Norte da saudade – Quando Gil compôs um Xote-reggae na estrada…

 

“Norte da saudade” é uma parceria de Gilberto Gil com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque, que logo na primeira frase, se revela como uma “road song”. O pé na estrada, sem noite passada, sem ninguém…

DISCO DE VINIL GILBERTO GIL – REFAVELA | Armazém Do Vinil - Loja ...

 

Gravada no Disco Refavela (1977), a canção sai um pouco da temática geral do disco, que é uma (re)descoberta de uma arte negra de comunidades que contribuíram para formação de novas etnias e novas culturas no novo mundo.

Ainda assim, é possível perceber esta música como uma espécie de conexão entre o disco anterior – Refazenda, em que há um resgate de elementos culturais do sertão e do interior – com a música negra, tanto que Gilberto Gil classifica esta canção como sendo um Xote-Reggae.

Livro: Nada Sera Como Antes Mpb nos Anos 70 - Ana Maria Bahiana ...

Em entrevista a Ana Maria Baiana, denominada  “A paz doméstica de Gilberto Gil”, e que consta do seu livro “Nada Será como Antes: MPB nos anos 70, Gil revela:

 “pra ser mais claro: nós estávamos andando pelo Norte, com um trabalho que era com a presença do Dominguinhos, eu, Moacyr Albuquerque, Perinho Santana e outros. Ao mesmo tempo que nós escutávamos muito Django Reinhart, Bob Marley, a gente vivia todo aquele clima musical do Norte e do Nordeste, de ser Refazenda, de ser lá no habitat básico da Refazenda, de ser Campina Grande, Mossoró, Natal, João Pessoa, ser tudo aquilo e ao mesmo tempo estar discutindo sobre reggae, sobre a emergência de movimentos   musicais na América, o punk, e a salsa e o reggae….”

“Então a música foi feita por Moacye e Perinho muito neste sentido, como é que era fazer um xote, uma música que fosse o som daquelas estradas que a gente estava rodando e ao mesmo tempo fosse a soma de todas estas experiências musicais vividas”

Gilberto Gil - Refavela Lyrics and Tracklist | Genius

Fica evidente o clima musical que contagia músicos fazendo uma excursão.

Em primeiro lugar, dá para imaginar o ônibus com os músicos se deslocando de cidade a cidade no Nordeste;

Depois, a saudade de casa, do amor, do “meu bem”;

Por fim, como o próprio Gil relata, a integração de elementos musicais da vivência atual dos músicos (reggae) com a paisagem específica dos locais (xote).

 

Fé na Festa – Wikipédia, a enciclopédia livre

Todo este clima fez nascer Norte da Saudade, que é uma das músicas do álbum mais presente nos dias atuais. A sonoridade, a temática, o clima, faz “Norte da Saudade” ser uma bela música, revisitada posteriormente pelo próprio Gil em 2010, no disco “Fé na Festa”, já com uma pegada de xote mais explícita.

 

 

 

 

 

Sobre o nome artístico de Gal Costa

Maria da Graça Costa Penna Burgos. Este é o nome de batismo de uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. Gal Costa. Sempre tive curiosidade para saber a origens dos nomes artísticos de grandes ícones da Musica. 

Neste caso, a história é contada por caetano , no seu livro Verdade Tropical, como Guilherme Araújo, empresário dos tropicalistas, acabou escolhendo o nome de Gal:  

Resultado de imagem para verdade tropical"

 

Uma discussão paradigmática desses conflitos sutis foi a que envolveu o nome artístico de Gal. Seu nome de batismo é Maria da Graça Costa Penna Burgos. Desde Salvador, escrevíamos Maria da Graça nos cartazes e nos programas dos shows do Vila Velha, e a chamávamos de Gracinha no dia-a-dia e, carinhosamente, de Grau. Havia e há milhares de Graus na Bahia: é o apelido carinhoso de todas as Marias das Graças ou da Graça de lá. Na verdade, no caso da nossa Gal, Maria das Graças era apenas o nome que constava na carteira de identidade e era usado como nome artístico; para todos os efeitos, seu nome era Gracinha: assim é que a apresentávamos a novos amigos. Na intimidade, no entanto, nós a chamávamos de Grau.

