Uma noite em 67 que mudou a história da música

Em 21 de outubro de 1967, a música popular brasileira não era mais a mesma. Um festival de música popular estabelecia um contraponto e uma dialeticidade entre o novo e o velho; entre a música nacional tradicional e a influência das guitarras elétricas; a Bossa Nova e a Jovem Guarda. Tudo isso no meio da ditadura militar.

O que deveria ser um programa de televisão transformou-se num evento de proporções políticas, históricas, sociológicas, culturais… nunca música foi coisa tão séria…

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Tendo o festival ocorrido em plena ditadura militar, o pano de fundo está no duelo  ideológico entre a “verdadeira” música brasileira, e a música dita “jovem”. Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão, Nana Caymmi, Jair Rodrigues, MPB-4 e Elis Regina, todos eles estavam ali defendendo canções belíssimas, cada uma com sua história.

Esta noite, em 21 de outubro de 1967, foi de forma belíssima registrado no documentário “Uma Noite em 67”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Kalil, onde mostra o surgimento de uma série de vertentes que, nas décadas seguintes, passaram a ser chamadas de MPB.

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No período que antecedeu à noite, havia um clima de efervescência política, cultural, ideológica, com passeatas (inclusive uma contra a  guitarra elétrica que tomou a avenida Brigadeiro Luís Antônio em junho de 67,  liderada por Elis Regina) tomando conta do país.

Naquele momento começavam a surgir canções de protesto. O Tropicalismo, com Gil e Caetano, ali dava sinais de que revolucionaria a música brasileira.

Aquele festival, que foi conhecido como o festival da vaia, mescla imagens do festival com depoimento dos artistas, mais de 40 anos depois. Narra o momento histórico de Sérgio Ricardo, que vaiado de maneira incompassível com Beto Bom de Bola, quebra o violão e o atira contra a plateia.

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O documentário, depois de mostrar a célebre cena de Sérgio Ricardo (que diz não ter se arrependido do que fez, mas hoje, jogaria, no máximo, um cavaquinho).

Elis Regina ganhou o prêmio de melhor intérprete, com o “cantador” , e as cinco primeiras colocadas em muito refletem sobre a música brasileira da época.

A quinta colocada, Maria, Samba e Carnaval, um belo samba, mostra como Roberto Carlos, vaiado de maneira violentíssima, consegue ser um intérprete espetacular. Divertido é seu jeito durante as entrevistas.

Caetano se coloca no centro do debate, colocando a Guitarra Elétrica e com sua música Alegria, Alegria, muito vaiada no início, e consagrada no final com gritos de “já ganhou” do público. Embora tenha ficado em quarto lugar, foi o maior sucesso após o festival. Plantada a semente do Tropicalismo.

Chico Buarque, o “mocinho” do espetáculo, segundo  Paulo Machado de Carvalho, já que, para ele, o festival era como um programa de luta livre. “Tinha que ter o mocinho, o bandido, a heroína etc”. Chico diz ter se surpreendido com Gil e Caetano com Guitarras e trajes modernos: “Eles (Chico, Caetano, os Mutantes) estavam lá todos fantasiados e eu de smoking. Aí fiquei com aquela cara… de smoking”, diz Chico, que defendeu a belíssima Roda-Viva, que ficou em terceiro lugar.

Gilberto Gil apresentou Domingo no Parque, música genial que ficou em segundo lugar (Sérgio Cabral, um dos jurados, diz ter se arrependido de não ter votado nela para primeiro lugar – eu concordo com ele). Domingo no Parque era acompanhado pelos Mutantes (Sérgio, Arnaldo e Rita Lee, lindíssima), em arranjo cheio de acordes elétricos. Poucos sabem, mas Gil estava em pânico duas horas antes do festival começar. Precisou ser retirado da cama para se apresentar.

As entrevistas nos entreatos são engraçadas (há muitos cigarros, engraçado como mudou a concepção do ato de fumar), fala-se dos cílios postiços de Maria Medalha (que defendeu com Edu Lobo a campeã Ponteio (numa bela letra de capinam para a música de Edu).

