Mentiras sinceras me interessam… Por trás da canção “Maior Abandonado”, de Cazuza/Frejat, no auge do Barão Vermelho

“Maior abandonado” é uma das músicas mais significativas do Barão Vermelho . Composta em 1984, a música retrata, à primeira vista, uma pessoa maior “que está solta no mundo, precisa da proteção do governo e não tem” (Cazuza, Preciso dizer que te amo, Org. Lucinha Araújo, Globo, 2001).

 

No entanto, a letra é mais do que isso. Para além de uma espécie de denúncia sobre os maiores abandonados, que se interessam pelas “migalhas dormidas do teu pão“, das “raspas e restos“, a canção retrata em certa medida um abandono afetivo quando chega a maioridade, e, com ela, a responsabilidade.

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Cazuza e Frejat já trataram disso, no  livro organizado por Lucinha Araújo:

 

Cazuza: “É também aquele que está vivendo o trauma dos 18 anos.É quando você fica mais carente, porque sabe que está ficando mais velho e ainda não é muito safo (…) ‘mentiras sinceras me interessam’ , um verso da letra, é uma discreta e candente referência ao estertor da carência afetiva. parece um cara, às cinco horas da madrugada, andando pelas ruas, sozinho, atrás de uma mulher. E que dali saia um grande amor. O amor da sua vida. Pura ilusão  

  Frejat: “quase todos somos ´maiores abandonados’ no sentido afetivo, nessa de querer ficar com qualquer pessoa, só para não ficarmos sozinhos. Porque 99,9% da população é, ou já foi, algum dia, maior abandonado” 

 

A letra, então, transita pelas duas questões: o abandono material e o abandono afetivo. O primeiro deles é retratado nas raspas e nos restos, nas migalhas do pão; o segundo, nas “mentiras sinceras”, nas “porções de ilusão”  de alguém que está absolutamente carente do ponto de vista afetivo.

 

Assim, pode-se dizer que o maior abandonado é uma canção sobre carência. Primeiramente, carência daquele que está perdido e sozinho no mundo, sem nenhum amparo material. E também carência afetiva. O eu-lírico aceita qualquer coisa do outro, como um cachorro faminto que aceita qualquer coisa do seu dono. O maior abandonado, nesta visão, seria quase como um vira-lata querendo ser adotado, material ou afetivamente.

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Assim, a letra usa a imagem de alguém sozinho, carente, pedindo a proteção do outro. E a utilização de elementos de humor, em que em vez que o ato de pedir a mão tem um duplo sentido: como um pedido de casamento, pelo ato do noivo pedir a mão da noiva, mas também usando aquele ditado popular “você dá a mão, mas te pedem o braço”. O eu-lírico assume que, ao pedir a mão, quer mais do que isso. A utilização do advérbio “pouquinho” indica a submissão, mas o desejo de alguém que está perdido e quer um norte… (“me leve para qualquer lado”)

Numa entrevista a Danilo Gentilli, Frejat relatou uma discussão com Cazuza sobre um verso que acabou sendo excluído:

 

 

Segundo Frejat, havia um verso que ele considerava muito agressivo: “eu tô baixando o calção por qualquer trocado” . Frejat achava que a letra estava completa.  Cazuza acusou Frejat de ser careta, ao que este ponderou que não era questão de caretice, mas que este verso iria limitar a quantidade de pessoas que iriam se identificar com a música. Cazuza teria concordado, contrariado

 

Fonte: ARAÚJO, L. Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta. Rio de Janeiro: Globo, 2001, p-78

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Raul Seixas Preso

 

 

O video acima trata de uma história curiosa envolvendo Raul Seixas. Em maio de 1982, ele estava fazendo um show na cidade de Caieiras, e o público começou a duvidar que Raul Seixas era ele mesmo. Veja o texto do site http://www.caieiraspress.com.br:

Cerca de trezentas pessoas que assistiam a seu show não acreditaram que fosse ele mesmo, mas sim um impostor, que se estava apresentando na Feira do Folclore local. Vaiado a cada música que interpretava, Raul Seixas, desde o início, não foi reconhecido pelo público da cidade, até que, sem condições de continuar o espetáculo, e ameaçado de linchamento, foi para o camarim. Pouco depois, chegaram alguns policiais e o levaram para a delegacia, sob a acusação de ser impostor (obviamente, ele estava sem documentos). Isso porque, sentindo-se logrados com a apresentação do que juravam ser outra pessoa, vários espectadores foram até a casa do delegado, exigindo que este autuasse o cantor. O delegado atendeu e, na delegacia, tratou-o como se fosse um vagabundo, afirmando que conhecia o “verdadeiro” Raul Seixas, para em seguida obrigá-lo a cantar “para provar sua identidade”. Além disso nesse mesmo “teste de identidade”, o delegado perguntou se Seixas sabia onde tinha nascido Chacrinha. Como não soube responder, recebeu tremendas bofetadas, acabando trancafiado por duas horas no xadrez da dita delegacia.

 

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Percebe-se que o Delegado, com uma truculência típica dos anos 70, duvidou que se tratava do verdadeiro Raul, que estava sem seu documento de identidade. Raul ficou muito nervoso mas que revela algo do caráter frágil e marginal do artista, não de Raul Seixas, mas de qualquer artista que é um refém do público. Consciente ou inconscientemente o artista é mambembe, viajante, carente. Historicamente o artista se revela em que a transgressão . A imagem simbólica do artista como um rebelde, que revela as tensões e resiste à violência de um sistema, cuja população admira esteticamente o belo das canções, ou dos poemas, ou das telas, mas, ao mesmo tempo em que admira a coragem do artista, o afasta, o marginaliza, o deixa à própria sorte.

Essa a ideia de um artista que acaba sendo um impostor de si mesmo. Frágil artista. Grande Raul.

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No Jornal de Caieiras de 21 de maio de 1982, o editorial assim narrou:

O caso Raul Seixas: o que de fato aconteceu?

Dos fatos sobre o show do cantor Raul Seixas no último sábado em Caieiras, muitas são as versões, muitas são as controvérsias. Ao que parece, a única certeza que se pode ter é de que realmente foi Raul, e não um sósia seu, quem esteve em Caieiras, ao contrário do que o público presente ao show, a polícia e a própria Comissão responsável pelo show pensavam.

As dúvidas começam na própria realização do show, pois enquanto todo o público presente afirma que o cantor teria cantado apenas três músicas, o empresário do cantor, o Dinho, em entrevista concedida ao jornal “A SEMANA”, foi categórico em dizer: “o cantor completou o show”. E tem a seu favor um forte argumento: “a Comissão pagou o que foi contrado por todo o show”. O raciocínio do empresário é simples: “Se o Raul não tivesse concluído o show, ele não teria recebido”.

Mas as dúvidas não param por aí. Na versão do empresário, completado o show, o cantor teria sido agredido pela platéia, e, não fosse a pronta intervenção da polícia, o cantor poderia ter sido até linchado. Por outro lado, quem assistiu ao show afirma que as agressões começaram pelo próprio cantor que teria chingado constantemente a platéia.

 

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Você sabe onde nasceu o chacrinha?
As maiores controvérsias, no entanto, aparecem exatamente quando o cantor chegou à delegacia. Segundo o “Dinho”, Raul Seixas teve sua barba puxada pelo delegado, que duvidava de sua identidade, dizendo conhecer o “verdadeiro Raul”. Teria o cantor ainda sido agredido pelo delegado, e sido trancafiado em uma cela, não sem antes ter sido também agredido por um cabo ali presente, a socos e golpes de cassetete.

Segundo o empresário, o delegado teria feito o cantor cantarolar algumas de suas músicas, e ainda teria ele feito um “teste” para avaliar a identidade do cantor: “Você sabe onde nasceu o chacrinha?” – teria perguntado o delegado. E, como Raul soubesse, teria sido agredido pelo policial.

O delegado de polícia, Dr. José Gomes Santos, no entanto, nega essa versão, dizendo que o cantor foi muito bem tratado na delegacia, jamais agredido.

