“Como eu quero”, uma falsa canção de amor

O refrão “Eu quero você como eu quero” pode enganar.  A expressão “como eu quero” pode ser interpretada como intensidade, mas na verdade acaba querendo dizer “do meu jeito”

O Eu-lírico feminino, em primeira pessoa,  estabelece os pedidos (ordens) para promover o retoque para o seu parceiro de relacionamento. Ela estabelece quais são as condições para que ele se torne uma pessoa melhor, sendo que o “melhor” é que ele seja do jeito dela.

No começo, já fala um pouco da postura do parceiro. “Diz pra eu ficar muda” e “cara de mistério” revela que ele deve ter uma atitude mais dominadora e inacessível.

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Em seguida, quando afirma  “tira essa bermuda, Que eu quero você sério”, é uma sugestão de que o parceiro abandone a informalidade da bermuda e traje algo mais compatível com um homem.

Os meros “solos de guitarra” não são suficientes para ela…

 

Durante todo o tempo, ela desvaloriza o “rascunho” que é seu parceiro e valoriza a “arte final” que é a forma com a qual ela acha que ele deve ser.

Assim, o refrão quando diz: “Eu quero você como eu quero”, quer dizer que ela não o quer do jeito que ele é, tanto que, longe do seu domínio, ele vai de mal a pior… e ela ensina como ele deve ser melhor.

 

No site http://decifrandoamusica.blogspot.com.br há um manuscr

Paula Toller e Leoni, em entrevistas, falaram um pouco da música:

Como eu quero nunca passou pra mim como a relação nociva de um casal, mas sim de uma música que falava daquele cara que tenta, mas não consegue enganar a mulher, pois ela com seu olhar ´raio x’ consegue ver tudo que ele tenta esconder ou suas gracinhas para conquistá-la ou distraí-la.”

a ideia da letra surgiu por causa de um amigo meu e da Paula que tinha sérios problemas com a namorada. Ela queria transformá-lo, que parasse de tocar e de compor para fazer uma coisa “mais séria”. E a música fala exatamente disso: “de como eu quero”, “você tem que ser do jeito que eu quero” e não “te desejo tanto” como muita gente confunde”, conta Leoni. Por isso que Paula Toller considera essa música muito tirana.

Como eu quero começou com uma ideia da Paula. Eu me lembro dela ter umas frases, dela me dizer estas frases, a gente andando de carro, ela meio falando coisas, quase oral, depois tinha que anotar pra não esquecer. Depois a terminou a música em casa, violão e voz

Muita gente descobre essa musica em camadas, muita gente acha que é uma música de amor e não é… a gente vivia num meio de músicos, e tinha essa menina que vivia no nosso meio mas ela não queria que o namorado dela fosse músico, queria que o namorado dela fosse sério, “eu quero você como eu quero” , era essa a brincadeira que a gente achava que era muito fácil das pessoas perceberem …”eu quero você como eu quero que você seja”

Consta que a inspiradora da canção seria a namorada de Beni Borja, então baterista da banda

Esse começo: Seja autoritário comigo, seja macho, não seja uma pessoa doce, sensível, adulto, nada de bermuda, “solos de guitarra não vão me conquistar”, vá fazer outra coisa, 

E ela denuncia: você está numa cilada, fala claramente e as pessoas fazem questão em não perceber isso:  você está por mim, eu estou por mim, estamos todos por mim, é só eu que interessa, e as pessoas ainda acham que é uma canção de amor”  

Interessante que a Durante a produção do álbum discutia-se qual seria a música de trabalho. A gravadora (Warner Music) insistia para que fosse Alice (Não me escreva aquela carta de amor), mas a banda fincou pé e resolveu trabalhar em cima da música Pintura Íntima.

Pouco antes de fechar o álbum, faltando ainda uma música, Como Eu Quero, que havia sido descartada pelo produtor, foi escolhida para completar o LP, numa decisão pessoal de Leoni e Paula.

