Chico e Tom – as “implicâncias” por detrás de “Retrato Branco e Preto”

 

Chico Buarque por diversas vezes já homenageou seu parceiro e amigo Tom Jobim. Apenas para citar, muitos conhecem a expressão “Maestro Soberano”, cunhada por ele no disco “Paratodos”. Chico disse, no documentário “Meu caro amigo”, que as várias composições deixadas por Jobim continuam sem letras. Chico diz que gostaria de fazê-las, mas sem as “implicâncias” de Tom Jobim não teria sentido.

 

 

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Chico sempre falou brincando amistosamente desse jeito dele compor com Jobim, de estabelecer uma correspondência entre as sílabas e as notas, a prosódia musical e o sentido, e de como Jobim, músico exigente, discutia com ele sobre tais coisas.

Um dos episódios divertidos da parceria entre Chico Buarque e Tom Jobim (há muito a falar sobre isso, mas vou deixar para outras postagens), diz respeito à canção “Retrato em Branco e Preto”.

A melodia foi composta por Jobim em 1965, e se chamava Zíngaro (e foi com esse título que João Gilberto a gravou, em 1977, no disco Amoroso). Em 1968, a música foi para Chico colocar a letra. E aí Wagner Homem, no Livro Chico Buarque – História das canções (Ed. Leya, 2009), conta um pouco dessas “implicâncias” na composição da música.

Uma delas, quando o Quarteto em Cy foi gravar a canção, Chico Buarque teria decidido substituir a expressão “Trago o peito tão marcado” por “peito carregado”, sob o argumento de que o “tão” funcionou como uma muleta para completar as sílabas da canção. No entanto, Tom Jobim, que aceitara relutantemente a mudança, ligou para Chico pedindo a manutenção da versão original, porque a expressão “peito carregado” tinha a conotação de tosse. Ponto para Tom.

 

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Mas o episódio mais engraçado da música foi sobre a expressão “

“vou colecionar mais um soneto

 outro retrato em branco e preto

a maltratar meu coração”

Assim narrada por Wagner Homem:

“Em outra ocasião Tom teria dito a Chico que ninguém fala ‘retrato em branco e preto’ e que a expressão correta seria ‘retrato em preto e branco’. Ao que Chico teria respondido: ‘Então tá. Fica assim. ‘vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco’. Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos.

E das implicâncias surgiu uma das mais belas músicas…

Tereza da Praia… Uma obra-prima para acabar com uma falsa rivalidade

O ano, 1954. Dois grandes astros da gravadora Continental (Lúcio Alves e Dick Farney) protagonizavam uma rivalidade entre os fãs. Quem era melhor? Ruy Castro, no seu antológico livro “Chega de Saudade”(Cia das letras, 1991),  relatava:

 

“…E desde quando Lúcio Alves poderia ser comparado a Dick Farney, a ponto de merecer um fã-clube? Curiosamente, não ocorria aos membros do (fã clube) Sinatra-Farney que Farney, como cantor, devia tudo, ou quase tudo a Crosby, não a Sinatra – e que, se havia alguém de fato original entre os dois brasileiros, era Lúcio Alves. O que os ligava era o tipo de repertório e o fato de ambos terem, como se dizia, ‘voz de travesseiro’”.

A gravadora, evidentemente, lucrava com a rivalidade, té que, em certo momento, encomendou uma música na qual pretendia apimentar a dita “rivalidade” (que na verdade acontecia entre os fãs, pois Dick e Lúcio eram amigos).

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Paulo César Soares conta a história:

– Tereza da Praia, gravada por Dick Farney e Lúcio Alves em 1954, foi o primeiro sucesso de Tom Jobim. Esta música tem uma história curiosa que dá uma amostra da criatividade do maestro e de seu parceiro Billy Blanco com quem compôs também a Sinfonia do Rio de Janeiro. A canção nasceu de um pedido de Alves e Farney a Billy Blanco e Tom Jobim para que fizessem uma canção de modo que os cantores pudessem dividir os vocais e, desta forma, acabar com as fofocas sobre uma possível inimizade. Tom e Billy toparam fazer a música mesmo só tendo uma semana de prazo. Billy relembra a história assim: “Concordamos como se fosse a coisa mais simples do mundo. Fomos para a casa do Tom e, de noite, a música já estava pronta. No dia seguinte, chegamos à gravadora Continental e mostramos ao Braguinha e ao diretor da empresa, Sávio Carvalho da Silveira. A reação deles foi fantástica”.

