Taí. O primeiro sucesso de Carmen Miranda

 

Pensar que o autor do primeiro grande sucesso de Carmen Miranda foi Joubert de Carvalho já parece imporovável. Joubert não era compositor de marchinhas carnavalescas, tanto que a sua segunda música mais conhecida, é “Maringá”, música que, inclusive, deu origem à cidade paranaense de mesmo nome.

Resultado de imagem para joubert de carvalhoJoubert de Carvalho

A composição mais conhecida de Joubert, no entanto, ficou conhecida não pelo seu título original “Pra você gostar de mim”, mas como o simples e indefectífel “Taí”, de 1930. Ainda hoje, mais de 80 anos após a primeira gravação, se alguém lançar a primeira palavra da canção, “Taí“, vem imediatamente “eu fiz tudo pra você gostar de mim/ai meu deus não faz assim comigo não/você tem, você tem que me dar seu coração

E Taí foi feito sob encomenda para Carmen Miranda. Segundo relata Ruy Castro, na biografia que escreveu sobre a cantora(Cia das Letras, 2005), Joubert passava pela rua quando o Sr. Abreu, gerente da loja “A Melodia”, o chamara com o intuito de fazê-lo ouvir um disco que acabara de sair. A canção era “Triste Jandaia”, da então desconhecida Carmen Miranda. Depois de tocar o disco várias vezes, não é que a própria Carmen, em pessoa, aparece na loja? Quando Abreu exclama: “Taí a nova cantora!”.

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Apresentados, Joubert falou de seu interesse em compor algo para Carmen, que prontamente lhe deu o endereço.

Joubert saiu da loja com uma palavra – “Taí” – e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do comércio.

Nas palavras do próprio Joubert, no vídeo que acompanha esta postagem:

 

Eu passava pela Rua do ouvidor ali tinha uma casa de música e melodias e o gerente da casa chamou-me e disse Joubert venha ouvir uma cantora nova aqui; ele botou então um disco da Carmen, eu não sabia quem era, eu notei que havia presença no disco, e eu disse:

– Olha, Abreu eu gostaria de fazer uma música para essa cantora, ela interpreta miuito bem.

– Ué, isso é fácil!

– Onde é que ela mora?

– Ela costuma vir aqui de vez em quando, mas eu falo ela deixa o endereço.

De repente ele (Abreu) disse assim:

– Taí, ó, ela tai chegando.

Eu não sei, aquele tai ficou na minha cabeça e no dia seguinte eu levava para ela a música…  

Imagem relacionadaCarmen Miranda

 

Relata Ruy Castro, no seu livro, que Carmen a aprendeu a música prontamente, e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

“Não precisa me ensinar, não, que na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.”

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

“Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!”

Tudo isso ocorreu no começo de 1930, e a música Taí tornou-se não apenas um grande sucesso daquele ano, mas também do carnaval seguinte. Foi a música que tornou Carmen Miranda conhecida nacionalmente. O resto é história.

Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh! meu bem, não faz assim comigo não!
Você tem, você tem que me dar seu coração!

Meu amor, não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim

Essa história de gostar de alguém
já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
eu não pensaria mais no amor

sábado 02 junho 2012 13:31 , em Clássicos da Música Brasileira

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10 coisas dos carnavais de 25 anos atrás que não se vê hoje. E uma crônica saudosista…

 

Sempre achamos que “nossa” época é melhor do que a época dos outros. Nossa infância foi mais infância, nossa juventude era mais excitante, nossas experiências, mais enriquecedoras, enfim, que vivíamos num mundo melhor.

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Carnaval no Campo Grande

Talvez seja uma visão nostálgica, na qual nós nos esquecíamos das dificuldades e das coisas desagradáveis que aconteciam. Isso vale para tudo, inclusive para o carnaval. Aí me deparei com uma postagem de Fabio Gagliano, de 2012, com um certo saudosismo do carnaval, cuja postagem vem a seguir. Ele relata com saudosismo um carnaval que não volta atrás. E elege como símbolo do carnaval a mamãe-sacode. O que tinha esse carnaval que acabou no século passado?

 

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1) O bloco era mais importante que o artista. Cada pessoa era associado de um bloco, o “seu” bloco de carnaval. Cada bloco tinha sua característica, seu público. 

