Moraes Moreira e o Carnaval da Bahia

 

“Olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor”... Esse é um trecho de Chão da Praça, de Moraes Moreira, que ele cantou no seu último carnaval em Salvador, em 2020.

Engraçado que, para uma geração que chega aos 40, durante muito tempo o carnaval da Bahia estava órfão. Órfão de seu primeiro cantor, aquele que primeiro colocou sua voz no trio elétrico e tem uma série de canções voltadas para tocar nas ruas, em cima de um trio elétrico. Como diz Moraes em Cantor de trio:

 

Cenas de Carnaval: Moraes Moreira - Jornal CORREIO | Notícias e ...

“Eu sou um cantor do Brasil/que canta em cima do trio/jogando através do fio/uma energia pra massa”. (Cantor do Trio)

Moraes cantava, e uma multidão o seguia na pipoca. Para os baianos, Moraes Moreira é muito, muito mais do que o cantor/compositor que integrava os Novos Baianos, responsável por uma revolução musical na década de 70: Moraes Moreira é o rei do trio, que inspirou os cantores de trio que estão aí desde sempre, o cantor que tem uma série de canções maravilhosas que celebram a alegria, o prazer que é estar na rua pulando ao som de música de carnaval.

“Lá vem o trio/na contramão/um caminhão de alegria/ pelas ruas da Bahia/da Bahia de São Salvador”(Ligação, de Osmar e Moraes Moreira)

Moraes Moreira lança box "Anos 70" em alusão aos 40 anos de ...

 

Quando Moraes Moreira desfilava sua coleção de músicas de Carnaval, como Pessoal do Aló, Chame Gente, Ligação, Assim pintou Moçambique, Festa do Interior, o público que acompanhava o trio estava numa verdadeira catarse, pulando muito, cantando a todos os pulmões as músicas de carnaval compostas e que compunham os verdadeiros hinos do Carnaval nas décadas de 70 e 80, quando a voz de Moraes Moreira, aliado à inigualável guitarra baiana de Armandinho reinventaram o frevo pernambucano com um toque baiano, como bem dizia a famosa música Vassourinha Elétrica.

 

Moraes conta sua incursão no trio elétrico no seu livro “A história dos Novos Baianos e outros versos”

“Em 1975 resolvi botar meu bloco na rua

Iniciando a carreira solo, grande parte das novas composições tinham como tema o carnaval.

Logo no primeiro disco, tive a felicidade de contar com Armandinho, genial instrumentista que, já naquela altura, era a grande estrela do trio elétrico. Comecei no ato a frequentar a escola Dodô e Osmar, ou seja, a escola dos criadores do trio, porque não dizer, do carnaval da Bahia”.

 

SONHOS ELETRICOS - Moraes Moreira: Livro

O certo é que Moraes se reinventou muitas vezes. Formava uma parceria de composição com Galvão nos Novos Baianos, e teve inúmeras parcerias das mais variadas; de fausto Nilo a Marisa Monte; de Paulo Leminski a Antônio Cícero; de Evandro Mesquita a seu filho Davi.

Mas se Dodô e Osmar são os pais do trio elétrico, Moraes é o primogênito. Foi quem ensinou uma geração o que era ser cantor de trio. Contou isso no seu livro sonhos elétricos:

Modéstia à parte, eu cantei em cima do trio elétrico quando ninguém o fazia e criei um repertório de sucesso de músicas que continuam até hoje no coração e na alma do povo baiano e, por que não dizer, brasileiro. Então, realmente se criou uma escola de cantores a partir desse momento em que foi viabilizada a voz em cima do Trio Elétrico Dodô & Osmar. Praticamente fui adotado por eles”. 

 

Tudo o que se pode dizer, depois do último carnaval de Moraes Moreira, é fazer referência a uma música que ele compôs inspirada no fim do Carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas, no encontro de Trios, na praça Castro Alves. Quando o carnaval termina, as pessoas cantavam. “Por que parou? Parou por que?”