Guilherme achava Maria da Graça inviável como nome de cantora. Ele concordava que era belo e nobre, mas sugeria uma antiga intérprete de fados portugueses, não poderia servir para uma cantora moderna, muito menos – e aqui ele voltava a sorrir diabolicamente – para uma nova rainha do iê-iê-iê. Ele gostava de Gau. Nós também. Em primeiro lugar porque era seu nome real (isso era fundamental para nós), e depois porque era bonito e fácil de aprender, além de ser marcante, uma vez que no Rio (e em São Paulo, pelo menos) esse não era um apelido comum como na Bahia.

Resultado de imagem para guilherme araújo empresário gal costa"Guilherme Araújo, Gal e Caetano

Mas havia dois problemas: Guilherme achava vulgar e “pobre” artista de nome único (para ele era indispensável um sobrenome se o nome não fosse composto, e mesmo os nomes compostos raramente eram aceitáveis: Maria Bethânia era, é claro, uma exceção genial); e Gau, escrito assim, com u, parecia-lhe pesado e pouco feminino. Como em quase todo o Brasil Gal e Gau tem pronuncia idêntica, achamos praticamente indiferente que a grafia fosse a escolhida por ele (que se referia a uma cantora francesa chamada Francis Gal como exemplo).

Restava a questão do sobrenome. Gal Penna? Gal Burgos? Guilherme, não sem razão, preferiu Gal Costa. Este era mais eufônico do que os outros dois. Ele não ousava sair dos nomes verdadeiros por saber de nossa intransigência quanto a isso. Mas eu não gostei. Eu achava que já tinha concedido o bastante em aceitar o l, que ele aceitasse o nome único: Gal, simplesmente, era a melhor solução. Mas ele insistiu no sobrenome e eu disse que Gal Costa parecia um nome inventado, parecia nome de produto, parecia nome de pasta de dentes e, finalmente, se Gau não era suficientemente feminino, Gal era abreviatura de general. Com a subida de general Costa e Silva ao poder, em substituição ao marechal Castelo Branco, Gal Costa passava a ser homônima do segundo presidente do período militar. Mas a própria Gal, de quem afinal devia ser a última palavra, aceitou o nome e ele funcionou muito bem com a imagem pop que se criou para ela.

Resultado de imagem para meu nome é gal"

Até hoje me irrita ouvir alguém comentar que Gal Costa é um nome criado e que o verdadeiro nome dela é Gracinha ou Maria da Graça, e só quem não a conhecia de perto é que pensa que seu nome íntimo era Gracinha – e, no entanto, esse nome Gal Costa teve sabor de coisa inventada para mim mais do que para qualquer outro.

Hoje, que todos a chamam simplesmente de Gal, fico inteiramente em paz com essa história: é seu nome, seu nome verdadeiro, e é um nome baiano, profundamente autêntico e revelador da cultura particular do recôncavo da Bahia e da Cidade do Salvador, além de ser bonito sonoramente e o modo mais carinhoso de se a chamar. É, como queria Guilherme, internacional e pop, mas é pessoal e regional até a ponta da raiz. É, um lance de poesia profunda, feito de acaso e equívocos, que serve como síntese do drama tropicalista.

 

Resultado de imagem para meu nome é gal"

Mas na altura, eu que hoje o amo mais que ninguém, fui quem mais reagiu contra esse nome. Lembro de comentar com Rogério a discussão e ouvir dele a declaração de que sempre estaria no extremo oposto de Guilherme, de quem se sabia fatal antípoda: E impossível que o que ele planeja seja o mesmo que eu planejo, pois ele é o empresário e eu sou o desempresário”.

Contudo, e apesar de falar com alguma ira na voz, ele se esforçava para me fazer entender que ele pensava mais numa dialética necessária ao processo, ou, melhor ainda, numa complementaridade, do que numa competição que implicasse inimizade reles. O mais bonito de tudo foi que Roberto Carlos e Erasmo Carlos, atendendo a um pedido de fazer uma canção para o primeiro disco tropicalista que ela gravou, apresentaram” Meu nome é Gal”, em que, sem nada saberem das exigências de Guilherme, insistem no apelido monossilábico e, num texto escrito para ser declamado por ela, frisam que “não precisa sobrenome, pois é o amor que faz o homem”.

