Lá vem o Brasil descendo a ladeira… Como João Gilberto inspirou a canção de Moraes Moreira

“Quem desce do morro, não morre no asfalto…” Com esta frase Moraes começa a letra  de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”, talvez o samba de maior sucesso de Moraes Moreira após sua saída dos Novos Baianos.

Antes de se notabilizar por ser o primeiro cantor de Trio Elétrico, Moraes sempre se dizia um sambista baiano, como na letra da música “O que é o que é”, em que se definia “um sambista baiano, um artista, um bandido cigano, que é com a bola no pé e a viola na mão”.

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Numa entrevista ao Jornal o Globo, em 1976, narrada por Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no livro “A canção no tempo”, Moraes diz:

No fundo eu sou só um sambista baiano. samba baiano é diferente do carioca, é outra coisa. O carioca é lindo, mas tende para a melancolia, muitas vezes.O samba baiano é alegre, é pra cima, é outra malandragem” 

Voltando à música,  ela retrata uma sequência de imagens, em que uma mulata desce a ladeira com a lata na cabeça, com o dia amanhecendo…

Moraes narra que, numa dessas madrugadas, João Gilberto caminhava com Moraes numa das ruas do Rio de Janeiro , quando percebeu uma mulher descendo a ladeira, com todo vigor, todo suingue, todo gingado, e uma lata na cabeça. Estava partindo para vida, sem se queixar de nada…

João não titubeou e disse: “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”…

Esse foi o verso que “arriscou o poeta” João Gilberto, ao que Moraes respondeu com um samba “sem medo”, em que exalta a mulher negra brasileira, do morro, do samba, que anda na sola e no salto… no equilíbrio da lata…

E a introdução já faz imaginar a cadência desta mulher anônima homenageada. Moraes faz uma pequena referência a esta canção no Livro “A história dos novos baianos e outros versos

Estes versos foram escritos depois que ouvi uma exclamação poética de João Gilberto. Ao ver uma linda mulata descendo o morro, ele disse: “Olha o Brasil descendo a ladeira.” Depois dessa, só mesmo um samba pra comemorar. Na parte musical contei com a participação de Pepeu Gomes.

Compacto Moraes Moreira - La Vem O Brasil Descendo A Ladeira - R ...

Um samba bem cadenciado…Segue a letra…

Quem desce do morro
Não morre no asfalto
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
Na bola, no samba, na sola, no salto
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
Na sua escola é a passista primeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
No equilíbrio da lata não é brincadeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira

E toda cidade que andava quieta
Naquela madruga acordou mais cedo
Arriscando um verso, gritou o poeta
Respondeu o povo num samba sem medo
Enquanto a mulata em pleno movimento
Com tanta cadência descia a ladeira
A todos mostrava naquele momento
A força que tem a mulher brasileira

(Moraes Moreira e Pepeu Gomes)

segunda 06 janeiro 2014 12:37 , em Samba

Moraes Moreira e o Carnaval da Bahia

 

“Olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor”... Esse é um trecho de Chão da Praça, de Moraes Moreira, que ele cantou no seu último carnaval em Salvador, em 2020.

Engraçado que, para uma geração que chega aos 40, durante muito tempo o carnaval da Bahia estava órfão. Órfão de seu primeiro cantor, aquele que primeiro colocou sua voz no trio elétrico e tem uma série de canções voltadas para tocar nas ruas, em cima de um trio elétrico. Como diz Moraes em Cantor de trio:

 

Cenas de Carnaval: Moraes Moreira - Jornal CORREIO | Notícias e ...

“Eu sou um cantor do Brasil/que canta em cima do trio/jogando através do fio/uma energia pra massa”. (Cantor do Trio)

Moraes cantava, e uma multidão o seguia na pipoca. Para os baianos, Moraes Moreira é muito, muito mais do que o cantor/compositor que integrava os Novos Baianos, responsável por uma revolução musical na década de 70: Moraes Moreira é o rei do trio, que inspirou os cantores de trio que estão aí desde sempre, o cantor que tem uma série de canções maravilhosas que celebram a alegria, o prazer que é estar na rua pulando ao som de música de carnaval.

“Lá vem o trio/na contramão/um caminhão de alegria/ pelas ruas da Bahia/da Bahia de São Salvador”(Ligação, de Osmar e Moraes Moreira)

Moraes Moreira lança box "Anos 70" em alusão aos 40 anos de ...

 

Quando Moraes Moreira desfilava sua coleção de músicas de Carnaval, como Pessoal do Aló, Chame Gente, Ligação, Assim pintou Moçambique, Festa do Interior, o público que acompanhava o trio estava numa verdadeira catarse, pulando muito, cantando a todos os pulmões as músicas de carnaval compostas e que compunham os verdadeiros hinos do Carnaval nas décadas de 70 e 80, quando a voz de Moraes Moreira, aliado à inigualável guitarra baiana de Armandinho reinventaram o frevo pernambucano com um toque baiano, como bem dizia a famosa música Vassourinha Elétrica.