Virou um grande sucesso no Carnaval de 1988.

E hoje, Moraes, seus fãs perguntam: “Por que parou? Parou por que?”

Vai deixar muitas saudades…

 

 

 

 

Aliás…. a história de Zanzibar….

Imaginar Calcutá, Zanzibar e Paracuru numa musica imagética, que remete a cores, a um azul que reluz no corpo “dela”, o objeto de desejo, que, por sua vez, usa um “tricolor colar”.

Esta é Zanzibar, que tem por subtítulo “As cores”, uma feliz parceria entre Fausto Nilo e Armandinho, na virada de 1979 para 1980, que remete a um jogo de palavras que termina remetendo sempre a um tom de azul, do céu, do mar, da estrela.

A canção fez um enorme sucesso, e foi narrada por Fausto Nilo e Armandinho, no terceiro volume do livro de Ruy Godinho,”Então foi assim?”

Narra Armandinho:

Eu fui às coisas da minha avó. Foi uma música que me remeteu a outros ares, outro tempo. E eu já tinha o compromisso de fazer uma parceria com o Fausto. Eu mandei a melodia e ele levou um tempo fazendo, até que concluiu. A gente já estava praticamente na boca. E eu disse: ‘Fausto, essa música já está praticamente gravada e eu preciso da letra pra gente sacramentar o negócio.’ E ele rebuscando rebuscando, rebuscando… Porque o Fausto faz uma alquimia, ele sabe captar o som em forma de letra, ele sabe extrair a letra da música. E a música tem todo um colorido, um céu azul, uma história tropical. O interessante é que quando ele me mostrou a letra eu não entendi nada.”

Não podemos tirar a razão do baiano diante da colagem de expressões de palavras soltas apresentadas pelo letrista.

Aí eu disse: ‘Fausto, eu gosto muito dos sons: Jezebel, Calcutá, Alah meu only you… Eu adoro isso, mas me explica um pouco o significado. Ele falou: ‘Rapaz, não tem uma explicação específica. Da forma que você entender é que é. Na verdade, eu viajei num trópico que tem o mesmo clima, o mesmo vento, o mesmo ar. Aí eu disse: ‘Realmente, essa música eu fiz no terraço da casa do meu pai, lá no Bomfim. Quando eu estava compondo, tive uma viagem muito espiritual, astral, eu sentia essa música assim, num clima inexplicável’. E ele fez uma letra um tanto inexplicável. Ficaram coisas assim [como] bazar da coisa azul”, diverte-se.

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Mar azul de Zanzibar

 

Fausto recebeu a melodia de Armandinho numa fita cassete, num dos inúmeros carnavais que passo na Bahia. “Eu voltei pro Rio num domingo de carnaval. Fiquei uns dias na praia, encontrei muito o Moraes, o Armandinho… Eles iam todo dia pro Rio Vermelho e, num desses dias, o Armandinho me deu uma fita e disse ‘Olha, tem aqui uma melodia’. 

“Tinha uma pichação em Salvador que era Zanziblue. Onde eu passava, eu via. E na hora em que fui ao aeroporto, eu vi repetidas vezes a Zanziblue. Quando entrei no avião, peguei meu fone de ouvido e o gravador e fiquei ouvindo a música que Armandinho tinha me dado. A primeira coisa que eu notei é que Zanziblue caía muito bem numa parte da música. Mas, ao mesmo tempo, eu não gostava, não era uma palavra, eu achava uma invenção assim meio…Eu rejeitei. Interessou-me a sonoridade, a métrica estava boa, mas decidi não escrever. Quando cheguei ao Rio, ouvindo de novo, vendo umas anotações que eu tinha, eu tive a ideia de fazer uma letra cheia de coisas do Oriente. Eu vi muito na Bahia aqueles blocos com coisas da África, imitando coisas do Marrocos. Aí misturei essas coisas todas e nasceu Zanzibar. Onde era Zanziblue eu botei Zanzibar”, que é o nome de um arquipélago localizado na costa da Tanzânia, formado por duas ilhas Unguja e Pemba. Os árabes chamavam Unguja de Zanj-Bar, que significa Costa dos Zanj (negros), depois adaptada ao jeito que se pronunciava, Zanzibar. E assim ficou conhecida.