Frisson. O maior sucesso de Tunai

Tunai se foi no dia 26 de janeiro de 2019. Aos 69 anos, deixou como maior sucesso a música “Frisson”, cuja história conto aqui.

“Você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu….”

Essa frase talvez seja a mais marcante da música Frisson, uma música que celebra a chegada de um amor arrebatador, á primeira vista.

Mas quem seria a mulher que inspirou a canção? A letra é do Poeta Sérgio Natureza. Interessante é que algumas mulheres com quem ele se relacionou acharam que a música foi feita para elas. E aí, negar ou alimentar a ilusão? Sérgio conta o episódio, no Livro “Então, foi assim?”, de Ruy Godinho:

Imagem relacionada

“Ainda há pouco, apareceu uma senhora americana. Senhora hoje, mas que eu namorei quando ela estava com 20 anos. Linda e loira. Hoje uma senhora bonita e casada. Mas ela apareceu e depois de muita timidez me disse, falando em inglês:

‘ – Aquela música você fez para mim, não foi?

‘ – É, foi. Com certeza. Como é que você adivinhou?

Não, porque não custa nada. Pra bem da verdade a música foi feita um pouco pra cada uma, senão, não faz sentido. Como ela alcança todo mundo, as pessoas se veem na música. Algumas se acham as próprias musas, outras não. .

Resultado de imagem para tunai

 

Mas quem é a verdadeira musa? Sérgio conta a história:

 Tinha um lugar aqui no Rio chamado Beco da Pimenta. Era um sobrado na rua Real Grandeza, no Botafogo. E havia shows. Um desses foi do cantor e compositor Moacyr Luz, que eu conheço há duzentos anos. Ele estava tocando e de repente começou a fazer sinais com a cabeça. . 

“Ele insistiu. Eu olhei pro lado e vi uma mulher linda, um tipo totalmente diferente, parecia uma camponesa do leste europeu, com um pano na cabeça. E eu que sempre fui extremamente recatado, tímido mesmo – eu nunca fui de atacar – nesse dia não me contive. A entrada para os toaletes era comum e depois bifurcava. E era bastante ampla. Aí eu me tomei de sem-vergonhice e decidi: “Eu vou atrás dessa mulher”. Tomei coragem e fui. Quando eu a vi não conseguia falar. Ela era linda, parecia uma coisa onírica mesmo. Isso não existe. Ela me olhou e disse: 

‘ – Oi’!

‘ – Oi’!

‘ – Me desculpe eu estar olhando pra você assim. Você é linda’.

‘ – Obrigada’.

‘ – Você não existe’.

‘ – Não, não sou nada disso que você está falando’.

‘ – Você realmente caiu do céu. Você é um anjo’.

‘ – Que nada. Obrigada’.

‘ – O que é que você faz’?

‘ – Eu, sou modelo fotográfico’.

‘ – Olha, eu estou assim com falta de ar’.

‘ – Que nada’.

‘ – Você deve estar com alguém’…

‘ – Não. Eu estava com uma amiga, mas ela já foi’.

‘ – Depois a gente conversa’.

Era a modelo Isabel, conhecida como Bebel. “Na verdade, partiu disso. Depois eu a encontrei, a namorei, mas eu sempre fiquei um pouco distante, porque eu achava que era meio uma criação da minha cabeça. Ela era muito linda. Uma pessoa adorável, doce. E depois, não era só a beleza. Era a simplicidade. E a vestimenta era uma coisa meio oriental. Ela estava com uma roupa que me pirou. Eu acho que é porque ela desfilava, fazia fotografias.

 

E a música?

O Tunai me mostrou uma música que ele já tinha, chegou assim em cima do laço. E a letra partiu de ‘você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu’ e foi embora. Ela era bonita e eu acho que a música passava a leveza que eu queria dizer. .