Raul Seixas estaria bêbado. É o que diz o boletim de ocorrência
Segundo o empresário “Dinho”, quando foram esclarecidas as dúvidas sobre a identidade do cantor – ele faz questão de esclarecer que foi ele quem telefonou para a esposa de Raul, pedindo-lhe que enviasse os documentos do cantor por um rádio-táxi, pois o delegado não teria permitido ao cantor que telefonasse para a família – aí sim o cantor foi bem tratado. “Só que – diz o empresário – o delegado não quis lavrar o B.O. naquele momento. Fê-lo apenas no dia seguinte, e fez contestar que Raul estava bêbado, o que não era verdade”.

 

 

“Fogueira” – de Ângela Ro Ro para Zizi Possi

Histórias de amor deixam marcas e músicas. Algumas músicas, como algumas histórias de amor, são óbvias e não possuem muita coisa de especial. Outras músicas marcam, ficam definitivamente marcadas, como certas e especiais histórias de amor.

Toda história verdadeira de amor tem sua canção ou sua trilha sonora, e sorte de quem consegue traduzir numa bela letra, harmonia e melodia os encantos e desencantos do amor vivido.

Falo isso para analisar “Fogueira” uma das músicas mais belas, senão a mais bela, gravada por Ângela Ro Ro.

 A música foi composta para Zizi Possi, com quem Ângela vivia um romance (ambas moravam juntas), e algumas histórias não bem esclarecidas fizeram com que o romance terminasse. As fontes – nem sempre confiáveis – dão conta de que Ângela teria sido acusada de agredir Zizi.

Angela Ro Ro e Zizi Possi em foto de arquivo: cantoras tiveram relação amorosa turbulenta no início dos anos 80 (Foto: Reprodução)

A outra, que causou mais impacto, foi quando, após o rompimento, Ângela compareceu a um show de Zizi. Na voz de Ângela:

“Mandei comprar ingressos e fiquei em casa, com o meu amigo Claudio conversando e bebendo vinho. Como tivesse sobrado meia garrafa, botamos na mochila dele e saímos. Quando entramos no teatro, as luzes já estavam apagadas. Sentamos, no maior silêncio. Mas comecei a participar do espetáculo, como uma espectadora comum que estivesse adorando o que se passava no palco, cantei junto, aplaudi e gritei “Zizi Possi, eu te amo!”. Acontece que eu sou extrovertida e essa é minha maneira de opinar, tanto para elogiar quanto para protestar. A primeira parte do show terminou com My sweet lord que eu adoro e cantei interinha, do meu lugarzinho. foi quando as luzes se acenderam para o intervalo.”  

No entanto, esta interferência não teria agradado Zizi, que, segundo a mídia da época, teria retrucado:

 “Eu gostaria muito que você entendesse…Usasse toda a sua inteligência e percebesse que é com você que eu estou falando agora. As suas vibrações me incomodam, sua presença me perturba… Você nunca me ajudou, por favor não me atrapalhe, não se interponha em minha vida pois você não me é mais uma pessoa querida. Levanta, levanta por favor vai embora! Levanta, saia do teatro agora! Eu preciso de paz pra tocar e cantar!”

Ângela acabou sendo retirada do Teatro pela polícia. Disse ter sido traída:

“Zizi me traiu. e quando falo em traição, não me refiro a infidelidade. Traição é aquilo que Tiradentes sofreu e eu, que não sou dada a usar coroas de espinhos, não estou afim de entrar nessa… mas não esquento não. Nunca vi um monte de formigas derrubar Gibraltar, a ambição dessa mulher, de ser Sara Bernhardt, já esta quase preenchida, falta chegarmos ao tribunal. Aí sim, a pobre moçoila seduzida pela terrível bêbada e perigosa homossexual”

 

O fato é que a mídia da época, no início dos anos 80, tratava a relação de ambas como um tabu, sendo feitas diversas referências preconceituosas sobre a homossexualidade.

 As razões do rompimento são questões menores e que devem ficar para as revistas de fofocas. O fato é que Ângela fez uma música confessional, uma declaração de amor e de incredulidade por alguém que está sendo magoado. O interlocutor do eu-lírico está machucando, se escondendo, decepcionando um amor profundo, que, apesar de tudo, resiste.