 

Moraes conta sua incursão no trio elétrico no seu livro “A história dos Novos Baianos e outros versos”

“Em 1975 resolvi botar meu bloco na rua

Iniciando a carreira solo, grande parte das novas composições tinham como tema o carnaval.

Logo no primeiro disco, tive a felicidade de contar com Armandinho, genial instrumentista que, já naquela altura, era a grande estrela do trio elétrico. Comecei no ato a frequentar a escola Dodô e Osmar, ou seja, a escola dos criadores do trio, porque não dizer, do carnaval da Bahia”.

 

SONHOS ELETRICOS - Moraes Moreira: Livro

O certo é que Moraes se reinventou muitas vezes. Formava uma parceria de composição com Galvão nos Novos Baianos, e teve inúmeras parcerias das mais variadas; de fausto Nilo a Marisa Monte; de Paulo Leminski a Antônio Cícero; de Evandro Mesquita a seu filho Davi.

Mas se Dodô e Osmar são os pais do trio elétrico, Moraes é o primogênito. Foi quem ensinou uma geração o que era ser cantor de trio. Contou isso no seu livro sonhos elétricos:

Modéstia à parte, eu cantei em cima do trio elétrico quando ninguém o fazia e criei um repertório de sucesso de músicas que continuam até hoje no coração e na alma do povo baiano e, por que não dizer, brasileiro. Então, realmente se criou uma escola de cantores a partir desse momento em que foi viabilizada a voz em cima do Trio Elétrico Dodô & Osmar. Praticamente fui adotado por eles”. 

 

Tudo o que se pode dizer, depois do último carnaval de Moraes Moreira, é fazer referência a uma música que ele compôs inspirada no fim do Carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas, no encontro de Trios, na praça Castro Alves. Quando o carnaval termina, as pessoas cantavam. “Por que parou? Parou por que?”

Virou um grande sucesso no Carnaval de 1988.

E hoje, Moraes, seus fãs perguntam: “Por que parou? Parou por que?”

Vai deixar muitas saudades…

 

 

 

 

Norte da saudade – Quando Gil compôs um Xote-reggae na estrada…

 

“Norte da saudade” é uma parceria de Gilberto Gil com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque, que logo na primeira frase, se revela como uma “road song”. O pé na estrada, sem noite passada, sem ninguém…

DISCO DE VINIL GILBERTO GIL – REFAVELA | Armazém Do Vinil - Loja ...

 

Gravada no Disco Refavela (1977), a canção sai um pouco da temática geral do disco, que é uma (re)descoberta de uma arte negra de comunidades que contribuíram para formação de novas etnias e novas culturas no novo mundo.

Ainda assim, é possível perceber esta música como uma espécie de conexão entre o disco anterior – Refazenda, em que há um resgate de elementos culturais do sertão e do interior – com a música negra, tanto que Gilberto Gil classifica esta canção como sendo um Xote-Reggae.

Livro: Nada Sera Como Antes Mpb nos Anos 70 - Ana Maria Bahiana ...

Em entrevista a Ana Maria Baiana, denominada  “A paz doméstica de Gilberto Gil”, e que consta do seu livro “Nada Será como Antes: MPB nos anos 70, Gil revela:

 “pra ser mais claro: nós estávamos andando pelo Norte, com um trabalho que era com a presença do Dominguinhos, eu, Moacyr Albuquerque, Perinho Santana e outros. Ao mesmo tempo que nós escutávamos muito Django Reinhart, Bob Marley, a gente vivia todo aquele clima musical do Norte e do Nordeste, de ser Refazenda, de ser lá no habitat básico da Refazenda, de ser Campina Grande, Mossoró, Natal, João Pessoa, ser tudo aquilo e ao mesmo tempo estar discutindo sobre reggae, sobre a emergência de movimentos   musicais na América, o punk, e a salsa e o reggae….”

“Então a música foi feita por Moacye e Perinho muito neste sentido, como é que era fazer um xote, uma música que fosse o som daquelas estradas que a gente estava rodando e ao mesmo tempo fosse a soma de todas estas experiências musicais vividas”

Gilberto Gil - Refavela Lyrics and Tracklist | Genius

Fica evidente o clima musical que contagia músicos fazendo uma excursão.

Em primeiro lugar, dá para imaginar o ônibus com os músicos se deslocando de cidade a cidade no Nordeste;

Depois, a saudade de casa, do amor, do “meu bem”;

Por fim, como o próprio Gil relata, a integração de elementos musicais da vivência atual dos músicos (reggae) com a paisagem específica dos locais (xote).

 

Fé na Festa – Wikipédia, a enciclopédia livre

Todo este clima fez nascer Norte da Saudade, que é uma das músicas do álbum mais presente nos dias atuais. A sonoridade, a temática, o clima, faz “Norte da Saudade” ser uma bela música, revisitada posteriormente pelo próprio Gil em 2010, no disco “Fé na Festa”, já com uma pegada de xote mais explícita.