Vinícius de Moraes no “Esta noite se Improvisa”: A “garota” que não existe na Garota de Ipanema

Na década de 60, havia um programa musical que fez história e inspirou muitos programas nos anos seguintes (Silvio Santos que o diga). O nome era “Esta Noite se improvisa”, na qual os concorrentes, todos eles artistas, testavam seus conhecimentos musicais.

O jogo consistia em ser anunciada uma palavra e o participante que soubesse uma letra de música com a palavra em referência, apertava um botão à sua frente e corria até o microfone para cantar um trecho da música que contivesse a palavra. Caso acertasse, acumularia pontos que poderiam ser trocados por prêmios, que podiam chegar até a um automóvel Gordini.

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Grandes artistas  participavam do programa, sendo Caetano Veloso e Chico Buarque os competidores mais competentes. (Conta a lenda que Chico Buarque, num desses programas, inventou uma letra e melodia na hora).

Assim Blota Jr. anunciava:  “A palavra é…”.

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Vinícius de Moraes não era muito bom nesse programa, não por falta de cultura musical, óbvio, mas por não ser suficientemente ágil para apertar o botão.

Só que, como narra Humberto Werneck em seu Gol de Letras (Cia das Letras, 1989), certa vez Blota Jr. teria anunciado:
– A palavra é… “garota”.

Desta vez Vinícius de Moraes não perdeu tempo: pressionou o botão, dirigiu-se sorridente ao microfone, e começou a cantar sua bela parceria com Tom Jobim: “Garota de Ipanema”.

No entanto, um detalhe: na letra de “Garota de Ipanema” não existe a palavra “garota”… e, ao contrário daquela que passava cheia de graça e inspirava a canção, Vinícius retornou a seu posto, completamente sem graça.

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Para quem não se lembra, olha aqui a letra de um dos maiores clássicos da música brasileira:

Garota de Ipanema – 1962
Composição: Vinícius de Moraes / António Carlos Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Fonte: Gol de Letras, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1989).

quarta 22 dezembro 2010 08:45 , em Bossa Nova

 

As mulheres e suas canções – Lígia

Lígia é uma das mais belas composições de Tom Jobim. Eu a conheci (a música, não a musa) no disco Sinal Fechado, que Chico Buarque gravou em 1974 interpretando outros cantores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura

No entanto, a letra que foi gravada por Chico Buarque tem alguns “toques”, distintos da versão original, composta em 1972. Nas duas versões, há o relato de uma história que não aconteceu, uma “não-história”, na primeira versão, o eu-lírico nunca ligou porque “sabia” e “jamais ousaria”; na segunda, ligou e foi engano, esquecendo no piano as bobagens que iria dizer

Na primeira versão, o sujeito diz que não se apaixonou, mas fatalmente que sentiria tanta dor  “pra depois te perder”. Na que foi gravada por Chico, confessa-se a paixão, mas que se revela uma ilusão, decorrentes de mentiras de amor…  A primeira versão fala de ilusão; a segunda, de desilusão.

Na última estrofe das duas versões, a rendição. As letras são diferentes, mas ambas dizem sim aos olhos castanhos/morenos que metem “mais medo que um raio de sol”.

A título de curiosidade, na revista Maria Claire 16 de novembro de 2000, achou-se a musa das canções. Segue o link para a matéria, com o trecho transcrito abaixo:

http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao2.htm

 
“Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de “Lígia”. Um disfarce da identidade da musa e da atração de Tom Jobim por ela. Tom e Lygia, professora de pré-primário de uma das filhas do compositor, se conheceram em 1968, no bar Veloso, em Ipanema. Nunca houve nada entre os dois, mas aquele encontro daria origem ao samba-canção gravado por Chico Buarque no LP “Sinal Fechado”, em 1974. “O Tom vivia de olho nela”, diz o jornalista Ruy Castro, que registrou o episódio no livro “Ela é Carioca” (Cia. das Letras).

Por muitos anos Tom negou que Lygia fosse sua musa, em respeito ao amigo Fernando Sabino, marido dela na época. Só em 1994, quando o casal se separou, ele admitiu a inspiração aos amigos. Hoje, aos 54 anos, Lygia mora sozinha e dirige o departamento cultural da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela recorda com orgulho os detalhes de seu caso jamais consumado com Tom Jobim.

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Lygia Marina de Moraes “Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: ‘É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!’. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a ‘Manchete’, e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: ‘Trouxe minhas amigas’. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: ‘Não sou poeta, se tivesse um violão…’.

Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: ‘Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive’, e assinou: A.C.J.

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Saindo de lá, Tom me levou em casa. Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado… Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia… Depois nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo. Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema.

Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele, e ligou para o Fernando pedindo meu telefone. Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: ‘O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lígia, mas o telefone é tal’, e deu outro número errado. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música que fala do telefonema que foi engano.

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Estava sozinha em casa quando ouvi no rádio o Chico cantando ‘Lígia’, pela primeira vez. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada… É uma glória. Claro que a música rendeu comentários e Fernando ficou uma fera. Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou o tema. Estivemos juntos em vários lugares, tipo réveillon na casa de Jorge Amado, eu com Fernando e Tom com Ana, sua segunda mulher. Mas ninguém falava nisso.

Um dia, Tom me encontrou por acaso na Cobal [sacolão e ponto de encontro] e falou: ‘Está chegando minha musa!’. Foi a primeira vez que admitiu para mim. Até hoje, em cada boteco que entro tocam ‘Lígia’. Faz parte do meu show. Fiquei imortal. Tenho quase todas as gravações de ‘Lígia’. Existe até uma versão do João Gilberto em que, ao contrário da oficial, o romance acontece e Tom até se casa comigo. As pessoas me cobram o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente. Mas será que não foi melhor ter ficado essa fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar em um restaurante e me lembrar do Tom, cheio de charme”.

 

L Í G I A

1a. versão (João Gilberto)

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
Eu nunca te telefonei
Para que se eu sabia
Eu jamais tentei
E jamais ousaria
As bobagens de amor
Que aprendi com você
Não, Lígia, Lígia

Sair com você de mãos dadas
Na tarde serena
Um chope gelado
Num bar de Ipanema
Andar pela praia até o Leblon
Eu nunca me apaixonei
Eu jamais poderia
Casar com você
Fatalmente eu iria
Sofrer tanta dor
Pra no fim te perder
Lígia, Lígia.

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos
E eu digo que sim
Mas seus olhos castanhos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia.

2a. versão, com alguns 
toques de Chico BuarqueEu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia

 

 

 

quinta 20 maio 2010 07:17 , em Mulheres e suas canções

Roberto Carlos, João Gilberto e a “turma” da Bossa Nova

Affonso Romano de Sant’anna dá uma definição de Roberto Carlos difícil de ser igualada: “Ele é o lado kitsch dos ouvintes mais sofisticados e é o lado mais sofisticado dos ouvintes mais kitsch. É uma espécie de herói popular”. 

 Em síntese, Roberto Carlos seria a voz mais sofisticada acessível aos ouvidos ditos “populares”, e seria, simultaneamente, o lado mais popular acessível aos ouvidos ditos “sofisticados”.

 Interessante que poucas pessoas sabem que a fonte inicial de inspiração de Roberto Carlos foi a mesma que inspirou Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e Jorge Ben (hoje Benjor): João Gilberto e a sua incomparável batida de violão que fez surgir a bossa nova, com a gravação de Chega de Saudade.

 Roberto Carlos tinha ido de Cachoeiro do Itapemirim ao Rio de Janeiro, e em 1959 não alcançara sucesso, tendo conseguido ser contratado como cantor da boate Plaza, no Rio de Janeiro (momento em que Roberto Carlos considera o início de sua carreira, vide as comemorações de seus 50 anos de carreira, ocorridos em 2009).

 Naquela época, Roberto Carlos, embora reconhecesse não ter o mesmo talento com o violão do que João Gilberto, cantava baixinho como ele. Talvez, no início da bossa nova na década de 60, era quem cantava mais parecido com João, muito mais do que Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e outras pessoas da turma da “Bossa Nova”. Essa “turma”, na verdade, desprezava Roberto Carlos, sob o argumento de que ele seria uma imitação barata de João Gilberto.

 Ruy Castro narra como Roberto Carlos fora barrado pelos corifeus da Bossa Nova, no seu livro Chega de saudade (Cia das Letras, 1990),

 “Roberto Carlos, dezoito anos, bateu à porta da boate Plaza naquele mesmo ano de 1958 e descobriu um cantor que dava canjas com frequência: João Gilberto.Roberto levou um choque. Aquela voz e aquele violão, no canto mais escuro do fundo da boate, acompanhado por uma simples bateria, o deixaram febril e evaporaram Elvis de sua cabeça por um bom tempo. Quando aprendeu a fazer uma passável imitação de João Gilberto, compôs ‘Brotinho sem Juízo’ e candidatou-se a participar das canjas. Mas, justamente por parecer uma cópia meio aguada do original, não o chegavam sequer chegar perto do microfone. Nascanjas das quintas-feiras, no clube Leblon, a mesma coisa. Bem que tentava se enturmar, mas ninguém queria saber dele ou de ‘Brotinho sem Juízo’. Em certo momento, Roberto Carlos ficou mesmo insistente, e o mínimo de que o chamavam era de chato. Numa dessas, na casa do empresário Lauro Boamorte, no Flamengo, Menescal levou-o a um canto: ‘Olha, bicho, não dá pra você, você quer cantar igualzinho ao João Gilberto – e nós já temos o João Gilberto'”.

