.

Adriana, recentemente, fez esta reflexão numa entrevista ao Jornal de Portugal Timeout:

De que forma é que a antropofagia e o tropicalismo a transformaram?
Me formaram antes de me transformar, me mostraram a possibilidade da convivência entre a “alta” e a “baixa” cultura sem assombro, sem deslumbramento. Para alguém que na infância ouvia em casa tanto o jazz e a música erudita com os pais quanto a rádio popular com as empregadas da casa, isso era completamente natural, até eu perceber que a maioria não pensava assim. Quando nasci, o tropicalismo já existia, mas só na minha adolescência pude entender o quão corajoso aquilo havia sido.

O que é que ainda podemos aprender com o Tropicalismo?
Muito. Nem tudo está completamente assimilado, são muitas teias, é caleidoscópico, randómico, inesgotável. Continua influenciando gerações de artistas no mundo todo, de música, moda, arte.

Em 2006, Eduardo Harau fez uma resenha sobre a canção, que vale a pena ser replicada aqui…

 

Uma questão de gosto
Rabisco 15/03/2006

Adriana Calcanhotto junta Oswald de Andrade, Antropofagia, História, Mitologia, Tropicalismo e Vanguarda, tudo por meio de uma proposta: comer Caetano Veloso

Noutro plano,
Te devoraria, tal Caetano
a Leonardo de Caprio”
Djavan

Este longo preâmbulo é para apresentar a análise de uma letra-canção de Adriana Calcanhotto. O título é “Vamos comer Caetano”, sétima faixa do disco Maritmo, que traz uma releitura muito “interessante” daquele movimento chamado Tropicalismo. Isto já se evidencia na sutil escolha de Hélio Oiticica para faixa de abertura (“Parangolé Pamplona”), artista-plástico responsável pelo nome dado ao movimento; além de Caetano e outros baianos, como Dorival Caymmi (em dueto com a cantora em “Quem vem pra beira do mar”) e Waly Salomão, na canção dance-poética “Pista de dança”, a convidar o ouvinte ao transe dos terreiros. O passeio estende-se a outras experimentações poético-musicais: Adriana Calcanhotto emparelha Antônio Cícero, Péricles Cavalcanti, Pedro Luís, Hermeto Pascoal, Cazuza e Bebel. O disco não deixa de fora nem a balada iê-iê-iê de Roberto Carlos (“Por isso eu corro demais”), uma escolha popular que parece lutar, dentro do disco, com colagens sofisticadas (samples, mix, remixes, replicações; montagens até visuais, como presentes no encarte do próprio cd). De estilhaços, recortes, reconfigurações, Adriana Calcanhotto monta um álbum que almeja uma liberdade, um vôo, que mesmo nos trabalhos mais recentes a cantora e intérprete não alcançou em totalidade, mas se esmera em procurar.

O título da canção se repete logo no primeiro verso, “Vamos comer Caetano”, ambos propondo de antemão um convite (não há imperativo) ao mesmo tempo solto e malicioso. Isto porque a palavra “comer” salta facilmente do sentido original (alimentar-se) para o sentido popular de “fazer sexo”. Na “letra”, a sugestão sexual une-se ao sentido literal da palavra: comer o cantor baiano Caetano Veloso. O ato “canibal”, “profano”, “antropofágico”, é pontuado por uma música que segue em tom de marcha, é recitativa, com ecos de composições carnavalescas. Assim são as duas quadras de abertura:

Vamos comer Caetano
Vamos desfrutá-lo
Vamos comer Caetano
Vamos começá-lo

O verbo do segundo verso (desfrutá-lo) propõe devorá-lo como a uma fruta (desfrutá-lo), mas brinca com uma expressão popular: “dar-se ao desfrute”, exibir-se. O jogo de palavras segue nos próximos versos com associações sonoras entre comer/começar (“vamos começá-lo”). Ou seja, ao mesmo tempo em que acentua a urgência do ato, assinala o início da canção e a minúcia/requinte do devoramento:

Vamos comer Caetano
Vamos devorá-lo
Degluti-lo, mastigá-lo
Vamos lamber a língua

Sem ser homônimo, o verbo “comer” se presta assim como um parônimo (que também não é) a trocadilhos vários, que ressalta a graça e o gracejo da composição. Quem ouve com atenção as letras da cantora-compositora Adriana Calcanhotto vai reconhecer sua predileção por replicação de versos, reiterações de palavras, repetições várias que parecem determinar até a escolha de canções de outros compositores. “Vamos comer Caetano”, não é diferente.