Edu Lobo e Chico mostram que ficaram incomodados por serem chamados de “velhos” pelos “Tropicalistas”, e Chico confessa ter se sentido só em certo momento.

Ponteio, como campeã, é uma bela música, de Edu Lobo e Capinam, e coroa um espetáculo em que vaia, efervescência política, guitarras elétricas e juventude, fez com que a música brasileira jamais fosse a mesma.

Zuza Homem de Mello, no seu livro “A era dos Festivais: uma parábola”, arremata:

Inegavelmente, porém, o que mais marcou as propostas musicais apresentadas no III Festival da Record foi a evolução dos dois artistas baianos: Gilberto Gil e Caetano veloso. As letras de suas composições tinham coincidentemente a mesma forma de slides; os arranjos soavam com uma ruptura dos padrões estabelecidos, ainda que sobre ritmos essencialmente brasileiros (baião e marcha), dando ao resultado final o esboço de uma estética sintonizada com o que acontecia no mais efervescente  período da década de 60″

Zuza também faz referência que as músicas de festival, a partir daí, passaram a ser um veículo de crítica social, sobretudo contra a ditadura militar, mas cantadas de forma a parecerem canções inocentes, de modo que a Censura não percebesse, mas a plateia, sim.

 

segunda 16 agosto 2010 12:04 , em Festivais

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My Way. A canção-assinatura de Sinatra (da qual ele não gostava muito)

Talvez “My Way” seja uma das canções que mais identifique Frank Sinatra. Foi, durante muitos anos, a música que encerrava seus shows, até a chegada do estrondoso sucesso “New York, New York”

Trata-se de uma versão original em francês, chamada “Comme D’Habitude” (tradução: “como de costume”), escrita pelos compositores Jacques Revaux e Gilles Thibault. Eles levaram a canção para a estrela pop francesa Claude Francois, que modificou um pouco a música, e, com isso, ganhou o crédito de coautor  e gravou a música em 1967, tendo relativo sucesso na Europa. A versão francesa conta a história de um homem, vivendo o fim de seu casamento, o amor morrendo pelo tédio da vida cotidiana.

 

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Paul Anka descobriu essa música ao visitar a França e reescreveu as letras como “My Way” quando ele voltou para Nova York. Anka disse, numa entrevista, que era madrugada, em uma noite chuvosa,  quando as palavras vieram para ele.

“Eu disse: ‘O que Frank faria com isso se ele estivesse escrevendo isso?’. E, metaforicamente, comecei a criar essa música como se Frank estivesse escrevendo: “E agora o fim está próximo. A cortina final”. Escrevi até as cinco da manhã e, no final, sabia que tinha algo que não teria medo de lhe dar.

 A letra de Anka mudou o significado de ser um homem olhando carinhosamente com a vida que viveu de acordo com seu próprio caminho, no momento em que “fecham-se as cortinas” da sua vida. Não por acaso, “My Way” é o título da biografia de Paul Anka

 

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A música foi gravada por Sinatra em 30 de dezembro de 1968, e causou alguma polêmica. Alguns viam nela um exercício de arrogância. Muitos viam como se fosse um recado do próprio Sinatra.

Na verdade, consta que Sintatra não gostava muito da música. Sempre disse que não era autobiográfica: “Não foi escrita pra mim (na verdade, como Anka disse, foi escrita pensando em Sinatra, mesmo)… As considerações, são do letrista, não minhas” 

Essa tornou-se a canção de assinatura de Frank Sinatra, mas não gostava muito dela. Já disse, em alguns shows, meio brincando, meio sério, que “detestava essa música” . Em seus últimos anos, ele descreveu a música como “um sucesso pop de Paul Anka que se tornou uma espécie de hino nacional“. Em uma entrevista de 2000 com o show da BBC Hardtalk, a filha de Sinatra, Tina, disse: Ele sempre pensou que a canção era egoísta e auto-indulgente. Ele não gostou. Essa música ficou presa a ele, que não conseguiu livrar-se dela (That song stuck and he couldn’t get it off his shoe.)

