Taí. O primeiro sucesso de Carmen Miranda

 

Pensar que o autor do primeiro grande sucesso de Carmen Miranda foi Joubert de Carvalho já parece imporovável. Joubert não era compositor de marchinhas carnavalescas, tanto que a sua segunda música mais conhecida, é “Maringá”, música que, inclusive, deu origem à cidade paranaense de mesmo nome.

Resultado de imagem para joubert de carvalhoJoubert de Carvalho

A composição mais conhecida de Joubert, no entanto, ficou conhecida não pelo seu título original “Pra você gostar de mim”, mas como o simples e indefectífel “Taí”, de 1930. Ainda hoje, mais de 80 anos após a primeira gravação, se alguém lançar a primeira palavra da canção, “Taí“, vem imediatamente “eu fiz tudo pra você gostar de mim/ai meu deus não faz assim comigo não/você tem, você tem que me dar seu coração

E Taí foi feito sob encomenda para Carmen Miranda. Segundo relata Ruy Castro, na biografia que escreveu sobre a cantora(Cia das Letras, 2005), Joubert passava pela rua quando o Sr. Abreu, gerente da loja “A Melodia”, o chamara com o intuito de fazê-lo ouvir um disco que acabara de sair. A canção era “Triste Jandaia”, da então desconhecida Carmen Miranda. Depois de tocar o disco várias vezes, não é que a própria Carmen, em pessoa, aparece na loja? Quando Abreu exclama: “Taí a nova cantora!”.

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Apresentados, Joubert falou de seu interesse em compor algo para Carmen, que prontamente lhe deu o endereço.

Joubert saiu da loja com uma palavra – “Taí” – e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do comércio.

Nas palavras do próprio Joubert, no vídeo que acompanha esta postagem:

 

Eu passava pela Rua do ouvidor ali tinha uma casa de música e melodias e o gerente da casa chamou-me e disse Joubert venha ouvir uma cantora nova aqui; ele botou então um disco da Carmen, eu não sabia quem era, eu notei que havia presença no disco, e eu disse:

– Olha, Abreu eu gostaria de fazer uma música para essa cantora, ela interpreta miuito bem.

– Ué, isso é fácil!

– Onde é que ela mora?

– Ela costuma vir aqui de vez em quando, mas eu falo ela deixa o endereço.

De repente ele (Abreu) disse assim:

– Taí, ó, ela tai chegando.

Eu não sei, aquele tai ficou na minha cabeça e no dia seguinte eu levava para ela a música…  

Imagem relacionadaCarmen Miranda

 

Relata Ruy Castro, no seu livro, que Carmen a aprendeu a música prontamente, e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

“Não precisa me ensinar, não, que na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.”

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

“Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!”

Tudo isso ocorreu no começo de 1930, e a música Taí tornou-se não apenas um grande sucesso daquele ano, mas também do carnaval seguinte. Foi a música que tornou Carmen Miranda conhecida nacionalmente. O resto é história.

Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh! meu bem, não faz assim comigo não!
Você tem, você tem que me dar seu coração!

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
eu não pensaria mais no amor

sábado 02 junho 2012 13:31 , em Clássicos da Música Brasileira

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Balé da Bola. A Copa do Mundo na visão de Gilberto Gil.

Músicas sobre a copa do mundo costrumam ser datadas. Eles fazem referências a fetos e circunstâncias muito particulares que se vinculam emocionalmente ao evento. Foi assim com “Pra frente Brasil”, na copa de 70, ou “Sangue, suingue, cintura”, na copa de 1982.

Em certa medida, “Balé da Bola”, uma homenagem de Gilberto Gil à Copa de 1998, não deixa de ser uma música datada. Mas linda. Uma música que faz inúmeras referências, mágicas, gregárias e antropológicas sobre a experiência de estar perto de um gramado de futebol.

Gil faz a referência aos olhos, que então se voltavam para a França, em que o início da Copa do Mundo representa à felicidade, ao amor, e ao ardor de torcer por sua seleção.

 

Em “Todas as letras”, Gil conta um pouquinho da história, pois ele faria apresentações na Europa durante o verão Europeu, e estaria na França durante a Copa de 1998:

 

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“Eu escrevi “Balé da bola” por causa da Copa, poucos meses antes da competição, e a gravei pouco antes de viajar para Europa, para cantá-la ali. O show era aberto com ela. Engaçado: do ponto de vista da qualificação da canção, do seu estar dentro e fora do tempo, foi interessante que o Brasil não tenha ganho essa Copa – porque ela não era uma daquelas músicas de torcida brasileira (era, mas ao mesmo tempo não era…)”.

