Drão – a bela música de separação contada por seus protagonistas

Quando me perguntaram certa vez sobre músicas de separação, as duas que me apareceram foram de Chico: “Eu te amo” e “Trocando em miúdos”. Duas músicas belíssimas, pungentes, contém frases como “se confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu hei de partir”, na primeira, ou “não vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado”, na segunda. Mas há um outro lado da moeda. Um desatar de um casamento não como mágoa ou desamor, mas como um amor que muda…

Ainda criança, ouvia “Drão”, de Gil, e a música não me dizia nada. “Drão” foi o apelido dado por Maria Bethânia para Sandra Gadelha, que, na época da composição da música, estava se separando de Gilberto Gil. A música continua universal. Hoje, percebo ser uma das mais belas músicas de separação já escritas. Escrita para desmentir a história que a separação é o fim do amor e o começo de desamor, mas de um amor que se transforma e se eterniza.

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Por isso mesmo, quis juntar, numa música de separação, os depoimentos de Gil e de Sandra sobre a música e a época. E agradecer aos dois por serem musa e artista de uma das mais belas canções de Gil:

Gilberto Gil, no disco “Todas as letras” (Cia das Letras, 2000), diz:

Sua criação apresentou altos graus de dificuldades porque ela lidava com um assunto denso – o amor e o desamor, o rompimento, o final de um casamento; porque era uma canção para Sandra [apelido de de Drão – daí o título de música] – e para mim. ‘como é que eu vou passar tantas coisas numa canção só?’, eu me perguntava.”  

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 Sandra Gadelha, como inspiradora da canção, conta a história de como Gil lhe mostrou a música, numa reportagem da revista Marie Claire:

Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.

Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.

Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos.

No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.  A primeira vez em que ouvi ‘Drão’ depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: ‘Os meninos são todos sãos’. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo.

Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve ‘Drão’. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou, Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de Drinha.

Vale a pena escutar.

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Primeiramente, Gil faz um paralelo entre Drão e o grão, oamor que é a semente que tem que morrer para germinar, fazendo referência à semeadura, e ao neologismo “caminhadura”, que faz referência à dura caminhada de uma relação.

Em seguida, Gil exorta ao não sofrimento, e que o amor transcende e se estende, e no final há um jogo de palavras entre o amor que é “vão”, mas que ao mesmo tempo é sólido como um monolito (estrutura geológica a partir de uma só rocha).

Por fim, Gil faz referência aos filhos sãos, assume os pecados, mas não pede perdão, já que não há o que perdoar, e que assim é o amor que morre nasce trigo, vive e morre pão.

P.S.  Eu podia aqui divagar sobre o “catar feijão”de João Cabral de Melo Neto no processo criativo e falar sobre o elemento confessional na criação artística. Mas isso fica para outra viagem…

Fontes: Gilberto Gil. Todas as Letras (Org. Carlos Rennó). 2ª Ed, Cia das letras, 1996; http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao6.htm

domingo 29 agosto 2010 03:35 , em Mulheres e suas canções

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O Mestre-sala dos Mares. Homenagem ao Almirante Negro, João Cândido

 

Algumas músicas se tornam mais interessantes quando se descobre a história por trás da canção. As musas, as inspirações, as circunstâncias em que uma música surgiu podem torná-la mais bonita. É o caso, sem sombra de dúvida, da canção “O mestre-sala dos mares“, de João Bosco e Aldir Blanc, em 1975, em homenagem ao marinheiro João Cândido, conhecido como “O Almirante Negro“, que liderou a “Revolta da Chibata”, em 1910.

Olhem abaixo uma entrevista com João Cândido… que disse ter participado de um movimento de salvação pública.

Para quem não sabe, a Revolta da Chibata foi um movimento idealizado por Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, e depois liderado pelo cabo da Marinha João Cândido, o “Almirante negro”,  semi-analfabeto, que se insurgia contra os desmandos na marinha: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais (chibatadas), que tinham sido reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.Por isso a revolta, iniciada em novembro de 1910, ficou conhecida como Revolta da Chibata.

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Os marinheiros assumiram o comando de navios, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, inclusive o Palácio do Governo, caso os castigos corporais não fossem suprimidos. Em Princípio, o governo de Hermes da Fonseca cedeu. Foram aprovadas  medidas que acabam com as chibatadas, bem como  um projeto que anistia os amotinados.

Mas a anistia não durou dois dias. Em 28 de novembro, os marinheiros foram surpreendidos pela publicação do decreto número 8400, que autorizava demissões, por exclusão, dos praças do Corpo de Marinheiros Nacionais “cuja permanência se torne inconveniente à disciplina“. O Governo traiu os revoltosos, que foram presos, perseguidos, e encaminhado para uma prisão subterrânea na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Quase todos morreram sufocados, pois a cela era subterrânea, sem ventilação e estava cheia de cal. Apenas João Cândido sobreviveu, juntamente com o soldado Naval João Avelino. João Cândido foi perseguido, considerado louco e morreu aos 89 anos, em 1969, quase no anonimato, como vendedor de peixes.