Resultado de imagem para vamos comer caetano

As repetições de versos e palavras não tornam a canção redundante, prestam-se mais à acumulação de sentidos: comer/devorá-lo/degluti-lo/mastigá-lo/lamber a língua. Mais que um ato de violência, ela propõe o deleite. O prazer está em desfrutar, dar-se ao desfrute, expor o prazer. Caetano é a iguaria-avatar. A proposta é o gosto orgiástico, o banquete que se confunde/converte em bacanal. Como ignorar o convite das bacantes gregas cujas vozes ecoam no canto fetichista de Calcanhotto?

Os versos anteriores antecipam a referência à Antropofagia de Oswald de Andrade, que o Tropicalismo, movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, irá resgatar. A proposta? Devorar todas as influências, os avanços e recursos da modernidade, e gozando de uma absoluta liberdade criadora (e pessoal), somar o popular e o erudito (de empréstimo/ou em formação) para revelar uma perspectiva original, fusão de raças, crenças, costumes, a explicitar direta ou indiretamente, a consciência do subdesenvolvimento.

Resultado de imagem para vamos comer caetano

Adriana altera na canção um famoso bordão de auditório (“Quem vai querer bacalhau?”), apregoado num programa popularesco de tevê pelo apresentador Chacrinha. O rebaixamento é paródico, contra o bom gosto. Trata-se do uso da sátira como arma; a mesma disparada pelos modernistas em 22 e sacada depois pelos tropicalistas. Neste verso, simultaneamente, ela evoca o “bacalhau” que era o alimento dos viajantes e dos portugueses de classe baixa no início da colonização, e que terminou por remeter, imediatamente, a Portugal (e a cerimônia de corpus christis”, com o interdito dos cristãos em alimentarem-se com “carne”).

Nós queremos bacalhau
A gente quer sardinha
O homem do pau-brasil
O homem da Paulinha

Nos versos transcritos de Adriana, o nós, formal, usado na citação lusitana, muda igualmente para o “a gente”, mais frouxo, mais brasileiro e transgressor da norma “elevada”. A sardinha (tanto se refere ao alimento preferencial do “povão” quanto ao bispo Pero Fernandes “Sardinha”, devorado pelos índios caetés em 1556) e evocado por Oswald de Andrade em seu “Manifesto Antropofágico”. Este, por sinal, é o texto que abre seu livro de poesias modernistas, intitulado Pau-Brasil (1925). Para Adriana, Caetano seria então o continuador do “homem do pau-brasil”, a ecoar prosaicamente no pior verso da canção “O homem da ‘Pau’linha” (referência a Paula Lavigne, então esposa de Caetano). Desnecessário lembrar o que simboliza ser o homem do “pau-brasil”, já que esta árvore foi a primeira matéria a ser explorada (e exaurida) pelo colonizador, do qual só restou parte do nome, a designar um país que se presta facilmente a ser vendido pelos senhores-locais e explorado pelo capital estrangeiro [Chico Buarque fez uma canção que traduz isto perfeitamente, “Bancarrota Blues”, que regravou no disco As cidades – vivo” para “homenagear” o governo FHC].

Os versos seguintes exigem uma outra elucidação:

Pelado por bacantes
Num espetáculo
Banquete-ê-mo-nos
Ordem e orgia
Na super bacanal
Carne e carnaval

Em 1996, durante a encenação da peça As bacantes , de Eurípedes no Teatro Oficina em São Paulo, Caetano Veloso, que fora ver espetáculo, foi despido em cena pelas atrizes que interpretavam as bacantes. Novamente, soma-se a tradição erudita (teatro clássico), o mítico (o “cantor” Orfeu, despido e devorado por bacantes, tema da peça) e o prosaico: a notícia “escandalosa” veiculada e comentada pelos veículos de massa do Brasil. A cena é síntese da canção: Caetano foi, literalmente, pelado por bacantes, ficou nu, num espetáculo: ritual báquico e canibalista.