É uma canção que oferece um perdão em nome do amor, que tenta dizer que nem sempre haverá outra oportunidade para vivê-lo e ganhá-lo a cada revés, mas que ao mesmo tempo se contradiz, dizendo ser o amor eterno, não passageiro, que está sempre disposto a perdoar se o objeto do sentimento puder, ainda que brevemente, estender a mão.

 “Fogueira” foi gravada também por Bethania em 1983, mas seu caráter absolutamente confessional a faz mais bonita quando interpretada por Ângela Ro Ro, cuja voz rouca e o estilo de cantar lembra um pouco a cantora Maysa (e a intensidade dos sentimentos, também).

 Muitos anos depois, em entrevista ao Jornal “Gazeta do Povo”, Ângela esclareceu:

  Não quero ser indelicado, mas o desafeto com a Zizi Possi continua?

Com a Zizi Possi? Não há o menor desafeto. Eu tive uma profunda tristeza da gente. Ela e eu fomos vítimas de manipulações, de más línguas. As pessoas foram muito maliciosas. Muita maldade, muita truculência física e psicológica contra mim. Eu nunca bati em ninguém, muito menos na Zizi e ela sabe disso. Eu acho a Zizi uma pessoa muito bacana. Nunca mais fizemos amizade. Ela tem uma filha linda que canta tão bem quanto ela. Zizi é uma grande artista. Pena que nunca mais fizemos amizade porque eu poderia pedir dinheiro emprestado a ela, né?

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Every breath you take. Uma canção de amor ou uma canção sinistra?

 

Certa vez compareci numa cerimônia de casamento em que uma das músicas da trilha sonora é a conhecida “Every breath you take”, do The Police. Achei curioso como certas pessoas enxergam nessa canção como um hino de devoção e cuidado, como se o sujeito estivesse acompanhando cada passo, cada respiração, cada movimento da pessoa amada, que, ao final, “pertence” ao eu-lírico.

Na verdade,  “Every breath you take” sempre me assustou. Não gostaria de receber uma declaração de amor por intermédio dessa canção. O eu-lírico se posiciona como um vigia, como um grande irmão que acompanha todos os seus passos, suas vacilações, suas imperfeições, enfim, é alguém que sufoca através do amor que, na verdade, se transforma em uma obsessão.

E não sem razão, que consultando o livro “Músicas e Musas”, de Michael Heatley e Frank Hopkinson, encontrei duas declarações de Sting que corroboraram minha tese sobre o caráter obsessivo da canção, por intermédio da qual alguém se vê obcecado por outra pessoa.

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Segundo Sting, a música é “uma canção fruto da experiência de ciúme e possessividade… uma canção sinistra, perversa, disfarçada num contexto romântico”

Repare que a introdução inconfundível da canção poderia muito bem ser usada num filme de suspense, de perseguição.

Sting compôs a canção no refúgio jamaicano de Goldeneye, segundo Sting, na mesma escrivaninha em que Ian Fleming (criador do 007) escrevera a próxima aventura de james Bond.

Sting, numa entrevista à BBC, afirmou: “Eu acho que a canção é muito, muito sinistra e cruel, e as pessoas a interpretaram como uma singela canção de amor”. 

Percebe-se claramente o quão egoísta é a canção. O eu-lírico afirma textualmente que percebe o que o ser amado não consegue perceber: o fato de que ele (ser amado) pertence ao eu lírico, que de maneira obsessiva observa, segue, persegue e não consegue suportar a dor de não ser correspondido naquele instante.

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Na canção, o sujeito observa cada respiração, cada passo, cada sorriso, cada promessa, cada movimento, cada noite, e não se conforma, afinal, a musa “lhe pertence”. Acabou sendo uma precursora daquilo que hoje se conhece como “stalkers”

O baixo é preponderante (Sting é baixista), a estrutura melódica e harmônica é simples, e consta que a canção teria sido inspirada no fim do casamento entre Sting e sua primeira esposa (Frances Tomelty). “Every Breath You Take” foi lançada no disco “Synchronicity” em 1983, e foi um sucesso estrondoso, talvez o maior sucesso da banda.