 

“Aí escrevi a letra cheia de coisas engraçadas porque tive muita dificuldade de encontrar uma palavra com a prosódia boa e com a colocação certa naquele Paracuru, no azul da estrela… Aí me ocorreu uma praia aqui do Ceará, Paracuru.” O suficiente para que, com o sucesso da música, o prefeito da cidade convidasse Fasto Nilo para ser homenageado e pleno carnaval. Ele foi, Claro

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Curioso foi como “aliás” entrou na letra. Fausto Nilo Conta:

“Tinha uma frase que eu não encontrava a solução para ela. Ele gravaram tudo deixaram só o vazio dessa frase. Ficaram esperando. Eles estavam muito ansiosos. Todo dia eles cobravam: ‘Cara, cadê a frase? E eu respondia: ‘Prometo que hoje eu resolvo’. Eu virava a noite caçando a frase e não achava. Um dia, eu fui à avenida Jardim Botânico, perto da Tevê Globo, onde tem um boteco e um ponto de ônibus e fica muita gente na calçada. Eram seis, sete horas da noite. Eu fui cantarolando. Exatamente na hora dessa frase que eu não tinha, um sujeito que estava tomando umas biritas, saiu do bar, deu uma cusparada na calçada e disse assim: ‘Aliás’! E voltou para dentro do bar para continuar a conversa. E aí eu mandei: Aliás,bazar da coisa azul, meu only you… Fui ao orelhão e liguei pro Armandinho:

‘- Achei a palavra’! 

‘- Qual é’?

‘- Aliás’!

‘- Aliás’???

 

Meio surpreso, ele chamou os outros e disse: ‘Olha, ele falou aliás! Alguém perguntou:

‘- Bicho é, aliás’?

‘-É, aliás, ele confirmou’.

Depois de algum tempo, eles aceitaram: ‘Pô! Ficou legal’! E eu terminei a letra. Às vezes acontece isso. Eu trabalho com essas coisas, vou colando”, concluiu.

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Armandinho jura que não deu nenhuma dica para letra, porém…

“Essa coisa da letra sempre fica a cargo dele. Mas, por exemplo: No azul de Jezebel no céu do Ceará…Ele adorava isso. Aí eu disse: ‘Pô, Fausto, se você fizer isso, a música vai deixar de ser Bahia e vai ser Ceará’. Só que ele tirou o calcutá da manga:

‘- Olha aí Calcutá”!

‘- É! Calcutá’!

É mais interessante porque universaliza a música”, justifica o melodista.

 

Zanzibar, que recebeu o subtítulo de As cores, foi registrada pelo grupo A Cor do Som, no LP transe Total (Elektra/WEA, 1980), no CD Ao Vivo no Circo (Movieplay, 1996) e no CD a Cor do som – Acústico (BMG, 2005; Pelo trio Elétrico Dodô e Osmar, no LP Vassourinha Elétrica (Elektra, 1980); por Fausto Nilo, no CD Fausto Nilo – 12 Letras de Sucesso (Songs/CBS,1987); Por Elba Ramalho, no CD Baioque (BMG Brasil, 1997), entre outras regravações.

“Depois me veio o prefeito de outra cidade querendo que eu fizesse uma letra com o nome da praia dele. E eu tive de explicar que aquilo foi um acidente”, revela Fausto.

“O mais engraçado é que essa música fez um sucesso danado. Eu via todo mundo cantando a letra errada, cantava de outro jeito, mas o som estava ali. É o som das coisas, das palavras, que ele foi buscando na música e se transformou no que é”, decreta Armandinho.

