Genival Lacerda – “LP” O senador do Rojão (1968) – Texto da contracapa

 

Genival Lacerda fez nasceu em 1931. . É um daqueles cantores inconfundíveis, dono de um estilo de forró escrachado, bem humorado, cheios de duplo sentido que parecem inocentes diante de algumas pseudomúsicas nas quais se abre mão de trocadilhos e tudo é explícito…

Sucessos como Severina Xique-Xique, Caldo de Mocotó, Radinho de Pilha (Ela deu o Rádio), Galeguim dos Zóio Azul, entre outros, colocam Genival Lacerda no panteão do forró.

E, pesquisando aqui em acolá, encontrei um disco de Genival Lacerda, gravado em 1968, chamado “O Senador do Rojão”. Nesse disco, achei muito interessante o texto da contracapa, que segue abaixo:

 

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Bahia: berço da cultura musical típica do Brasil. Presentes incontestáveis foram trazidos pelas “pratas negras” (mulheres de pele preta e dentes de marfim), como também, pelo couro cor de azeviche – homens de pele preta, nossos irmãos dos pântanos africanos. 

Lundus, pontos, cocos, etc. acalentaram nossos primeiros patrícios num período de quase trezentos anos.Mucamas, babás, cantarolavam e balançavam as redes de ouro branco, no ritmo de sua música nativa. O bebê dormia… e dormiu para despertar séculos após, com sua música metramorfoseada.

O batuque rude do negro transformou-se. Hoje, no século XX – baião, forró, arrasta-pé, não passam de reminiscências exatas daquela música gostosa. O maestro, o compositor, o intéreprete, a trouxeram para outros moldes de uma outra civilização.

GENIVAL LACERDA.  O “Rei do Munganga” puro cantor desse gênero que bem transmite com excentricidade, além de ser o criador de uma série de passos e trejeitos, formando com isso um todo harmônico e agradável, é um artista ímpar na beleza de representar. Num bate-coxa, num alvoroso ( sic – o texto original tem ‘alvoroço’ escrito assim mesmo, com “s” em vez de “‘ç”) de pernas, num sestro de todo corpo, Genival objeta sua força mental no ângulo da coreografia absolutamente original. Por isso, tornou-se o espelho de quase todos os artistas do Gênero. Dançar coco, é Genival; Baião, é Genival; Forró, é Genival. Dizer o que ele faz não é possível. É preciso assisti-lo. Ver e ouvir o excepcional astro, é um momento de terapia.

E é por isso mesmo que a Chantecler o contratou. Em suas mãos, a chapa musical de o rei da munganga GENIVAL LACERDA 

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 O texto é curioso, primeiro, por fazer uma referência à Bahia, já que Genival é paraibano de Campina Grande (embora Genival homenageie a Bahia em diversas músicas, como Bahia de todos os nomes, Alô, Bahia e Fiquei na Bahia). Segundo, por fazer uma associação do Forró com a música negra (relação que existe, mas que tem também influxos da música indígena, portuguesa e até holandesa), e por fazer uma quase justificativa da contratação de Genival, que somente se tornaria conhecido nacionalmente em 1975, com a música “Severina Xique-Xique“. Por isso, ele, chamado de Rei da munganga (que significa gestos ou trejeitos excêntricos, uma expressão nordestina).

Um elo de tudo isso pode ser a referência ao coco, um ritmo que tem parentesco tanto com o samba-de-roda como com o forró, e que deita raízes também africanas e indígenas.  Uma pérola, quando Genival tinha apenas 27 anos…

Esperando na janela

O forró clássico, tradicional, à moda de Luiz Gonzaga, tem algo de nostálgico, inocente… os ritmos juninos fazem a malícia ficar mais singela no friozinho aquecido pelas fogueiras de São João.  Com as festas juninas, parece que a canção de amor em ritmo de xote é mais singela, a saudade do baião é mais intensa, a alegria do xaxado é mais pura.

Não é por acaso que no mês de junho termina sendo inevitável falar de Forró, e com o forró falar um pouco daquela música de Targino Gondim que virou um clássico instantâneo na voz de Gilberto Gil: Esperando na janela. 

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Targino Gondim é pernambucano, nascido em Salgueiro, e criado músico em Juazeiro-BA, começando a tocar sanfona desde os 12 anos, e sua inspiração, óbvia, era Luiz Gonzaga.

E foi inspirado em Gonzagão que surgiu seu maior sucesso, a música “esperando na Janela”, cuja história ele contou numa entrevista:

Esperando na Janela foi feita em agosto de 1998, enquanto eu tomava banho. Estava cantarolando uma música de Luiz Gonzaga e me veio a inspiração.  Completei a composição com versos de meus parceiros, Manuca e Raimundo do Arcodeon. Essa música está gravada no disco de 1999 e coincidiu com as filmagens de Eu, Tu, Eles, que acontecia em Juazeiro. Fui fazer um teste para participar do filme e o diretor me cortou, dizendo que eu não tinha cara de sanfoneiro, mas um dia estava fazendo um forró e os artistas foram lá e a Regina Case me reconheceu. Eles começaram a pedir músicas de Luiz Gonzaga e eu aproveitei para tocar também Esperando na Janela, que acabou virando a trilha sonora e carro-chefe do filme.