A canção, em dueto, conta a disputa de Dick e Lúcio por Tereza, que tem “um nariz levantado, os olhos verdinhos bastante puxados, cabelo castanho e uma pinta do lado”

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Houve quem dissesse que a Tereza seria a mulher de Tom (Thereza Otero Hermanny), com quem ele e casara em 1949, mas tanto ele quanto Billy Blanco sempre asseveraram tratar-se de um personagem fictício, embora o nome tivesse sido inspirado, de fato, na Tereza de

Tereza da Praia tornou-se um sucesso e um dos maiores clássicos pré-bossa nova.  E, obviamente, os fãs continuaram discutindo quem seria melhor cantor: Dick Farney ou Lúcio Alves.

Trata-se de uma disputa divertida, em que cada um conta suas vantagens pela suposta conquista de Tereza, que, afinal, não pertence a nenhum dos dois, pertence à praia, e tornou-se um dos maiores sucessos de 1954. Não era ainda bossa-nova, mas já revelava o talento de Billy Blanco e Tom Jobim, e transformou-se num clássico para ser cantado em dupla. Já fora gravado por Emílio Santiago e Luiz Melodia, também por João Nogueira e Sérgio Ricardo, sem falar na gravação de Caetano Veloso e Roberto Carlos, em homenagem aos 50 anos da bossa-nova…

 

Dick!
Arranjei novo amor no Leblon
Que corpo bonito, que pele morena
Que amor de pequena, amar é tão bom!
– O Lucio!
Ela tem um nariz levantado?
Os olhos verdinhos bastante puxados,
Cabelo castanho e uma pinta do lado?
– É a minha Tereza da praia!
– Se ela é tua é minha também
– O verão passou todo comigo
– O inverno pergunta com quem
– Então vamos a Tereza na praia deixar
Aos beijos do sol e abraços do mar
Tereza é da praia, não é de ninguém
– Não pode ser tua,
– Nem tua também
– Tereza é da praia,
Não é de ninguém

 

Fontes: http://www.paixaoeromance.com/50decada/tereza/h_terreza1.htm;

Ruy Castro, Chega de saudade (Cia das letras, 1991).

http://www.funarte.gov.br/wp-content/uploads/2009/12/EF.111.Tom-Jobim.pdf

Meu primeiro show de João Gilberto

João Gilberto falece no dia 06 de julho de 2019, aos 88 anos, deixando um legado musical que poucos artistas no mundo conseguem:  verdadeiro pai da bossa nova, com sua inigualável batida de violão, que inspirou artistas não só do Brasil, mas do mundo.

Se tivemos Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Elism, Gal, Bethania, Moraes Moreira, muito se deve ao violão de João.  

Em 1999 eu fui pela primeira vez a um show de João Gilberto. Na época, ele tinha causado o maior estardalhaço com as reclamações e a língua dada para o público no Credicard Hall, poucos meses antes.

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João Gilberto no Credicard Hall

João chegou com seu estilo de sempre, terno, seu violão, que ele afinava a cada canção. Brincou, inicialmente, como o “ar refrigerado”, dizendo ele queria cantar mais, mas que o “ar refrigerado” não deixava, fazendo até piadas com isso.

Antes de começar a música, ele fazia troça daqueles que diziam que ele era chato por afinar o violão a toda hora. Chegou a perguntar: já viram uma orquestra?  Os músicos afinam os instrumentos a todo tempo.

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E começou a desfilar suas canções de sempre, a bossa nova e os sambas que marcaram sua vida… Desafinado, Estate, Pra que discutir com madame, Fotografia, Isaura, até que uma mulher, na plateia, pediu, dengosamente que João fosse tocar “Joux-Joux et Balangandãs”, de Lamartine Babo. No momento em que ele estava começando a música, Faltou energia no Teatro. Foram momentos engraçados. João, sentado no seu banquinho, o teatro escuro, e alguém do público gritou: “João, não vá embora, pelo amor de Deus”… para risada geral. 