 

 

 

O carnaval da Bahia num jornal do Paraná em 1987

 

Em março de 1987, o crítico musical paranaense Aramis Millarch fez uma interessante crônica sobre o carnaval da Bahia e o recém-lançado álbum “Aí eu liguei o rádio“, do Trio Elétrico de Armandinho e Dodô e Osmar, publicado no jornal Estado do Paraná. É um belo artigo, que posto aqui em homenagem ao cronista, precocemente falecido em 1992.

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O Texto faz refletir sobre os carnavais de rua da Bahia há 30 anos, e o que mudou no carnaval de hoje…

Atrás do Trio Elétrico, só não vai quem já morreu…

A música carnavalesca tradicional pode ter desaparecido em termos de novas produções (embora os clássicos continuem a ser os mais cantados nos salões), o samba-de-enredo transformou-se num gênero de alta rentabilidade, algumas gravações de artistas famosos (ou não) conseguem ultrapassar o sucesso temporário e serem cantados nos carnavais.

Mortalha do Pinel Carnaval 1987

E ao lado de tudo isto, no verão de cada ano, especialmente com a força e vibração nordestina, surgem grupos, conjunto e intérpretes que caem no agrado popular. Veja-se o caso do baiano Luís Caldas, que com seu “Fricote” vendeu no ano passado mais de 100 mil cópias sem deixar Salvador. Salvador, que se orgulha de ter o mais animado Carnaval do Brasil – e que conforme as imagens da televisão mostram, estende-se não só até quarta-feira de cinzas, mas até o próximo domingo (como o de Olinda e Recife, onde o frevo come solto), exportou o Trio Elétrico, inventado há quase quatro décadas por Dodô e Osmar, para vários outros Estados – com adaptações de acordo com a imaginação de cada um.

Fonograficamente, o Trio Elétrico, com seu som de muitos decibéis tem mais de 50 registros, aos quais acrescenta-se agora “Aí Eu Liguei O Rádio” (RCA, janeiro/87), o 12º elepê do grupo que leva o nome de seus fundadores – Dodô e Osmar. Como diz o release desta produção de Guti, “o disco nem precisa explicação: é o próprio retrato de um fenômeno que reverteu todo o panorama da execução musical nas emissoras de rádio na Bahia”.

 

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Na Bahia, ao contrário do que acontece em Curitiba, há um sadio nacionalismo por parte das emissoras que chegam a programar até 90% de música popular, especialmente carnavalesca. E o Trio Elétrico Dodô e Osmar tem a ver com essa história, pois a grande maioria dos cantores, compositores e músicos baianos que hoje fazem sucesso na Bahia – e muitos em todo o Brasil – iniciou sua formação musical num Trio Elétrico. E praticamente todos os conjuntos musicais baianos que tocam no rádio são ou foram bandas de trios elétricos.

“Aí Eu Liguei O Rádio”, é um disco vibrante, bem ao estilo do trio e do som que hoje se faz na Bahia (e que se procura imitar em outros Estados). Isso fica demonstrado logo na faixa título, no deboche afoxé merengue de Walter Queiroz (já sucesso no Nordeste). Em “Depois Que O Ilê Passar” (Miltão), a marcação das batidas de mão, característica dos afoxés, é feita por guitarras, confirmando a força inovadora do grupo. “Além Mar” (Armandinho, Fred Goés e Beu Machado) e “Arregace A Manga” (Aroldo Macedo/Fred Goés) trazem um ritmo sincopado com pintadas de reggae. A galope, vem “Coração Aceso” (Carlos Moura/Carlos Pita”), outra que deve estar explodindo neste Carnaval. Abrindo o lado B, Moraes Moreira assina “A Vida É Um Pernambuco”, um frevo que une a beleza da letra com o ritmo alucinante e a competência instrumental que consagrou o conjunto. “Brilho Da Cor” (Carlos Moura/Pita) e “Tem Dendê” (Armandinho/Moraes Moreira) são bons exemplos de composições para se ouvir e gostar em qualquer época do ano. Ligeiros sopros de funk e reggae renovam o arranjo de “Cocachabamba” (Aroldo Macedo/Moraes Moreira), agora regravada. “Natal Como Te Amo” (Osmar Macedo) é uma definitiva prova de amor que une o Trio Elétrico Dodô e Osmar e o povo nordestino. Hoje não só o nordestino, mas de todo o País.