Nos anos 70, conforme relata Renzo Mora no livro que escreveu sobre Sinatra, que ele apontou as razões pelas quais não gostava de “My Way”:

“Eu sei que é um grande sucesso, e eu adoro ter grandes sucessos, mas cada vez que tenho de cantar essa música eu ranjo os dentes, porque, não importa a imagem que tenham de mim, eu odeio me gabar em cima dos outros. Eu odeio falta de modéstia, e é assim que eu me sinto com essa música” 

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O fato é que a música vai sendo construída num crescente de intensidade que termina num encerramento dramático, , que Sinatra poderia realmente vender com sua declaração, “eu fiz o meu caminho”.

O fato é que, no funeral de Sinatra, My way” foi a música que todas as rádios e redes de notícia utilizaram para lembrar-se dele.

Justifica-se porque a letra de Anka faz uma espécie de balanço da vida, e que, no fim da história, enaltece suas escolhas, minimiza os erros, e, em outras palavras, termina dizendo que o caminho escolhido valeu a pena.

A canção virou um clássico, gravada muitas vezes, embora a canção de Sinatra acaba sendo vista como a definitiva.

And now, the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I’ll say it clear
I’ll state my case, of which I’m certain

I’ve lived a life that’s full
I’ve traveled each and every highway
But more, much more than this
I did it my way

Regrets, I’ve had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption

I planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way

Yes, there were times, I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way

I’ve loved, I’ve laughed and cried
I’ve had my fill my share of losing
And now, as tears subside
I find it all so amusing

To think I did all that
And may I say – not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way

For what is a man, what has he got
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows I took the blows
And did it my way

Yes, it was my way

E agora o fim está próximo
E portanto encaro o desafio final
Meu amigo, direi claramente
Irei expor o meu caso do qual estou certo
Eu tenho vivido uma vida completa
Viajei por cada e todas as rodovias
E mais, muito mais que isso
Eu o fiz do meu jeito

Arrependimentos, eu tive alguns
Mas aí, novamente, pouquíssimos para mencionar
Eu fiz o que eu devia ter feito
E passei por tudo consciente, sem exceção
Eu planejei cada caminho do mapa
Cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho
E mais, muito mais que isso
Eu o fiz do meu jeito

Sim, em certos momentos, tenho certeza que você sabia
Que eu mordia mais do que eu podia mastigar
Todavia fora tudo apenas quando restavam dúvidas
Eu engolia e cuspia fora
Eu enfrentei a tudo e de pé firme continuei
E fiz tudo do meu jeito

Eu já amei, ri e chorei
Cometi minhas falhas, tive a minha parte nas derrotas
E agora conforme as lágrimas escorrem
Eu acho tudo tão divertido
E pensar que eu fiz tudo isto
E devo dizer, sem muita timidez
Ah não, ah não, não eu
Eu fiz tudo do meu jeito

E para que serve um homem, o que ele possui?
Senão ele mesmo, então ele não tem nada
Para dizer as coisas que ele sente de verdade
E não as palavras de alguém de joelhos
Os registros mostram, eu recebi as pancadas
E fiz tudo do meu jeito

 

Fontes: http://www.songfacts.com

MORA, Renzo. Sinatra: O homem e a música. São Paulo, Lemos Editorial, 2001, p.15/16

 

Gilberto Gil cantando Marighella?

 

Quem assistiu o filme “O que é isso, Companheiro” (dirigido por Bruno barreto inspirado na obra homônima de Fernando Gabeira),  percebe, numa cena perto do final do filme, a personagem interpretada por Fernanda Torres dizer que Gilberto Gil, numa determinada canção, gritaria o nome “Marighella”… para em seguida dizer que, para que fosse ouvido o nome corretamente, teria que ser ouvido ao contrário.