Mais tarde, Tunai acabou conhecendo a beldade. “Ele a conheceu anos depois, por uma circunstância de vida, acho que na praia e falou pra mim. Ela se apresentou: “Eu sou a Bebel. Você que é o Tunai? O Sergio fez aquela música pra mim’. Tunai confirmou que fez a música comigo”, conta Sergio.

Frisson foi gravada por Tunai no CD Em Cartaz (1984). Ivete Sangalo e grupo Ketama ( Espanha) a regravaram em português e espanhol, no CD Eu e Você (Banda Eva).

 

A letra:

 

Meu coração pulou
Você chegou, me deixou assim
Com os pés fora do chão
Pensei: que bom…
Parece, enfim acordei
Pra renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim sem me avisar
Pra acelerar…
Um coração que já bate pouco
De tanto procurar por outro
Anda cansado
Mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação
Solidão nunca mais

Você caiu do céu
Um anjo lindo que apareceu
Com olhos de cristal
Me enfeitiçou
Eu nunca vi nada igual
De repente…
Você surgiu na minha frente
Luz cintilante
Estrela em forma de gente
Invasora do planeta amor
Você me conquistou

Me olha, me toca, me faz sentir
Que é hora, agora, da gente ir

quarta 08 abril 2015 10:08 , em Mulheres e suas canções

Reconvexo. Como uma resposta de Caetano a Paulo Francis virou um belo samba….

 

“Meu som te cega, careta, quem é você…”

 

A letra de Reconvexo, um belo samba de roda de Caetano Veloso gravado por Maria Bethania, revela um orgulho de ser brasileiro, de ser baiano, de ser de uma parte do mundo que é “out“, e que, pelo mesmo motivo, é “in“.

A canção estabelece uma dicotomia entre o “eu” – que é uma séria de referências baianas, brasileiras e universais – e o “você”, o careta, “que não que não e nem disse que não”. Assim a identidade do eu-lírico é construída pelos sons, pelas imagens, pelas referências, em contraposição àquilo que o “careta” não consegue perceber.

A música faz muitas referências baianas (a novena de dona Canô, a elegância sutil de Bobô, o Olodum balançando o Pelô), brasileiras (o mendigo Joãozinho/Beija Flor – em referência ao célebre enredo “ratos e urubus- larguem minha fantasia” de Joãozinho Trinta na Beija-Flor de 1989, a destemida Iara da Amazônia), e universais (A risada de Andy Warhol, o suingue do Francês da Guiana Henri Salvador, o americano negro com brinco de ouro na orelha).

Resultado de imagem para caetano paulo francis

Caetano e Paulo Francis vez ou outra protagonizavam polêmicas.  Francis vivia em Nova Iorque e tinha um estilo sarcástico/irônico sobre o Brasil.

Então, ao reafirmar ao todo tempo o que é Recôncavo (fazendo referência à região da Bahia no entorno da Baía de Todos os Santos), e ao “careta” que sequer pode ser Reconvexo (um neologismo, como uma forma de dizer que ele sequer pode ser o outro lado, a antítese do que é o Recôncavo), a música faz uma homenagem a “Gita” de Raul Seixas (que viria a falecer naquele ano) e a “Fruta Gogóia”, canção folclórica gravada por Gal Costa no famoso disco “Fa-Tal: Gal a todo vapor”. A estrutura do “eu sou, eu sou eu sou” como se fosse uma lista tem inspiração em ambas as canções

Imagem relacionada

Caetano, no livro “Sobre as letras”, organizado por Eucanaã Ferraz (Cia das Letras, 2003), explica a canção:

 

Compus para Bethania gravar. Eu estava em Roma quando um dia acordei e vi os carros empoeirados, todos cobertos de areia. Perguntei: ‘Gente, o que tem nesses carros aí?’. Uns italianos, amigos meus, responderam: ‘isso é areia que vem do deserto do Saara, que o vento traz’. Com essa imagem, comecei imediatamente a compor a música. 

“A letra fala em Gita Gogóia, porque a letra de Gita diz ‘eu sou, eu sou, eu sou’… e porque a a canção ‘Fruta Gogóia’ também se estrutura do mesmo modo  eu sou, eu sou, eu sou’. 