Allah-la-ô. A história da marchinha de 1941 que é (muito) tocada até hoje em bailes de carnaval…

Allah-lá-ô, um dos sucessos eternos de marchinhas de carnaval, há mais de 75 anos embala bailes de carnaval pelo Brasil, tem uma receita curiosa, citando Allah, calor, Egito, deserto e “água pra Ioiô e pra Iaiá”.
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Este sucesso improvável, com mais de 50 regravações,  é contado por Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no seu primeiro volume de “A canção no tempo (1901-1957), p. 195-6:
A história de “Alá-lá-ô” começou no carnaval de 1940, quando um bloco do bairro da Gávea cantou nas ruas a marcha “Caravana”, de autoria de seu patrono Haroldo Lobo, que tinha apenas estes versos: “Chegou, chegou a nossa caravana / viemos do deserto / sem pão e sem banana pra comer / o sol estava de amargar / queimava a nossa cara / fazia a gente suar”.

 

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Meses depois, preparando o repertório para o carnaval de 41, Haroldo pediu a Antônio Nássara para completar a composição. Achando a ideia (a caravana, o deserto, o calor…) bem melhor do que os versos, ele logo faria esta segunda parte: “Viemos do Egito / e muitas vezes nós tivemos que rezar / Alá, Alá, Alá, meu bom Alá / mande água pra Ioiô / mande água pra Iaiá / Alá, meu bom Alá”.
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Conta Nássara – em depoimento realizado para o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, em 1983 – que, quando Haroldo tomou conhecimento dos versos, com a palavra “Alá” repetida várias vezes, entusiasmou-se: “Mas que palavra você me arranjou, rapaz!”. E ali, na hora, criou o refrão “Alá-lá-ô, ô-ô-ô ô-ô-ô / mas que calor, ô-ô-ô ô-ô-ô”, ponto alto da composição.

 

Ainda no mesmo depoimento, Nássara ressalta a atuação de Pixinguinha, como arranjador, na gravação inicial: “Era a última sessão de gravação para o carnaval de 41. Se não fosse gravado naquela sessão, só sairia no ano seguinte. Então, corri à casa de Pixinguinha, na rua do Chichorro, no Catumbi. Era um sábado de verão e o maestro, cheio de serviço, estava trabalhando sem camisa, encharcado de suor. Mesmo assim, ele teve a boa vontade de dar prioridade à minha música, começando a fazer imediatamente o arranjo, que ficou uma beleza, com uns três ou quatro enxertos de sua autoria”.

 

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Além da criativa introdução, Pixinguinha soube vestir “Allah-lá-ô” com uma orquestração exemplar, em que mais uma vez utilizou o recurso da modulação na sessão instrumental, que começa e termina com duas brilhantes passagens, primeiro subindo a lá maior e depois retornando a sol maior, tonalidade do cantor. Em 1980, num artigo em Manchete, David Nasser declarou-se autor da letra de “Caravana”, embrião de “Allah-la-ô”.

Você sabe o que é tiete?

Gilberto Gil, por duas vezes, chegou a definir o que é tiete… Ao prefaciar o livro “O país do carnaval elétrico, de Fred de Goes, afirma: “Tiete é uma macaca de auditório emancipada. leva um papo com você na praia, está perto e não tem aquela histeria diante do ídolo inalcançável”

No entanto, a sua melhor versão veio como música., na “Marcha da Tietagem”, gravada por Gilberto Gil, As Frenéticas e o Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar:

Tiete é uma espécie de admirador
Atrás de um bocadinho só do seu amor
Afins de estar pertinho, afins do seu calor

A música homenageia o/a tiete, que segundo o dicionário é um fã, um admirador.

