101 Canções que Tocaram o Brasil. O livro por Nelson Motta

Quando comecei a ler o livro de Nelson Motta, sobre as 101 canções que tocaram o Brasil, fiquei curioso, pois imaginaria como ele faria a seleção de músicas e qual seria o critério de seleção.

Ao ler o livro, saberia que estariam lá canções essenciais, como “Chega de saudade”, “Garota de Ipanema”, Aquarela do Brasil” e “Asa Branca”, bem como não poderiam deixar de estar compositores como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Vinícius, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil.

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Quando comecei lendo as músicas mais antigas, vi que muito do que há de relevante estava lá. Desde “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, como “Pelo Telefone”, oficialmente o primeiro samba gravado. Concordei com as canções de Noel, Ary Barroso e Gilberto Gil, não concordei com as de Caymmi e Caetano Veloso.

A lista é uma lista de músicas urbanas, ao que dá pra sentir falta de algo de forró para além de “Asa Branca”, e obviamente, há poucas referências à música contemporânea.

Em alguns momento entendi que havia algumas falhas imperdoáveis, em outros achei que a escolha foi precisa, e acaba sendo um retrato, ainda que parcial, da música brasileira no Século XX.

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O posfácio de Nelson Motta explica muita coisa. “Lista de músicas é como impressão digital, não há duas iguais”, para, em seguida, para mencionar canções “injustiçadas”, que estão fora da lista, passando por sertanejo, Jovem Guarda, sambas-canções (a não inclusão de “Linda Flor (Ai Ioiô)  parece uma das omissões mais relevantes)”, sambas, marchas, bossas, canções românticas, rocks, enfim, um sem-número de músicas que poderiam estar na lista.

Pensei, com um pouco mais de tempo, em fazer minha lista e cotejar com a de Nelson. Mas talvez leve um tempo. Peca também o fato de não ter as letras da músicas. No mais, é um livro recomendado.

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Ho ba la lá. Um livro à procura de João Gilberto

Marc Fischer é um berlinense que ouviu um disco de João Gilberto no Japão. Veio atrás dele no Brasil. Escreveu um livro sobre o fato e suicidou-se. Esse livro chama-se Ho-ba-la-lá e é uma grata surpresa.

Trata-se de uma investigação bem-humorada. Fischer transformou sua estranha obsessão numa busca incessante do inventor da batida de violão que é o verdadeiro coração da Bossa Nova.

O livro é uma aventura de Fischer no Brasil, quando veio na esperança de que João Gilberto tocasse  Ho-ba-la-lá para ele ao violão. E aí surgem histórias divertidas e engraçadas na busca de João Gilberto. Ele entrevista muitos que conviveram com João, no âmbito pessoal e profissional. Carlos Lyra, Marcos Valle, Miúcha, João Donato, até o cozinheiro que serve o prato preferido de João.

E qual o resultado? Um passeio pela lenda que é João Gilberto, suas antinomias e suas ambiguidades. Sua genialidade e sua aversão ao público em geral.

A obra de Fischer é escrita num tom coloquial, em primeira pessoa, dá pra ser lido rapidamente e é muito agradável sua leitura. Ele vai contando as história e aventuras, sempre com muito bom humor, de um alemão que não fala português passeando pelo Brasil.

A passagem dele pelo banheiro em Diamantina (MG)  onde João criou a batida da bossa nova é impagável.

O mais interessante são as maneiras em que ele tenta se aproximar de João Gilberto, que em certos momentos parece um fantasma, ou um vampiro.

O impressionante é que, numa passagem do livro, Roberto Menescal fala para Marc:

João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também. De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado também. 

O certo é que Marc Fischer suicidou-se antes de lançá-lo.

 

O  que faz o livro imperdível, contudo,  é o resgate de João Gilberto como o verdadeiro gênio criador da bossa-nova, e é um retrato de como ele conseguiu transformar a música brasileira definitivamente.

João nunca fez parte do movimento “bossa nova” do qual foi criador. Aliás, João Gilberto não usa a expressão “bossa nova” desde “desafinado”.

Marc mostra as contradições entre a pessoa e o gênio, as manias, a sua personalidade encantadora e magnética, Mostra como João é capaz, com seu cantar baixinho e sua batida de violão, encantar as pessoas, mas também como ele deixa sua marca em cada pessoa que passa. Um resgate ao gênio da bossa nova.

Por tudo isso vale o livro. vale a busca e a torcida por Marc Fischer encontrar João Gilberto, e vale pela investigação de uma figura ímpar na música brasileira.