“Boas Festas”: O Natal triste de Assis Valente. – “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel…”

Qual a composição brasileira de Natal mais conhecida?

Eu não teria dúvidas em assinalar “Boas Festas”, de Assis Valente, Quem é que não conhece os famosos versos “Anoiteceu/ o sino gemeu/ e a gente ficou/feliz a rezar”.

Por trás de uma melodia alegre se revela uma letra, composta em 1932, que alerta que, se todo mundo é filho de Deus, nem todo mundo é filho de Papai Noel.

Assis Valente passou sozinho e triste, em Niterói, o carnaval de 1932. Em seu quarto havia a gravura de uma menina de pé, entristecida, os sapatinhos sobre a cama, esperando o presente. Inspirou-se nela para compor “Boas Festas”.

 

A primeira parte da letra trata da felicidade associada ao natal, a noite, os sinos tocando, e a expectativa do presente de Papai Noel

Anoiteceu
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você
Tem a felicidade
Pra você me dar

 

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A segunda parte da letra merece leitura atenta:

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem!
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem!

“Cobertos por uma melodia alegre que se assemelha por vezes às marchinhas, por vezes aos sambas de carnaval, os versos, fortes, escondem que nem todo mundo é filho de Papai Noel. Quem não pode recebê-lo, e no Brasil são muitos, aprende muito cedo que o Bom Velhinho só o é para alguns”.

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Numa entrevista em 1936, Assis Valente confidenciou:

 “Eu morava em Niterói, e passei aquele Natal sozinho. Estava longe dos meus e de todos em uma terra estranha. Era uma criatura esquecida dos demais no mundo alegre do Natal dos outros. Havia em meu quarto isolado, uma estampa simples de uma menina esperando seu presente, com seus sapatinhos sobre a cama. Eu me senti nela. Rezei e pedi. Fiz então “Boas festas”. Era uma forma de dizer aos outros o que eu sentia. Foi bom, porque de minha infelicidade tirei esta marchinha que fez a felicidade de muita gente. É minha alegria de todos os natais. Esta é a minha melhor composição”.

Mas a crítica ao consumismo do Natal é o aspecto mais fácil de perceber. O Papai Noel de “Boas Festas” representa a felicidade que não vem. É a felicidade dos presentes, mas se pode ver na última estrofe, nas duas referências a essa palavra, a alma ferida de Assis, sem felicidade — o presente, que ele não tem nem nunca teve, pedido em vão a Papai Noel.

O sucesso de uma melodia alegre, em tom maior, com uma letra triste….

http://maestrorochasousa.blogspot.com.br/2010/12/assis-valente-e-o-natal-dos-excluidos.html

http://qualdelas.com.br/boas-festas/

Azul da Cor do Mar… Quando Tim Maia ainda não era Tim Maia, em 1968

Talvez vocês nunca tenham ouvido falar em Juan Senon Rolón, um paraguaio que se tornou conhecido no Brasil como o cantor Fabio. No final da década de 60, Fabio, fazia um certo sucesso como cantor, enquanto Tim Maia ainda batia cabeças por aí.

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Fabio e Tim eram amigos, até que certo dia, conforme relata Nelson Motta no seu livro “Vale Tudo” (Objetiva, 2007), Tim tinha deixado São Paulo, e tinha pedido acolhida a seu amigo Fabio, que morava com seu empresário num apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro. Tudo o que podia ser oferecido a Tim era o chamado “dromedário”, um sofá que tinha duas “corcovas” capazes de desconjuntar a coluna de qualquer um.

Tim, então passou um tempo morando com Fabio e dormindo no “dromedário”.  Fabio, aproveitando o sucesso como cantor, bebendo, transando, levando inúmeras meninas para o apartamento. E Tim Maia, sem dinheiro, anônimo, não ficava com ninguém. Então Fabio, no livro “Até Parece Que Foi Sonho – Meus 30 anos de Amizade e Trabalho com Tim Maia”, conta como surgiu a inspiração, nesse momento, para que fosse escrita “Azul da cor do Mar”

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o que ele menos gostava, ao fim de cada show, era que eu levasse as meninas para ‘comer’ lá em casa e ele não comia ninguém. Ficava na sala, sentado no ‘dromedário’, decerto imaginando o que fazíamos dentro do quarto e o que aquelas jovens vadias sussurravam tanto ao meu ouvido com suas vozes manheiras, e gemidos, e gritinhos. Ele não conseguia escutar… às vezes, chorava de tristeza na sala, enquanto eu ria no quarto com as meninas“.