A letra é meio contra o Paulo Francis, uma resposta àquele estilo de gente que queria desrespeitar o que era brasileiro, o que era baiano, a contracultura, a cultura pop, todo um conjunto de coisas que um certo charme jornalístico, tipo Tom Wolf, detestava e agredia. 

Resultado de imagem para caetano "sobre as letras"

Segue a letra e o belo samba de roda, que descarta quem “não é recôncavo e nem pode ser reconvexo”

 

eu sou a chuva que lança
areia do Saara
sobre os automóveis de Roma
sou a sereia que dança
destemida Iara, água e folha
da Amazônia
eu sou a sombra da voz
da matriarca da Roma negra
você não me pega
você nem chega a me ver
meu som te cega careta
quem é você?
que não sentiu o suingue
de Henri Salvador
que não seguiu olodum
balançando o pelô
e que não riu com a risada de
Andy Warhol
que não que não
e nem disse que não
sou um preto norte-americano
forte com um brinco de ouro na orelha
sou a flor da primeira música
a mais velha e a mais nova
espada e seu corte

sou o cheiro dos livros desesperado
sou Gita Gogóia
seu olho me olha
mas não me pode alcançar
não tenho escolha careta
vou descartar

quem não rezou a novena de
D. Canô
quem não seguiu o mendigo
Joãozinho Beija-flor
quem não amou a elegância sutil
de bobô
quem não é recôncavo e nem pode
ser reconvexo

 

quarta 09 junho 2010 21:56 , em MPB

 

 

 

 

 

Chico e Tom – as “implicâncias” por detrás de “Retrato Branco e Preto”

 

Chico Buarque por diversas vezes já homenageou seu parceiro e amigo Tom Jobim. Apenas para citar, muitos conhecem a expressão “Maestro Soberano”, cunhada por ele no disco “Paratodos”. Chico disse, no documentário “Meu caro amigo”, que as várias composições deixadas por Jobim continuam sem letras. Chico diz que gostaria de fazê-las, mas sem as “implicâncias” de Tom Jobim não teria sentido.

 

 

Resultado de imagem para chico buarque e tom jobim"

Chico sempre falou brincando amistosamente desse jeito dele compor com Jobim, de estabelecer uma correspondência entre as sílabas e as notas, a prosódia musical e o sentido, e de como Jobim, músico exigente, discutia com ele sobre tais coisas.

Um dos episódios divertidos da parceria entre Chico Buarque e Tom Jobim (há muito a falar sobre isso, mas vou deixar para outras postagens), diz respeito à canção “Retrato em Branco e Preto”.

A melodia foi composta por Jobim em 1965, e se chamava Zíngaro (e foi com esse título que João Gilberto a gravou, em 1977, no disco Amoroso). Em 1968, a música foi para Chico colocar a letra. E aí Wagner Homem, no Livro Chico Buarque – História das canções (Ed. Leya, 2009), conta um pouco dessas “implicâncias” na composição da música.

Uma delas, quando o Quarteto em Cy foi gravar a canção, Chico Buarque teria decidido substituir a expressão “Trago o peito tão marcado” por “peito carregado”, sob o argumento de que o “tão” funcionou como uma muleta para completar as sílabas da canção. No entanto, Tom Jobim, que aceitara relutantemente a mudança, ligou para Chico pedindo a manutenção da versão original, porque a expressão “peito carregado” tinha a conotação de tosse. Ponto para Tom.

 

Resultado de imagem para chico e tom"

Mas o episódio mais engraçado da música foi sobre a expressão “

“vou colecionar mais um soneto

 outro retrato em branco e preto

a maltratar meu coração”

Assim narrada por Wagner Homem:

“Em outra ocasião Tom teria dito a Chico que ninguém fala ‘retrato em branco e preto’ e que a expressão correta seria ‘retrato em preto e branco’. Ao que Chico teria respondido: ‘Então tá. Fica assim. ‘vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco’. Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos.

E das implicâncias surgiu uma das mais belas músicas…

A história da música “Onde Andarás”, de Caetano Veloso e Ferreira Gullar

Quando se fala de poetas que escreveram canções, o primeiro nome, e certamente o mais bem-sucedido é o de Vinícius de Moraes. Mas não o único. Ferreira Gullar, além de poeta e  escritor, fez algumas incursões como compositor.

