Vinícius de Moraes no “Esta noite se Improvisa”: A “garota” que não existe na Garota de Ipanema

Na década de 60, havia um programa musical que fez história e inspirou muitos programas nos anos seguintes (Silvio Santos que o diga). O nome era “Esta Noite se improvisa”, na qual os concorrentes, todos eles artistas, testavam seus conhecimentos musicais.

O jogo consistia em ser anunciada uma palavra e o participante que soubesse uma letra de música com a palavra em referência, apertava um botão à sua frente e corria até o microfone para cantar um trecho da música que contivesse a palavra. Caso acertasse, acumularia pontos que poderiam ser trocados por prêmios, que podiam chegar até a um automóvel Gordini.

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Grandes artistas  participavam do programa, sendo Caetano Veloso e Chico Buarque os competidores mais competentes. (Conta a lenda que Chico Buarque, num desses programas, inventou uma letra e melodia na hora).

Assim Blota Jr. anunciava:  “A palavra é…”.

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Vinícius de Moraes não era muito bom nesse programa, não por falta de cultura musical, óbvio, mas por não ser suficientemente ágil para apertar o botão.

Só que, como narra Humberto Werneck em seu Gol de Letras (Cia das Letras, 1989), certa vez Blota Jr. teria anunciado:
– A palavra é… “garota”.

Desta vez Vinícius de Moraes não perdeu tempo: pressionou o botão, dirigiu-se sorridente ao microfone, e começou a cantar sua bela parceria com Tom Jobim: “Garota de Ipanema”.

No entanto, um detalhe: na letra de “Garota de Ipanema” não existe a palavra “garota”… e, ao contrário daquela que passava cheia de graça e inspirava a canção, Vinícius retornou a seu posto, completamente sem graça.

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Para quem não se lembra, olha aqui a letra de um dos maiores clássicos da música brasileira:

Garota de Ipanema – 1962
Composição: Vinícius de Moraes / António Carlos Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Fonte: Gol de Letras, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1989).

quarta 22 dezembro 2010 08:45 , em Bossa Nova

 

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Na tonga da mironga do Kabuletê

Começo da década de 70. Vinícius de Moraes iniciava sua parceria com Toquinho, morava em Salvador e era há pouco casado com a baiana Gessy Gesse.

O Brasil está naquela fase do “Pra Frente Brasil”. De um lado, o chamado “Milagre econômico”. De outro, censura, ditadura, repressão.

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Vinícius, ateu “graças a Deus”, se aproxima do candomblé, seguia uma vida sem muitas regras. Um dia, estava em casa com Toquinho, quando Gesse entra pela porta e grita: “Na songa da mironga do Kabuletê!”, afirmando que se tratava de um xingamento que ela ouvira no Mercado Modelo.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves, para a apresentação oficial da dupla.

Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.

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E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Assim, mudaram “songa” por “tonga” e Vinícius mandou todo mundo à “Tonga da Mironga do Kabuletê”.

Mas o que significa?

Segundo o livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia (Cia das letras, 1994), significava “pelo do cu da mãe”. Procurando em sítios digitais, encontram-se outros significados, ou mesmo que a sonoridade não tem sentido nenhum.

No video acima, Toquinho conta a história….

 

Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê

Fontes: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. (Companhia das Letras, 1994); História das canções: Vinícius de Moraes (Leya, 2013).

Originalmente publicado em  11 abril de 2014 09:37 , em Clássicos da Música Brasileira

Prazer em Conhecê-lo . Noel Rosa

 

A obra de Noel Rosa sempre revela surpresas. Uma delas é fruto de uma parceria sua com Custódio Mesquita, chamada “Prazer em conhecê-lo”. Quando ouvi o samba pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de uma música que refletia uma passagem biográfica do autor.

Pesquisando aqui e acolá, achei algumas referências, sendo a mais completa no endereço http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/modestia-a-parte-meus-senhores-noel-rosa-fez-um-samba-no-leblon/, cujos principais trechos transcrevo aqui.