Poucos sabem, na verdade, que a “Tiete” é um neologismo criado pelo grupo de dança e teatro Dzi Croquettes, que se apresentava  vestindo roupas consideradas femininas, utilizando muita maquiagem e purpurina, e que durou de 1972 a 1976.

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Rosemary LOBERT, no trabalho que desenvolveu sobre os Dzi Croquettes em 2010 (A Palavra Mágica: a vida cotidiana dos Dzi Croquettes), dedica um capítulo aos tietes…

De acordo com os integrantes do grupo , Duse Nacaratti, amiga de um deles, teria utilizado o nome de uma colega para definir aqueles “que estão sempre ali para ajudar, para dar um jeitinho, mas no fundo não fazem nada e só atrapalham a gente” (p.173).

O termo foi amplamente utilizado pelos Dzi Croquettes e, em boa parte graças à repercussão da mídia, foi conhecido e empregado de maneira mais ampla. A descrição do termo explicita o seu caráter dicotômico, podendo representar algo negativo (a intromissão), quanto positivo (admiração). Através desta dupla dimensão, Lobert passa à descrição das formas de classificar os tietes, quem eram eles e que tipo de relação se estabelecia entre as partes.

“Os tietes eram em sua maioria jovens que se identificavam com a proposta do grupo e que passaram a acompanhar suas atividades no palco e na vida. Nos espetáculos, os tietes poderiam ser facilmente identificados pelo vestuário inspirado na indumentária dos artistas, pela familiaridade com a peça e pela participação nas cenas. De acordo com Lobert, em cada espetáculo havia de 15 a 20 tietes.

Eles acabavam participando da cotidiana do grupo, praticando pequenas gentilezas, buscando remédios, lanches, resolvendo pendências; atuando em apoio ao espetáculo, colaboravam no financiamento, na maquiagem, retocavam os cenários.

No entanto, os tietes às vezes eram inconvenientes quando impunham presença ostensiva nos ensaios, intrometiam-se em questões internas ao grupo e exigiam vantagens.

Assim como os músicos alimentam as fantasias dos tietes, os tietes alimentam também a existência dos músicos. É um tipo especial de público, que conhece às vezes mais a história do artista do que ele mesmo. Mas não há tantas músicas assim homenageando esse tipo especial de admirador.

E a expressão veio com a Marcha da Tietagem, com uma letra curta, simples e alegre, que fala do tiete admirador, que quer um pouquinho, um pedacinho do ídolo, de se sentir próximo do artista e esta proximidade é que faz o tiete especial (quando, na verdade, se o tiete soubesse que muitas vezes o artista se torna especial port causa de sua existência).

A música segue dizendo que o tiete segue o ídolo como um vassalo, um discípulo, um seguidor, “Pro mato, pro motel, de moto ou de metrô”, e que é bom viver a história platônica da tietagem, de um amor inatingível, mas que sonha ascender para “alcançar o nível do paladar” do artista. Que muitas vezes prova…

Hoje eu sou o seu tiete
Às suas ordens, ao seu inteiro dispor
De imediato aonde você for eu vou
No ato, no ato
Pro mato, pro motel, de moto ou de metrô
Tititititi
Como é bom tietar
Seu amor inatingível
Tititititi
E se você deixar
Eu farei todo o possível
Pra alcançar o nível do seu paladar

E a palavra se incorporou de vez na década de 80, quando o Chiclete com Banana gravou “Tiete do Chiclete”, também conhecida como “Maluquete 2”, em que se cantava

“Maluquete, de quem você é Tiete? Eu Sou, sou tiete do Chiclete”

Fontes:

LOBERT, Rosemary. 2010. A Palavra Mágica: a vida cotidiana dos Dzi Croquettes. Campinas: Editora Unicamp. 296p.

Paula Lacerda Doutoranda em Antropologia Social – Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil. lacerdapaula@gmail.com

De Goes, Fred, O brasil do carnaval elétrico

Assim Pintou Moçambique – O elo “encontrado” entre a música do trio e a música afro.