 

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João Cândido

No auge da ditadura militar, João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem ao “Almirante Negro”. Numa entrevista, Aldir Blanc afirmou:

Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:

 – Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…

– Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

– O problema é essa história de negro, negro, negro…”

Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente “O Mestre-Sala dos Mares”, saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo “Um herói, uma canção, um enredo – Noite do Navegante Negro”, da Escola de Samba União da Ilha, em 1985.

 

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A música, para ser aprovada pela censura, sofreu várias modificações, que podem ser vistas na tabela ao lado, disponível originalmente http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html

Letra original: As palavras em vermelho foram censuradas, substituídas pelas que estão em azul

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro (feiticeiro)
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante (navegante) negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar (acenar) pelo mar com seu bloco de fragatas (na alegria das regatas)
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas (santos entre cantos e chibatas)
Inundando o coração de toda tripulação (do pessoal do porão)
Que a exemplo do marinheiro (feiticeiro) gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro (navegante negro)
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

Fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html; http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/canhoes-chibata-433714.shtml

CHEUICHE, Alcy. João Cândido, o Almirante Negro. Porto Alegre: L&PM, 2010

 

Se o caso é chorar. A Música de Tom Zé que é toda Plágio

Se o caso é chorar, uma bela música de Tom Zé, na verdade, é uma colagem de plágios. O próprio Tom Zé conta a história numa entrevista:

Aliás, essa música é toda plágio. É até bom aproveitar a oportunidade para contar pra vocês o lado avesso da história. Essa música fez sucesso, foi primeiro lugar na parada de sucesso no Brasil durante meia dúzia de semanas, durante um ano quase inteiro, em 1973, e essa música é toda plágio. A ideia de fazer uma canção toda plágio nasceu por causa de uma canção anterior, de que as pessoas de minha idade também se lembram, que é aquela
valsinha que dizia assim:

Passo a passo, braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete horas, oito dias
Dezenove, vim te ver

— Essa música ganhou num festival da Hebe Camargo o primeiro lugar. E aí saiu no Estadinho [Jornal da Tarde, irmão mais novo do Estadão] na seção “O Leitor Escreve”, tava escrito lá: “A música de Tom Zé ´Silêncio de Nós Dois´ é plágio do Garcia Lorca na página tal qual…”. Eu disse, vala-me Nossa Senhora, corremo lá pra casa, pegamos o Garcia Lorca, fomos lá na página e hum… tinha lá também a palavra moita. Então tudo bem.

 

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Mas eu falei assim, puxa!, é uma ótima ideia fazer uma canção que seja toda plágio.  Comecei a pensar no assunto e me lembrei dessa harmonia , que é do Estudo número 2, do Chopin. Vocês já conhecem ela em outra música brasileira, a mesma coisa também, só a batida é diferente [trata-se de ´Insensatez´, do Tom Jobim. ]

 A harmonia é a mesma. Então, peguei essa harmonia e botei… A forma, eu me lembrei que Antonio Carlos e Jocafi, naquele tempo davam as regras do mercado nacional com aquele tipo de coisa: a primeira parte menor [harmonicamente falando], com a sintaxe da língua portuguesa mais ou menos estranha, pra ficar parecendo uma coisa tipo luz de boate, assim simbolicamente, metaforicamente, num precisava dizer nada, bastava ter uma dorzinha e tal, e amor por aqui, amor por acolá, então eu comecei a construir essa estrutura, que não quer dizer absolutamente nada, prestem atenção:


Se o caso é chorar, te faço chorar
Se o caso é sofrer, eu posso morrer de amor
Vestir toda minha dor, no seu traje mais azul
Restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar

— No fim, eu tinha chegado a botar assim: “…Deixando meus olhos vazados de tanto chorar”. 

A minha mulher disse: “Assim, também não, assim é esculhambação, ninguém vai te levar a sério. Olhos vazados de tanto chorar? Que diabo, você é louco? Tenha paciência…”. Aí mudei a letra e Perna, meu parceiro [Antonio Perna Fróes, pianista baiano ], tava aqui em São Paulo e me deu a ideia da segunda parte; Ele disse: “Tem uma música dos Beatles –dos Beatles, não, dos Rolling Stones, uma imitação dos Beatles daquele tempo – que fala um negócio mais ou menos assim, deixa sangrar meu peito, um negócio assim, aí ele deu a ideia:

Amor, deixei sangrar meu peito
Pra tanta dor, ninguém dá jeito
Amor, deixei sangrar meu jeito
Pra tanta dor, ninguém tem peito
Se o caso é chorar…

