Solidão que nada (feita depois de um beijo no aeroporto….)

 

Eu me divirto com a história de canções que surgem a partir de pequenos acontecimentos dos dia; músicas que viram verdadeiras limonadas a partir de um limão, isto é, um fragmento da criatividade que faz o caminho surgir a partir de pequenas coisas. Neste caso, me refiro à música “Solidão, que nada”, uma música de George Israel que recebeu letra de Cazuza e Nilo Roméro, o “inspirador” da canção. O baixista Nilo Romero contou a história da música, no livro Cazuza – Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta (Globo, 2001), que surgiu depois de um beijo de despedida num aeroporto…

“O meu nome no alto-falante do aeroporto interrompeu o beijo. Senhor Nilo Romero, voo 427 para o Rio de janeiro, embarque imediato! Tchau, a gente se vê. Ah! E o telefone? Tem um papel? tenho. Cadê a caneta? Então tá. Saio correndo, subo as escadas e, finalmente, entro no avião. Me deparo então com todos os passageiros olhando para mim com aquela cara de reprovação. Caí na real.

Procuro então com meu olhar os companheiros de banda, em busca de alguma cumplicidade. Estava atrasado, mas, afinal era por uma boa causa! Não adiantou. Estava todo mundo puto., a fim de ir logo embora pra casa. Tudo bem, então vamos sentar. Mas cadê o meu lugar? Só tinha um lugarzinho no meio, e quem me conhece sabe que odeio viajar no meio. Sou meio claustrofóbico e gosto mesmo é de corredor.

Sentado num das poltronas de corredor, observando tudo, estava Cazuza, uma das únicas pessoas de bom humor naquele avião. Ele sabia que eu detestava a poltrona do meio. ‘Nilo Romero’ (ele tinha a mania de chamar as pessoas pelo nome e sobrenome). Trocamos. Na passagem, eu deixo cair um papel do bolso. Cazuza pega, olha, me sacaneia e pronto. Ele iria chegar em casa e fazer uma de suas maravilhosas letras. Desta vez seria uma road song. Uma homenagem à vida na estrada, com todo seu glamour e vazio.

 

Resultado de imagem para cazuza e nilo romeroCazuza e Nilo Romero em 1987

Cada aeroporto
É um nome num papel
Um novo rosto
Atrás do mesmo véu


Alguém me espera
E adivinha no céu
Que meu novo nome é
Um estranho que me quer

E eu quero tudo
No próximo hotel
Por mar, por terra
Ou via Embratel

Ela é um satélite
E só quer me amar
Mas não há promessas, não
É só um novo lugar

Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada 

 

A música faz referência a um encontro numa viagem, uma história que termina no aeroporto. A referência ao nome no papel, numa época em que não havia celulares para se anotar números.  O nome escrito no papel é uma esperança de que o que aconteceu na viagem não cabe ali.  São os encontros e desencontros que se tem em cada aeroporto, em cada hotel, em cada viagem… esses amores que são deliciosos porque são fugidios, mas que também se tornam enfadonhos quando são repetitivos…

Estes são os amores fugazes da vida da estrada… o novo nome no aeroporto, o rosto novo, o véu antigo… uma pessoa estranha, um amor de retas perpendiculares, que se encontram num ponto da viagem, e depois se afastam para não mais se encontrar… e o refrão final é meio irônico… “Solidão, que nada… ” ou, quem sabe, solidão.

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