 

Um dos maiores desafios da ciência é buscar a descoberta do chamado “elo perdido”, isto é, encontrar vestígios daquele que representou a transição entre primatas e a primeira linhagem do Homem…

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Quando se conta a história do carnaval da Bahia, faz-se referência inicial ao nascimento do trio elétrico e aos frevos pernambucanos que eram eletrificados por Dodô e Osmar; conta-se também a influência de Orlando Tapajós e a Caetanave. Mas existe a busca do “elo perdido” entre a música do trio e a música afro… qual seria a música que traria essa primeira fusão entre afro e trio elétrico?

 

Nesse caso, não é muito difícil de encontrá-lo, e suas raízes estão numa música de Moraes Moreira, e letra de Antonio Risério: Assim Pintou Moçambique. 

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Moraes Moreira, no seu livro “Sonhos Elétricos”, conta um pouquinho da história da canção, nascida no ano de 1979:

“Naquele verão eu estava de férias com toda família em Salvador. Aluguei uma casa no alto de Amaralina, que apesar de simples era aconchegante e podíamos ali receber os amigos. Risério era um dos mais assíduos frequentadores. 

O nosso dia era cheio. Na parte da manhã, a praia; a tarde era dedicada à música e à noite íamos todos para os ensaios dos blocos. O Badauê, um dos nossos preferidos, se consagrava como a grande sensação do momento. Era maravilhoso constatar como aquelas entidades já iam tomando seus lugares, exibindo com toda força e beleza sua cultura, a sua música, a sua dança, enfim, reafirmando as suas verdadeiras raízes ancestrais. 

Queríamos, de alguma maneira, incorporar aqueles elementos à nossa poesia, à nossa música. Em suas letras, Risério foi fazendo isso com grande sabedoria, enquanto eu, por outro lado, buscava enlouquecido traduzir musicalmente esse sentimento, tocando sem parar por horas e horas a fio. Foi assim que um dia me peguei fazendo uma batida diferente. Era uma coisa tão nova que tive medo de perdê-la. Tratei então de repetindo-a e para todos que chegavam mostrava feliz: ‘Olha o que achei! Olha o que achei!’. Tive certeza que aquela levada era uma síntese, uma mistura da música branca do trio Elétrico com a música preta dos blocos afro da Bahia.”

Antonio Risério, no seu livro Carnaval Ijexá, de 1981, relata a importância da canção Assim Pintou Moçambique…

“Foi Moraes Moreira o responsável pela introdução do ijexá no trio elétrico, com a música “Assim Pintou Moçambique”(Moraes-Risério). O que Moraes fez, em “Moçambique”, foi descobrir um caminho rítmico, uma batida que, estilizando o ijexá, pôde transportá-lo para as cordas do ovation.

E ele tinha perfeita consciência da novidade do lance, muito bem esclarecida, aliás, por Caetano Veloso: “Esse toque de violão de Moraes Moreira, de ijexá. O modo como ele estilizou o ijexá pro violão e fez essas composições, que agora o Armandinho está fazendo com “Zanzibar”, eu acho isso um acontecimento importante na transa de música popular no Brasil. (…)  Eu me impressiono muito, eu adoro essas coisas, o jeito de Moreira puxar doxé-cum-xé, doxé-cum-xé. Ele faz lindo, aquilo é lindo… quando ele toca essas músicas, ‘Moçambique’no ano passado aqui, quando ele começou a fazer esse tipo de ritmo no violão, eu disse: ‘porra, foi descoberto todo um continente’, entendeu?, que é óbvio, mas é o ovo de Colombo. Sempre o importante é o óbvio, né?”