 Enfim, voltando a luz e cantada, enfim, Joux Joux et balangandãs, João começou a tocar Eu sei que vou te amar, e, no meio da música, diminuiu sua voz, para que a plateia presente cantasse ao som de seu violão. 

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Num certo momento do show, uma cena engraçada, inusitada, uma barata apareceu ao microfone, para o susto de João e risadas da plateia. A essa altura, metade do teatro já estava de pé, muitos fora de seus lugares querendo ficar mais próximos de João, e cada um deles pedia uma música, e João cantando, como se fora uma roda de violão particular com o maior violonista que eu já vi pessoalmente.

 Depois de mais de duas horas, entre coros, falta de energia e muita música, João encerrou cantando, a (meu) pedido, a música “Falsa Baiana“, de Geraldo Pereira, e foi aplaudido entusiasticamente… 

 Quem não era fã, tornou-se. Quem já era, viu um sonho… Dez anos depois ele voltaria para o Teatro Castro Alves, numa segunda exibição…

 

domingo 25 julho 2010 01:35 , em Bossa Nova

 

Dez músicas nota 10, segundo Tom Jobim

No ano de 1970, Tom Jobim já era um compositor consagrado. Principal compositor da bossa-nova, já tinha feito sucesso nos Estados Unidos, gravado com Frank Sinatra, enfim, já se ensaiava a unanimidade que mais tarde só veio se consolidar.

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Sérgio Cabral, na biografia que escreveu sobre Tom Jobim, (Lazuli Editora: Companhia Editora Nacional, 2008), faz referência a uma entrevista dada por Tom ao jornalista Sérgio Bittencourt, para o Jornal O Globo, pedindo ao artista uma lista com 10 (dez) músicas que mereceriam nota 10.

Essa lista é importante, pois faz um retrato não só de Tom para o passado, mas também para o futuro. Repare que são 10 músicas nacionais, passando de Custódio Mesquita, passando por Pixinguinha, Ary Barroso e Dorival Caymmi, culminando em Chico Buarque e Caetano Veloso, que, em 1970, não eram os artistas consagrados que são hoje.

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Eis a lista, conforme a narrativa de Sérgio Cabral:

1) CARINHOSO, de Pixinguinha e João de Barro (Jobim contou a história dos americanos pedindo a partitura – essa eu conto em outra postagem)

2) NA BAIXA DO SAPATEIRO,  de Ary Barroso;

3) SAIA DO MEU CAMINHO, de Custódio Mesquita e Evaldo Rui;

4) MULHER, de Custódio Mesquita e Saidi Cabral;

5) SONHEI QUE ESTAVAS TÃO LINDA,  de Francisco Matoso e Lamartine Babo;

6) FEITIO DE ORAÇÃO, de Vadico e Noel Rosa;

7) ATÉ PENSEI,  de Chico Buarque;

8) PRA DIZER ADEUS,  de Edu Lobo e Torquato Neto;

9) CORAÇÃO VAGABUNDO, de Caetano Veloso;

10) ACALANTO,  de Dorival Caymmi (Dizendo “acho Caymmi um gênio”)

Obviamente, Tom não incluiu nenhuma música de sua autoria, algumas delas sucessos internacionais, que entraram para as músicas mais importantes do século, como Chega de Saudade, Garota de Ipanema ou  Desafinado,  só para citar três clássicas.

Uma lista de respeito de artistas que influenciaram Jobim, e alguns que ele influenciou..

“Marcha da quarta-feira de cinzas”

 

Em 1963, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes escreveram uma das canções icônicas, com uma temática diferente daquela levada a cabo pela ala jovem da Bossa Nova; a Marcha da Quarta-Feira de Cinzas.

Carlos Lyra foi o responsável pela melodia, e a letra ficou a cargo de Vinícius.

 

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no volume 2 de sua canção no tempo, fazem um comentário sobre as canção:

“Composta antes de 1964, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC (Centro Popular de Cultura) em que Carlos Lyra incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil…”).

