Sinatras voando pela Janela… Ronaldo Bôscoli e Elis Regina

 

Elis Regina e Ronaldo Bôscoli formaram um dos casais mais efervescentes do final da década de 60. Ele, um dos principais representantes e defensores da bossa-nova: ela, uma cantora que dispensa comentários. De qualidade semelhante à de Elis, contam-se nos dedos.

Imagem relacionada

Ruy Castro, em Chega de Saudade (Cia das letras, 1990), revela que Elis se casara com seu maior inimigo, e que o casamento dos dois seria como (ou pior) que a Guerra do Vietnã.

No entanto, Ronaldo Bôscoli, no livro Furacão Elis (Globo, 1985), contou à autora Regina Echeverria um pouco da tumultuada história dos dois. Trago aqui pequenos trechos, para que não fique excessivamente longo (páginas 66-74):

Elis era uma grande ciclotímica, tinha uma arritmia de comportamento sem maiores explicações.Num momento estava puta, noutro rindo, noutro chorando.”

Mas Elis tinha esses problemas todos, principalmente de origem afetiva, e essa insegurança também foi me deixando apaixonado. Eu tinha muita coisa pra completar naquele espaço dela. Eu, que vinha de uma experiência de infância amargurada, – fui muito rico e perdi tudo, sofri muito com minha mãe tomando porres incríveis. Vim de cima e caí. Fui fazer shows, jornalismo. Eu tinha um perfil ideal para Elis, porque sabia de todas as deficiências dela, e ela sabia das minhas. Então essa simbiose faz amor. Não explica, mas pelo menos justifica. E eu era sabedor de que Elis tinha sido explorada desde o berço pelo pai, pela mãe, pela família. Ela era uma espécie de galinha dos ovos de ouro.”

 

Casamento de Elis e Bôscoli

Namoramos no Rio, fomos pra São Paulo, e eu demorei quase uns 20 dias para transar com ela, uma coisa de estratégia mesmo. Ela morava na Av. Rio Branco e um dia não aguentou, me deu uma prensa: ‘tá achando que eu sou uma bosta?” Aí ficamos uns cinco dias trancados no quarto, dia e noite.”

“Elis tocava a vida de ouvido.A gente dizia uma coisa pra ela, ela dava a volta e, pouco depois, já começava a ensinar o que tinha aprendido”.     

  Sobre as brigas:

“Nossas brigas eram públicas porque éramos públicos. Nunca teve briga física em público. Ela me levava à exaustão, era como se me enfiasse uma broca na cabeça até o ponto em que eu teria que dizer: ‘vou te dar um tiro”. Era uma relação perigosamente deliciosa. Voava tudo pelos ares e, de repente, estávamos nos agarrando de paixão. Fazíamos coisas estranhas e bonitas.”

A frustração dela era eu; e ela, a minha. Tudo que nos faltava tínhamos no outro”. 

 

 

“Reservávamos o sexo para nossos momentos agudos: ou de grande briga ou de grande amor.”

“Tinha um passado enorme, e quando fui me casar, pensei: ‘Não vou me desfazer do meu passado’. Juntei tudo num baú, trancafiei a sete chaves e guardei. Ela mandou arrombar. disse que havia fotos comprometedoras, mas era mentira. Queimou tudo: meus boletins de colégio, minhas fotos de infância, minha história. Fiquei tão deprimido que chorei quando soube disso, de madrugada. Fiquei mal. Ela teve medo que eu fosse bater nela – tinha pavor de mim, às vezes. Ela disse depois: ‘Desculpe, não tinha direito de apagar o seu passado’. Ficou mal também, mas aí ia se empolgando na discussão e acabava dizendo que eu era o culpado de tudo”

 

Imagem relacionada

Entrei no casamento com cinco malas e saí com três. Uma ela queimou e a outra, cheia de discos do Frank Sinatra, ela jogou pela janela. Feito disco voador. Aconteceu depois de uma briga: ela foi para a sacada, de onde, com certa habilidade para arremessar, você acertava o mar. Foi uma chuva de Sinatra pela Niemeyer. Ela tinha um ciúme doentio do Sinatra, porque eu me identificava com ele.”

Elis e Bôscoli ficaram casados por pouco mais de quatro anos, e se separaram em 1972. Claro que essas histórias são a versão dele, mas revelam um pouco da intensa e tempestuosa relação entre duas das mais importantes figuras da Música Brasileira no Século XX.    

domingo 07 novembro 2010 14:31 , em “Rivalidades” Musicais

Come Together – O jingle que se transformou num grande sucesso e a última música gravada pelos Beatles juntos

Timothy Leary era um psicólogo que se tornou famoso por experimentar o LSD como uma forma de promover a interação social e aumentar a consciência. Leary fez muitas experiências com voluntários e com ele mesmo e sentiu que a droga tinha muitas qualidades positivas, se tomadas corretamente.

Em determinado momento, Leary chegou a ser candidato a governador da Califórnia, concorrendo contra o futuro presidente da República, Ronald Reagan. Leary, por conta de seus experimentos com drogas, chegou inclusive a ser preso.

 

Imagem relacionada

Quando pré-candidato ao governo, em 1969, Leary pediu a John Lennon que escrevesse uma música para ele. “Come together, join the party” (algo como junte-se à nós, junte-se à festa)  era o slogan da campanha de Leary (uma referência à cultura das drogas que ele apoiava). O  slogan deu a Lennon a ideia para essa música.