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Fiquei curioso e fui atrás da famosa canção. Em inúmeros sítios digitais e blçogs, encontrei a alegada resposta: o Grito estava na canção Alfômega, que consta de um disco gravado por caetano em 1969 (o LP tem a capa branca com a assinatura de Caetano. Foi gravado pouco depois que saíram da prisão).

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No meio da canção, Gil faz algumas onomatopeias vocais, e vi muita gente jurar que Gilberto Gil gritava nitidamente o nome “Marighella”. E, para quem não sabe, Marighella foi um dos principais personagens da luta armada contra a ditadura militar no Brasil, morto pela ditadura em novembro de 1969.

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Marighella

No livro “O que é isso, companheiro”, Gabeira relatou, após o sequestro do embaixador americano, sua mania de ouvir discos bem baixinho, quando estava escondido, na clandestinidade, para não incomodar os vizinhos:

“…Num deles, Gil gritava Marighella. No princípio foi interessante reconhecer aquele nome, mais ou menos gritado às pressas, propositalmente, não articulado. Depois era fácil acompanhar a música que, dentro de alguns segundos, ia dizer Marighella. Finalmente, era insuportável ouvir aquele grito de Marighella, repetido mil vezes, ao longo daqueles dias. Sobretudo porque num deles a televisão anunciava a morte de Marighella, assassinado em São Paulo. A morte de Marighella foi a resposta que o governo deu ao sequestro do Embaixador americano...” 

Ouvindo atentamente a canção, parece que, em certa altura, Gil, canta algo que parece ser assim: “iê, ma-ma-mar-guella!”  Veja no minuto 1:31 do vídeo abaixo 

Só que recentemente, Gilberto Gil, no documentário: “Canções do exílio: a labareda que lambeu tudo”, (que conta a trajetória de Gil, Caetano, Jorge Mautner e Jards Macalé sobre as prisões que sucederam ao AI-5, no fim de 68), desmente que tenha gritado o nome de Marighella na canção:

“Dizem, as pessoas, muita gente diz que ouvia num trecho de uma das músicas daquele disco que eu fiz quando saí do Brasil, que eles ouviam o grito do Marighella, coisa que eu nunca fiz. Eu insistentemente ouvia pra ver e eu não achava nem parecido com alguém gritando Marighellla. E na verdade o que acontecia ali eram aqueles gritos normais que eu dou até hoje no meio das minhas músicas, uma daquelas onomatopeias típicas do meu modo de me exprimir musicalmente. Mas nunca, nunca fiz menção ao Marighella, até porque eu tenho impressão que era muito destemor, seria muito destemor da minha parte, naquele momento, diante daquela situação toda fazer esse tipo de coisa.  É um mito, é uma lenda…” 

 

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Está aí a canção. Reparem nos vocais de Gil. Está no minuto 1:30 do video aqui postado.  Conseguem perceber? Ou será que é apenas uma lenda?

domingo 12 fevereiro 2012 02:10 , em As lendas

O inusitado encontro de João Gilberto e Elza Soares, na narratiiva de Ronaldo Bôscoli

 

Recentemente, li o livro “Eles e Eu”, que conta as memórias de Ronaldo Bôscoli. Para quem não sabe, Ronaldo Bôscoli foi um dos principais corifeus da Bossa Nova, compositor, produtor, namorou Nara Leão, Maysa, foi casado com Elis Regina e tem muita história para contar.

Uma delas diz respeito a João Gilberto. João, no final da década de 50 e começo de 60, era o verdadeiro guru da bossa nova, ritmo que criou com sua inigualável batida de violão. Bôscoli (que João chamava de “Ronga”), então, conta no livro o quanto João é persuasivo, inclusive, como ele usou o suéter de Bôscoli na foto do famoso álbum “Chega de saudade”.