2) A vestimenta era mortalha (que durava os 3 dias), apenas em meados da década de 90 vieram o abadá (com o Eva) e com 1 abadá por dia (Com o cheiro);

3) O kit dos blocos incluía mortalha, boné, mamãe-sacode, faixa, adesivo para colocar no carro, e às vezes uma munhequeira para enxugar o suor (há quem usasse para outros fins);

4) No começo do verão todo mundo já conhecia a música dos artistas de seu bloco;

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5) Havia a maior concorrência pelo lugar na fila na avenida; o circuito Barra-Ondina era chamado de circuito alternativo. Quase não passavam trios por lá.

6) Camarote? No máximo as arquibancadas no Campo Grande e a pipoca vendo os blocos passarem na Casa D’Itália.

7)  Na terça-feira, ou os trios desciam para o Farol da Barra, ou iam para o encontro de Trios na Praça Castro Alves;

8)  O carnaval começava na quarta-feira com a Lavagem do Porto da Barra.

9) Ainda havia bailes de carnaval nos clubes. O mais famoso era o Branco e Preto, que ocorria no Baiano de Tênis, mas também tinham Bailes na Associação Atlética e no Clube Espanhol;

10) O auge do desfile é quando os blocos passavam pelo Campo Grande, os puxadores de trio pediam para os foliões levantarem a mamãe-sacode.

 

Obviamente, quem viveu aquele carnaval dificilmente achará divertido um carnaval de camarote. O carnaval de hoje é muito diferente daquele que se praticava há 15, 20 anos.

A questão é: será que era efetivamente melhor? Aquele carnaval não voltará mais, e se esse carnaval de hoje está longe do ideal, é certo de que ele jamais voltará a ser o que já foi um dia. Cada carnaval reflete um pouco de uma época e de uma geração, E não há indícios de que o carnaval de amanhã vai ser m,ais parecido com o carnaval de ontem. Que era espetacular, inesquecível, mas era o carnaval de ontem.

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O importante é reencontrar nas pessoas o brilho e a alegria de fazer parte de uma festa única. E que seja possível encontrar muitos carnavais em um só. O de ontem, hoje e amanhã. E vejo todo mundo nas ruas, por muito mais do que uma semana.

Vejo trios e fanfarras. Vejo fantasias nas ruas. Vejo carnavais no centro histórico, tem de tudo, mas ainda estão no carnaval o samba, os tambores e a guitarra elétrica, tripé que deu base àquilo que chamamos de axé.

O modelo de blocos com milhares de pessoas vai se esgotando, mas os  pequenos bloquinhos que vão pra rua ainda estão lá. Os trios pipoca ainda estão lá, como, há 40 anos, eram Armandinho, Dodô & Osmar (com Moraes Moreira) e o Trio Tapajós. Dá até vontade de sair na rua, fantasiado de folião anos 90 com mamãe-sacode.

Parece que o carnaval da Bahia continua sendo uma metamorfose muito maior do que em qualquer outro lugar. Se um sujeito fosse congelado há 30 anos e acordasse hoje, no século XXI, e visse o carnaval do Rio ou de Olinda, ainda reconheceria aquele espaço de 30 anos. Na Bahia é um pouco diferente. Muita coisa muda. Há espaço para a tradição? Claro! Mas na Bahia nenhuma tradição carnavalesca sobrevive se não houver um sentido, e este sentido está na existência de pessoas pulando e cantando na rua. E que viva o samba, os tambores e a guitarra elétrica…

 

Segue abaixo a crônica que me referi.

 

Roubaram meu Mamãe-Sacode

 

(SALVADOR – Eu quero muito mais que o som da marcha lenta) – Chegou fevereiro. Chegou o Carnaval. E o Carnaval, na Bahia, me leva à infância. Me leva a imagens, sons e sentidos que marcam a minha essência.

Nasci e cresci na Rua da Mouraria, bem próximo à sede do bloco “Os Internacionais”. Acompanhava a elaboração dos figurinos, a escolha da fantasia. Via de perto o nascimento de cada peça, com as costureiras que, incansavelmente, trabalhavam lá, onde morávamos, no seu andar térreo. Estive ao lado da concentração onde o maestro Reginaldo “Bigodão” comandava uma banda de músicos de “não-sei-quantos” homens para sair da Mouraria e conduzir Os Internacionais rumo ao seu desfile. Instrumentos de sopro em cima do caminhão. Instrumentos de percussão ao chão.