 

Mas não é só uma partida de futebol. Os magos e bailarinos do futebol transformam as dores e os dramas da vida no “Balé da Bola”. E a cada gol marcado, é possível reviver a ancestral tradição da China, dos Astecas, da Grécia, da França medieval, dos homens correndo em torno de uma bola.

 

Gil coloca em cada lance de uma Copa do Mundo como um pequeno pedaço da humanidade preservado, sendo a bola um símbolo desejado, querido, que faz cada um dos admiradores do “ludopédio” um torcedor, e cada jogador que um dia pisou o campoi de uma copa do mundo encontra aqui o seu olimpo.

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É uma música sobre a copa de 1998. Mas continua sendo um lindo samba sobre o futebol como atividade humana. Logo depois da Copa, Gil contou:

 

Aí, no dia da seguinte à final, nós estávamos já em Madri, onde faríamos um show, e na hora da passagem de som os músicos perguntaram: “Mas como é que vamos abrir o show?”. “Mas é claro que vamos abrir com ela, qual é o problema? Qual é o problema?”, eu disse. “É uma música sobre o futebol, imagina”. Porque ela foi feita a propósito da Copa da França – o que incluía todas as seleções.

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E, nesse sentido, era interessantíssimo que a França tivesse sido campeã… Porque era ali, em Paris, e porque o samba tinha essa coisa de “Pelé e Platini”, porque era um ballet…

Tenho paixão por essa música. Por ser meu primeiro samba-enredo, fazendo uma viagem extraordinária por toda coisa do futebol. E também pelo seu lado musical, pela fluidez do samba, junto com a letra

 

Quando meu olhar beijar Paris
Terei mais amor
Serei mais feliz
Sentirei no ar a emoção, no ar o ardor
Meu coração de torcedor
Esperou tanto tempo por esta ocasião
Que um dia o menestrel sonhou

Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola

Quando a seleção marcar um gol
Serão séculos
E mais séculos
Desde que na velha China, no velho Japão
Jogava-se com um balão
E na antiga Grécia ou na França medieval
Praticava-se o futebol

Quando a seleção marcar um gol
Serão séculos
E mais séculos
Transcorridos desde que os astecas e os tupis
Conforme a voz da lenda diz
Pelejavam com a lua-bola e o balão-sol
Num jogo de viver feliz

E hoje a bola rola mais perfeita
Esfera mágica, elevação
Nos pés dos ídolos deste planeta
Tem seu momento de consagração
A bola símbolo da perfeição
Tem seu momento de consagração

Quem lembrar Pelé ou Platini
Sabe o que se comemora aqui
Tantos que eu vi, tantos que eu não vi não (bis)
Todos tem aqui seu panteão

Drão – a bela música de separação contada por seus protagonistas

Quando me perguntaram certa vez sobre músicas de separação, as duas que me apareceram foram de Chico: “Eu te amo” e “Trocando em miúdos”. Duas músicas belíssimas, pungentes, contém frases como “se confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu hei de partir”, na primeira, ou “não vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado”, na segunda. Mas há um outro lado da moeda. Um desatar de um casamento não como mágoa ou desamor, mas como um amor que muda…

Ainda criança, ouvia “Drão”, de Gil, e a música não me dizia nada. “Drão” foi o apelido dado por Maria Bethânia para Sandra Gadelha, que, na época da composição da música, estava se separando de Gilberto Gil. A música continua universal. Hoje, percebo ser uma das mais belas músicas de separação já escritas. Escrita para desmentir a história que a separação é o fim do amor e o começo de desamor, mas de um amor que se transforma e se eterniza.

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Por isso mesmo, quis juntar, numa música de separação, os depoimentos de Gil e de Sandra sobre a música e a época. E agradecer aos dois por serem musa e artista de uma das mais belas canções de Gil:

Gilberto Gil, no disco “Todas as letras” (Cia das Letras, 2000), diz:

Sua criação apresentou altos graus de dificuldades porque ela lidava com um assunto denso – o amor e o desamor, o rompimento, o final de um casamento; porque era uma canção para Sandra [apelido de de Drão – daí o título de música] – e para mim. ‘como é que eu vou passar tantas coisas numa canção só?’, eu me perguntava.”  