Uma delas é uma música que passou desapercebida no primeiro álbum solo de Caetano, em 1968. Trata-se de um álbum histórico, que conta com canções que se tornaram clássicos, como ““Tropicália”, que batizou o movimento que revolucionou a MPB, “Soy Loco por ti, América” e “Alegria, Alegria”.  Por isso mesmo a parceria de Caetano com Ferreira Gullar não chamou tanta atenção. Mas a história é interessante.

No livro “Verdade Tropical”, Caetano refere:

“Onde andarás”, um bolero meio samba-canção que eu tinha feito ainda no Rio sobre letra de Ferreira Gullar pedido de Bethânia, por funcionar como veículo para a exposição de paródias de estilos sentimentais considerados cafonas (e para exemplo de como, mesmo parodiando-os, podia-se amá-los e enobrecê-los, à maneira de própria Bethânia), também entraria. 

Mais adiante, numa entrevista ao Pasquim, ele complementa:

O início da faixa Onde Andarás, uma parceria minha com Ferreira Gullar, parece com o Chet Baker. Depois imito o Orlando Silva e o Nelson Gonçalves

Resultado de imagem para caetano veloso 1968

Caetano, no entanto, sequer tinha relacionamento com Ferreira Gullar. A letra foi feita a pedido de Maria Bethânia que desejava um tema ligado à dor de cotovelo para gravar no seu disco de estreia. Gullar escreveu dois textos, Bethânia repassou para Caetano que musicou “Onde Andarás” .

Numa entrevista ao Jornal CINFORM, de Aracaju (http://sergipeeducacaoecultura.blogspot.com/2009/07/), Gullar sugere que o segundo texto (não aproveitado) serviu de inspiração para compor alguns argumentos para “Alegria, alegria”. Vale citar o trecho da entrevista:

 Você foi parceiro de Caetano Veloso com o poema “Onde Andarás”, que faz parte do seu primeiro LP individual prensado em 1968. Em que circunstância ocorreu a parceria e por que não houve continuidade como a estabelecida com Raimundo Fagner com quem tem vários poemas musicados: Traduzir-se; Me Leve – cantiga para não morrer; Rainha da vida, Contigo e outras?


Ferreira Gullar – Essa parceria não nasceu de uma relação minha com Caetano. Foi a Maria Bethânia que me pediu, se eu gostaria de escrever para ela duas letras de fossa, de dor-de-cotovelo que ela queria gravar no seu disco de estreia. Então fiz e entreguei a ela duas letras, uma é “Onde Andarás” e a outra é um poema que também é do mesmo livro, que eu adaptei para servir como letra, porque como poema era muito longo. Mas Caetano só musicou uma delas, o outro poema eu acho que inspirou “Alegria Alegria”, porque fala “atravessa a rua, entra no cinema” é um poema urbano, que fala exatamente da cidade e o enfoque é o mesmo e o fato dele não ter posto música na minha letra e ter escrito “Alegria Alegria” dá a impressão de que ele achou melhor criar uma letra sobre aquele assunto. Existe na música “Alegria Alegria” uma expressão que é de um poema meu “o sol se reparte em crimes” isso é de um poema que diz assim: “A tarde se reparte em yorgut, coalhada, copos de leites” esse uso do verbo repartir nesse sentido é do poema “Na Leiteiria”. “A tarde se reparte em copos de leite”, “o sol se reparte em crimes/espaçonaves guerrilhas”. Tudo bem, a função da poesia é essa, o poeta inventa as expressões e o artista popular, o compositor não tem essa função – é muito mais a de comunicar de maneira ampla com o público, não é de mudar a linguagem, de reinventar a linguagem isso é mais dos poetas […].