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Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou…” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a plateia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão, teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 1963 .

A canção, feita em 1963, permitiu que, nos anos seguintes, se fizesse interpretar como uma alegoria sobre a ditadura militar, que eclodiu em 1964, quando se dizia que “acabou nosso carnaval” , e que ninguém cantava feliz e restavam apenas saudades e cinzas.

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Mas, ao mesmo tempo, incita de que “no entanto é preciso cantar”, como se fosse uma incitação à resistência política.

Assim, a música ficou registrada no imaginário popular como uma canção de resistência ao golpe de 1964. Mas, segundo Carlos Lyra, “a música não tinha implicação política, a melodia não conta nada dessas coisas”.

Lyra explica que a letra, no entanto, “levou muita gente a pensar que fosse uma resposta ao golpe. Era uma canção de premonição”, afirma, especulando que talvez seu parceiro, Vinicius de Moraes, “tivesse bola de cristal”. As duas pessoas da bossa nova que eram ligadas à esquerda “éramos eu e Vinicius”, assegura.

 

https://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u927.jhtm

Nara Leão – Dez anos depois… o seu retorno à bossa-nova em 1971

 

A trajetória musical de Nara Leão é das mais originais da música brasileira. extremamente inquieta, ela foi inicialmente considerada a musa da bossa nova, onde no apartamento de seus pais surgiram as famosas rodas de violão das quais participavam Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Mendes e seu então namorado Ronaldo Bôscoli. Depois de romper com a bossa nova, interessou-se pelo samba de morro, gravou o extremamente politizado disco Opinião, que gerou o show homônimo, junto com João do Vale e Zé Keti, namorou o tropicalismo e fez parte do famoso disco Tropicália, em 1968, isso com apenas 26 anos.

O rompimento com a Bossa Nova deve-se muito ao rompimento de seu noivado com Ronaldo Bôscoli, um dos principais compositores da Bossa Nova, em face do caso que Bôscoli teve com a cantora Maysa.

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Após o rompimento, entre 1974 até 1970 Nara gravou 10 discos, todos afastados da Bossa Nova. Nara Leão só se reconciliaria efetivamente com a Bossa Nova em 1971, quando gravou o Lp duplo Dez Anos Depois. Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Johnny Alf, Newton Mendonça e Chico Buarque. A produção do disco é de Roberto Menescal, mas não há nenhuma música de Menescal, em face de sua parceria com Ronaldo Bôscoli. Ruy Castro, no livro “A onda que se ergueu no mar (Cia das letras, 2001), relata o episódio:

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“No repertório, um nome se destacava pela ausência: Ronaldo Bôscoli, o homem que ela amara e que escrevera muitas das principais letras da Bossa Nova. Fora Nara que que lhe inspirara ‘O Barquinho’, ‘Nós e o mar’ , ‘Ah, se eu pudesse” e muitas outras canções com Menescal – mas quem as gravara fora Maysa, a mulher com quem ele se envolveu enquanto namorava Nara. Por causa de Maysa, Nara brigou com Bôscoli e, com isso, rachou politicamente com a Bossa Nova. Anos depois, reconciliou-se com a Bossa Nova – mas não com Bôscoli, que, já então, estava casado com sua arquirrival Elis Regina”.

Não obstante a ausência de Bôscoli, o disco é realmente muito bom, a voz de Nara parece combinar com Bossa Nova.

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No entanto, quero chamar atenção para um disco especial de Nara: Dez Anos Depois, gravado em paris no ano de 1971, é um reencontro com a bossa nova.Como dá para ver,  o que se fez de melhor em bossa nova…sobretudo Tom Jobim, autor ou coautor de 19 das 24 músicas do disco. As músicas são:

“Insensatez”
“Samba de Uma Nota Só
“Retrato Em Branco e Preto”
“Corcovado”
“Garota de Ipanema
“Pois É”
“Chega de Saudade”
“Bonita”
“Você E Eu”
“Fotografia”
“O Grande Amor”
“Estrada Do Sol”
“Por Toda Minha”
“Desafinado”
“Minha Namorada”
“Rapaz de Bem”
“Vou Por Al”
“O Amor Em Paz”
“Sabia”
“Meditacão”
“Primavera”
“Este Seu Olhar”
“Outra Vez”
“Demais”

