Mentiras sinceras me interessam… Por trás da canção “Maior Abandonado”, de Cazuza/Frejat, no auge do Barão Vermelho

“Maior abandonado” é uma das músicas mais significativas do Barão Vermelho . Composta em 1984, a música retrata, à primeira vista, uma pessoa maior “que está solta no mundo, precisa da proteção do governo e não tem” (Cazuza, Preciso dizer que te amo, Org. Lucinha Araújo, Globo, 2001).

 

No entanto, a letra é mais do que isso. Para além de uma espécie de denúncia sobre os maiores abandonados, que se interessam pelas “migalhas dormidas do teu pão“, das “raspas e restos“, a canção retrata em certa medida um abandono afetivo quando chega a maioridade, e, com ela, a responsabilidade.

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Cazuza e Frejat já trataram disso, no  livro organizado por Lucinha Araújo:

 

Cazuza: “É também aquele que está vivendo o trauma dos 18 anos.É quando você fica mais carente, porque sabe que está ficando mais velho e ainda não é muito safo (…) ‘mentiras sinceras me interessam’ , um verso da letra, é uma discreta e candente referência ao estertor da carência afetiva. parece um cara, às cinco horas da madrugada, andando pelas ruas, sozinho, atrás de uma mulher. E que dali saia um grande amor. O amor da sua vida. Pura ilusão  

  Frejat: “quase todos somos ´maiores abandonados’ no sentido afetivo, nessa de querer ficar com qualquer pessoa, só para não ficarmos sozinhos. Porque 99,9% da população é, ou já foi, algum dia, maior abandonado” 

 

A letra, então, transita pelas duas questões: o abandono material e o abandono afetivo. O primeiro deles é retratado nas raspas e nos restos, nas migalhas do pão; o segundo, nas “mentiras sinceras”, nas “porções de ilusão”  de alguém que está absolutamente carente do ponto de vista afetivo.

 

Assim, pode-se dizer que o maior abandonado é uma canção sobre carência. Primeiramente, carência daquele que está perdido e sozinho no mundo, sem nenhum amparo material. E também carência afetiva. O eu-lírico aceita qualquer coisa do outro, como um cachorro faminto que aceita qualquer coisa do seu dono. O maior abandonado, nesta visão, seria quase como um vira-lata querendo ser adotado, material ou afetivamente.

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Assim, a letra usa a imagem de alguém sozinho, carente, pedindo a proteção do outro. E a utilização de elementos de humor, em que em vez que o ato de pedir a mão tem um duplo sentido: como um pedido de casamento, pelo ato do noivo pedir a mão da noiva, mas também usando aquele ditado popular “você dá a mão, mas te pedem o braço”. O eu-lírico assume que, ao pedir a mão, quer mais do que isso. A utilização do advérbio “pouquinho” indica a submissão, mas o desejo de alguém que está perdido e quer um norte… (“me leve para qualquer lado”)

Numa entrevista a Danilo Gentilli, Frejat relatou uma discussão com Cazuza sobre um verso que acabou sendo excluído:

 

 

Segundo Frejat, havia um verso que ele considerava muito agressivo: “eu tô baixando o calção por qualquer trocado” . Frejat achava que a letra estava completa.  Cazuza acusou Frejat de ser careta, ao que este ponderou que não era questão de caretice, mas que este verso iria limitar a quantidade de pessoas que iriam se identificar com a música. Cazuza teria concordado, contrariado

 

Fonte: ARAÚJO, L. Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta. Rio de Janeiro: Globo, 2001, p-78

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