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 Sandra Gadelha, como inspiradora da canção, conta a história de como Gil lhe mostrou a música, numa reportagem da revista Marie Claire:

Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.

Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.

Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos.

No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.  A primeira vez em que ouvi ‘Drão’ depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: ‘Os meninos são todos sãos’. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo.

Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve ‘Drão’. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou, Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de Drinha.

Vale a pena escutar.

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Primeiramente, Gil faz um paralelo entre Drão e o grão, oamor que é a semente que tem que morrer para germinar, fazendo referência à semeadura, e ao neologismo “caminhadura”, que faz referência à dura caminhada de uma relação.

Em seguida, Gil exorta ao não sofrimento, e que o amor transcende e se estende, e no final há um jogo de palavras entre o amor que é “vão”, mas que ao mesmo tempo é sólido como um monolito (estrutura geológica a partir de uma só rocha).

Por fim, Gil faz referência aos filhos sãos, assume os pecados, mas não pede perdão, já que não há o que perdoar, e que assim é o amor que morre nasce trigo, vive e morre pão.

P.S.  Eu podia aqui divagar sobre o “catar feijão”de João Cabral de Melo Neto no processo criativo e falar sobre o elemento confessional na criação artística. Mas isso fica para outra viagem…

Fontes: Gilberto Gil. Todas as Letras (Org. Carlos Rennó). 2ª Ed, Cia das letras, 1996; http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao6.htm

domingo 29 agosto 2010 03:35 , em Mulheres e suas canções

O Mestre-sala dos Mares. Homenagem ao Almirante Negro, João Cândido

 

Algumas músicas se tornam mais interessantes quando se descobre a história por trás da canção. As musas, as inspirações, as circunstâncias em que uma música surgiu podem torná-la mais bonita. É o caso, sem sombra de dúvida, da canção “O mestre-sala dos mares“, de João Bosco e Aldir Blanc, em 1975, em homenagem ao marinheiro João Cândido, conhecido como “O Almirante Negro“, que liderou a “Revolta da Chibata”, em 1910.

Olhem abaixo uma entrevista com João Cândido… que disse ter participado de um movimento de salvação pública.

Para quem não sabe, a Revolta da Chibata foi um movimento idealizado por Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, e depois liderado pelo cabo da Marinha João Cândido, o “Almirante negro”,  semi-analfabeto, que se insurgia contra os desmandos na marinha: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais (chibatadas), que tinham sido reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.Por isso a revolta, iniciada em novembro de 1910, ficou conhecida como Revolta da Chibata.

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Os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais não fossem suprimidos. Em Princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas  medidas que acabam com as chibatadas, bem como  um projeto que anistia os amotinados.

Mas a anistia não durou dois dias. Em 28 de novembro, os marinheiros foram surpreendidos pela publicação do decreto número 8400, que autorizava demissões, por exclusão, dos praças do Corpo de Marinheiros Nacionais “cuja permanência se torne inconveniente à disciplina“. O Governo traiu os revoltosos, que foram presos, perseguidos, e encaminhado para uma prisão subterrânea na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Quase todos morreram sufocados, pois a cela era subterrânea, sem ventilação e estava cheia de cal. Apenas João Cândido sobreviveu, juntamente com o soldado Naval João Avelino. João Cândido foi perseguido, considerado louco e morreu aos 89 anos, em 1969, quase no anonimato, como vendedor de peixes.

 

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João Cândido

No auge da ditadura militar, João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem ao “Almirante Negro”. Numa entrevista, Aldir Blanc afirmou:

Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:

 – Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…

– Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

– O problema é essa história de negro, negro, negro…”

Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente “O Mestre-Sala dos Mares”, saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo “Um herói, uma canção, um enredo – Noite do Navegante Negro”, da Escola de Samba União da Ilha, em 1985.