Cresci utilizando cada uma das fantasias do bloco, e me apaixonei com a paixão de meu pai, louco por Carnaval mas, principalmente, para “ver o bloco na rua”. Chorei com a sua emoção que derramava lágrimas ao avistar, de longe, o bloco despontando na Avenida com seus 1.500 integrantes e suas alegorias de mão abrindo alas para um espetáculo belíssimo e inesquecível. Angustiava-me com a sua eterna angústia que, ao perceber que o seu bloco estava perfeito, iniciava a torcida para que tudo logo acabasse, sem problemas, sem percalços, sem confusão. O ato de colocar o bloco na rua era a sua paixão, o seu ideal. A percepção, à quarta-feira de cinzas, de não ter havido contratempos, coroava o seu carnaval e alavancava a preparação do ano seguinte.

Em paralelo, via de perto o Cheiro de Amor exalando sua fragrância na Avenida e usando um macacão por 3 dias consecutivos. Imaginem como se encontrava o mesmo no último dia de carnaval, posto que era impossível lavar e secar tal tipo de tecido de um dia para o outro. Vi o Camaleão de Luís Caldas, o Crocodilo do Asa de Águia, o Eva de Ricardo Chaves. Vi as mortalhas invadirem multicoloridas as Avenidas do Centro de Salvador. Vi, ainda os blocos subirem até a Sé, pararem para um leve descanso e descerem para a Carlos Gomes via Praça Castro Alves quando, não raro, encontravam outro bloco em sentido inverso. Me desesperei quando o trio dos Comanches perdeu seus freios na descida da Sé matando inúmeros foliões e gerando o pânico na praça do poeta.

Enquanto isso, saía no Domingo e na Terça fantasiado de romano, marajá, gondoleiro, pierrot, chinês, imperador inca, príncipe, pirata, dentre outros. Isso nos Internacionais, onde os homens estavam dentro das cordas e as mulheres compunham o séquito no lado de fora.

No Sábado e na Segunda, a coisa mudava de figura. A família inteira estava reunida no “Eu e Ela”, utilizando-se de mortalhas e, assim como em “Os Internacionais”, a condução era realizada pela grande banda Chiclete com Banana. Os foliões dançavam, brincavam, curtiam, namoravam, bebiam. Eu estava vendo o Carnaval sendo feito e utilizado pelas mesmas pessoas. O organizador era folião. O ambulante, idem. O cantor, também. O radialista, igualmente. Bem como os artistas, intelectuais, políticos e todos os segmentos sociais.

Apesar de muito pequeno, vivi tudo muito de perto. Minhas primeiras imagens da infância me remetem à rotina matutina da organização carnavalesca, com a chegada do trio, a preparação das cordas, o teste do som, a dinâmica dos caminhões com os “engradados de cerveja” abastecendo os bares e ambulantes na área do quartel dos Aflitos, o mamãe-sacode empunhado com orgulho…

Ah…. os Mamães-Sacode… Esses eram, talvez, as maiores referências do Carnaval da Bahia. Compunham elementos de estética visual indescritíveis que, ao serem atiçados conjuntamente ao ar davam, ao espectador, uma visão sublime, que demonstrava indelevelmente o fracasso ou o sucesso do artista de trio, do puxador de bloco.

O bloco Tiete Vips, popularíssimo, através do saudoso Val Valle e da Banda Tiete Vips nos brindavam com um espetáculo deslumbrante ao adentrar a área do palanque do Campo Grande. Quem não lembra do famoso grito de guerra: “Tiete Vips chegoooooou, ê aê aô”.

Vi o Frenesi de Adhemar e Banda Furta Cor. Vi, ainda, a deslumbrante Banda Mel com o seu Prefixo de Verão e a sua Baianidade Nagô. Acompanhei a Reflexus com o seu Madagascar Olodum e o Canto para o Senegal.

Acompanhei os “gênios” do carnaval baiano que, sob a aura da modernidade, extirparam a nossa mais pura cultura. Os magos criadores do abadá e carrascos das fantasias e mortalhas. Não há mais alegorias de mão. Não há mais a alegria do mamãe-sacode eclodindo no ar das ruas centrais de Salvador. Criaram o circuito alternativo na Barra e desterraram a Avenida. A partir do momento em que ficaram de um lado os criadores e, do outro, os foliões, o Carnaval da Bahia passou a ser um espetáculo midiático, de compra e venda de pacotes publicitários, perdendo toda a sua verdadeira essência. Os camarotes são excrescências deste processo, onde se ouve 90% de música eletrônica e, muito raramente, surge alguém que recorda estar no Carnaval da Bahia e vai dar uma espiadinha no trio que está a passar.