O orquestrador do espetáculo foi o diretor de As bacantes, Zé Celso Martinez Correia, representante – no teatro – do próprio movimento tropicalista, uns dizem precursor (ao lado da exposição Tropicália de Hélio Oiticica, de onde Caetano tirou o nome para canção e para o movimento). Amigo de Caetano, foi ele quem resgatou a peça escrita em 1937 por Oswald de Andrade, O rei da vela, com a qual reinaugurou em 1967 o teatro Oficina. Neste espaço projetado singularmente por Lina Bo Bardi, o melhor das artes de vanguarda, e o desejo de se “reafirmação de uma originalidade do ser brasileiro” revolucionou o teatro nacional, cuja repercussão e importância só fazia para a montagem, anos antes, de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Como dito, relendo os versos anteriores, temos o deleite, a fruição: arte e gozo. Novamente uma referência erudita, o cantor/poeta devorado. Orfeu, comido pelas bacantes. Por isso o “num” do verso soa cantado como “nu”. Também a frase-emblema da bandeira do Brasil, “Ordem e Progresso” (que Oswald pôs na capa de seu Pau-Brasil ), a indicar um ideal positivista, portanto, tomado de empréstimo das “nações desenvolvidas” (no caso, a França) é subvertida no verso da canção. “Ordem e Orgia” é o que prega/apregoa Adriana Calcanhotto. Com isto, não apenas aponta para fusão de princípios contraditórios (ordem/orgia), mas indica a aceitação do paradoxo: organização (de uma ordem nova; perspectiva mais ousada de compreender a realidade, baseada na) expressão do desejo. O verso “A super bacanal”, faz por fim, o “link” com o disco Tropicália , pois toma de empréstimo o título de uma das canções do álbum (“Super Bacana”), música absolutamente narcísica, composta e interpretada por Caetano Veloso. É interessante destacar que a canção “Tropicália” abre com versos (recitados) de Oswald de Andrade, e toda letra soa como um manifesto do efêmero movimento (1967 a 1970) que irá desafiar o bom gosto da música popular brasileira. Ruptura e continuidade, o disco destaca-se por arregimentar tradições (relidas/subvertidas) que não cabe aqui aprofundar.

Pelo óbvio
Pelo incesto
Vamos comer Caetano
Pela frente
Pelo verso
Vamos comê-lo cru
Vamos comer Caetano
Vamos começá-lo
Vamos comer Caetano
Vamos revelarmo-nus

O óbvio para Adriana é o reconhecimento de Caetano como pai de uma nova tradição de compositores brasileiros, que altera o lugar-comum, o “óbvio” e pela colagem chega ao novo. São aqueles que trabalham com o jogo de palavras, com a mistura também de ritmos, reciclando barrocamente o passado: deglutindo-o. O incesto consiste em “comer” este pai, no sentido mais sexual do termo; o incesto, que é o maior dos tabus: nova proposta de transgressão. Verso partido em dois, a expressão popular (óbvia), “pela frente/pelo verso”, ganha nova conotação: de prática incorporar a prática da versificação (pelo verso), sexual (pela frente), antropofágica (cru, soando como nu). Isolada, “pela frente e pelo verso” indica uma adesão completa, incorporar Caetano em totalidade; creio que pelo menos os ideais que Adriana Calcanhotto julga ainda “revelados” pelo Tropicalismo. Comer Caetano é, logo, um “processo contínuo”, inesgotável, por isso ela repete os mesmos dois versos iniciais no fim da letra (“Vamos comer Caetano, vamos começá-lo”). Forma que ela julga necessária para avançar, para revelar (e não descobrir) o Brasil, uma arte mais universal e subversiva, uma arte capaz de revelar “o Brasil” e/ou ser revelação.