“Tivemos que bater o pé para entrar ‘Como eu quero’. Faltava uma música e o Liminha foi escutar o que a gente tinha. Na época, a gente achava que balada não tinha nada a ver” PAULA TOLLER

Diz-se que Liminha (produtor do disco) não gostou muito do refrão original, que seria meio triste, e Leoni mudou no dia seguinte e gravou e acabou sendo a grande balada do disco, talvez o maior sucesso.

http://decifrandoamusica.blogspot.com.br/2012/09/como-eu-quero-leoni-e-paula-toller-1983.html

http://www.geocities.ws/kidabelharulez/fofocas.htm

 

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Quem é a “menina do anel de lua e estrela”

Vinicius Cantuária é nascido em Manaus, crescido no Rio de Janeiro, e tem alguma composições belíssimas. Uma delas, gravada por Caetano Veloso, conta uma história de uma menina que ele viu na praia, e que se eternizou com o nome “Lua e Estrela”.

Ele conta a história a Rui Godinho, no terceiro volume do seu livro “Então, foi assim?” :

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Essa história é linda e verdadeira. Eu morava, na época, na casa do Arnaldo Brandão, um baixista, que depois tocou comigo na outra banda da Terra durante anos depois participou do Brylho (A noite vai ser boa..). É o Arnaldo tocava baixo com os Doces Bárbaros. Ele tinha um filho, que é o Rodrigo, que hoje toca numa banda em São Paulo.

Era uma sexta-feira e o Arnaldo falou: “Olha, hoje depois do show dos Doces Bárbaros a gente vai para o aniversário da Bethânia (ou da Gal sei lá, de alguém)… e vai ter uma festa depois. O Arnaldo e a Cláudia – que era mulher dele, mãe do Rodrigo – perguntaram: “Pô, fica tomando conta do Rodrigo hoje, pode ser? A gente vai chegar umas duas, três da manhã. Eu falei: “Claro. Sou o padrinho do Rodrigo, estou morando na casa de vocês podem ir”. Só que deu meia-noite, uma, duas, três, quatro horas e eles não chegavam nunca. Chegaram quase seis da manhã dessa tal festa. E eu estava acordado porque o Rodrigo já estava querendo acordar. Quando eles chegaram já estava claro”, relembra.

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Então, Cantuária resolveu aproveitar o dia.

Como eles moravam no Leblon, coloquei uma bermuda, uma camiseta e fui até a praia. Saí andando no Leblon até o Arpoador. Cheguei ao Arpoador, era umas seis e pouco da manhã, muito cedo . O público de Arpoador não vai tão cedo à praia. Mas foi um fato curioso, porque eu sentei a uns quarenta metros de mim tinha uma menina sentada. Eu não a conhecia e ela não me conhecia. Ela me olhava e eu olhava para ela. Mas todo mundo que chegava à praia me conhecia e a conhecia. Então a distância entre mim e ela foi encurtando. As pessoas foram chegando em mais ou menos, a gente se aproximou, se olhou. Aí teve uma hora que ela saiu de onde estava e chegou mais perto. Ficou ali conversando com amigos. Ninguém nos apresentou, mas eu sentia que tinha uma empatia rolando entre a gente. Ela se dirigiu ao mar. Quando foi mergulhar, eu vi claramente que ela tinha um anel. Aí deu aquele estalo. Sabe quando bate um raio, uma coisa assim”, revela.

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Esse “estalo” a que Vinicius se refere, outros compositores identificam como centelha criativa, inspiração, luz, mote para a composição musical.

“Isso eu conto hoje e talvez eu tenha até imaginado. Mas na hora eu vi. Bateu um raio, raio de sol, né? Consegui ver bem de perto que ela tinha um anel de lua e estrela. Como eu fui caminhando, voltei com a música na cabeça: [cantarolando] Menina do anel de lua e estrela, raio de sol no céu da cidade. Qual era o nome dela? Quem é você, qual o teu nome/ conta pra mim, diz como eu te encontro. Aí de noite, a gente ia pra onde? Pro Baixo, né? Quem sabe te encontro de noite no Baixo /deixa ao destino, deixa ao acaso… A música foi toda sendo formada daquela história. Eu voltei, peguei o violão e a música saiu toda”, relata.

 

A música estava criada, precisava apenas de um grande intérprete que a projetasse nacionalmente.