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Uma das histórias bem divertidas, contadas por Bôscoli, foi quando João Gilberto pediu a ele para intermediar um encontro com Elza Soares, pelo telefone, num trem do Rio Para São Paulo. Transcrevo aqui um pequeno trecho, na narrativa de Bôscoli:

Fomos a São Paulo, para um programa do Tom, chamado o Bom Tom, na TV Tupi, nós três – Tom, João e eu. Fomos de trem porque o Tom tinha pavor de avião. Fizemos até uma música bem bonita, que depois se perdeu. Tom estava de olho na Elza Soares, uma mulata boa paca. Foi o que bastou para João entrar na disputa. Estávamos no mesmo quarto de hotel e João chegou pra mim:

– Ronaldo, você conhece a Elza Soares?
– Conheço. Por quê?
– Eu tinha vontade de ficar com ela.
– Tudo bem. Te dou o telefone, te ponho em contato com ela.
– Não, rapaz. Não sou carioca, sou burrão, sou tímido. Não sei falar com as pessoas. Não sei cantar ninguém, só música.
– O que você quer, então?
– Quero que você cante ela pra mim.
-Mas João, vai pegar mal…

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Não houve jeito. O João me convenceu a cantar a Elza Soares pra ele, imaginei. Parti pra esse ridículo. Liguei pra Elza.

– Elza, você conhece o João Gilberto?
– Conheço. Acho simpático, gostoso.
– Ele queria falar com você.
– Então chama ele aí.
– Não, Elza. Eu tenho que falar…
– Que é isso, está me gozando?

Durante o papo, João me dava instruções. Minha missão era realmente facílima. Eu tinha que cantar a Elza pra ele convencê-la a esperar por ele na cama, debaixo das cobertas, já despida, com a luz apagada. Ela devia ficar esperando até ele chegar. Ele falava pra mim, eu falava pra ela, ela respondia, eu falava pra ele, ele pra mim, etc. Acabamos convencendo a Elza daquela loucura.

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João voltou do apartamento dela e só voltou de manhã, encantado.

– Puxa Ronga. Que mulher maravilhosa!

Tempos depois, expliquei tudo pra Elza. Ela era uma mulher fantástica e compreendeu perfeitamente.

Mais uma das idiossincrasias de João Gilberto….

sexta 12 agosto 2011 05:14 , em Bossa Nova

A história de Eleanor Rigby

Há algumas histórias curiosas por trás de Eleanor Rigby, gravada pelos Beatles e lançada no disco Revolver, em 1966. A música, que exorta as pessoas a olhar e prestar atenção às pessoas solitárias, conta a história de uma mulher que recolhe o arroz da igreja depois do casamento, e do Padre Mckenzie, que escreve um sermão que ninguém vai ouvir…O destino dos dois se encontra no dia em que Eleanor está morta, na igreja. Ninguém comparece ao enterro. O padre McKenzie se afasta do túmulo e limpa suas mãos.

A canção, que foi um grande sucesso, ainda hoje gera polêmicas, sobre a existência ou não de uma “Eleanor Rigby” real. Steve Turner conta um pouco disso no livro “Beatles- A história por trás de todas as canções”, quando revela que o nome original era Daisy Hawkins…

 

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Assim como aconteceu com muitas canções de Paul, a melodia e as primeiras palavras de “Eleanor Rigby” surgiram enquanto ele tocava piano. Ao se perguntar que tipo de pessoa ficaria recolhendo arroz em uma igreja depois de um casamento, ele acabou sendo levado à sua protagonista. Ela originalmente se chamaria Miss Daisy Hawkins, porque o nome encaixava no ritmo da música.

Paul começou imaginando Daisy como uma jovem, mas logo percebeu que qualquer uma que limpasse igrejas depois dos casamentos provavelmente seria mais velha. Se ela era mais velha, talvez fosse uma solteirona, e a limpeza da igreja se tornou uma metáfora para suas oportunidades de casamento perdidas. Então ele a baseou em suas lembranças das pessoas mais velhas que conheceu quando era escoteiro em Liverpool.

Paul continuou a pensar sobre a música, mas não estava confortável com o nome Miss Daisy Hawkins. Não parecia suficientemente “real”. O cantor de folk dos anos 1960 Donovan lembra que Paul tocou para ele uma versão da música em que a protagonista se chamava Ola Na Tungee. “A letra ainda não estava terminada para ele”, conta Donovan.