A fonte é o próprio poeta: “A história desse samba está contada nele mesmo. Tudo isso é verdadeiro” (O Globo, 31/12/1932). Um samba que pode ser o primeiro composto no bairro.

O fato aconteceu certa noite, meses antes da entrevista ao jornal, depois de um encontro inesperado do compositor com Clara (Clara Corrêa Neto, , antiga namorada por mais de 5 anos, da época de colégio) , em festa na rua Conde de Bonfim, Tijuca. A dona da casa, sem saber do namoro, apresentou-os como se fossem desconhecidos. Clarinha, acompanhada de um rapaz alto e magro, de olhos azuis e cabelos castanho-claros, estendeu, um tanto sem jeito, a mão:

– Muito prazer.

– O prazer é todo meu, foi a resposta que ouviu.

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Para Noel Rosa, então com 21 anos de idade, a festa acabou naquele momento. Retirou-se. Depois de uma cerveja no Café Ponto Chic, em companhia de dois amigos, os irmãos Arnaldo e Antônio Araújo, testemunhas do cumprimento protocolar de Clarinha, partiu para o Leblon. Para beber uísque e compor um samba.

Noel Rosa chegou ao Leblon com sede de bebida forte. Entrou num bar e pediu uísque, “porque não havia uma bebida nacional desse gênero”. São palavras suas. Queria cachaça ou conhaque, na certa. Acendeu um cigarro e descansou o chapéu de palha na mesa. Deu uns goles e cantarolou baixinho. Nascia, assim, “Prazer em Conhecê-lo”.

Segue, então, a letra:

Quantas vezes, nós sorrimos, sem vontade,
Com o ódio a transbordar, no coração,
Por um, simples dever da sociedade,
No momento, de uma apresentação,
Se eu soubesse, que em tal festa te encontrava,
Não iria desmanchar o teu prazer,
Porque se lá não fosse, eu não lembrava,
Um passado, que tanto nos fez sofrer.
Lá num canto, vi o meu rival antigo,
Ex-amigo,
Que aguardava o escândalo fatal,
Fiquei branco, amarelo, furta-cor,
De terror,
Sem achar, uma idéia genial,
Ainda lembro que ficamos, de repente,
Frente a frente,
Naquele instante, mais frios do que gelo,
Mas sorrindo, apertaste a minha mão,
Dizendo então:
“Tenho muito prazer em conhecê-lo”
Quantas vezes, nós sorrimos sem vontade…
Mas eu notei que alguém, impaciente,
Descontente,
Ia mais tarde te repreender,
Tão ciumento que até nem quis saber,
Que mais prazer,
Eu teria em não te conhecer.

Fonte: http://feiticodonoel.blogspot.com.br/2009/11/as-mulheres-de-noel.html

domingo 19 dezembro 2010 20:25 , em Samba

Caco velho, o sambista gaúcho

 No DVD “Infinito ao meu redor”, Marisa Monte, num show ao vivo, logo antes de cantar um belíssimo samba(Vai saber, de Adriana Calcanhoto), faz referência que as pessoas costumam dizer que o samba nasceu na Bahia, mas que ela vai cantar um belo samba de uma gaúcha. Isso me fez pensar se no Rio Grande do Sul há samba, ou se por lá o que faz sucesso mesmo é Teixeirinha, Lupicínio, Kleiton e Kledir.

 E, pesquisando aqui e acolá, encontrei referência àquele que parece ter sido o maior sambista gaúcho. Matheus Nunes, conhecido como Caco Velho. Nascido em 1919, diz-se que seu apelido “Caco Velho” surgiu por causa de um samba homônimo de Ary Barroso, gravado em 1934.

 Embora haja diversas referências a caco velho como um menino prodígio, que começou a tocar com 9 ou 10 anos, o certo é que em 1937 já era pandeirista e cantor na Orquestra de Paulo Coelho, no Café Florida. Em 1938, já contratado pelo “Conjunto Regional de Piratini”, que tocava na Rádio Gaúcha. Nessa época, além de cantar, tocar pandeiro e tamborim, também toca contrabaixo. Faz diversas excursões pelo interior do Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai.