“Aí eu comecei a tocar com Caetano que adorava as minhas músicas. Mas eu nunca tinha mostrado Lua e Estrela. Não sei porquê. Até que um dia o Arnaldo falou: ‘Porra! Você nunca mostrou Lua e estrela pro Caetano’. Aí o Caetano falou: ‘Lua e estrela, que nome lindo, mostra pra mim. Mostrei, ele adorou, e como estava começando a gravar o disco Outras palavras, falou pra mim: ‘Vou gravar Lua e estrela vamos’? Eu falei: ‘Claro, vamos’! E foi isso. Essa é a verdadeira história da música”, confirma o compositor.

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Vinicius enfatiza que é a “verdadeira”, porque há diversas falsas histórias, inventadas por pretensas musas.

“Anos depois, claro, eu fui encontrar a menina, que se chama Tize. Essa história é a verdadeira, mas há muitas histórias paralelas. Uma ocasião, por exemplo, eu estava com amigos, sentado num bar no Baixo Leblon, no auge do sucesso da música. Aí apareceu uma menina que sabia que eu tocava com Caetano, Puxou a conversa e falou assim: ‘Ah! Pois é, essa música o Caetano fez pra mim’. Ela nem sabia que eu era o autor da música. Muito engraçado [risos]. Tem muitas histórias com essa música, mas a verdadeira história é essa. Eu fiz pra essa menina, que eu não sabia o nome, que tinha um anel de lua e estrela. A letra não é nada mais nada menos do que eu querendo reencontrar essa menina. Então essa é a história”, conclui.

Gal Costa e a polêmica do show “O sorriso do gato de Alice”

 

No começo da Carreira, Gal costa, pelo seu timbre único e pelo seu jeito suave de cantar, chegou a ser chamada de “João Gilberto de Saias”. Mas por trás daquela voz inconfundível existe uma mulher ousada, que arrisca, e não foram poucas vezes que Gal saiu da sua zona de conforte de uma das maiores cantoras da música brasileira de todos os tempos  para arriscar.

Apenas para citar de memória, posso fazer referências a “Divino, Maravilhoso”, que apresentou em 1968, no Festival da Record, com cabelo black power, roupas berrantes e atitudes agressivas, ou a capa do disco India, em que logo na capa do LP, tinha uma foto em close da cantora, somente com uma tanga vermelha (na verdade, a foto era da tanga de Gal).

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Mas poucos escândalos foram tão comentados quanto o show”O Sorriso do Gato de Alice”. O show foi dirigido pelo controvertido o diretor teatral Gerald Thomas. Estreou no Rio de Janeiro, em setembro de 1994, e causou muita polêmica.

Duas cenas chamam inicialmente a atenção: a primeira, logo no início do espetáculo, quando Gal surgiu, arrastando-se sobre um teto cenográfico como se fosse uma gata vagando pela cidade sob a lua. O público, na noite da estreia, chegou a vaiar Gal.

 

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Mas o melhor estava por vir.  Durante a música Brasil (Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim), de Cazuza, Gal, que cantava com algo que parecia um pijama, abriu a blusa e cantou com os seios à mostra.

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Foi praticamente capa de todos os jornais do Brasil. Vieram inúmeras críticas, piadas; alguns, mais moralistas, indignados; outros, fãs de Gal, aturdidos.  Chegaram a dizer que as propostas de Gerald Thomas oprimiam Gal.

Em duas entrevistas, Gal se manifestou sobre o tema. A primeira delas foi no ProgramaRoda Viva, da TV Cultura:

Gal Costa: Não me arrependi em nenhum momento de ter feito o espetáculo com Gerald Thomas. Era o que eu queria. Acho que eu tenho muita honra e muito orgulho de ter feito esse espetáculo. Acho que era um espetáculo belíssimo, cenicamente era lindo, era uma espetáculo bem acabado, que eu acho o Gerald Thomas talvez o melhor encenador – estou falando encenador – brasileiro. A luz era deslumbrante, o cenário era lindo. Eu não me arrependo em nenhum segundo. Eu fazia o espetáculo com o maior prazer, não me sentia oprimida, como a imprensa falou, que o Gerald me oprimiu, não me oprimiu, porque eu fiz aquilo que eu quis. Eu só faço aquilo que eu quero. E eu me sentia bem e acho que faz parte da minha história. Quem conhece a minha história sabe que eu sou ousada e que eu faço essas coisas. Eu sei que elas têm um preço, mas eu encaro.