 Segundo narra Paulo Cesar de Araújo, no seu livro – que se tornou polêmico – “Roberto Carlos em detalhes (Planeta, 2006), a turma da Bossa Nova encarava Roberto como um “João Gilberto dos pobres”.

 No entanto, foi sob a inspiração melódica de João Gilberto que Roberto Carlos gravou seu primeiro compacto, com as músicas João e Maria e Fora do tom (uma glosa de Desafinado, clássico da bossa nova). O compacto recebeu duras críticas da imprensa, como a abaixo transcrita, narrada no livro de Araújo:

 Agora é que a coisa vai piorar. Vão aparecer mil e um cantores tipo João Gilberto e ninguém vai aguentar mais. João sozinho é bom demais. A sátira de Carlos Imperial é interessante. Porém, falta alguma coisa ao jovem cantor”.

 Mais adiante, quando gravou seu primeiro disco, “louco por você” (que vendeu apenas 512 cópias), ainda havia muita inspiração da bossa nova e o estilo de cantar era ainda muito inspirado em João Gilberto.

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 É óbvio que, depois de ser totalmente rejeitado pelos “defensores” da bossa nova (registre-se, algo que não tem nada a ver com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais), além de não conseguir sucesso como cantor, Roberto Carlos teria que mudar de estilo, por mais que estivesse apaixonado pela música de João Gilberto.

 Talvez por essa razão o disco “Louco por você” está excluído da discografia oficial de Roberto Carlos, e, segundo Antonio Farinaci, Editor de UOL Música (http://musica.uol.com.br/especiais/2004/12/13/ult1541u70.jhtm), esse disco é dos mais raros, tido como renegado pelo próprio Roberto, chegando a atingir o preço de R$ 4.000, mas apenas em lojas especializada e sebos de vinis.

Em 2015, o Spotify disponibilizou a discografia de Roberto Carlos, na qual passou a constar o disco “proibido” “Louco Por Você”. Antes disto, jamais havia sido relançado.

 O resgate de Roberto Carlos com a bossa nova só veio com a gravação, em 2008, do disco/DVD com Caetano Veloso, em que ambos, comemorando o sucesso da bossa nova, cantaram músicas de Tom Jobim. E como Roberto canta bem Tom Jobim. E, também, recentemente, no site oficial do cantor, os discos “renegados” voltaram á discografia oficial. Um resgate da história

A música que posto agora é “Brotinho sem juízo”, do segundo compacto de Roberto Carlos. É nítida a influência da bossa nova…

 Fontes: Paulo Cesar de Araújo: Roberto Carlos em detalhes (Planeta, 2006); Ruy Castro: Chega de saudade (Cia das Letras, 1990); http://robertocarlos.globo.com;http://musica.uol.com.br/especiais/2004/12/13/ult1541u70.jhtm;

Publicado originalmente no http://musicaemprosa.musicblog.com.br/249238/Roberto-Carlos-Joao-Gilberto-e-a-turma-da-Bossa-Nova/ em abril de 2010

Ho ba la lá. Um livro à procura de João Gilberto

Marc Fischer é um berlinense que ouviu um disco de João Gilberto no Japão. Veio atrás dele no Brasil. Escreveu um livro sobre o fato e suicidou-se. Esse livro chama-se Ho-ba-la-lá e é uma grata surpresa.

Trata-se de uma investigação bem-humorada. Fischer transformou sua estranha obsessão numa busca incessante do inventor da batida de violão que é o verdadeiro coração da Bossa Nova.

O livro é uma aventura de Fischer no Brasil, quando veio na esperança de que João Gilberto tocasse  Ho-ba-la-lá para ele ao violão. E aí surgem histórias divertidas e engraçadas na busca de João Gilberto. Ele entrevista muitos que conviveram com João, no âmbito pessoal e profissional. Carlos Lyra, Marcos Valle, Miúcha, João Donato, até o cozinheiro que serve o prato preferido de João.

E qual o resultado? Um passeio pela lenda que é João Gilberto, suas antinomias e suas ambiguidades. Sua genialidade e sua aversão ao público em geral.

A obra de Fischer é escrita num tom coloquial, em primeira pessoa, dá pra ser lido rapidamente e é muito agradável sua leitura. Ele vai contando as história e aventuras, sempre com muito bom humor, de um alemão que não fala português passeando pelo Brasil.