 

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A música, para ser aprovada pela censura, sofreu várias modificações, que podem ser vistas na tabela ao lado, disponível originalmente http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html

Letra original: As palavras em vermelho foram censuradas, substituídas pelas que estão em azul

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro (feiticeiro)
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante (navegante) negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar (acenar) pelo mar com seu bloco de fragatas (na alegria das regatas)
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas (santos entre cantos e chibatas)
Inundando o coração de toda tripulação (do pessoal do porão)
Que a exemplo do marinheiro (feiticeiro) gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro (navegante negro)
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

Fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html; http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/canhoes-chibata-433714.shtml

CHEUICHE, Alcy. João Cândido, o Almirante Negro. Porto Alegre: L&PM, 2010

 

Se o caso é chorar. A Música de Tom Zé que é toda Plágio

Se o caso é chorar, uma bela música de Tom Zé, na verdade, é uma colagem de plágios. O próprio Tom Zé conta a história numa entrevista:

Aliás, essa música é toda plágio. É até bom aproveitar a oportunidade para contar pra vocês o lado avesso da história. Essa música fez sucesso, foi primeiro lugar na parada de sucesso no Brasil durante meia dúzia de semanas, durante um ano quase inteiro, em 1973, e essa música é toda plágio. A ideia de fazer uma canção toda plágio nasceu por causa de uma canção anterior, de que as pessoas de minha idade também se lembram, que é aquela
valsinha que dizia assim:

Passo a passo, braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete horas, oito dias
Dezenove, vim te ver

— Essa música ganhou num festival da Hebe Camargo o primeiro lugar. E aí saiu no Estadinho [Jornal da Tarde, irmão mais novo do Estadão] na seção “O Leitor Escreve”, tava escrito lá: “A música de Tom Zé ´Silêncio de Nós Dois´ é plágio do Garcia Lorca na página tal qual…”. Eu disse, vala-me Nossa Senhora, corremo lá pra casa, pegamos o Garcia Lorca, fomos lá na página e hum… tinha lá também a palavra moita. Então tudo bem.

 

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Mas eu falei assim, puxa!, é uma ótima ideia fazer uma canção que seja toda plágio.  Comecei a pensar no assunto e me lembrei dessa harmonia , que é do Estudo número 2, do Chopin. Vocês já conhecem ela em outra música brasileira, a mesma coisa também, só a batida é diferente [trata-se de ´Insensatez´, do Tom Jobim. ]

 A harmonia é a mesma. Então, peguei essa harmonia e botei… A forma, eu me lembrei que Antonio Carlos e Jocafi, naquele tempo davam as regras do mercado nacional com aquele tipo de coisa: a primeira parte menor [harmonicamente falando], com a sintaxe da língua portuguesa mais ou menos estranha, pra ficar parecendo uma coisa tipo luz de boate, assim simbolicamente, metaforicamente, num precisava dizer nada, bastava ter uma dorzinha e tal, e amor por aqui, amor por acolá, então eu comecei a construir essa estrutura, que não quer dizer absolutamente nada, prestem atenção:


Se o caso é chorar, te faço chorar
Se o caso é sofrer, eu posso morrer de amor
Vestir toda minha dor, no seu traje mais azul
Restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar

— No fim, eu tinha chegado a botar assim: “…Deixando meus olhos vazados de tanto chorar”. 

A minha mulher disse: “Assim, também não, assim é esculhambação, ninguém vai te levar a sério. Olhos vazados de tanto chorar? Que diabo, você é louco? Tenha paciência…”. Aí mudei a letra e Perna, meu parceiro [Antonio Perna Fróes, pianista baiano ], tava aqui em São Paulo e me deu a ideia da segunda parte; Ele disse: “Tem uma música dos Beatles –dos Beatles, não, dos Rolling Stones, uma imitação dos Beatles daquele tempo – que fala um negócio mais ou menos assim, deixa sangrar meu peito, um negócio assim, aí ele deu a ideia:

Amor, deixei sangrar meu peito
Pra tanta dor, ninguém dá jeito
Amor, deixei sangrar meu jeito
Pra tanta dor, ninguém tem peito
Se o caso é chorar…

— Agora, a segunda parte é uma colagem, não tem nenhuma palavra minha. Tudo música dos outros, vejam se vocês descobrem, eu juntei músicas de sucessos dos outros :

(cantando)
Hoje quem paga sou eu (um tango de Nelson Gonçalves) , o remorso talvez (Lupicínio Rodrigues)
As estrelas do céu também refletem na cama
De noite na lama (Inversão de Caetano), no fundo do copo (Ary Barroso)
Rever os amigos (Adelino Moreira e Jair Amorim), me acompanha o meu violão (Nelson Gonçalves)
Amor deixei sangrar meu peito…

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Fonte: http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0111/0372.html

Tom Zé, Estudando o samba: Som do VInil, Entrevistas a Charles Gavin

 

“Fogueira” – de Ângela Ro Ro para Zizi Possi

Histórias de amor deixam marcas e músicas. Algumas músicas, como algumas histórias de amor, são óbvias e não possuem muita coisa de especial. Outras músicas marcam, ficam definitivamente marcadas, como certas e especiais histórias de amor.

