Meu primeiro show de João Gilberto

João Gilberto falece no dia 06 de julho de 2019, aos 88 anos, deixando um legado musical que poucos artistas no mundo conseguem:  verdadeiro pai da bossa nova, com sua inigualável batida de violão, que inspirou artistas não só do Brasil, mas do mundo.

Se tivemos Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Elism, Gal, Bethania, Moraes Moreira, muito se deve ao violão de João.  

Em 1999 eu fui pela primeira vez a um show de João Gilberto. Na época, ele tinha causado o maior estardalhaço com as reclamações e a língua dada para o público no Credicard Hall, poucos meses antes.

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João Gilberto no Credicard Hall

João chegou com seu estilo de sempre, terno, seu violão, que ele afinava a cada canção. Brincou, inicialmente, como o “ar refrigerado”, dizendo ele queria cantar mais, mas que o “ar refrigerado” não deixava, fazendo até piadas com isso.

Antes de começar a música, ele fazia troça daqueles que diziam que ele era chato por afinar o violão a toda hora. Chegou a perguntar: já viram uma orquestra?  Os músicos afinam os instrumentos a todo tempo.

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E começou a desfilar suas canções de sempre, a bossa nova e os sambas que marcaram sua vida… Desafinado, Estate, Pra que discutir com madame, Fotografia, Isaura, até que uma mulher, na plateia, pediu, dengosamente que João fosse tocar “Joux-Joux et Balangandãs”, de Lamartine Babo. No momento em que ele estava começando a música, Faltou energia no Teatro. Foram momentos engraçados. João, sentado no seu banquinho, o teatro escuro, e alguém do público gritou: “João, não vá embora, pelo amor de Deus”… para risada geral. 

 Enfim, voltando a luz e cantada, enfim, Joux Joux et balangandãs, João começou a tocar Eu sei que vou te amar, e, no meio da música, diminuiu sua voz, para que a plateia presente cantasse ao som de seu violão. 

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Num certo momento do show, uma cena engraçada, inusitada, uma barata apareceu ao microfone, para o susto de João e risadas da plateia. A essa altura, metade do teatro já estava de pé, muitos fora de seus lugares querendo ficar mais próximos de João, e cada um deles pedia uma música, e João cantando, como se fora uma roda de violão particular com o maior violonista que eu já vi pessoalmente.

 Depois de mais de duas horas, entre coros, falta de energia e muita música, João encerrou cantando, a (meu) pedido, a música “Falsa Baiana“, de Geraldo Pereira, e foi aplaudido entusiasticamente… 

 Quem não era fã, tornou-se. Quem já era, viu um sonho… Dez anos depois ele voltaria para o Teatro Castro Alves, numa segunda exibição…

 

domingo 25 julho 2010 01:35 , em Bossa Nova

 

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Dez músicas nota 10, segundo Tom Jobim

No ano de 1970, Tom Jobim já era um compositor consagrado. Principal compositor da bossa-nova, já tinha feito sucesso nos Estados Unidos, gravado com Frank Sinatra, enfim, já se ensaiava a unanimidade que mais tarde só veio se consolidar.

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Sérgio Cabral, na biografia que escreveu sobre Tom Jobim, (Lazuli Editora: Companhia Editora Nacional, 2008), faz referência a uma entrevista dada por Tom ao jornalista Sérgio Bittencourt, para o Jornal O Globo, pedindo ao artista uma lista com 10 (dez) músicas que mereceriam nota 10.

Essa lista é importante, pois faz um retrato não só de Tom para o passado, mas também para o futuro. Repare que são 10 músicas nacionais, passando de Custódio Mesquita, passando por Pixinguinha, Ary Barroso e Dorival Caymmi, culminando em Chico Buarque e Caetano Veloso, que, em 1970, não eram os artistas consagrados que são hoje.