No final da década de 1930, Caco Velho já fazia muito sucesso no Rio Grande do Sul, formando com Nino Martins a dupla de cantores “Dupla Tupinambá”. No começo da década de 1940, feito uma viagem ao Rio de Janeiro para apresentar algumas de suas composições. Lá impressionou Walt Disney, que fizera uma viagem ao Brasil (e segundo Caio Silveira Ramos, na biografia que escreveu sobre Germano Mathias – discípulo do compositor –  Caco Velho foi um dos principais modelos que inspirou Disney a criar o personagem Zé Carioca), além de apresentar suas músicas para que fossem gravadas por artistas cariocas.

Entre 1942 e 1943 Caco Velho muda-se para São Paulo, e logo se torna um Sucesso na capital paulista. Em outubro de 1944, “Caco Velho” se firmou no Rádio gravou seu primeiro disco pela gravadora Odeon, que recebe o número 12497, com os sambas “Briga de Gato” (Lupicínio Rodrigues – Felisberto Martins) e “Maria Caiu do Céu” (Caco Velho – Nilo Silva – com Conjunto de Claudionor Cruz).

Caco Velho recebe a alcunha de “Sambista Infernal”. É atração do programa “Roleta Colgate”, na Radio Tupi Paulista, ao lado de Arrelia, Xisto Guzi e demais artistas consagrados.

 No Rio de Janeiro, Caco Velho, já chamado de “Sambista Infernal”, canta na Rádio Nacional, Rádio Guanabara, Boates “Béguin”, “Ranchinho” em Copacabana, no Hotel Gloria e também no “Casablanca” com Dolores Duran e o notável “Bola Sete”.

 Caco Velho também tem algumas incursões no cinema, sendo “Carnaval na Atlântida”, em que atuou somente participando dos números musicais. Fez, em 1955/6, uma temporada de sucesso em Paris.

 Embora não seja vinculado à bossa nova, nas décadas de 40 e 50 já apresentava uma característica muito cara aos bossanovistas: um domínio da divisão rítmica que conferia uma extrema modernidade a seu som.

 No entanto, como seu samba (e suas fusões com outros gêneros musicais) não eram intimistas como a bossa-nova, o final da década de 50 e começo da década de 1960 não foram fáceis para Caco Velho. No entanto, em 1963, Caco Velho grava, pela Continental, o Disco “O Comendador da Bossa Nova”, que, embora tivesse esse nome, continuava a ser um disco de samba.

 Em 1964, Caco Velho embarca para os Estados Unidos, para uma temporada em Las Vegas, permanecendo depois em San Francisco, indo, em 1966, para Lisboa (Portugal). Lá concede uma entrevista, e num trecho comenta as relações entre samba e bossa nova:

Gosto, acima de tudo, de escrever samba puro. A Bossa Nova é “Bossa Velha”, porque já há anos eu a improvisava. E note que a Bossa Nova não tem riqueza melódica. O samba sim, esse é melodia.

– Não considera que a Bossa Nova esteja a destronar o samba?

– O samba nunca será destronado pela Bossa Nova nem por qualquer outra. O samba é a maior expressão da música do Brasil.Todos os compositores que o escrevem começam por “bater” a caixa de fósforos, só assim ganhando o sentido de ritmo. E samba é a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o gaúza. Samba é Brasil.

 João Augusto Marques de Andrade, Genro do Sambista, narra (site http://www.samba-choro.com.br/artistas/cacovelho), narra que “Conhecendo e apresentando-se em boa parte das cidades do continente, “Caco Velho”, vai atuar em “Funchal”, grande cidade da Ilha da Madeira. Torna-se atração nos cassinos “Lar Madeirense”, “Cassino da Madeira”, entre outros entretenimentos, daquela conhecidíssima Ilha Portuguesa, um verdadeiro Paraíso”.

Interessante é que Caco Velho passa a residir na ilha da Madeira, faz um curso de massagem, e passa a dividir a profissão de músico com a de massagista.

“No final de 1969, Caco velho, com Câncer, retorna ao Brasil, deixando, todavia, todos os seus instrumentos na “Ilha da Madeira” com a esperança de retornar com a família a “Perola do Atlântico”.