Em uma entrevista de 1980 para a revista Playboy , John Lennon disse: “A coisa foi criada no estúdio. É uma expressão que Tim Leary inventou para o governo da Califórnia contra Reagan, e ele me pediu para escrever uma música de campanha. Eu tentei e tentei, mas não consegui pensar em uma, mas eu pensei em ‘Come Together’, o que não seria bom para ele – você poderia não tem uma música de campanha como essa, certo?

Este mote virou inspiração para um grande sucesso dos Beatles…

 

Segundo a revista Rolling Stone, “Come Together” ficou no #9 entre as músicas dos Beatles, e sua história foi assim contada:

Come Together” era originalmente um slogan de campanha para Timothy Leary, que estava concorrendo a governador da Califórnia contra Ronald Reagan nas eleições de 1970. O guru do LSD e a esposa dele, Rosemary, foram convidados a ir a Montreal participar do “Bed-In”, protesto de John Lennon e Yoko Ono em junho de 1969, e cantaram junto na gravação de “Give Peace a Chance” (além de ganharem uma menção na letra). Lennon perguntou a Leary se havia algo que ele podia fazer para ajudar sua candidatura. “Os Leary queriam que eu compusesse o tema de campanha”, contou Lennon, “e o slogan era ‘Come together””. Ele bolou o que chamava de “uma coisa para cantar junto”, e Leary levou a fita demo para casa e tocou em algumas estações de rádio.

Mas Lennon decidiu que queria fazer outra coisa com a letra que havia começado, em vez de terminar a música de campanha. Quando levou a nova música de campanha. Quando levou a nova música para as sessões de Abbey Road, ela era muito mais rápida que a versão final e mais obviamente baseada em “You Can’t Catch Me”, de Chuck Berry a frase de abertura, “Here come old flat-top”[“Lá vem o velho flat-top”], foi tirada diretamente da gravação de Berry  de 1956 (logo após o lançamento de Abbey Road, o Publisher de Berry processou os Beatles por violação de direitos autorais; o caso foi encerrado com um acordo em 1973, com Lennon concordando em gravar três músicas de propriedade da companhia – duas canções de Berry no álbum Rock’n Roll e “Ya Ya”, de Lee Dorsey, Em Walls and Bridges).

Resultado de imagem para timothy leary join the party

LENNON ficou empolgado com a candidatura e se propôs a fazer um jingle da campanha. O slogan de LEARY – “Come Together, Join the Party”, retirado do I Ching seria uma celebração à vida, na qual todos seriam os convidados a participar. LENNON criou uma versão “bruta”da canção e repassou a LEARY que a colocou nas rádios alternativas. Percebendo o potencial da faixa, JOHN a gravou para o compacto britânico que tinha “Something” no lado B.

Em dezembro daquele ano, a candidatura de LEARY sofreu um grande choque, quando o mesmo foi preso por porte de maconha. Na cadeia ouviu a versão definitiva na rádio, do então recém lançado álbum “Abbey Road”. Segundo declarou, anos depois para a revista Rolling Stone, LEARY ficou aborrecido e mandou uma carta para JOHN, expressando seu desagrado.

De acordo com ele, LENNON respondeu: “Que ele era um alfaiate, e eu era um cliente que pediu um terno e nunca voltou.

john lennon timothy leary

Rosemary Leary, Timothy Leary, Yoko Ono e John Lennon no “Bed In” em Montreal (fonte: Beatlepedia)

Paul McCtney tinha algumas sugestões para melhorar a música, como relembrou em The Beatles Anthology. “Eu disse: Vamos desacelerá-la com um clima de baixo e bateria pantanoso’. Fiz a linha de baixo, e tudo fluiu a partir daí.” Lennon disse que a parada “over me”, no fim do refrão, começou como uma paródia de Elvis. Os versos eram uma pilha de trocadilhos e piadas internas disparadas rapidamente, inventados no estúdio. A mensagem era clara quando ele exclamava no fim do segundo verso: “One thing I can tell you is you got to be free”[“Uma coisa que eu posso te dizer é que você precisa ser livre”]. Mas para Lennon, o ritmo hipnótico era a coisa mais importante. “Era uma gravação que tinha funk – é uma das minhas faixas favoritas dos Beatles. Tem algo de funk, de blues, e estou cantando muito bem.”

Depois do antagonismo de Let it Be, era quase impossível imaginar a banda voltando a esse tipo de colaboração. “Se eu tivesse que escolher uma música que mostrasse os quatro talentos díspares dos rapazes e os modos como eles os combinavam para fazer um grande som, escolheria ‘Come Together’’’, disse George Martin. “A música original era boa, e com a voz de John ainda melhor. Então Paul tem a ideia deste incrível pequeno riff. E Ringo ouve isso e faz uma coisa na bateria que se encaixa perfeitamente, e que estabelece um padrão que John aproveitou para fazer a parte em que diz ‘shoot me’ [‘atire em mim’]. E então há a guitarra de George no fim. Os quatro juntos tornaram-se muito, muito melhores que seus componentes individuais.” “Come Together” foi a fagulha final deste espírito rejuvenescido: foi a última música gravada pelos quatro Beatles juntos.

Imagem relacionada