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Eis a lista, conforme a narrativa de Sérgio Cabral:

1) CARINHOSO, de Pixinguinha e João de Barro (Jobim contou a história dos americanos pedindo a partitura – essa eu conto em outra postagem)

2) NA BAIXA DO SAPATEIRO,  de Ary Barroso;

3) SAIA DO MEU CAMINHO, de Custódio Mesquita e Evaldo Rui;

4) MULHER, de Custódio Mesquita e Saidi Cabral;

5) SONHEI QUE ESTAVAS TÃO LINDA,  de Francisco Matoso e Lamartine Babo;

6) FEITIO DE ORAÇÃO, de Vadico e Noel Rosa;

7) ATÉ PENSEI,  de Chico Buarque;

8) PRA DIZER ADEUS,  de Edu Lobo e Torquato Neto;

9) CORAÇÃO VAGABUNDO, de Caetano Veloso;

10) ACALANTO,  de Dorival Caymmi (Dizendo “acho Caymmi um gênio”)

Obviamente, Tom não incluiu nenhuma música de sua autoria, algumas delas sucessos internacionais, que entraram para as músicas mais importantes do século, como Chega de Saudade, Garota de Ipanema ou  Desafinado,  só para citar três clássicas.

Uma lista de respeito de artistas que influenciaram Jobim, e alguns que ele influenciou..

“Marcha da quarta-feira de cinzas”

 

Em 1963, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes escreveram uma das canções icônicas, com uma temática diferente daquela levada a cabo pela ala jovem da Bossa Nova; a Marcha da Quarta-Feira de Cinzas.

Carlos Lyra foi o responsável pela melodia, e a letra ficou a cargo de Vinícius.

 

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no volume 2 de sua canção no tempo, fazem um comentário sobre as canção:

“Composta antes de 1964, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC (Centro Popular de Cultura) em que Carlos Lyra incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil…”).

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Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou…” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a plateia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão, teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 1963 .

A canção, feita em 1963, permitiu que, nos anos seguintes, se fizesse interpretar como uma alegoria sobre a ditadura militar, que eclodiu em 1964, quando se dizia que “acabou nosso carnaval” , e que ninguém cantava feliz e restavam apenas saudades e cinzas.

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Mas, ao mesmo tempo, incita de que “no entanto é preciso cantar”, como se fosse uma incitação à resistência política.

Assim, a música ficou registrada no imaginário popular como uma canção de resistência ao golpe de 1964. Mas, segundo Carlos Lyra, “a música não tinha implicação política, a melodia não conta nada dessas coisas”.

Lyra explica que a letra, no entanto, “levou muita gente a pensar que fosse uma resposta ao golpe. Era uma canção de premonição”, afirma, especulando que talvez seu parceiro, Vinicius de Moraes, “tivesse bola de cristal”. As duas pessoas da bossa nova que eram ligadas à esquerda “éramos eu e Vinicius”, assegura.

 

https://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u927.jhtm

Nara Leão – Dez anos depois… o seu retorno à bossa-nova em 1971

 

A trajetória musical de Nara Leão é das mais originais da música brasileira. extremamente inquieta, ela foi inicialmente considerada a musa da bossa nova, onde no apartamento de seus pais surgiram as famosas rodas de violão das quais participavam Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Mendes e seu então namorado Ronaldo Bôscoli. Depois de romper com a bossa nova, interessou-se pelo samba de morro, gravou o extremamente politizado disco Opinião, que gerou o show homônimo, junto com João do Vale e Zé Keti, namorou o tropicalismo e fez parte do famoso disco Tropicália, em 1968, isso com apenas 26 anos.

O rompimento com a Bossa Nova deve-se muito ao rompimento de seu noivado com Ronaldo Bôscoli, um dos principais compositores da Bossa Nova, em face do caso que Bôscoli teve com a cantora Maysa.