 

Gal Costa: Eu, na verdade, eu fiquei um pouco surpresa. Eu sabia que algumas pessoas iriam se chocar com essa atitude. Eu fiquei impressionada com a quantidade, com o número de pessoas que se chocaram por ver um peito de uma mulher de fora, num palco. Eu acho que aquilo era colocado de uma maneira tão digna, era um momento tão importante, quer dizer, no momento em que eu cantava Tropicália, era um momento que estava ligado à história do Tropicalismo, à história dessa irreverência, dessa coisa que ele falou, de comportamento. Estava ligado a isso. Na verdade, aquilo era um pouco uma retomada da minha carreira. Eu cantei coisas do início da minha carreira, gravações. E a atitude também de entrar no palco, a atitude inusitada de entrar no palco como uma gata, não entrar como uma estrela, é engraçado como isso também incomodou as pessoas. E as pessoas reclamam, reclamam que a gente é igual. O que eu tenho medo é de me estagnar, de ficar igual. Podia entrar no palco, ao som de uma banda, com um vestido lindo, uma mulher bonita, e pronto…cantar, mas não é isso que eu quero. Eu prefiro, entendeu, ir por caminhos mais difíceis até porque eu sei que essas coisas provocam reação, provocam polêmica, mas para mim são mais enriquecedoras, porque me dão coisas novas, à minha personalidade.

Fontes: http://galcostafatal.blogspot.com/search/label/1994%20-%20SHOW:%20O%20SORRISO%20DO%20GATO%20DE%20ALICEhttp://www.rodaviva.fapesp.br/materia/41/entrevistados/gal_costa_1995.htm;http://www.galmariacosta.com.ar/portugues.php?idnota=2363

 

Baby Consuelo e Pepeu Gomes – Barrados na Disneylandia

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Pepeu Gomes e Baby Consuelo formaram certamente o casal mais divertido da música brasileira. Da realidade Hippie dos Novos Baianos da década de 70, eles viraram um símbolo do rock, com seu estilo punk, com seus filhos com nomes alternativos (Riroca – que depois mudou para Sarah Sheeva – Zabelê, Nana Shara, Kriptus Rá Baby, Krishna Baby e Pedro Baby), seus cabelos coloridos e visual extravagante típico da década de 80.

O visual que eles usavam era tão espalhafatoso que eles chegaram a ser barrados na Disney. Baby contou recentemente o fato, numa entrevista a Fernanda Young:

 

 “Eu estava grávida de sete meses do meu quinto filho e fui com o Pepeu toda colorida, do cabelo até os pés, para a Disney. Era quatro de julho e depois que compramos o ticket, quando estávamos para entrar, vi um carrinho tipo uma prisão, era tão bonitinho que eu pensei ser um carrinho qualquer do parque. O cara começou a falar inglês comigo e eu não entendia nada. Uma pessoa traduziu para mim e disse que estávamos sendo barrados por chamar mais atenção do que os brinquedos do lugar. Adorei! Me acabei de rir!”.

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Em uma entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo, há alguns anos, Pepeu comentou sobre o episódio: “Fui barrado na Disney por ter o cabelo com sete cores, e foi uma discriminação. Naquela época já daria processo, a gente é que amarelou. Mas era meu sonho de criança, fiquei chorando na porta. Foi uma coisa séria aquilo.”

domingo 03 outubro 2010 03:04 , em Anos 80

“Não planto capim guiné, pra boi abanar rabo…”

Em 1983, Raul Seixas gravou, no disco “Carimbador Maluco”, uma música que transita entre o baião e uma moda de viola: trata-se de “Capim Guiné”, feita em parceria com Wilson Aragão, baiano da Piritiba narrada na canção.

A música, cantada a partir de um eu-lírico do sertão, faz referência ao esforço que fez para que o sítio tivesse sucesso, quando de repente uma série de intempéries, bichos e pragas estão destruindo a roça….