Há alguns anos, acreditem, fiz a bobagem de  participar de um bloco puxado pelo tal do Tuca Fernandes, o bloco Eu Vou. A cena que presenciei era dantesca. Inúmeros adolescentes não estavam nem um pouco interessados em dançar, pular, brincar. Era uma sequência tão bizarra quanto assustadora. Parecia um filme de zumbis, ou mesmo o seriado “The Walking Dead”. Adolescentes totalmente dopados, olhos vermelhos, bocas abertas, babando e procurando outras bocas para consumar um ato que, em nada, se lembra ao clássico beijo de carnaval. Nem Kubrick poderia descrever um cenário tão aterrador.

Arlequim morreu. Colombina se prostituiu. Pierrô abriu uma seita fanática religiosa. O folião não quer mais folia. O cantor não quer saber do folião, e sim da mídia. Ninguém agita mais ninguém para que o seu bloco seja o mais animado da Avenida. O cantor só faz cena para aparecer nas telinhas da Band Folia ou atrasa a apresentação para entrar ao vivo no Jornal Nacional.

Queimaram a fantasia. Extirparam a magia. Roubaram, enfim, o meu mamãe-sacode.

  http://cronicativa.blogspot.com/2012/02/roubaram-meu-mamae-sacode.html

 

“Olhos negros, cruéis tentadores…”

 

Pouca gente sabe, mas a letra de uma das mais famosas músicas de carnaval da Bahia não foi escrita por um baiano. “Chão da praça” tem a música de Moraes Moreira (baiano de Ituaçu), mas a letra é de um cearense, Fausto Nilo. Moraes Moreira, no seu livro “Sonhos Elétricos” (Azougue Editorial), conta como foi a composição desta música:

 

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“Liguei para Fausto, dizendo que tinha uma ideia para uma nova música. Ele me disse do outro lado que também tinha uma nova letra, então marcamos o encontro. Para a nossa alegria e espanto, música e letra foram se encaixando de maneira tal que, dentro de pouco tempo, já tínhamos pronto um frevo de quatro partes que até nos pareceu grande, mas diante da fluência que se dava entre elas deixamos rolar e tudo aconteceu. Era na verdade uma grande homenagem à praça do Poeta, que já vinha sendo referenciada também por outros artistas.”

O toque oriental que havia na composição foi realçado no arranjo e principalmente pela guitarra baiana de Armandinho que detonava o som. Foi assim, misturando oriente e ocidente, dor e prazer, pranto e alegria, que balançamos literalmente o “Chão da Praça”.

 

Fausto Nilo, numa entrevista, contou como ele, anônimo, foi atrás de sua própria música no carnaval:

 “Cheguei a Salvador na sexta-feira de carnaval, fiquei no hotel São Bento, perto da praça Castro Alves. Meu quarto era de frente para a rua. Eu estava sonhando que estava na Bahia com um carnaval qualquer passando com a minha música. Quando acordei, era realidade. Saí de chinelo e bermuda, era uma caminhonetezinha do subúrbio, com alto-falantes. Fui atrás da minha música”.

 A música Chão da Praça é um dos hinos do carnaval da Bahia. Certamente daqui a 50 anos ainda as pessoas vão vibrar na Bahia quando alguém entoar “Olhos negros, cruéis, tentadores, das multidões sem cantor”…

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Há uma série de referências. Primeiro, às “multidões sem cantor”, quando não havia cantores nos trios elétricos (e vindo ser Moraes Moreira o primeiro deles). A referência a um passado de baile de fantasias (eu era menino, beduíno), e as relações entre a dor que balança e a dança que substitui a dor, “porque já todo pranto rolou”.

Fred de Goes afirma em seu livro “O país do carnaval elétrico”, que as “multidões em cantor” seriam uma homenagem a Orlando Silva, também conhecido como cantor das multidões, falecido em 1978.

Moraes já disse que seu propósito era fazer músicas de carnaval daquelas que se cantam para sempre, como as marchinhas dos dois primeiros terços do século passado. Ele conseguiu. A letra de chão da praça entoa, como diz Moraes, Oriente e Ocidente, dor e prazer, e a grande sensação de ver a praça tremer…

Fontes: MOREIRA, Moraes. Sonhos Elétricos, Saalvador: Azougue Editorial, 2010

http://www.revistaforum.com.br/noticias/2011/01/17/os_dois_lados_do_espelho/

O cordão dos puxa-saco

 

Em 1945, fazia sucesso no Brasil uma marchinha de carnaval, de autoria de Roberto Martins e Erastótenes Frazão e gravada pelo conjunto “Anjos do Inferno”. A música se chamava “O cordão dos puxa-saco”. No início da letra, chegam a mencionar uma música de 1909, chamada “No bico da chaleira”, também em homenagem ao tema “puxa-saquismo”.