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Após o rompimento, entre 1974 até 1970 Nara gravou 10 discos, todos afastados da Bossa Nova. Nara Leão só se reconciliaria efetivamente com a Bossa Nova em 1971, quando gravou o Lp duplo Dez Anos Depois. Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Johnny Alf, Newton Mendonça e Chico Buarque. A produção do disco é de Roberto Menescal, mas não há nenhuma música de Menescal, em face de sua parceria com Ronaldo Bôscoli. Ruy Castro, no livro “A onda que se ergueu no mar (Cia das letras, 2001), relata o episódio:

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“No repertório, um nome se destacava pela ausência: Ronaldo Bôscoli, o homem que ela amara e que escrevera muitas das principais letras da Bossa Nova. Fora Nara que que lhe inspirara ‘O Barquinho’, ‘Nós e o mar’ , ‘Ah, se eu pudesse” e muitas outras canções com Menescal – mas quem as gravara fora Maysa, a mulher com quem ele se envolveu enquanto namorava Nara. Por causa de Maysa, Nara brigou com Bôscoli e, com isso, rachou politicamente com a Bossa Nova. Anos depois, reconciliou-se com a Bossa Nova – mas não com Bôscoli, que, já então, estava casado com sua arquirrival Elis Regina”.

Não obstante a ausência de Bôscoli, o disco é realmente muito bom, a voz de Nara parece combinar com Bossa Nova.

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No entanto, quero chamar atenção para um disco especial de Nara: Dez Anos Depois, gravado em paris no ano de 1971, é um reencontro com a bossa nova.Como dá para ver,  o que se fez de melhor em bossa nova…sobretudo Tom Jobim, autor ou coautor de 19 das 24 músicas do disco. As músicas são:

“Insensatez”
“Samba de Uma Nota Só
“Retrato Em Branco e Preto”
“Corcovado”
“Garota de Ipanema
“Pois É”
“Chega de Saudade”
“Bonita”
“Você E Eu”
“Fotografia”
“O Grande Amor”
“Estrada Do Sol”
“Por Toda Minha”
“Desafinado”
“Minha Namorada”
“Rapaz de Bem”
“Vou Por Al”
“O Amor Em Paz”
“Sabia”
“Meditacão”
“Primavera”
“Este Seu Olhar”
“Outra Vez”
“Demais”

Quem gosta de Bossa Nova vai gostar. Gravado na França, em 1970, é um álbum duplo e representa a versão definitiva da Bossa gravada por Nara. E que seriam gravadas por ela muitos anos antes, não houvesse a briga com Bôscoli. E o mais impressionante é que o álbum ficou fora de catálogo no Brasil, enquanto no Japão, continua em catálogo até hoje.  Por este motivo, “Dez Anos Depois” é um disco indispensável para descobrir ou redescobrir Nara.

 

http://portalnoar.com.br/blogdodjacirdantas/2015/07/05/o-barquinho-da-bossa-nova-enfrenta-a-tempestade-final/

segunda 21 março 2011 17:05 , em Bossa Nova

 

O inusitado encontro de João Gilberto e Elza Soares, na narratiiva de Ronaldo Bôscoli

 

Recentemente, li o livro “Eles e Eu”, que conta as memórias de Ronaldo Bôscoli. Para quem não sabe, Ronaldo Bôscoli foi um dos principais corifeus da Bossa Nova, compositor, produtor, namorou Nara Leão, Maysa, foi casado com Elis Regina e tem muita história para contar.

Uma delas diz respeito a João Gilberto. João, no final da década de 50 e começo de 60, era o verdadeiro guru da bossa nova, ritmo que criou com sua inigualável batida de violão. Bôscoli (que João chamava de “Ronga”), então, conta no livro o quanto João é persuasivo, inclusive, como ele usou o suéter de Bôscoli na foto do famoso álbum “Chega de saudade”.

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Uma das histórias bem divertidas, contadas por Bôscoli, foi quando João Gilberto pediu a ele para intermediar um encontro com Elza Soares, pelo telefone, num trem do Rio Para São Paulo. Transcrevo aqui um pequeno trecho, na narrativa de Bôscoli:

Fomos a São Paulo, para um programa do Tom, chamado o Bom Tom, na TV Tupi, nós três – Tom, João e eu. Fomos de trem porque o Tom tinha pavor de avião. Fizemos até uma música bem bonita, que depois se perdeu. Tom estava de olho na Elza Soares, uma mulata boa paca. Foi o que bastou para João entrar na disputa. Estávamos no mesmo quarto de hotel e João chegou pra mim:

– Ronaldo, você conhece a Elza Soares?
– Conheço. Por quê?
– Eu tinha vontade de ficar com ela.
– Tudo bem. Te dou o telefone, te ponho em contato com ela.
– Não, rapaz. Não sou carioca, sou burrão, sou tímido. Não sei falar com as pessoas. Não sei cantar ninguém, só música.
– O que você quer, então?
– Quero que você cante ela pra mim.
-Mas João, vai pegar mal…

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Não houve jeito. O João me convenceu a cantar a Elza Soares pra ele, imaginei. Parti pra esse ridículo. Liguei pra Elza.