A passagem dele pelo banheiro em Diamantina (MG)  onde João criou a batida da bossa nova é impagável.

O mais interessante são as maneiras em que ele tenta se aproximar de João Gilberto, que em certos momentos parece um fantasma, ou um vampiro.

O impressionante é que, numa passagem do livro, Roberto Menescal fala para Marc:

João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também. De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado também. 

O certo é que Marc Fischer suicidou-se antes de lançá-lo.

 

O  que faz o livro imperdível, contudo,  é o resgate de João Gilberto como o verdadeiro gênio criador da bossa-nova, e é um retrato de como ele conseguiu transformar a música brasileira definitivamente.

João nunca fez parte do movimento “bossa nova” do qual foi criador. Aliás, João Gilberto não usa a expressão “bossa nova” desde “desafinado”.

Marc mostra as contradições entre a pessoa e o gênio, as manias, a sua personalidade encantadora e magnética, Mostra como João é capaz, com seu cantar baixinho e sua batida de violão, encantar as pessoas, mas também como ele deixa sua marca em cada pessoa que passa. Um resgate ao gênio da bossa nova.

Por tudo isso vale o livro. vale a busca e a torcida por Marc Fischer encontrar João Gilberto, e vale pela investigação de uma figura ímpar na música brasileira.

 

 

 

 

 

 

Johnny Alf

Johnny Alf é o nome artístico de Alfredo José da Silva, nascido no Rio de Janeiro em 19/05/29. Quando da sua morte, ocorrida na semana passada, Johhny Alf foi lembrado e saudado como precursor da bossa nova.

Mas, para aqueles que não estavam nascidos na década de 50 ou 60, como saber da importância de Johnny Alf para a Música Brasileira?

Em qualquer referência bibliográfica sobre ele, conta-se que era filho de um cabo do exército, que morreu quando Johnny Alf tinha 3 anos, e que sua mãe fora empregada doméstica. A patroa de sua mãe, segundo consta, gostava muito da criança e o matriculou, desde os nove anos, em aulas de piano clássico com a professora Geni Bálsamo.

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No livro “História da Música Popular Brasileira (Abril Cultural/São Paulo, 1972), Johnny Alf conta que, a despeito de ter estudado piano clássico, o que ele mesmo gostava dos filmes musicais americanos:

– Impacto mesmo me dava outro tipo de música. Eram os filmes musicais americanos que tinham George Gershwin. Cole Porter, esse pessoal todo. Era o que me acendia aquela vontade interior de criar alguma coisa. Então, quando eu estudava, quando voltava do cinema sob aquele impacto, eu ia ao piano e fazia coisas com a influência do que tinha ouvido, inventava a melodia, e tal.

Seu nome artístico veio, inicialmente, de um professor do Instituto Brasil-Estados Unidos, que insistia em chamá-lo de Alf. E, posteriormente, numa apresentação da Rádio Ministério da Educação, uma garota americana sugeriu Johnny para completar o Alf.

Narra Ruy Castro, em “Chega de Saudade”, que Johnny Alf tornou-se integrante do Sinatra-Farney fan club, tido como uma espécie de “manjedoura” de onde saíram muitos dos principais nomes da bossa-nova. Alf entrara para o clube porque teria um piano ocioso para tocar.

A grande revolução na carreira musical de Johnny Alf ocorrera em 1952, quando ele era cantor de boate, à noite, e cabo do exército, durante o dia. Foi percebido pelos cantores Dick Farney e Nora Ney, por intermédio dos quais iniciou a carreira profissional como pianista na Cantina do César, casa noturna de propriedade do radialista César Alencar.

E qual a influência na bossa-nova? O músico Paulo Levita, em reportagem no Jornal  A TARDE, faz referência que Alf evoluiu as harmonias do jazz  americano para uma forma mais sofisticada, no uso das dissonâncias (que vieram a ser uma marca típica da bossa nova) como na forma de expressar o canto com divisões bem singulares (o cantar com uma divisão particular é uma das marcas de João Gilberto).

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Johnny Alf, já em 1954, era o Pianista da boate do Hotel Plaza, em Copacabana, e era ouvido e admirado por Tom Jobim, João Gilberto, Jaó Donato, Baden Powell, entre outros grandes nomes, alguns já famosos, outros ainda não.

