Ednardo – O Romance do Pavão Mysteriozo

 

Tem gente que não conhece Ednardo. E, muitos dos que conhecem, sabem apenas de “Pavão Mysteriozo” (se escreve assim mesmo, com “y” e “z”). Para os mais antigos, essa música fez parte da trilha sonora da novela “Saramandaia”, da Rede Globo, em 1976, e foi a trilha sonora do relançamento da novela em 2013.

Na verdade, o “Romance do Pavão Mysteriozo”, foi o disco gravado por Ednardo em 1974, e é a obra prima do cantor. O título do LP foi inspirado num Clássico do Cordel, talvez o maior clássico de todos os tempos, escrito por José Camelo de Melo Rezende no final dos anos 20, que conta a história de um sujeito que cria uma máquina colorida como as penas de um pavão para impressionar a princesa que vivia no alto da torre.. Mas o disco é muito mais do que uma referência ao famoso cordel.

Embora o trabalho tenha várias referências de sua terra natal, o Ceará (Como nas faixas “Carneiro” e “Aguagrande”), o disco tem um som universal e uma qualidade impressionante em todas as faixas. Pessoalmente, além de destacar a faixa título, o Disco possui grandes pérolas. Destaco, inicialmente, “Avião de Papel”, que retrata o diálogo de um pai que se despede de um filho que vai para a cidade, “Varal”, que é uma música visual (Como visual é “Alegria, Alegria”, de Caetano Velloso, só que “Varal” é  bela e melancólica).

Ednardo, no mesmo disco, canta um inspirado e cinematográfico bolero, em “Dorothy Lamour” (Petrúcio Maia/Fausto Nilo) , faz um belo frevo “Mais um frevinho danado” e canta uma versão (para mim a mais bonita), de “A palo seco”, de seu contemporâneo cearense Belchior. Tem também, a nostálgica “Ausência”. E, engraçado, como “Varal” me fez lembrar de “Alegria, Alegria”, a música “Alazão” me fez lembrar “Disparada”, de Geraldo Vandré.

No sítio virtual de Ednardo (www.ednardo.art.br), ele traz um depoimento do Cantor sobre o disco e o momento da carreira, numa reportagem à Revista Amiga – TV – Tudo, de  23 de Outubro de 1974 (Reportagem de Pedro Porfírio)

“Hoje a música é universal, e quem vive numa grande capital, como eu, acaba recebendo todo tipo de influência.
Além disso, estou sempre procurando informações novas e, embora conserve as raízes, creio que tenho muito mais a ver com o espírito de liberdade e o romantismo da lenda do cordel do pavão. E o espírito de liberdade é uma coisa que envolve todos nós”.

Talvez, com exceção de “Carneiro”, o disco tenha características líricas e melancólicas, muito visuais e com uma poética única. É nostálgico, e, ao mesmo tempo que demonstra que se trata de um cantor cearense, que mostra suas raízes, tem um universalismo e uma atualidade que encanta, mais de 35 anos depois….

 

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em março de 2010