Toda história verdadeira de amor tem sua canção ou sua trilha sonora, e sorte de quem consegue traduzir numa bela letra, harmonia e melodia os encantos e desencantos do amor vivido.

Falo isso para analisar “Fogueira” uma das músicas mais belas, senão a mais bela, gravada por Ângela Ro Ro.

 A música foi composta para Zizi Possi, com quem Ângela vivia um romance (ambas moravam juntas), e algumas histórias não bem esclarecidas fizeram com que o romance terminasse. As fontes – nem sempre confiáveis – dão conta de que Ângela teria sido acusada de agredir Zizi.

Angela Ro Ro e Zizi Possi em foto de arquivo: cantoras tiveram relação amorosa turbulenta no início dos anos 80 (Foto: Reprodução)

A outra, que causou mais impacto, foi quando, após o rompimento, Ângela compareceu a um show de Zizi. Na voz de Ângela:

“Mandei comprar ingressos e fiquei em casa, com o meu amigo Claudio conversando e bebendo vinho. Como tivesse sobrado meia garrafa, botamos na mochila dele e saímos. Quando entramos no teatro, as luzes já estavam apagadas. Sentamos, no maior silêncio. Mas comecei a participar do espetáculo, como uma espectadora comum que estivesse adorando o que se passava no palco, cantei junto, aplaudi e gritei “Zizi Possi, eu te amo!”. Acontece que eu sou extrovertida e essa é minha maneira de opinar, tanto para elogiar quanto para protestar. A primeira parte do show terminou com My sweet lord que eu adoro e cantei interinha, do meu lugarzinho. foi quando as luzes se acenderam para o intervalo.”  

No entanto, esta interferência não teria agradado Zizi, que, segundo a mídia da época, teria retrucado:

 “Eu gostaria muito que você entendesse…Usasse toda a sua inteligência e percebesse que é com você que eu estou falando agora. As suas vibrações me incomodam, sua presença me perturba… Você nunca me ajudou, por favor não me atrapalhe, não se interponha em minha vida pois você não me é mais uma pessoa querida. Levanta, levanta por favor vai embora! Levanta, saia do teatro agora! Eu preciso de paz pra tocar e cantar!”

Ângela acabou sendo retirada do Teatro pela polícia. Disse ter sido traída:

“Zizi me traiu. e quando falo em traição, não me refiro a infidelidade. Traição é aquilo que Tiradentes sofreu e eu, que não sou dada a usar coroas de espinhos, não estou afim de entrar nessa… mas não esquento não. Nunca vi um monte de formigas derrubar Gibraltar, a ambição dessa mulher, de ser Sara Bernhardt, já esta quase preenchida, falta chegarmos ao tribunal. Aí sim, a pobre moçoila seduzida pela terrível bêbada e perigosa homossexual”

 

O fato é que a mídia da época, no início dos anos 80, tratava a relação de ambas como um tabu, sendo feitas diversas referências preconceituosas sobre a homossexualidade.

 As razões do rompimento são questões menores e que devem ficar para as revistas de fofocas. O fato é que Ângela fez uma música confessional, uma declaração de amor e de incredulidade por alguém que está sendo magoado. O interlocutor do eu-lírico está machucando, se escondendo, decepcionando um amor profundo, que, apesar de tudo, resiste.

É uma canção que oferece um perdão em nome do amor, que tenta dizer que nem sempre haverá outra oportunidade para vivê-lo e ganhá-lo a cada revés, mas que ao mesmo tempo se contradiz, dizendo ser o amor eterno, não passageiro, que está sempre disposto a perdoar se o objeto do sentimento puder, ainda que brevemente, estender a mão.

 “Fogueira” foi gravada também por Bethania em 1983, mas seu caráter absolutamente confessional a faz mais bonita quando interpretada por Ângela Ro Ro, cuja voz rouca e o estilo de cantar lembra um pouco a cantora Maysa (e a intensidade dos sentimentos, também).

 Muitos anos depois, em entrevista ao Jornal “Gazeta do Povo”, Ângela esclareceu:

  Não quero ser indelicado, mas o desafeto com a Zizi Possi continua?