 

A música tem todas as receitas de um forró típico de São João: uma certa nostalgia, uma idealização da pessoa amada, a saudade do jeito, no cheiro, da mulher que não vem, mas cuja saudade faz com que ele vá atrás dela e vá declarar seu sentimento.

A canção venceu o Grammy Latino em 2001 (Targino Gondim \ Raimundinho do Acordeon \ Manuca Almeida), que também ganhou a voz de Gilberto Gil e deu ao artista espaço no filme “Eu, Tu, Eles”

 

Gil explicou como a canção passou a fazer parte do filme, no seu sítio digital:


É uma música de um menino lá, Targino Gondim, sanfoneiro da região onde o filme foi feito, no sertão. A direção do filme precisava de uma banda para tocar forró ao vivo, na locação. O sanfoneiro apareceu, cantou essa música e encantou todo mundo. Porque essa música é uma pérola”.

Uma canção singela, que, na hora certa, e impulsionada pela gravação de Gilberto Gil,  virou história…. Targino costuma dizer que ela é a sua “Asa Branca”

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A letra:

Ainda me lembro do seu caminhar
Seu jeito de olhar eu me lembro bem
Fico querendo sentir o seu cheiro
É da daquele jeito que ela tem
O tempo todo eu fico feito tonto
Sempre procurando mais ela não vem
E esse aperto no fundo do peito
Desses que o sujeito não pode aguentar
E esse aperto aumenta o meu desejo
E eu nao vejo a hora de poder lhe falar

Por isso eu vou na casa dela
Falar do meu amor pra ela vai
Tá me esperando na janela
Não sei se vou me segurar

 

Targino Gondim

https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/07/19/noticias-musica,169726/conheca-o-sanfoneiro-responsavel-pelo-refrao-mais-famoso-do-forro.shtml

quarta 20 junho 2012 17:52 , em Forró

No meu pé de serra. A primeira parceria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

No meu pé de serra” é um forró que consagra a primeira parceria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.  A música faz referência à saudade da vida no sertão. É escancaradamente nostálgica, numa alusão  ao coração deixado lá no “pé de serra”. Parece que o forró clássico, tradicional, à moda de Luiz Gonzaga, tem algo de nostálgico, inocente, tem-se a impressão que a canção de amor em ritmo de xote é mais singela, a saudade do baião é mais intensa, a alegria do xaxado é mais pura.

E quando a gente ouve essa música, parceria de Gonzagão com  Humberto Teixeira, gravada em 1947, a gente sente viva essa nostalgia do sertão. A canção retrata uma visão romântica, idílica, da vida no sertão, onde o trabalho é duro, mas ali se tinha tudo o que quisesse, com especial destaque para o xote de toda quinta-feira, em que se gruda numa cabocla, enquanto o fole começa… e parece não parar.

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No livro  O Fole roncou – uma história do Forró, dos jornalistas Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, há um pouco da história da canção:

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“Cearense de Iguatu, radicado no Rio de Janeiro desde os 15 anos, o advogado Humberto Teixeira conseguiu fazer Gonzaga perder a vergonha de ‘mostrar as coisas que tinha trazido do mato” e parar de pensar que ‘ninguém na cidade iria se interessar por aquelas musiquinhas’.

Na verdade, era a terceira tentativa do sanfoneiro de arranjar um letrista constante para as melodias que carregava na memória. (…) 

Chegou Humberto Teixeira por meio do cearense Lauro Maia, convidado a se tornar parceiro Luiz Gonzaga a partir de um desafio

 –  Eu quero cantar as coisas da minha terra e preciso de alguém que me ajude a decantar a vida da minha gente” (Luiz Gonzaga)

Lauro Maia respondeu:

– Gonzaga, gosto muito de sua voz, só que não sou letrista para os motivos que você tem. Mas tenho um cunhado que vai resolver seu problema”.

Colocou Gonzaga em contato com Humberto Teixeira, que tinha alguma experiência como letrista de sambas e outros ritmos. No primeiro encontro, o sanfoneiro pediu:

– Eu tenho um tema aqui pra você botar uma letrinha: No meu pé de serra.

Na mesma hora Humberto Teixeira pôs uma folha de papel em cima do joelho e escreveu uma letra. Gonzaga leu e gostou. Teixeira advertiu:

– Mas essa não é a letra definitiva”

Gonzaga respondeu:

– Peraí, nessa você não vai bulir mais não! A letra é essa!”

E Teixeira retrucou:

– Não, depois eu lhe dou a letra definitiva”

E assim fez, para a contrariedade de Gonzaga, que queria de todo jeito a letra original.

Na música, gravada em novembro de 1946 e lançada em março de 1947. Humberto Teixeira desenvolve uma temática que se tornaria recorrente: a dor da ausência.