Ele sempre dizia que optou pelo nome Eleanor por causa de Eleanor Bron, atriz principal de Help!. O compositor Lionel Bart, porém, estava convencido de que a escolha tinha sido inspirada por uma lápide que Paul viu no Putney Vale Cemetery, em Londres. “O nome na lápide era Eleanor Bygraves”, conta Bart, “e Paul achou que se encaixaria na música. Ele voltou para o meu escritório e começou a tocá-la no clavicórdio.”

Eleanor Bron com os Beatles

O sobrenome surgiu quando Paul deparou com o nome Rigby em Bristol em janeiro de 1966, durante uma visita a Jane Asher, que estava fazendo o papel de Barbara Cahoun em The Happiest Days Of Your Life, de John Dighton. O Theatre Royal, casa do Bristol Old Vic, fica no número 35 da King Street e, enquanto Paul esperava Jane terminar o trabalho, passou por Rigby & Evens Ltd, Wine & Spirit Shippers, que ficava do outro lado da rua, no número 22. Era o sobrenome de duas sílabas que ele estava procurando para combinar com Eleanor.

A música foi concluída em Kenwood quando John, George, Ringo e o amigo de infância de John, Pete Shotton se reuniram em uma sala cheia de instrumentos. Cada um contribuiu com ideias para dar substância à história. Um sugeriu um velho revirando latas de lixo com quem Eleanor Rigby pudesse ter um romance, mas ficou decidido que complicaria a história. Um padre chamado “Father McCartney” foi criado. Ringo sugeriu que ele poderia estar cerzindo as próprias meias, e Paul gostou da ideia. George trouxe a parte sobre “as pessoas solitárias”. Paul achou que deveria mudar o nome do padre porque as pessoas pensariam se tratar de uma referência ao seu pai. Uma olhada na lista telefônica trouxe “Father McKenzie” como alternativa.

 


Depois, Paul ficou tentando pensar em um final para a história, e Shotton sugeriu que ele unisse duas pessoas solitárias no verso final, quando “Father McKenzie” conduz o funeral de Eleanor Rigby e fica ao lado de seu túmulo. A ideia foi desconsiderada por John, que achava que Shotton não tinha entendido a questão, mas Paul, sem dizer nada na época, usou a cena para terminar a música e reconheceu mais tarde a ajuda recebida.

 

Interessante que, na década de 80, foi encontrada uma lápide de uma Eleanor Rigby no cemitério de St Peter’s, Woolton, bem próximo ao local em que John e Paul tinham se conhecido no festival anual de verão, em 1957. Woolton é um subúrbio de Liverpool e Lennon conheceu McCartney em uma festa na Igreja de São Pedro. 

Eleanor Rigby

Assim, foram atrás da história da “real” Eleanor Rigby, que Nasceu em Eleanor, que nasceu em 29 de agosto de 1895, no 8 Vale Road, em Wolton.

Eleanor Rigby, que na verdade, era Eleanor Rigby Whitfield, morreu quando Eleanor ainda era criança. Sua mãe casou-se novamente, e teve duas filhas, irmãs de Eleanor: – Edith e Hannah Heatley.

Interessante que Eleanor, para os padrões da época, demorou-se a casar, o fazendo apenas em 1930, aos 35 anos de idade, com Thomas Woods, um capataz de ferrovia com 17 anos de idade.

Eleanor não teve filhos. Em 10 de outubro de 1939, um mês após o início da Segunda Guerra Mundial, sofreu uma enorme hemorragia cerebral.

 

Paul sempre deixou bem claro que Eleanor Rigby foi uma personagem fictícia, inventada, embora se especule que Paul tenha visto a lápide na adolescência, e o som do nome tenha ficado em seu inconsciente até vir à tona pelas necessidades da canção. Na época ele afirmou: “Eu estava procurando um nome que parecesse natural. Eleanor Rigby soava natural”.  