 Ainda segundo João Augusto Marques de Andrade, “Entrevistado para a imprensa escrita, pelo jornalista “Oswaldo Mendes”, do Jornal Última Hora, “Caco Velho”, narra, “As Queixas do Sambista”, onde compara à Bossa Nova com o IE-IE-IE (Jovem Guarda), respeitando este ultimo, dando maior ênfase à Bossa Nova e M.P.B., elogiando a chegada dos cantores baianos, enaltecendo a riqueza nas poesias do poetinha e seu fiel maestro, no conteúdo das palavras de nossa linguagem, simultaneamente, comentado, o esquecimento das emissoras, pelos nossos grandes e eternos sambistas, lembrando de muitos nomes”.

 Caco Velho morreu em 14 de setembro de 1971.

 São sucessos de Caco velho: Por um Beijo Teu Mania da Rita, Nega Velha, “Samba Russo”, “Barriga Vazia, Chinesinha, Deu Cupim, Não Faça Hora, Desenho Animado, Meu Fraco é Mulher, É Doloroso,Alegria de Pobre Novo Cartaz, Vida Dura Até Onde Vai o Tubarão, O Azar de Jacó, A Sanfona do Gaudêncio, Chico Pança, Uma Crioula, Tempo Feliz,Samba do Meu Tio. A composição “Barco negro”, um famoso fado cantado por Amália Rodrigues, é, na verdade, uma adaptação da música “Mãe Preta” de Caco Velho e Piratini, e ainda é tocada em muitos países europeus.

Fontes: Caio Silveira Ramos, Sambexplícito: as vidas desvairadas de Germano Mathias;http://www.samba-choro.com.br/artistas/cacovelho (texto escrito por João Augusto Marques de Andrade);

publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em março de 2010

Depoimentos sobre Dorival Caymmi

 

A minha primeira postagem no antigo blog (musicaemprosa.musicblog.com.br) foi sobre Dorival Caymmi. Sobre sua música que parece o canto das coisas em si, sobre os sambas sacudidos, sobre o mar (que é o mar, é o mar é o mar, como canta em “O bem do mar”) e trouxe um artigo que revela o espanto e a admiração de Camus com as músicas de Caymmi.

Eu tenho um cd duplo, “Caymmi inédito”, lançado pela universal, que tem algumas das maiores jóias de Caymmi (ou melhor seria dizer pérolas, em homenagem ao mar?), como É doce morrer no mar, A preta do Acarajé, A lenda do Abaeté, O que é que a Baiana tem, Eu fiz uma viagem, Peguei um Ita no norte, Maracangalha, Acalanto, João Valentão, O samba da minha terra, marina, Dois de fevereiro, Oração de Mãe Menininha, entre tantas outras, embora sinta falta de O bem do mar, Rosa Morena e Lá vem a Baiana… um cd duplo ainda é pouco.

Mas na verdade, uma coisa que gostei muito no CD foram alguns depoimentos sobre Caymmi. Dois de Músicos: Tom Jobim e Caetano Veloso. Interessante que  Tanto na análise de Jobim como na de Caetano, parece que falar da música de Caymmi não é tão fácil… Jobim fala muito do Caymmi pintor, dizendo que como músico, “nem se fala”. Caetano deixa transparecer sua admiração por João Gilberto, e tece sua admiração por Caymmi (“fácil demais e ao mesmo tempo difícil de falar”) através da admiração de seu mestre João.

Adiante, tem depoimento de outros dois baianos ilustres de sua geração: Jorge Amado, numa bela metáfora sobre o Caymmi músico, e Carybé, num depoimento que fala da preguiça de Caymmi. Aqui abaixo os depoimentos.