– Elza, você conhece o João Gilberto?
– Conheço. Acho simpático, gostoso.
– Ele queria falar com você.
– Então chama ele aí.
– Não, Elza. Eu tenho que falar…
– Que é isso, está me gozando?

Durante o papo, João me dava instruções. Minha missão era realmente facílima. Eu tinha que cantar a Elza pra ele convencê-la a esperar por ele na cama, debaixo das cobertas, já despida, com a luz apagada. Ela devia ficar esperando até ele chegar. Ele falava pra mim, eu falava pra ela, ela respondia, eu falava pra ele, ele pra mim, etc. Acabamos convencendo a Elza daquela loucura.

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João voltou do apartamento dela e só voltou de manhã, encantado.

– Puxa Ronga. Que mulher maravilhosa!

Tempos depois, expliquei tudo pra Elza. Ela era uma mulher fantástica e compreendeu perfeitamente.

Mais uma das idiossincrasias de João Gilberto….

sexta 12 agosto 2011 05:14 , em Bossa Nova

Vinícius de Moraes no “Esta noite se Improvisa”: A “garota” que não existe na Garota de Ipanema

Na década de 60, havia um programa musical que fez história e inspirou muitos programas nos anos seguintes (Silvio Santos que o diga). O nome era “Esta Noite se improvisa”, na qual os concorrentes, todos eles artistas, testavam seus conhecimentos musicais.

O jogo consistia em ser anunciada uma palavra e o participante que soubesse uma letra de música com a palavra em referência, apertava um botão à sua frente e corria até o microfone para cantar um trecho da música que contivesse a palavra. Caso acertasse, acumularia pontos que poderiam ser trocados por prêmios, que podiam chegar até a um automóvel Gordini.

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Grandes artistas  participavam do programa, sendo Caetano Veloso e Chico Buarque os competidores mais competentes. (Conta a lenda que Chico Buarque, num desses programas, inventou uma letra e melodia na hora).

Assim Blota Jr. anunciava:  “A palavra é…”.

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Vinícius de Moraes não era muito bom nesse programa, não por falta de cultura musical, óbvio, mas por não ser suficientemente ágil para apertar o botão.

Só que, como narra Humberto Werneck em seu Gol de Letras (Cia das Letras, 1989), certa vez Blota Jr. teria anunciado:
– A palavra é… “garota”.

Desta vez Vinícius de Moraes não perdeu tempo: pressionou o botão, dirigiu-se sorridente ao microfone, e começou a cantar sua bela parceria com Tom Jobim: “Garota de Ipanema”.

No entanto, um detalhe: na letra de “Garota de Ipanema” não existe a palavra “garota”… e, ao contrário daquela que passava cheia de graça e inspirava a canção, Vinícius retornou a seu posto, completamente sem graça.

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Para quem não se lembra, olha aqui a letra de um dos maiores clássicos da música brasileira:

Garota de Ipanema – 1962
Composição: Vinícius de Moraes / António Carlos Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Fonte: Gol de Letras, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1989).

quarta 22 dezembro 2010 08:45 , em Bossa Nova

 

As mulheres e suas canções – Lígia

Lígia é uma das mais belas composições de Tom Jobim. Eu a conheci (a música, não a musa) no disco Sinal Fechado, que Chico Buarque gravou em 1974 interpretando outros cantores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura

No entanto, a letra que foi gravada por Chico Buarque tem alguns “toques”, distintos da versão original, composta em 1972. Nas duas versões, há o relato de uma história que não aconteceu, uma “não-história”, na primeira versão, o eu-lírico nunca ligou porque “sabia” e “jamais ousaria”; na segunda, ligou e foi engano, esquecendo no piano as bobagens que iria dizer

Na primeira versão, o sujeito diz que não se apaixonou, mas fatalmente que sentiria tanta dor  “pra depois te perder”. Na que foi gravada por Chico, confessa-se a paixão, mas que se revela uma ilusão, decorrentes de mentiras de amor…  A primeira versão fala de ilusão; a segunda, de desilusão.