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Há, em Liverpool, uma estátua da Eeleanor Rigby fictícia, numa homenagem a todas as pessoas solitárias…

 

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Outra Curiosidade: O Father Mckenzie iria se chamar Father McCartney, mas Paul teria ficado receoso que seu pai, convertido ao catolicismo, pudesse interpretar mal a referência, ele escolheu o sobrenome numa lista telefônica. 

A tradução:

 

 

Ah, olhe para todas as pessoas solitárias!

Ah, olhe para todas as pessoas solitárias!

 

Eleanor Rigby, apanha o arroz na igreja

Onde um casamento aconteceu

Vive em um sonho

Espera na janela

Vestindo um rosto que ela guarda num jarro perto da porta

Para quem é?

 

Todas as pessoas solitárias

De onde todas elas vêm?

Todas as pessoas solitárias

A que lugar todas elas pertencem?

 

Padre McKenzie, escrevendo as palavras de um sermão

Que ninguém vai ouvir

Ninguém chega perto

Olhe para ele trabalhando, remendando sua meias à noite

Quando não há ninguém lá

O que é importante para ele

 

Todas as pessoas solitárias

De onde todas elas vêm?

Todas as pessoas solitárias

A que lugar todas elas pertencem?

 

Ah, olhe para todas as pessoas solitárias!

Ah, olhe para todas as pessoas solitárias!

 

Eleanor Rigby morreu na igreja

E foi enterrada junto com seu nome

Ninguém veio

Padre McKenzie limpando a sujeira de suas mãos

Enquanto caminha do sepulcro

Ninguém foi salvo

 

Todas as pessoas solitárias

De onde todas elas vêm?

Todas as pessoas solitárias (Ah, olhe para todas as pessoas solitárias!)

A que lugar todas elas pertencem?

 

 

 

 

 

Fontes:

http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1088454/REVEALED-The-haunting-life-story-pops-famous-songs–Eleanor-Rigby.html

Steve Turner: Be

Vinícius de Moraes no “Esta noite se Improvisa”: A “garota” que não existe na Garota de Ipanema

Na década de 60, havia um programa musical que fez história e inspirou muitos programas nos anos seguintes (Silvio Santos que o diga). O nome era “Esta Noite se improvisa”, na qual os concorrentes, todos eles artistas, testavam seus conhecimentos musicais.

O jogo consistia em ser anunciada uma palavra e o participante que soubesse uma letra de música com a palavra em referência, apertava um botão à sua frente e corria até o microfone para cantar um trecho da música que contivesse a palavra. Caso acertasse, acumularia pontos que poderiam ser trocados por prêmios, que podiam chegar até a um automóvel Gordini.

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Grandes artistas  participavam do programa, sendo Caetano Veloso e Chico Buarque os competidores mais competentes. (Conta a lenda que Chico Buarque, num desses programas, inventou uma letra e melodia na hora).

Assim Blota Jr. anunciava:  “A palavra é…”.

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Vinícius de Moraes não era muito bom nesse programa, não por falta de cultura musical, óbvio, mas por não ser suficientemente ágil para apertar o botão.

Só que, como narra Humberto Werneck em seu Gol de Letras (Cia das Letras, 1989), certa vez Blota Jr. teria anunciado:
– A palavra é… “garota”.

Desta vez Vinícius de Moraes não perdeu tempo: pressionou o botão, dirigiu-se sorridente ao microfone, e começou a cantar sua bela parceria com Tom Jobim: “Garota de Ipanema”.

No entanto, um detalhe: na letra de “Garota de Ipanema” não existe a palavra “garota”… e, ao contrário daquela que passava cheia de graça e inspirava a canção, Vinícius retornou a seu posto, completamente sem graça.

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Para quem não se lembra, olha aqui a letra de um dos maiores clássicos da música brasileira:

Garota de Ipanema – 1962
Composição: Vinícius de Moraes / António Carlos Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Fonte: Gol de Letras, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1989).

quarta 22 dezembro 2010 08:45 , em Bossa Nova