Consta que numa noite, após Fabio e Glauco voltarem de uma apresentação em Salvador, Tim Maia surpreendeu ambos com uma canção inspirada num poster pregado na parede da sala, uma mulher nua à beira mar…

Resultado de imagem para mulher nua  marA imagem não é essa, mas só para ilustrar

E ele fez essa canção-desabafo, dizendo que se o mundo inteiro pudesse ouvi-lo, ele,  um rapaz de 27 anos que já vivera inúmeras experiências (passando até pela prisão e deportação nos Estados Unidos), e com aquela certa inveja de que ele (Tim) teria nascido pra chorar, enquanto seu amigo Fabio ria…

E ele dizia que, mesmo triste, buscava uma razão para viver, e via naquele poster, naquela mulher imaginária, um sonho azul, azul da cor do mar…

Ao ouvir a cação, Fabio disse: “Meu amigo, você acaba de compor a música de sua vida!”

Consta que Tim, na hora, não deu muita importância, e apenas continuou cantando… A música foi gravada por ele em 1970, e acabou se tornando um grande sucesso. O resto é história…

Ah!
Se o mundo inteiro
Me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi…

E na vida a gente
Tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri..

Mas quem sofre
Sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver…

Ver na vida algum motivo
Pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar…

Raul Seixas Preso

 

 

O video acima trata de uma história curiosa envolvendo Raul Seixas. Em maio de 1982, ele estava fazendo um show na cidade de Caieiras, e o público começou a duvidar que Raul Seixas era ele mesmo. Veja o texto do site http://www.caieiraspress.com.br:

Cerca de trezentas pessoas que assistiam a seu show não acreditaram que fosse ele mesmo, mas sim um impostor, que se estava apresentando na Feira do Folclore local. Vaiado a cada música que interpretava, Raul Seixas, desde o início, não foi reconhecido pelo público da cidade, até que, sem condições de continuar o espetáculo, e ameaçado de linchamento, foi para o camarim. Pouco depois, chegaram alguns policiais e o levaram para a delegacia, sob a acusação de ser impostor (obviamente, ele estava sem documentos). Isso porque, sentindo-se logrados com a apresentação do que juravam ser outra pessoa, vários espectadores foram até a casa do delegado, exigindo que este autuasse o cantor. O delegado atendeu e, na delegacia, tratou-o como se fosse um vagabundo, afirmando que conhecia o “verdadeiro” Raul Seixas, para em seguida obrigá-lo a cantar “para provar sua identidade”. Além disso nesse mesmo “teste de identidade”, o delegado perguntou se Seixas sabia onde tinha nascido Chacrinha. Como não soube responder, recebeu tremendas bofetadas, acabando trancafiado por duas horas no xadrez da dita delegacia.

 

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Percebe-se que o Delegado, com uma truculência típica dos anos 70, duvidou que se tratava do verdadeiro Raul, que estava sem seu documento de identidade. Raul ficou muito nervoso mas que revela algo do caráter frágil e marginal do artista, não de Raul Seixas, mas de qualquer artista que é um refém do público. Consciente ou inconscientemente o artista é mambembe, viajante, carente. Historicamente o artista se revela em que a transgressão . A imagem simbólica do artista como um rebelde, que revela as tensões e resiste à violência de um sistema, cuja população admira esteticamente o belo das canções, ou dos poemas, ou das telas, mas, ao mesmo tempo em que admira a coragem do artista, o afasta, o marginaliza, o deixa à própria sorte.

Essa a ideia de um artista que acaba sendo um impostor de si mesmo. Frágil artista. Grande Raul.

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No Jornal de Caieiras de 21 de maio de 1982, o editorial assim narrou:

O caso Raul Seixas: o que de fato aconteceu?

Dos fatos sobre o show do cantor Raul Seixas no último sábado em Caieiras, muitas são as versões, muitas são as controvérsias. Ao que parece, a única certeza que se pode ter é de que realmente foi Raul, e não um sósia seu, quem esteve em Caieiras, ao contrário do que o público presente ao show, a polícia e a própria Comissão responsável pelo show pensavam.

As dúvidas começam na própria realização do show, pois enquanto todo o público presente afirma que o cantor teria cantado apenas três músicas, o empresário do cantor, o Dinho, em entrevista concedida ao jornal “A SEMANA”, foi categórico em dizer: “o cantor completou o show”. E tem a seu favor um forte argumento: “a Comissão pagou o que foi contrado por todo o show”. O raciocínio do empresário é simples: “Se o Raul não tivesse concluído o show, ele não teria recebido”.