Quem gosta de Bossa Nova vai gostar. Gravado na França, em 1970, é um álbum duplo e representa a versão definitiva da Bossa gravada por Nara. E que seriam gravadas por ela muitos anos antes, não houvesse a briga com Bôscoli. E o mais impressionante é que o álbum ficou fora de catálogo no Brasil, enquanto no Japão, continua em catálogo até hoje.  Por este motivo, “Dez Anos Depois” é um disco indispensável para descobrir ou redescobrir Nara.

 

http://portalnoar.com.br/blogdodjacirdantas/2015/07/05/o-barquinho-da-bossa-nova-enfrenta-a-tempestade-final/

segunda 21 março 2011 17:05 , em Bossa Nova

 

O inusitado encontro de João Gilberto e Elza Soares, na narratiiva de Ronaldo Bôscoli

 

Recentemente, li o livro “Eles e Eu”, que conta as memórias de Ronaldo Bôscoli. Para quem não sabe, Ronaldo Bôscoli foi um dos principais corifeus da Bossa Nova, compositor, produtor, namorou Nara Leão, Maysa, foi casado com Elis Regina e tem muita história para contar.

Uma delas diz respeito a João Gilberto. João, no final da década de 50 e começo de 60, era o verdadeiro guru da bossa nova, ritmo que criou com sua inigualável batida de violão. Bôscoli (que João chamava de “Ronga”), então, conta no livro o quanto João é persuasivo, inclusive, como ele usou o suéter de Bôscoli na foto do famoso álbum “Chega de saudade”.

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Uma das histórias bem divertidas, contadas por Bôscoli, foi quando João Gilberto pediu a ele para intermediar um encontro com Elza Soares, pelo telefone, num trem do Rio Para São Paulo. Transcrevo aqui um pequeno trecho, na narrativa de Bôscoli:

Fomos a São Paulo, para um programa do Tom, chamado o Bom Tom, na TV Tupi, nós três – Tom, João e eu. Fomos de trem porque o Tom tinha pavor de avião. Fizemos até uma música bem bonita, que depois se perdeu. Tom estava de olho na Elza Soares, uma mulata boa paca. Foi o que bastou para João entrar na disputa. Estávamos no mesmo quarto de hotel e João chegou pra mim:

– Ronaldo, você conhece a Elza Soares?
– Conheço. Por quê?
– Eu tinha vontade de ficar com ela.
– Tudo bem. Te dou o telefone, te ponho em contato com ela.
– Não, rapaz. Não sou carioca, sou burrão, sou tímido. Não sei falar com as pessoas. Não sei cantar ninguém, só música.
– O que você quer, então?
– Quero que você cante ela pra mim.
-Mas João, vai pegar mal…

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Não houve jeito. O João me convenceu a cantar a Elza Soares pra ele, imaginei. Parti pra esse ridículo. Liguei pra Elza.

– Elza, você conhece o João Gilberto?
– Conheço. Acho simpático, gostoso.
– Ele queria falar com você.
– Então chama ele aí.
– Não, Elza. Eu tenho que falar…
– Que é isso, está me gozando?

Durante o papo, João me dava instruções. Minha missão era realmente facílima. Eu tinha que cantar a Elza pra ele convencê-la a esperar por ele na cama, debaixo das cobertas, já despida, com a luz apagada. Ela devia ficar esperando até ele chegar. Ele falava pra mim, eu falava pra ela, ela respondia, eu falava pra ele, ele pra mim, etc. Acabamos convencendo a Elza daquela loucura.

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João voltou do apartamento dela e só voltou de manhã, encantado.

– Puxa Ronga. Que mulher maravilhosa!

Tempos depois, expliquei tudo pra Elza. Ela era uma mulher fantástica e compreendeu perfeitamente.

Mais uma das idiossincrasias de João Gilberto….

sexta 12 agosto 2011 05:14 , em Bossa Nova