No começo da canção, ele canta num estilo “cool” como Chet Baker, para mais adiante cantar com a voz empostada, numa espécie de pastiche de Orlando Silva e Nelson Gonçalves (cantores populares da velha guarda da época), e que veio a ter continuidade em “Coração materno”, de Vicente Celestino, gravado no Disco “Tropicália ou Panis et Circencis”

 “Onde andarás” foi gravada por Maria Bethânia, Marisa Monte, Joanna, Gal Costa e Adriana Calcanhoto

Fontes:

http://www.drzem.com.br/2014/12/a-historia-da-musica-onde-andaras-de.html

http://sergipeeducacaoecultura.blogspot.com/2009/07/

Caetano Veloso em texto para o Pasquim – 26/03 a 01/04/70

Cheiro de amor. Jingle de Motel que virou Sucesso na voz de Bethânia

Em 1979, Duda Mendonça gravou um jingle para o Motel Le Royale, em Salvador, numa campanha para o dia dos namorados.

Certo dia, Maria Bethânia estava na Bahia e escutou o jingle:

Esta música era um jingle do Duda Mendonça. A primeira coisa que eu faço quando chego na Bahia é ligar logo o rádio. É diferente de qualquer outro lugar que eu vá. Não sei que impulso é esse. aí, naquele dia liguei e começou a tocar isso.Eu achei a música linda e vi que era uma propaganda de motel. Eu perguntei: ‘Mas que motel?’ Então me mostraram e pensei: ‘isto é lindo’. No percurso até minha casa tocou isso umas dez vezes. Como na época eu gravei um filme para a empresa de Duda, numa fase que queriam dividir a Bahia, quando estive com ele acabei sabendo que a música era dele com ´Paulo Sérgio Valle. Pedi sua permissão, ele me deu, e eu gravei.  (História sexual da MPB, p. 218

Bethânia encomendou a Jota Moraes e a Paulo Sérgio Valle uma segunda parte da canção. No final, “Cheiro de Amor” solidificou-se com dois refrões diferentes e duas estrofes iguais, uma antes de cada um. A letra reflete um momento na música popular brasileira, em que a mulher se libertava de tabus e cantava seu amor de forma mais liberal. Maria Bethânia incluiu a canção no seu álbum Mel, um disco de sucesso, que conta com outras canções com apelo sensual, temas que faziam parte desse momento na carreira da cantora

Resultado de imagem para bethania mel

Duda Mendonça conta sua versão da história no livro Casos e Coisas:

Mas, sem duvida, o jingle de maior sucesso da minha carreira não tem nada haver com campanha política. Foi o que fiz em parceria com a turma da produtora carioca Zurana, para um motel baiano, chamado “Le Royale”. E estourou na Bahia. Tivemos que providenciar cópias da musica para dar de presente, como brinde aos frequentadores do motel:

De repente fico rindo à toa

Sem saber por quê

E vem a vontade de sonhar

De novo te encontrar

Foi tudo tão de repente

Eu não consigo me esquecer…

O jingle, aliás, não dizia o nome do motel. Falava de uma situação amorosa. Só. A assinatura “Le Royale” aparecia apenas no final, capitalizando toa a emoção da música.

E aí veio a surpresa, num belo dia recebi o telefonema de Maria Bethânia. Ela perguntava se eu a autorizava a gravar aquele jingle em seu novo disco, Mel. Quase caí da cadeira. É claro que sim Bethânia, com todo prazer. Foi o que consegui balbuciar. E foi assim que a música “Cheiro de Amor” entrou para as paradas de sucesso.

Houve um momento até engraçado. Quando Bethânia lançou o disco, eu ao estava no Brasil. Um mês depois, saltei no aeroporto do Galeão, no Rio, e fui para uma filmagem. Ao entrar no táxi, o rádio anunciava: “Em primeiro lugar, Maria Bethânia com a música ‘Cheiro de Amor’. Não resisti e eufórico, disse ao motorista: “Essa música é minha”. Ele olhou para trás e deu uma risadinha marota, carioca, como se estivesse pensando: esta profissão de taxista é fogo, pego cada doido..

Resultado de imagem para duda mendonça casos e coisas

 

Fontes: Faour, Rodrigo. História Sexual da MPB. 4ª Ed. São Paulo, Record, 2011.

Mendonça, Duda. Casos & Coisas. ed. Globo, 2001.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cheiro_de_Amor_(can%C3%A7%C3%A3o)