Mas as dúvidas não param por aí. Na versão do empresário, completado o show, o cantor teria sido agredido pela platéia, e, não fosse a pronta intervenção da polícia, o cantor poderia ter sido até linchado. Por outro lado, quem assistiu ao show afirma que as agressões começaram pelo próprio cantor que teria chingado constantemente a platéia.

 

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Você sabe onde nasceu o chacrinha?
As maiores controvérsias, no entanto, aparecem exatamente quando o cantor chegou à delegacia. Segundo o “Dinho”, Raul Seixas teve sua barba puxada pelo delegado, que duvidava de sua identidade, dizendo conhecer o “verdadeiro Raul”. Teria o cantor ainda sido agredido pelo delegado, e sido trancafiado em uma cela, não sem antes ter sido também agredido por um cabo ali presente, a socos e golpes de cassetete.

Segundo o empresário, o delegado teria feito o cantor cantarolar algumas de suas músicas, e ainda teria ele feito um “teste” para avaliar a identidade do cantor: “Você sabe onde nasceu o chacrinha?” – teria perguntado o delegado. E, como Raul soubesse, teria sido agredido pelo policial.

O delegado de polícia, Dr. José Gomes Santos, no entanto, nega essa versão, dizendo que o cantor foi muito bem tratado na delegacia, jamais agredido.

Raul Seixas estaria bêbado. É o que diz o boletim de ocorrência
Segundo o empresário “Dinho”, quando foram esclarecidas as dúvidas sobre a identidade do cantor – ele faz questão de esclarecer que foi ele quem telefonou para a esposa de Raul, pedindo-lhe que enviasse os documentos do cantor por um rádio-táxi, pois o delegado não teria permitido ao cantor que telefonasse para a família – aí sim o cantor foi bem tratado. “Só que – diz o empresário – o delegado não quis lavrar o B.O. naquele momento. Fê-lo apenas no dia seguinte, e fez contestar que Raul estava bêbado, o que não era verdade”.

 

 

Todas as canções de Amor – o filme

Era um dia de semana qualquer em Brasília. O meu compromisso de trabalho se encerrara pouco depois das 14 horas. Havia um voo às 19 horas e pouca coisa  afazer naquele momento. Fui ao cinema e uma das poucas opções disponíveis no horário era o filme “Todas as canções de amor”, de Joana Mariani, estrelado por Bruno Gagliasso, Marina Ruy Barbosa, Luiza Mariani e Julio Andrade.

Num primeiro momento, pensei que seria um daqueles filmes óbvios, mas não. Há uma história por detrás dele. Um casal recém casado aluga um apartamento em São Paulo. Entre as coisas antigas ali encontradas, um som 3 em 1, daqueles antigos, com vitrola, rádio e cassete. Dentro do aparelho há uma fita, com o título “Todas as canções de amor”, gravadas por Clarice para Daniel

E a história acaba voltando 20 anos no tempo, em que Clarice grava uma fita para Daniel, num momento de separação. E a história passa pelo questionamento: Como uma coletânea de músicas de separação pode ser intitulada como “todas as canções de amor?”

E toda a trajetória é contada por canções: dois casais, de um casal se unindo, e outro se separando, vivendo no mesmo espaço, separados por 20 anos no tempo, unidos pelo mesmo apartamento e pelas mesmas canções.

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O filme se passa quase todo ele dentro do apartamento, e as músicas conduzem a dinâmica de aproximações e afastamentos que conduzem a trama.

Tendo a participação especial de Gilberto Gil, o filme conta duas histórias, e faz justamente recordar como toda história de amor é marcada por uma trilha sonora. E a história é contada por músicas que fizeram história no fim do século passado, passando pela delicada “Drão”, de Gil, até “Não aprendi dizer adeus” , de Leandro e Leonardo.

Sob  a direção musical de Maria Gadu, a seleção de músicas conta as duas histórias  conduzidas pela trilha sonora, que no final das contas, é a grande protagonista da história. No curso do fime, é possível ouvir: 1 – Baby; 2 – Samba do grande amor; 3 – Eu sei que vou te amar; 4 – Menino Bonito; 5 – Eu não sei dançar; 6 – Não aprendi dizer adeus; 7 – ne me quitte pas; 8 – I will survive; 9 – Esotérico; 10 – Drão; 11 – Codinome Beija Flor 13 – Chorando se foi.