 

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Enfim, o som dos afoxés chegou em cima do trio. E a música e o carnaval da Bahia jamais foram os mesmos. Em entrevista concedida à Ana Maria Baiana e publicada no Jornal O Globo, Moraes tratou desta nova linha ritmica:

“Foi uma coisa meio por acaso, que veio da observação constante do carnaval baiano, que sempre me interessou. Você vê que no carnaval da Bahia convivem lado a lado as mais diversas formas musicais: tem trio elétrico, que é frevo e marcha, tem afoxé, que é a coisa africana mais profunda, tem todo tipo de samba…Aí um dia, nesse carnaval agora, eu me peguei fazendo uma batida no violão, que era assim, meio trio elétrico, meio candomblé, uma espécie de síntese de sons do carnaval da Bahia. E eu vi, inclusive, que isso era uma coisa tão fácil e natural em mim que topdas as minhas músicas poderiam ser cantadas desse jeito…

O fato é que a mistura dos tambores e o som trieletrizado foi ganhando força na década de 80, e o resto é história… 

sábado 24 setembro 2011 16:33 , em Carnaval

Taí. O primeiro sucesso de Carmen Miranda

 

Pensar que o autor do primeiro grande sucesso de Carmen Miranda foi Joubert de Carvalho já parece imporovável. Joubert não era compositor de marchinhas carnavalescas, tanto que a sua segunda música mais conhecida, é “Maringá”, música que, inclusive, deu origem à cidade paranaense de mesmo nome.

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A composição mais conhecida de Joubert, no entanto, ficou conhecida não pelo seu título original “Pra você gostar de mim”, mas como o simples e indefectífel “Taí”, de 1930. Ainda hoje, mais de 80 anos após a primeira gravação, se alguém lançar a primeira palavra da canção, “Taí“, vem imediatamente “eu fiz tudo pra você gostar de mim/ai meu deus não faz assim comigo não/você tem, você tem que me dar seu coração

E Taí foi feito sob encomenda para Carmen Miranda. Segundo relata Ruy Castro, na biografia que escreveu sobre a cantora(Cia das Letras, 2005), Joubert passava pela rua quando o Sr. Abreu, gerente da loja “A Melodia”, o chamara com o intuito de fazê-lo ouvir um disco que acabara de sair. A canção era “Triste Jandaia”, da então desconhecida Carmen Miranda. Depois de tocar o disco várias vezes, não é que a própria Carmen, em pessoa, aparece na loja? Quando Abreu exclama: “Taí a nova cantora!”.

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Apresentados, Joubert falou de seu interesse em compor algo para Carmen, que prontamente lhe deu o endereço.

Joubert saiu da loja com uma palavra – “Taí” – e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do comércio.

Nas palavras do próprio Joubert, no vídeo que acompanha esta postagem:

 

Eu passava pela Rua do ouvidor ali tinha uma casa de música e melodias e o gerente da casa chamou-me e disse Joubert venha ouvir uma cantora nova aqui; ele botou então um disco da Carmen, eu não sabia quem era, eu notei que havia presença no disco, e eu disse:

– Olha, Abreu eu gostaria de fazer uma música para essa cantora, ela interpreta miuito bem.

– Ué, isso é fácil!

– Onde é que ela mora?

– Ela costuma vir aqui de vez em quando, mas eu falo ela deixa o endereço.

De repente ele (Abreu) disse assim:

– Taí, ó, ela tai chegando.

Eu não sei, aquele tai ficou na minha cabeça e no dia seguinte eu levava para ela a música…  

Imagem relacionadaCarmen Miranda

 

Relata Ruy Castro, no seu livro, que Carmen a aprendeu a música prontamente, e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

“Não precisa me ensinar, não, que na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.”

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

“Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!”

Tudo isso ocorreu no começo de 1930, e a música Taí tornou-se não apenas um grande sucesso daquele ano, mas também do carnaval seguinte. Foi a música que tornou Carmen Miranda conhecida nacionalmente. O resto é história.

Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh! meu bem, não faz assim comigo não!
Você tem, você tem que me dar seu coração!

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
eu não pensaria mais no amor

sábado 02 junho 2012 13:31 , em Clássicos da Música Brasileira