Imagem relacionadaSting e Frances Tomelty

 

De Tim Maia para Gal Costa: “Meu vestido não ficou pronto”. Bastidores da canção “Um dia de domingo”

Quem teve a oportunidade de ouvir, no show Recanto (2012), Gal Costa cantando Um dia de Domingo, primeiro, no seu próprio tom, para depois, numa imitação de voz e trejeitos, cantar a música como se fosse Tim Maia, não sabe alguns dos episódios divertidos que envolveram a gravação da música.

Segundo Nelson Motta, na biografia que escreveu sobre Tim (Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia), há alguns episódios interessantes:

  1. Um dia de Domingo  é uma música composta por Sullivan e Massadas, uma balada romântica que algum ouvido mais exigente poderia até chamar de brega.
  2. Tim gostou imediatamente da música. Gal, nem tanto, mas achou que um bom arranjo e as vozes dela e de Tim poderiam fazer com que o dueto fosse um sucesso.
  3. Gal sugeriu, após a primeira gravação, que a música fosse gravada meio tom acima do inicialmente registrado. Lincoln Olivetti, arranjador e produtor, diante da impossibilidade de juntar novamente a banda, regravou a fita em velocidade um pouquinho mais rápida até o tom desejado por Gal.

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  1. Tim queria que sua voz ficasse, na edição final, um pouquinho mais alta que a voz de Gal. Não conseguiu.
  2. Como Tim e Gal viajavam sem parar, foi difícil encontrar uma data para que fosse gravado um clip para o Fantástico.
  3. “No dia marcado, Tim recebeu um telefonema da RCA avisando que a gravação atrasaria dois dias porque o vestido de Gal não tinha ficado pronto”.

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  1. Dois dias depois, quando ligaram para dizer a hora em que o carro iria busca-lo, mandou avisar a Gal que não poderia ir. ‘O meu vestido não ficou pronto’, disse. E não foi”.8. Não houve clipe no Fantástico. O encontro entre Tim e Gal foi acontecer no Chacrinha
  2. O Velho Guerreiro tinha uma estratégia infalível para se prevenir dos frequentes furos do cantor. Ligava para a mãe dele. Era a única tática que funcionava.
  3. Um dia de domingo  foi um sucesso fenomenal.

sexta 23 agosto 2013 02:01 , em Duetos

“Como eu quero”, uma falsa canção de amor

O refrão “Eu quero você como eu quero” pode enganar.  A expressão “como eu quero” pode ser interpretada como intensidade, mas na verdade acaba querendo dizer “do meu jeito”

O Eu-lírico feminino, em primeira pessoa,  estabelece os pedidos (ordens) para promover o retoque para o seu parceiro de relacionamento. Ela estabelece quais são as condições para que ele se torne uma pessoa melhor, sendo que o “melhor” é que ele seja do jeito dela.

No começo, já fala um pouco da postura do parceiro. “Diz pra eu ficar muda” e “cara de mistério” revela que ele deve ter uma atitude mais dominadora e inacessível.

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Em seguida, quando afirma  “tira essa bermuda, Que eu quero você sério”, é uma sugestão de que o parceiro abandone a informalidade da bermuda e traje algo mais compatível com um homem.

Os meros “solos de guitarra” não são suficientes para ela…

 

Durante todo o tempo, ela desvaloriza o “rascunho” que é seu parceiro e valoriza a “arte final” que é a forma com a qual ela acha que ele deve ser.

Assim, o refrão quando diz: “Eu quero você como eu quero”, quer dizer que ela não o quer do jeito que ele é, tanto que, longe do seu domínio, ele vai de mal a pior… e ela ensina como ele deve ser melhor.