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A canção é praticamente toda de  Wilson Aragão, compositor de Piritiba, tendo Raul mudado pequenos trechos da letra. Ele conta, numa entrevista ao Soterópolis, sua experiência com Raul:

“Eu conversei com Raul tímido, eu ficava mais escutando Raul falar do que eu falava. Porque Raul era um cara que a abeça dele era a mil, filosofava demais, ele questionava as coisas demais, eu ficava um pouquinho assustado. Então a primeira música eu já tinha feito ela, a música tava pronta, Raul fez, ‘não velho, deixa eu botar o nome de tua terra nessa música, Piritiba vai ficar conhecida no Brasil todo’, então, ele interferiu na letra, que era “Comprei um sítio/Plantei Jabuticaba/dois pé de guabiraba”, ele disse ‘plantei um sítio no sertão de Piritiba”, mas aí, dois pé de que, Raul? “já achei uma planta misturou minhas guabiraba com pindaíba saiu guataíba…” 

Wilson Aragão já tinha composto Capim Guiné e tocava as música nos barzinhos do interior da Bahia desde 1979.

O interlocutor do eu-lírico, a quem ele se refere como “cumpade”, pode ser um vizinho, amigo, que está vendo tudo e fica parado, inerte, “com cara de veado que viu caxinguelê”, mas pode ser também um diálogo com Deus, meio que reclamando da má-sorte da lavoura.

Mas existe um fato por detrás da canção.

Era época da ditadura militar, o compositor “retado da vida” porque o pai perdeu as terras para grileiros, e que tiveram que “vender tudo e sair corrido”

Na verdade, cada um dos animais era um personagem: “um deputado, um gerente de banco, até o Presidente da República”

Fonte: http://www.irdeb.ba.gov.br/soteropolis/?p=11332

Plantei um sítio
No sertão de Piritiba
Dois pés de guataiba
Caju, manga e cajá

Peguei na enxada
Como pega um catingueiro
Fiz acero, botei fogo
“Vá ver como é que tá”

Tem abacate, jenipapo
E bananeira
Milho verde, macaxeira
Como diz no Ceará

Cebola, coentro
Andu, feijão-de-corda
Vinte porco na engorda
Até o gado no currá

Com muita raça
Fiz tudo aqui sozinho
Nem um pé de passarinho
Veio a terra semeá

Agora veja
Cumpadi, a safadeza
Cumeçô a marvadeza
Todo bicho vem prá cá

Num planto capim-guiné
Pra boi abaná rabo
Eu tô virado no diabo
Eu tô retado cum você

Tá vendo tudo
E fica aí parado
Cum cara de viado
Que viu caxinguelê

Suçuarana só fez perversidade
Pardal foi pra cidade
Piruá minha saqüé
Qüé! Qüé!

Dona raposa
Só vive na mardade
Me faça a caridade
Se vire e dê no pé

Sagüi trepado
No pé da goiabeira
Sariguê na macaxeira
Tem inté tamanduá…

Minhas galinha
Já num fica mais parada
E o galo de madrugada
Tem medo de cantá

Num planto capim-guiné
Pra boi abaná rabo
Eu tô virado no diabo
Eu tô retado cum você

Tá vendo tudo
E fica aí parado
Cum cara de viado
Que viu caxinguelê

 

Marina (Lima). Fullgás. Quando os discos tinham encarte

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes.

Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia.

Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua “ordem”. E a ordem dos caretas e, e sempre foi, a da fidelidade às tais “raízes” ou “purezas” ou sabemos lá o que…

Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer “arte”, mas de viver.

Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave…

Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.

Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente.

Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da “vanguarda” sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais “vulgar” que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo”. Fullgás (Marina Lima e Antônio Cícero)

 É por essa e outras razões que sinto falta dos discos (LP’s ou CD’s) que pouco a pouco vão sendo substituídos por MP3 players, downloads e coisas do gênero. Os encartes dos discos. Talvez numa época em que se discutia música.

Esse texto está no encarte do disco FULLGÁS, lançado por Marina (depois Marina Lima) em 1984. O disco representa um momento pré-Rock in Rio, quando a música brasileira, apesar da Tropicália, ainda guardava muitas resistência ao elétrico e às influências da música internacional.

É uma justificativa do ingresso cada vez mais presente de referências ao pop-rock internacional, e uma certa crítica ao patrulhamento ideológico-musical. Trata-se, portanto, de uma espécie de manifesto pós-tropicalista, e que valoriza a liberdade.  