Mas por qual razão Johnny Alf é tido como precursor da bossa nova, e não integrante do dito movimento? No site WWW.almacarioca.com.br, conta-se:

De malandro, porém, Johnny Alf, tímido e quase sempre triste, tinha muito pouco. No máximo era um tanto desligado com relação a contratos e oportunidades de trabalho. Em 55, quando começava a se fortalecer o grupo que dominaria a bossa nova no Rio, ele estava de malas prontas para São Paulo, sem ao menos avisar o dono da boate Plaza, onde era estrela máxima.

 Mais adiante, outro trecho:

Em 1961, deflagrada a bossa nova, Johnny foi lembrado para tripular um de seus módulos. Primeiro, foi gravar seu Lp inicial, na RCA Victor. Com músicas como Ilusão à toa, uma das favoritas do autor: “Olha/ somente um dia longe dos teus olhos/ veio a saudade do amor tão perto/ e o mundo inteiro fêz-se tão tristonho…” Depois, um convite do compositor Chico Feitosa:

– Vai ter um negócio no Carnegie Hall daqui a alguns meses e eu queria que você estivesse nessa.

Resposta: – Tá legal.

Mas no dia 21 de novembro de 1962, quando abriram as cortinas do palco em Nova York, Johnny não estava nessa:

– Na época, fiquei aqui em São Paulo, bastante desligado deles. Enchia a cara, acordava naquela ressaca. Eu era o rei de chegar atrasado.

Não era um retrato alegre, mas em muitos pontos era um retrato fiel. A bossa nova fluía seus barquinhos e flores, preparava-se para entrar em uma fase diferente, mais exteriorizada, e Johnny estava atrasado. Não tinha regulado seus ponteiros com os do sucesso, com alguns ex-expectadores de sua música, como Tom Jobim e João Gilberto. Só voltaria ao Rio obrigado, por volta de 62.

No entanto, sua linha melódica fantástica sempre o colocou como um dos mais importantes músicos brasileiros. Alguns de seus sucessos são clássicos, como Céu e Mar, Coisas do Carnaval, Oxum, O que é amar, e, sobretudo, Eu e a Brisa, talvez seu maior clássico, eternizado na voz de João Gilberto.

Por isso, deve-se reverenciar Johnny Alf, grande músico, músico acima de tudo, e que é mais do que um mero precursor da bossa-nova. É um talento eterno da música brasileira.  Faleceu em março de 2010.

Fontes: Chega de saudade – A história e as histórias da Bossa Nova – Ruy Castro (Cia das letras); História da Música Popular Brasileira – Abril Cultural – São Paulo, 1972; site WWW.almacarioca.com.br; Jornal A TARDE de 11/03/2010.

O primeiro Show de Toquinho e Vinícius

 

Na coletânea de artigos “samba falado”, que reúne diversas crônicas musicais de Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, Beco do Azougue, 2008) o “poetinha” narra como fora sua primeira apresentação com Toquinho, marcada para Salvador, no dia 7 de setembro de 1970, no Teatro Castro Alves.

Vinicius narra sua apreensão por causa do público baiano, tido como muito exigente, e pelos críticos, que já etiquetavam Vinícius como um dos “velhos da bossa nova”. Além disso, havia cerca de 5 anos que Vinícius não se apresentava ao vivo (as últimas vezes foram com Dorival Caymmi, em 1964, e com Gilberto Gil e Maria Bethânia, em 1965).

No entanto, Vinícius se surpreende com a reação do público e narra:

A moçada de Salvador cantou e curtiu conosco de maneira a surpreender os próprios baianos, pouco habituados a um entusiasmo por parte de sua gente, a não ser no carnaval. Foi maravilhosa a resposta dos jovens ao recado de amor de nossas canções, muitas das quais eu imaginava soterradas por aquela avalanche. Por isso somos tão gratos à Bahia. Ela não só nos restituiu a confiança em nossa música popular, eu não direi perdida, mas posta em cheque, como a partir daí que Toquinho começou a compor adoidado”.  

Inclusive, foi em Buenos Aires que Toquinho e Vinícius compuseram sua primeira canção em parceria, “Como Dizia o poeta…”, música terminada em julho 1970, num ônibus que vinha de Feira de Santana para Salvador. A letra:

Como dizia o poeta
Vinicius de Moraes / Toquinho

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

 

Em 1971 sai o primeiro de muitos discos com composições da dupla. Como nessa época Vinicius já havia sido compulsoriamente aposentado de sua carreira diplomática e se dedicava à carreira artística, foram numerosos os shows que fizeram juntos. A dupla permaneceu junta até 9 de julho de 1980, quando faleceu Vinícius.

A avalanche, no caso, é a do iê-iê-iê

No caso, um raríssimo erro de Vinícius: como se trata de um lance de xadrez, o mais correto seria “posta em xeque”.

 

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 22 de março de 2010