Na última estrofe das duas versões, a rendição. As letras são diferentes, mas ambas dizem sim aos olhos castanhos/morenos que metem “mais medo que um raio de sol”.

A título de curiosidade, na revista Maria Claire 16 de novembro de 2000, achou-se a musa das canções. Segue o link para a matéria, com o trecho transcrito abaixo:

http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao2.htm

 
“Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de “Lígia”. Um disfarce da identidade da musa e da atração de Tom Jobim por ela. Tom e Lygia, professora de pré-primário de uma das filhas do compositor, se conheceram em 1968, no bar Veloso, em Ipanema. Nunca houve nada entre os dois, mas aquele encontro daria origem ao samba-canção gravado por Chico Buarque no LP “Sinal Fechado”, em 1974. “O Tom vivia de olho nela”, diz o jornalista Ruy Castro, que registrou o episódio no livro “Ela é Carioca” (Cia. das Letras).

Por muitos anos Tom negou que Lygia fosse sua musa, em respeito ao amigo Fernando Sabino, marido dela na época. Só em 1994, quando o casal se separou, ele admitiu a inspiração aos amigos. Hoje, aos 54 anos, Lygia mora sozinha e dirige o departamento cultural da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela recorda com orgulho os detalhes de seu caso jamais consumado com Tom Jobim.

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Lygia Marina de Moraes “Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: ‘É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!’. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a ‘Manchete’, e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: ‘Trouxe minhas amigas’. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: ‘Não sou poeta, se tivesse um violão…’.

Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: ‘Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive’, e assinou: A.C.J.

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Saindo de lá, Tom me levou em casa. Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado… Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia… Depois nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo. Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema.

Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele, e ligou para o Fernando pedindo meu telefone. Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: ‘O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lígia, mas o telefone é tal’, e deu outro número errado. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música que fala do telefonema que foi engano.

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Estava sozinha em casa quando ouvi no rádio o Chico cantando ‘Lígia’, pela primeira vez. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada… É uma glória. Claro que a música rendeu comentários e Fernando ficou uma fera. Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou o tema. Estivemos juntos em vários lugares, tipo réveillon na casa de Jorge Amado, eu com Fernando e Tom com Ana, sua segunda mulher. Mas ninguém falava nisso.

Um dia, Tom me encontrou por acaso na Cobal [sacolão e ponto de encontro] e falou: ‘Está chegando minha musa!’. Foi a primeira vez que admitiu para mim. Até hoje, em cada boteco que entro tocam ‘Lígia’. Faz parte do meu show. Fiquei imortal. Tenho quase todas as gravações de ‘Lígia’. Existe até uma versão do João Gilberto em que, ao contrário da oficial, o romance acontece e Tom até se casa comigo. As pessoas me cobram o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente. Mas será que não foi melhor ter ficado essa fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar em um restaurante e me lembrar do Tom, cheio de charme”.

 

L Í G I A

1a. versão (João Gilberto)

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
Eu nunca te telefonei
Para que se eu sabia
Eu jamais tentei
E jamais ousaria
As bobagens de amor
Que aprendi com você
Não, Lígia, Lígia

Sair com você de mãos dadas
Na tarde serena
Um chope gelado
Num bar de Ipanema
Andar pela praia até o Leblon
Eu nunca me apaixonei
Eu jamais poderia
Casar com você
Fatalmente eu iria
Sofrer tanta dor
Pra no fim te perder
Lígia, Lígia.

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos
E eu digo que sim
Mas seus olhos castanhos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia.

2a. versão, com alguns 
toques de Chico BuarqueEu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia

 

 

 

quinta 20 maio 2010 07:17 , em Mulheres e suas canções