 

No site http://decifrandoamusica.blogspot.com.br há um manuscr

Paula Toller e Leoni, em entrevistas, falaram um pouco da música:

Como eu quero nunca passou pra mim como a relação nociva de um casal, mas sim de uma música que falava daquele cara que tenta, mas não consegue enganar a mulher, pois ela com seu olhar ´raio x’ consegue ver tudo que ele tenta esconder ou suas gracinhas para conquistá-la ou distraí-la.”

a ideia da letra surgiu por causa de um amigo meu e da Paula que tinha sérios problemas com a namorada. Ela queria transformá-lo, que parasse de tocar e de compor para fazer uma coisa “mais séria”. E a música fala exatamente disso: “de como eu quero”, “você tem que ser do jeito que eu quero” e não “te desejo tanto” como muita gente confunde”, conta Leoni. Por isso que Paula Toller considera essa música muito tirana.

Como eu quero começou com uma ideia da Paula. Eu me lembro dela ter umas frases, dela me dizer estas frases, a gente andando de carro, ela meio falando coisas, quase oral, depois tinha que anotar pra não esquecer. Depois a terminou a música em casa, violão e voz

Muita gente descobre essa musica em camadas, muita gente acha que é uma música de amor e não é… a gente vivia num meio de músicos, e tinha essa menina que vivia no nosso meio mas ela não queria que o namorado dela fosse músico, queria que o namorado dela fosse sério, “eu quero você como eu quero” , era essa a brincadeira que a gente achava que era muito fácil das pessoas perceberem …”eu quero você como eu quero que você seja”

Consta que a inspiradora da canção seria a namorada de Beni Borja, então baterista da banda

Esse começo: Seja autoritário comigo, seja macho, não seja uma pessoa doce, sensível, adulto, nada de bermuda, “solos de guitarra não vão me conquistar”, vá fazer outra coisa, 

E ela denuncia: você está numa cilada, fala claramente e as pessoas fazem questão em não perceber isso:  você está por mim, eu estou por mim, estamos todos por mim, é só eu que interessa, e as pessoas ainda acham que é uma canção de amor”  

Interessante que a Durante a produção do álbum discutia-se qual seria a música de trabalho. A gravadora (Warner Music) insistia para que fosse Alice (Não me escreva aquela carta de amor), mas a banda fincou pé e resolveu trabalhar em cima da música Pintura Íntima.

Pouco antes de fechar o álbum, faltando ainda uma música, Como Eu Quero, que havia sido descartada pelo produtor, foi escolhida para completar o LP, numa decisão pessoal de Leoni e Paula.

“Tivemos que bater o pé para entrar ‘Como eu quero’. Faltava uma música e o Liminha foi escutar o que a gente tinha. Na época, a gente achava que balada não tinha nada a ver” PAULA TOLLER

Diz-se que Liminha (produtor do disco) não gostou muito do refrão original, que seria meio triste, e Leoni mudou no dia seguinte e gravou e acabou sendo a grande balada do disco, talvez o maior sucesso.

http://decifrandoamusica.blogspot.com.br/2012/09/como-eu-quero-leoni-e-paula-toller-1983.html

http://www.geocities.ws/kidabelharulez/fofocas.htm

 

Quem é a “menina do anel de lua e estrela”

Vinicius Cantuária é nascido em Manaus, crescido no Rio de Janeiro, e tem alguma composições belíssimas. Uma delas, gravada por Caetano Veloso, conta uma história de uma menina que ele viu na praia, e que se eternizou com o nome “Lua e Estrela”.

Ele conta a história a Rui Godinho, no terceiro volume do seu livro “Então, foi assim?” :

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Essa história é linda e verdadeira. Eu morava, na época, na casa do Arnaldo Brandão, um baixista, que depois tocou comigo na outra banda da Terra durante anos depois participou do Brylho (A noite vai ser boa..). É o Arnaldo tocava baixo com os Doces Bárbaros. Ele tinha um filho, que é o Rodrigo, que hoje toca numa banda em São Paulo.