 

Vamos voltar no tempo e analisar esta crônica que parece eterna dos costumes brasileiros. O hábito de bajular os poderosos já era uma realidade no Brasil. Segundo o sítio digital recanto das letras, o general José Gomes Pinheiro Machado, senador pelo Rio Grande do Sul, presidente do Partido Republicano Conservador, era um homem forte do Legislativo brasileiro e por 20 anos, entre 1895 e 1915, exercendo grande influência sobretudo no governo de Afonso Pena (1906-1909), Nilo Peçanha (1909-1910) e Hermes da Fonseca (1910-1914).

Consta que o senador mantinha no seu gabinete  uma pequena chaleira com água quente para alimentar sua bomba do chimarrão. Quando políticos iam visitá-lo, disputavam o privilégio de segurar a chaleira para o chimarrão que o caudilho tomava, poupando ao senador o trabalho de preparar ou servir sua bebida preferida.

Na ânsia de serem os primeiros, seguravam a chaleira por onde melhor calhasse: pelo cabo, pelo bojo e até pelo bico – amiúde queimavam os dedos. Tudo para cair nos favores do senador.

O hábito acabou gerando o verbo chaleirar, praticado pelo chaleirador, o adulador, puxa-saco, etc. Isto dito da moda deu ensejo ao surgimento de uma canção carnavalesca da autoria de um famoso mestre de bandas que se ocultava sob o pseudônimo de Juca Storoni e foi o maior sucesso do Carnaval de 1909.

Senador José Gomes Pinheiro Machado

Iaiá me deixe subir esta ladeira,
Que eu sou do grupo do pega na chaleira,
Iaiá me deixe subir esta ladeira,
Que eu sou do grupo do pega na chaleira.

Na casa do Seu Tomaz/Quem grita é que manda mais

Que vem de lá,
Bela Iaiá,
Ó abre alas,
Que eu quero passar,
Sou Democrata,
Águia de Prata,
Vem cá mulata,
Que me faz chorar…

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Já em 1945,  depois do fim da ditadura e do Estado Novo, houve uma maior abertura em relação às letras de músicas, controladas e censuradas pelo então departamento de censura da época, o DIP.

O Cordão dos Puxa-saco, então, fazendo expressa referência à canção de 1909, tem como mote a crítica àqueles que bajulam os homens políticos e públicos, ou seja, os famosos puxa-sacos.

“Vossa Excelência / Vossa Eminência /Quanta referência nos cordões eleitorais!”.

E fica bem clara a hipocrisia quando se diz: “Mas se o “Doutor” cai do galho e vai pro chão/ A turma logo evolui de opinião”, mostrando que os bajuladores mudam logo de opinião a cada pleito eleitoral.

Na letra, conta-se e critica-se as homenagens e as circunstâncias, o apego ao poder e não ás pessoas, e o caráter volátil dos “puxa-saco” que evoluem de opinião sempre que há uma mudança do poder. Continua … muito atual…Segue a letra.

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Iaiá me deixa subir essa ladeira

Que eu sou do bloco

Mas não pego na chaleira

Lá vem

O cordão dos puxa-saco

Dando vivas aos seus maiorais

Quem está na frente

É passado pra trás

E o cordão dos puxa-saco

Cada vez aumenta mais

Vossa Excelência

Vossa Eminência

Quanta reverência

Nos cordões eleitorais

Mas se o “doutor”

Cai do galho e vai ao chão

A turma toda evolui de opinião

E o cordão dos puxa-saco

Cada vez aumenta mais

 

Fontes: http://br.oocities.com/musicaschiado/Nobicodachaleira.htm;

Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira. Ed. Paracatu, 2006.

http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/4575532

terça 06 abril 2010 22:02 , em Clássicos da Música Brasileira

A volta de Netinho ao carnaval da Bahia

Quando anunciaram que Netinho estaria de volta ao carnaval da Bahia, ainda que fosse num camarote, e não num trio elétrico, muito se especulou.

Chegaram a dizer que ele não iria, ou que cantaria apenas 2 ou 3 músicas.

Ledo engano.

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Um dos maiores puxadores de trio de todos os tempos estava lá. Depois de 5 anos, um avc, ficar entre a vida e a morte.

No camarote do Nana.

Sábado de carnaval, 2017.