De certo modo, Adriana Calcanhotto indica “a receita” ao mesmo tempo em que a incorpora. “Vamos comer Caetano” é uma canção composta (o melhor seria, “recomposta”) de versos partidos, palavras-cacos para formação da letra-mosaico de Adriana. Por exemplo, as maiores contribuições são do disco Velô, de 1984: a faixa “Língua” (sobre criação poética, linguagem e literatura) empresta o seu título logo nos primeiros versos (“Vamos lamber a Língua”); e da faixa “Comeu”, não apenas o título, mas os verbos vão ser retomados pela cantora gaúcha. Neste caso, ela confirma a situação apresentada no “enredo” da canção “Comeu”. Adriana faz como que a versão feminina, pegando o costumeiro “ela” (a amada, a tigresa, a femme fatale, devoradora de corações, comum nas canções de Caetano), para castigar e devorar o “ele”, o sedutor, objeto do quereres (poeta ensimesmado). Basta que se examine a letra de “Comeu” para entender essa conexão: “Ela comeu meu coração / Trincou, mordeu, mastigou, engoli / Comeu o meu // Ela comeu meu coração / Mascou, moeu, triturou, deglutiu / Comeu o meu // Ela comeu meu coraçãozinho de galinha num xinxim / Ai de mim // Ela comeu meu coraçãozão de leão naquele sonho medonho / E ainda me disse que é assim que se faz / Um grande poeta // Uma loura tem que comer seu coração / Não, eu só quero ser um campeão da canção / Um ídolo, um pateta, um mito da multidão // Mas ela não entendeu minha intenção / Tragou, sorveu, degustou, ingeriu / Comeu.”

Imagem relacionada

Adriana Calcanhotto devora não apenas letras/canções de Caetano Veloso, mas reproduz a própria sintaxe do compositor baiano, com suas ênclises (revelarmo-nus) e mesóclises (banquete-ê-mo-nos) características. O que ela faz é “engolir” o estilo para exaltá-lo, num samba marcha. A transformação do oblíquo “-nos” em “-nus” (assim está transcrito no encarte do cd), sugere novamente a idéia de nudez e transcendência. Revelar-se “nu” é alcançar a essência, a plenitude. Estar nu é igualmente estar livre das convenções sociais. O desnudamento era elemento crucial nos ritos de passagem primitivos como símbolo do renascimento. Em seitas mais primitivas, a nudez resultava do transe que passava, inevitavelmente, pelo oferecimento do corpo/carne, para sacrifício e/ou prática sexual, em ambos os casos, celebração da fertilidade, portanto, da continuidade.

Reforçando o barroco, o excesso, a reiteração, a canção termina com um mix de várias músicas de Caetano Veloso, com fragmentos, ecos e sons que as reiteram e a voz de seu dono. Tudo almejando o novo, o moderno, o contemporâneo, mas calcado no que já foi dito antes pelo outro, mais uma lição de Caetano. É um recurso que lembra “Quem”, faixa experimental de Tropicália 2 em quem soa o monossílabo “quem” na voz de inúmeros intérpretes da música popular brasileira. Outra composição do próprio Caetano Veloso e Toni Costa é evocada nesta letra de Adriana Calcanhotto: “‘Vamo’ comer”, lançada no disco Caetano (1987), que o cantor gravou com o “então” marginal Luís Melodia. A levada é em tom de rumba, propositadamente, paródica, e com um discurso feroz sobre hipocrisia política. Nela, versos e localizações estrangeiras fundem lugares e idiomas distintos num discurso satírico. É igualmente uma canção que trabalha com repetição de versos e jogo de palavras, como indica o fragmento: “Vamos comer / Vamos comer, João // Vamos comer / Vamos comer, Maria // Se tiver / Se não tiver então ô ô ô ô // Vamos comer / Vamos comer canção // Vamos comer / Vamos comer poesia”.

Adriana Calcanhotto

Contrariando o título de uma canção do álbum Maritmo, “Vamos comer Caetano” não é, definitivamente, “Uma canção por acaso”. Versos muito precisos, semelhantes as instruções postas na primeira página do encarte (sobre o modo de fazer o “Parangolé Pamplona” de Hélio Oiticica), revelam uma cantora/compositora preocupada com seu ofício, e lutando contra a superficialidade das canções e das idéias no atual panorama da música popular brasileira. Não levanta exatamente uma bandeira (não sei, talvez o faça), gira num parangolé, na verdade, mais verde-amarelo que abóbora sob “azul- maritmo.” De um modo geral, seu disco não se realiza plenamente, carece de leveza, mas há certa graça neste mover-se “entre as águas/pedras que se batem”, repetidamente, pela orla, pela beira, pela areia, afora. Tomadas de empréstimo na canção “Vamos comer Caetano”, as palavras fazem-se novas nos versos pelo engenho da poeta (ops!), cabe aqui ressaltar, que isto não é nada pouco.

Eduardo Harau