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É inevitável a comparação com o romantismo literário do século XIX, na primeira fase indianista:  a música passa a sensação de que a vida lá no sertão era muito melhor… afinal, se esquecem as agruras, a seca, a fome, a pobreza da vida no agreste, e só restam aquelas noites de quinta-feira, após um dia cansativo de trabalho, com um xote e uma cabocla… pra que mais?

Por isso que a nostalgia vem da alegria, do xote que é bom (e lá vem as palmas)/ de se dançar (mais palmas)… Talvez por isso o forró (que muitos chamam de “pé de serra”)guarda aquele veio de ternura nas suas canções… elas remetem ao amor, às saudades, ao interior, ao sertão, ou seja, remetem à pureza de sentimento… muito bom pra se dançar….

As canções , Humberto Teixeira enfatizava, não eram propriamente criadas, mas resgatadas de algum lugar da memória de Luiz Gonzaga.

 

A letra…

Lá no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltar pro meu sertão
No meu roçado trabalhava todo dia
Mas no meu rancho tinha tudo o que queria
Lá se dançava quase toda quinta-feira
Sanfona não faltava e tome xote a noite inteira
O xóte é bom
De se dançar
A gente gruda na cabôcla sem soltar
Um passo lá
Um outro cá
Enquanto o fole tá tocando,
tá gemendo, tá chorando,
Tá fungando, reclamando sem parar.. 

terça 21 junho 2011 04:13 , em Forró

Clemilda – Forró de duplo sentido

 

O Brasil é um caldeirão de ritmos musicais, mas poucos discordam que o ritmo que marca e identifica o Brasil é o samba. No entanto, para uma parte do Brasil, que começa no sertão da Bahia, passando por Sergipe, Alagoas, Pernambuco (sem esquecer o frevo e o maracatu), Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, o ritmo é o forró

O forró, no nordeste, parece um gênero em que se encontram xote, xaxado, baião, maxixe, galope, todos eles regidos, não pelo pandeiro do samba nem pelo violão da bossa-nova: mas pelo acordeon, popularmente conhecido como sanfona.

Aproveitando a semana mais efervescente das festas juninas, vou fazer uma homenagem inusitada a uma das personagens mais curiosas do Forró, que ganhou fama após 20 anos de carreira com um gênero, que na época, parecia ofender a “moral e os bons costumes”, mas hoje parece até inocente: O forró de duplo sentido. Trata-se de Clemilda.

Nascida Clemilda Ferreira da Silva, natural de Palmeiras dos Índios, Alagoas. Quando adolescente, decidiu ir para o Rio de Janeiro. Chegando lá, trabalhou como garçonete, e mesmo sem fazer planos para seguir a carreira artística, nas horas de folga freqüentava programas de rádio e auditórios de TV.

Em 1965, conseguiu cantar pela primeira vez num programa que apresentava calouros e profissionais, o “Crepúsculo Sertanejo”. Acabou conhecendo Gerson Filho, famoso pelo fole dos oito baixos, que na época era sanfoneiro contratado de uma gravadora, e com quem veio a casar-se depois. Fizeram shows pelo Nordeste, começando uma carreira que fez sucesso regional, sobretudo em Alagoas e Sergipe. Até a década de 80,seu maior sucesso era o politicamente incorreto “Forró sem briga”, em que ela afirmava (“eu não gosto de forró que não tem briga, forró que não tem briga não me diga que é forró) até estourar com o sucesso “Prenda o Tadeu”, em 1985 (“Seu delegado prenda o Tadeu,m ele pegou minha irmã e….”.

“Prenda o Tadeu” é um dos gêneros que fez muito sucesso no Nordeste nos anos 70 e 80, que é o forró de duplo sentido, forró malícia, cujo mote principal são trocadilhos absolutamente ordinários, em que toda a letra é um pretexto para insinuar palavrões ou sugestões eróticas (interessante é que, na mesma época e com o mesmo estilo de trocadilhos, Quim Barreiros fazia sucesso em Portugal).

O forró de duplo sentido era tido como música chula, a despeito de amiúde haver belos arranjos para forró. Nos últimos 20 anos, todavia, o caráter explícito de algumas letras faz parecer o forró de duplo sentido uma brincadeira adolescente bem-humorada.

Clemilda cantou diversas músicas que eram marcados pelo gênero. Para citar alguns, “Forró Cheiroso”, mais conhecida como “Talco no salão”, “Recado para Zetinha” (Só quero Nambu Zetinha…”), “Com ‘menas’ Gente” (“ele só quer trabalhar ‘com menas gente”), “Coitada da Tonheta” (“ele só vive batendo em Tonheta”), “Seu Tuzinho”.

 

Clemilda sempre se apresentava com seu cabelo curto e crespo, com uns vestidos que lembravam vestidos de Chita típicos de festas juninas, sua voz levemente anasalada compactuava com um estilo de música cuja marca maior era o humor.

Hoje, Clemilda vive em Aracaju, continua sendo lembrada pelos seus forrós de duplo sentido.

Fontes: http://www.infonet.com.br/saojoao/2005/ler.asp?id=36146&titulo=forrozeiros;http://www.dicionariompb.com.br/; Dicionário Houaiss ilustrado da Música Popular Braisleira

 

Publicado no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 22 de junho de 2010