Era uma sexta-feira e o Arnaldo falou: “Olha, hoje depois do show dos Doces Bárbaros a gente vai para o aniversário da Bethânia (ou da Gal sei lá, de alguém)… e vai ter uma festa depois. O Arnaldo e a Cláudia – que era mulher dele, mãe do Rodrigo – perguntaram: “Pô, fica tomando conta do Rodrigo hoje, pode ser? A gente vai chegar umas duas, três da manhã. Eu falei: “Claro. Sou o padrinho do Rodrigo, estou morando na casa de vocês podem ir”. Só que deu meia-noite, uma, duas, três, quatro horas e eles não chegavam nunca. Chegaram quase seis da manhã dessa tal festa. E eu estava acordado porque o Rodrigo já estava querendo acordar. Quando eles chegaram já estava claro”, relembra.

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Então, Cantuária resolveu aproveitar o dia.

Como eles moravam no Leblon, coloquei uma bermuda, uma camiseta e fui até a praia. Saí andando no Leblon até o Arpoador. Cheguei ao Arpoador, era umas seis e pouco da manhã, muito cedo . O público de Arpoador não vai tão cedo à praia. Mas foi um fato curioso, porque eu sentei a uns quarenta metros de mim tinha uma menina sentada. Eu não a conhecia e ela não me conhecia. Ela me olhava e eu olhava para ela. Mas todo mundo que chegava à praia me conhecia e a conhecia. Então a distância entre mim e ela foi encurtando. As pessoas foram chegando em mais ou menos, a gente se aproximou, se olhou. Aí teve uma hora que ela saiu de onde estava e chegou mais perto. Ficou ali conversando com amigos. Ninguém nos apresentou, mas eu sentia que tinha uma empatia rolando entre a gente. Ela se dirigiu ao mar. Quando foi mergulhar, eu vi claramente que ela tinha um anel. Aí deu aquele estalo. Sabe quando bate um raio, uma coisa assim”, revela.

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Esse “estalo” a que Vinicius se refere, outros compositores identificam como centelha criativa, inspiração, luz, mote para a composição musical.

“Isso eu conto hoje e talvez eu tenha até imaginado. Mas na hora eu vi. Bateu um raio, raio de sol, né? Consegui ver bem de perto que ela tinha um anel de lua e estrela. Como eu fui caminhando, voltei com a música na cabeça: [cantarolando] Menina do anel de lua e estrela, raio de sol no céu da cidade. Qual era o nome dela? Quem é você, qual o teu nome/ conta pra mim, diz como eu te encontro. Aí de noite, a gente ia pra onde? Pro Baixo, né? Quem sabe te encontro de noite no Baixo /deixa ao destino, deixa ao acaso… A música foi toda sendo formada daquela história. Eu voltei, peguei o violão e a música saiu toda”, relata.

 

A música estava criada, precisava apenas de um grande intérprete que a projetasse nacionalmente.

“Aí eu comecei a tocar com Caetano que adorava as minhas músicas. Mas eu nunca tinha mostrado Lua e Estrela. Não sei porquê. Até que um dia o Arnaldo falou: ‘Porra! Você nunca mostrou Lua e estrela pro Caetano’. Aí o Caetano falou: ‘Lua e estrela, que nome lindo, mostra pra mim. Mostrei, ele adorou, e como estava começando a gravar o disco Outras palavras, falou pra mim: ‘Vou gravar Lua e estrela vamos’? Eu falei: ‘Claro, vamos’! E foi isso. Essa é a verdadeira história da música”, confirma o compositor.

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Vinicius enfatiza que é a “verdadeira”, porque há diversas falsas histórias, inventadas por pretensas musas.

“Anos depois, claro, eu fui encontrar a menina, que se chama Tize. Essa história é a verdadeira, mas há muitas histórias paralelas. Uma ocasião, por exemplo, eu estava com amigos, sentado num bar no Baixo Leblon, no auge do sucesso da música. Aí apareceu uma menina que sabia que eu tocava com Caetano, Puxou a conversa e falou assim: ‘Ah! Pois é, essa música o Caetano fez pra mim’. Ela nem sabia que eu era o autor da música. Muito engraçado [risos]. Tem muitas histórias com essa música, mas a verdadeira história é essa. Eu fiz pra essa menina, que eu não sabia o nome, que tinha um anel de lua e estrela. A letra não é nada mais nada menos do que eu querendo reencontrar essa menina. Então essa é a história”, conclui.