Muitos só foram lá por causa dele. Outros, só conheciam “Mila” do seu repertório. Pouco importa. Ele conquistou e reconquistou a todos, com positividade, com alegria, com emoção.

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Netinho não estava mais como o “malhado” do final dos anos 90. Estava de turbante, bermuda, colete, um colar vermelho no pescoço e descalço. Disse que iria fazer uma viagem musical pelos anos 90, época de alegria, de positividade…

Começou cantando “Preciso de você”, certamente não por acaso.

A todo tempo, ressaltava a alegria de estar ali. Não tinha a mesma mobilidade. Se apoiava para dar algum pulo. Pediu para diminuir a iluminação porque deixava ele tonto.

Depois de umas poucas canções, chamou ao palco o médico médico Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês. Chorando, agradeceu o dom de viver.  Agradeceu a Douglas, seu fonoaudiólogo que recuperou sua voz.

“Em 2013, fui dado como morto em Salvador e em São Paulo uma pessoa me curou. Quem acredita em Deus sabe da força que ele tem. Deus esteve comigo o tempo todo”.

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E tocou o repertório completo. Tocou alguns de seus maiores sucessos desde a Banda Beijo, como “Beijo na Boca”, “Jeito Diferente”, “Barracos”, “A vida é festa”, “Capricho dos Deuses”, “Fim de semana”.

Ao puxar “Estrela Primeira”, disse que só quem pulou carnaval de mortalha, na Avenida, saberia o significado daquilo tudo.

Às vezes, sentava no chão, num banquinho, mas estava firme. Quando tocou a música de Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, chorou muito. Muito emocionado, agradeceu. Mas não foi apenas um show comovente, Teve pouco papo e muito som.  Prometeu estar em cima do trio no ano que vem.

E no final, pediu que todos abrissem os braços e dissessem “obrigado”. Obrigado a você, Netinho, protagonista da história do Carnaval da Bahia. Quem já pulou nos Blocos Beijo e Pinel sabe bem disso. Vida longa e muitas canções para Netinho. Fechando esse mês de postagens carnavalescas….

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Não teve rock doido….

“A banda do Pelô, arrasou no carnaval….”

A partir da segunda metade dos anos 80, uma certa revolução aconteceu na Bahia, Surgiu o samba-reggae, que aliou a tradição do trio elétrico com os tambores afro-brasileiros.

Era comum ver, do Bonfim ao Rio Vermelho, do Cabula a Itapuã, pessoas trazendo instrumentos como timbales, repeniques, enfim, uma onda percussiva que permitia vislumbrar, em cada canto de Salvador, um canto percussivo que conferia uma sensação de pertencimento a uma coisa nova que surgia.

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A música que passou a ser dominada “axé” não seria a mesma, contudo, sem o Olodum. O “Fricote” que surgiu com Luiz Caldas, em 1985, inspirado, pode-se dizer, em “Assim pintou Moçambique”, de Moraes Moreira, já flertava entre o som do Trio elétrico e a pegada percussiva dos blocos afro em Salvador.

Mas, em 1987, veio “Deuses, Cultura Egípcia, Olodum” conhecida como “Faraó”. No fim do ano, veio Gerônimo, com “Eu sou Negão”, e a música afro passou a ser incorporada no Trio Elétrico.

Surgia uma música de entretenimento, alegre, mas que manifestava uma identidade, e a assunção do orgulho da Bahia como cidade negra. E nessa década o Olodum tinha protagonismo.

E nisso destaco a música “Olodum, a Banda do Pelô”, de Jaguaracy Esseerre, que louvava justamente o sucesso “da Banda do Pelô” no Carnaval, seu reggae maneiro fazia com que o “rock doido” fosse desnecessário, o que prevalecia era a “levada de quintal”.

Gravada em no disco Núbia, Axum, Etiópia (1988), ela exaltava a alegria em que todos os baianos eram negros e cantavam, “Olodum sou eu”

A alegria e a jovialidade da música fazia com que, em cada roda de sambão, em cada “lavagem” fora de época que acontecia em Salvador, ao ser puxada a primeira estrofe, todos acompanhavam…

A banda do pelô,

Arrasou no carnaval

Com seu reggae maneiro,
O swing foi legal
Não teve rock doido,
Só levada de quintal

Aiê iê, Oiô
Arerê, qui oiôo
Os tambores rufavam
E os negros clamavam
Olodum sou eu
Embaixo, em cima
Na tres e na dois
No samba do samba
Abalando a terra, E depois
Até o infinito se foi
Zina ziná zinaê
Zira zirá quilelé