ANTONIO CARLOS JOBIM

 

Eu conheci o Dorival Caymmi nos idos de 48, 49. Eu estava assim muito empenhado, eu queria ser músico de qualquer jeito, me aproximei dele e depois nos tornamos grandes amigos. O Dorival Caymmi é um gênio, uma pessoa assim que se eu pensar em música brasileira eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível, eu digo isso sob o ponto de vista musical, sem falar do poeta e do pintor, porque o pintor, inclusive, eu ganhei um quadro dele, eu dei uma flauta ao filho dele e ele me deu um quadro que é uma maravilha. Eu outro dia perguntei a Danilo Caymmi: mas, rapaz, como é que seu pai pinta assim? Ele disse, ele estudou. Um negócio! Porque o Dorival é um grande pintor mesmo, não é negócio de brincadeira não, e nas músicas, então, nem se fala…  

 

CAETANO VELOSO

 

Caymmi é fácil demais e, por isso mesmo, um pouco difícil falar de Caymmi. Porque ele é uma paixão total, assim, o amor que eu tenho por ele e que eu posso conceber que se tenha por ele, é assim total, sem limitações, é uma coisa assim de uma beleza ilimitada, e ao mesmo tempo é uma coisa muito simples. Ele é um compositor até que não é, como é que se diz, prolixo, ele não tem canções demais, ele tem um número grande de canções, mas relativamente pequeno, comparado com outros compositores, mas cada canção dele é uma joia, assim perfeita, e todo o clima dele é uma clima de quase uma sabedoria muito profunda que ele parece ter tido desde sempre, é uma coisa, calhou acontecer aquele homem, não é? O João Gilberto fala sempre que o Caymmi é que é o gênio da raça. O João Gilberto diz que aprendeu tudo com Caymmi e que a gente deve estar sempre aprendendo com Caymmi. “Aprenda tudo com ele…” o João Gilberto fala de Caymmi. Você vê, é engraçado porque… são três gerações: o Caymmi, o João Gilberto e eu, e o João Gilberto diz isso pra mim, pra mim e pros meus colegas de geração, pros meus companheiros, e o João Gilberto foi o mestre imediato da minha geração, porque nós somos uma geração que começou com uma admiração, por uma admiração pela bossa nova, não é?… E a bossa nova foi que nos formou e o João Gilberto que era o núcleo, o centro da bossa nova, assim, ele sempre viu o Caymmi como o exemplo máximo do artista como deve ser e do homem como deve ser.

JORGE AMADO

 

Caymmi representa um dos momentos mais altos da criação brasileira e da criação baiana, em particular. Quer dizer, a poesia mais profunda da vida baiana, do povo baiano. Caymmi é uma flor nascida lá em cima que desabrocha de toda essa terra trabalhada, da cultura popular adubada com suor, com sangue, com sonho, com esperança, com todas as dificuldades possíveis que o homem encontra, com toda a magia, e que de repente produz uma flor de cultura, uma coisa esplêndida, única, luminosa, que é a obra de Caymmi, desse poeta extraordinário.

 

 

CARYBÉ

Jorge Amado, Caymmi e Carybé

O Axé de Opó-Afojá, Candomblé de Mãe Senhora, uniu três pessoas que hoje em dia são três irmãos de esteira — cada um tem uma esteira. Agora, um é Obá Onicoí, outro é Obá Olorum e o outro é Obá Onoxocum. Em português, seriam Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé. E, aí nos unem laços assim secretos e misteriosos, não é?… Agora na vida comum eu acho que ele é fabuloso. Agora, ele tem uma coisa contra que não consegue fazer as coisas por causa da preguiça, porque o grande inimigo dele é a preguiça, ou amigo, deve ser amigo, mais do que inimigo, porque não há dúvida que preguiça é uma coisa gostosa, não é? Com bicho-do-pé, se tiver, ainda melhor. Ele fica lá naquele Rio das Ostras, comendo ostra, tocando violão, limpando garrucha, punhais, colecionando bengalas… Então ele vai levando a vida assim… Pinta um quadrinho, e tal, todos eles são bons, menos o meu retrato porque o meu retrato é o Retrato de Dorian Gray, que ele vai pegando, assim, cada dois anos, três anos, um ano e meio, então, mudo… De repente eu estou mais mocinho, daqui a pouco ele faz um coroco, e, enfim, é isso…

 

Publicado originariamente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 14 março de 2010 07:49 , em Clássicos da Música Brasileira