Com a Zizi Possi? Não há o menor desafeto. Eu tive uma profunda tristeza da gente. Ela e eu fomos vítimas de manipulações, de más línguas. As pessoas foram muito maliciosas. Muita maldade, muita truculência física e psicológica contra mim. Eu nunca bati em ninguém, muito menos na Zizi e ela sabe disso. Eu acho a Zizi uma pessoa muito bacana. Nunca mais fizemos amizade. Ela tem uma filha linda que canta tão bem quanto ela. Zizi é uma grande artista. Pena que nunca mais fizemos amizade porque eu poderia pedir dinheiro emprestado a ela, né?

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Sonho meu… Um dos maiores sucessos de D. Ivone Lara

Em abril de 2018 o Brasil perdeu D. Ivone Lara, uma das grandes referências do samba. Vinda de uma família muito vinculada à música, ela se viu orfã de pai aos 03 (três) anos e de mãe aos 16 (dezesseis)

 Teve que lutar para firmar-se como mulher compositora. Foi a  primeira mulher a ser da ala de compositores de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro, a Império Serrano, em 1965, com o samba “Os cinco bailes da história do Rio”.  Só veio a lançar seu primeiro disco em 1974 (ela nasceu em 1921), quando se aposentou das atividades como funcionária pública.

Em sua biografia escrita por Mila Burns (2009), ela revela sua relação com a música desde pequena.

 “Fiquei emancipada por minha conta mesmo. Minha mãe morreu e ninguém ficou tomando conta de mim. Com idade de doze anos, eu que resolvia tudo, me guiava. Vou dizer uma coisa: foi muito bom, porque me fez ser como sou hoje. Tudo o que eu fiz a partir daí foi por decisão própria (…) Lembranças tristes às vezes vêm, mas eu sou guerreira;

Um dos seus maiores sucessos, e a música que a consagrou foi gravada em 1978, em parceria com Delcio Carvalho, cuja história é contada por Ruy Godinho, no livro “Então, foi assim?”

divulgação

Dona Ivone Lara e Delcio de Carvalho

Mila Burns afirma que D. Ivone não passava um dia sem cantarolar a melodia. Aquelas notas não saíam da cabeça, ela as repetia dia e noite. “Chamamos o amigo e disse: “Tenho essa melodia, e queria que você fizesse letra, mas queria que você tivesse alguma coisa a ver com sonho, porque até sonhando eu canto essa música. Foi numa época de muita tristeza, e só a música trazia inspiração mesmo. O Délcio fazia letras tristes, porque olhava para mim e sabia o que estava querendo dizer com as melodias que eu escrevia”.

“Sonho meu tem uma história interessante”, confiava Délcio. “Era meio-dia, o dia estava chuvoso e eu fui pra casa de D. Ivone, em Inhaúma. Eu estava com um negócio de mano meu, tio meu, vai buscar quem mora longe, que é muito usado no candomblé. E na época, estava sendo muito divulgada a campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita de presos políticos brasileiros, que estavam exilados em outros países. Aí eu saquei intuitivamente sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu… Quer dizer, já botei o sonho como um substantivo, uma pessoa, uma entidade palpável. E dali eu continuei vai matar essa saudade, sonho meu/com a sua liberdade, sonho meu…Naquele dia mesmo”

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João Bosco e Aldir Blanc também sonhavam naquela época com a volta do irmão Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete…

“A Rosinha de Valença estava produzindo um show com a D. Ivone Lara e o MPB, num lugar chamado Carinhoso, em Ipanema. E lá pelas tantas, ela perguntou: “Você não tem uma música? Eu vou fazer uma produção para a Maria Bethânia e preciso de uma música pra eu botar no disco’. Aí a D. Ivone cantou Sonho Meu. Dias depois, houve uma festa na casa da atriz Zeny Pereira e foi todo mundo lá. Era tempo chuvoso, D. Ivone Lara cantou Sonho Meu, a Maria Bethânia estava lá, aprendeu e na noite seguinte colocou no disco, junta dela estava a Gal Costa que participou da gravação. Foi uma maluquice, uma doideira. Em quinze dias a música estava estourada no Brasil todo”, conta Délcio com entusiasmo.

A música acabou sendo um dos hinos que foram cantados como inspiração para a volta dos exilados políticos que vieram com a Lei de Anisitia, em 1979.