E nesse momento a música brasileira começa a descobrir o mundo sem preconceito. Em 1984 já havia Thriller, de Michael Jackson, e começavam a se descortinar as portas para o rock nacional. Nesse contexto Marina e seu irmão Antônio Cícero produzem um manifesto contra um conservadorismo musical, segundo o qual toda música nacional deve observar suas origens e raízes, como se tudo o que se gravasse no Brasil deveria ser derivado do samba, forró ou bossa nova.

Faz uma velada crítica à música engajada politicamente, e termina por ser um texto claramente pós-tropicalista, mesmo que escrito mais de 15 anos após. Começava a abertura de um novo capítulo na Música Brasileira. Fullgás….

PUBLICADO NO http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 09 de abril de 2010

 

Festival da MPB em 1981. Vaias para a vencedora (Lucinha Lins) e aplausos para Guilherme Arantes

Eu não era nascido, mas já me contaram, e eu pude assistir depois a tremenda e estrepitosa vaia que a linda canção Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, recebeu ao ser anunciada como vencedora do III Festival Internacional da Canção da Rede Globo, em 1968. O Público, na ocasião, defendia a música “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré (Caminhando e cantando e seguindo a canção… até hoje uma das primeiras músicas que se aprende em aulas de violão).

Mas pude presenciar, ainda criança, outra vaia para uma música vencedora, desta vez no MPB-81, um Festival de canções que a Globo passou a reeditar a partir de 1980. Em 1981, havia belas músicas; uma delas cativou o público: Guilherme Arantes e a canção “Planeta água”.  Lembro bem que o público cantava quase que hipnotizado a Música de Guilherme Arantes, enquanto Purpurina, uma composição do gaúcho Jerônimo Jardim cantada por Lucinha Lins, foi recebida com frieza pelo público, certo que a vencedora seria “Planeta Água”.

Depois da apresentação de todas as músicas (lembro que havia também “Perdidos na Selva”, da Gang 90 e Absurdetes, “Estrelas”,  de Oswaldo Montenegro (O vencedor do Festival do ano anterior, com “Agonia”), Mordomia, com Almir Guineto (que acabou ficando em terceiro lugar no concurso).

No entanto, na hora da divulgação do resultado, uma surpresa: “Planeta Água” fora classificada em segundo lugar. Quando Guilherme Arantes entrou para cantar a música, o público, manifestamente decepcionado, cantou a música a todos pulmões, e cantava “É campeão, é campeão”.

Lucinha

 

Falta de sorte da vencedora… Quando Christiane Torloni anunciou a vencedora, “purpurina”, uma vaia de 10, 15 minutos que não permitiu que Lucinha Lins cantasse. Seu então marido, Ivan Lins, estava com ela no palco, mas seria impossível cantar com qualidade com uma reação tão exagerada do Público. O público protestava, vaiava, xingava, atirava ventarolas de papelão na cantora.

Dava para perceber que ela estava com lágrimas nos olhos e voz embargada, mas manteve a pose.

No http://bravonline.abril.com.br, consta uma declaração de Lucinha à Revista Veja, em 23 de setembro de 1981: “As vaias não afetaram nem minha vida profissional, nem pessoal. Sou uma mulher feliz. E não costumo carregar traumas pela vida“.

Emílio Pacheco, no seu blog, diz que “Purpurina”, desde as eliminatórias, já impressionava os jurados como a melhor música, fazendo alguns deles quebrar o protocolo e aplaudir antes do tempo. Afirma também que ela foi muito bem recebida pelo público do Brasil, especialmente no Gigantinho, em Porto Alegre, quando Lucinha Lins chamou o compositor para cantar a música junto com ela (Como se não fosse esse o comportamento esperado do público gaúcho, quando o vencedor de um festival fora um conterrâneo).

guilherme

 O certo é que “Purpurina” sempre será lembrada como a sombra de “Planeta Água”, a segunda colocada de 1981. Guilherme Arantes seguiu uma bem-sucedida carreira de cantor e compositor. Lucinha Lins firmou-se mais como atriz, e Jerônimo Jardim diz no seu próprio sítio:

 “Decepções. Afastamento da música. Volta à publicidade. Depois à advocacia. Docência na Universidade de Rio Grande. Literatura infantil. Cinco livros. Três encenados. Concurso para servidor do Tribunal Regional do Trabalho. Três novos discos, produzidos por Ayrton dos Anjos, o produtor de quase toda a carreira”

 Anos depois, numa entrevista, afirmou Lucinha Lins:

 “Não desejo uma vaia para ninguém. É muito duro, triste, você fica com esse som na cabeça durante dias. É uma rejeição muito grande. Mas foi ótimo porque aconteceu uma catarse no Maracanãzinho e isso fez com que as pessoas tivessem interesse em saber como eu estava”

 O episódio não foi esquecido por Guilherme Arantes, que narra em seu site:

 
Em 1981 a expectativa do público não foi correspondida pelo júri de 138 pessoas que deu a vitória a Purpurina, composição do gaúcho Jerônimo Jardim, defendida por Lucinha Lins. Planeta Água de Guilherme Arantes, mesmo classificada em segundo lugar foi o grande sucesso do festival “MPB-Shell-81” e teve grande execução nas rádios de todo o Brasil.

Guilherme Arantes era a grande expectativa da noite no Maracanãzinho. Foi recebido com muitos aplausos e, mesmo antes de cantar, já eram ouvidos os gritos de “já ganhou”. O refrão final “terra, planeta água” foi repetido em coro diversas vezes. Até Lucinha Lins reagiu quando foi cotada para melhor intérprete do festival. E quando foi defender a música Purpurina, durante 15 minutos foi fortemente vaiada pelas quase 30 mil pessoas presentes que atiravam uma chuva de bugigangas, bolinhas de papel e falavam palavrões quando anunciaram o resultado. Fizeram Lucinha ser obrigada a se esconder atrás do microfone e, posteriormente a se afastar da música por um certo tempo. Ao mesmo tempo em que não aceitando a classificação, o público e a maioria dos concorrentes gritavam “é campeão”. A terceira colocação ficou com Mordomia, defendida por Almir Guineto e o Grupo Exporta Samba.

 

 

Lucinha Lins – ”Hoje é fácil lembrar o episódio Purpurina, mas, naquele momento, eu não tinha a menor consciência do que estava acontecendo. Não sentia nada, fiquei completamente anestesiada. Foi uma catarse, as pessoas enlouqueceram. No dia seguinte, eu tinha manchas pelo corpo todo porque o público me atirava aqueles abanadores e, no final das contas, parecia que eu tinha sido desenhada com caneta azul. Quando vejo esse teipe é constrangedor, minha cara aparece toda retorcida”, lembra Lucinha, que, mais tarde, ouviu de Augusto César Vanucci, produtor do festival, que nem os jurados acreditavam na vitória de Purpurina, o que gerou duas recontagens de votos. ”Tenho paixão por aquela música, mas admito que foi uma zebra. Sei que o problema não era comigo. Nunca duvidei do meu talento.”

Este texto foi publicado em março de 2010 no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br

Na ocasião, Emílio Pacheco,  me mandou uma mensagem:

“Explicando melhor: as eliminatórias do MPB-81 eram fechadas ao grande público. Havia uma plateia, mas praticamente toda de jurados. Sabia-se exatamente quem estava ali. Aplaudir na metade significaria abrir voto, além de configurar tentativa de favorecimento. Então o normal era todos aplaudirem burocraticamente no final. Mas quando Lucinha Lins apresentou “Purpurina”, a plateia de jurados não se conteve. Quando ela chegou naquele “larauê…”, todos irromperam num entusiasmado e espontâneo aplauso. Não deu pra segurar. Por isso eu acho que a vitória foi justa, embora “Purpurina” não fosse música para empolgar um Maracanãzinho lotado. E Lucinha Lins decolou como intérprete, sim. Talvez não tão popular quanto Guilherme Arantes, mas teve uma bem sucedida carreira”

 

 

Fontes: http://emiliopacheco.blogspot.com/2008/05/lembranas-do-mpb-shell-81.html;http://www.jeronimojardim.com/http://www.guilhermearantes.net/carreira.htm