— Agora, a segunda parte é uma colagem, não tem nenhuma palavra minha. Tudo música dos outros, vejam se vocês descobrem, eu juntei músicas de sucessos dos outros :

(cantando)
Hoje quem paga sou eu (um tango de Nelson Gonçalves) , o remorso talvez (Lupicínio Rodrigues)
As estrelas do céu também refletem na cama
De noite na lama (Inversão de Caetano), no fundo do copo (Ary Barroso)
Rever os amigos (Adelino Moreira e Jair Amorim), me acompanha o meu violão (Nelson Gonçalves)
Amor deixei sangrar meu peito…

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Fonte: http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0111/0372.html

Tom Zé, Estudando o samba: Som do VInil, Entrevistas a Charles Gavin

 

“Fogueira” – de Ângela Ro Ro para Zizi Possi

Histórias de amor deixam marcas e músicas. Algumas músicas, como algumas histórias de amor, são óbvias e não possuem muita coisa de especial. Outras músicas marcam, ficam definitivamente marcadas, como certas e especiais histórias de amor.

Toda história verdadeira de amor tem sua canção ou sua trilha sonora, e sorte de quem consegue traduzir numa bela letra, harmonia e melodia os encantos e desencantos do amor vivido.

Falo isso para analisar “Fogueira” uma das músicas mais belas, senão a mais bela, gravada por Ângela Ro Ro.

 A música foi composta para Zizi Possi, com quem Ângela vivia um romance (ambas moravam juntas), e algumas histórias não bem esclarecidas fizeram com que o romance terminasse. As fontes – nem sempre confiáveis – dão conta de que Ângela teria sido acusada de agredir Zizi.

Angela Ro Ro e Zizi Possi em foto de arquivo: cantoras tiveram relação amorosa turbulenta no início dos anos 80 (Foto: Reprodução)

A outra, que causou mais impacto, foi quando, após o rompimento, Ângela compareceu a um show de Zizi. Na voz de Ângela:

“Mandei comprar ingressos e fiquei em casa, com o meu amigo Claudio conversando e bebendo vinho. Como tivesse sobrado meia garrafa, botamos na mochila dele e saímos. Quando entramos no teatro, as luzes já estavam apagadas. Sentamos, no maior silêncio. Mas comecei a participar do espetáculo, como uma espectadora comum que estivesse adorando o que se passava no palco, cantei junto, aplaudi e gritei “Zizi Possi, eu te amo!”. Acontece que eu sou extrovertida e essa é minha maneira de opinar, tanto para elogiar quanto para protestar. A primeira parte do show terminou com My sweet lord que eu adoro e cantei interinha, do meu lugarzinho. foi quando as luzes se acenderam para o intervalo.”  

No entanto, esta interferência não teria agradado Zizi, que, segundo a mídia da época, teria retrucado:

 “Eu gostaria muito que você entendesse…Usasse toda a sua inteligência e percebesse que é com você que eu estou falando agora. As suas vibrações me incomodam, sua presença me perturba… Você nunca me ajudou, por favor não me atrapalhe, não se interponha em minha vida pois você não me é mais uma pessoa querida. Levanta, levanta por favor vai embora! Levanta, saia do teatro agora! Eu preciso de paz pra tocar e cantar!”

Ângela acabou sendo retirada do Teatro pela polícia. Disse ter sido traída:

“Zizi me traiu. e quando falo em traição, não me refiro a infidelidade. Traição é aquilo que Tiradentes sofreu e eu, que não sou dada a usar coroas de espinhos, não estou afim de entrar nessa… mas não esquento não. Nunca vi um monte de formigas derrubar Gibraltar, a ambição dessa mulher, de ser Sara Bernhardt, já esta quase preenchida, falta chegarmos ao tribunal. Aí sim, a pobre moçoila seduzida pela terrível bêbada e perigosa homossexual”

 

O fato é que a mídia da época, no início dos anos 80, tratava a relação de ambas como um tabu, sendo feitas diversas referências preconceituosas sobre a homossexualidade.

 As razões do rompimento são questões menores e que devem ficar para as revistas de fofocas. O fato é que Ângela fez uma música confessional, uma declaração de amor e de incredulidade por alguém que está sendo magoado. O interlocutor do eu-lírico está machucando, se escondendo, decepcionando um amor profundo, que, apesar de tudo, resiste.

É uma canção que oferece um perdão em nome do amor, que tenta dizer que nem sempre haverá outra oportunidade para vivê-lo e ganhá-lo a cada revés, mas que ao mesmo tempo se contradiz, dizendo ser o amor eterno, não passageiro, que está sempre disposto a perdoar se o objeto do sentimento puder, ainda que brevemente, estender a mão.

 “Fogueira” foi gravada também por Bethania em 1983, mas seu caráter absolutamente confessional a faz mais bonita quando interpretada por Ângela Ro Ro, cuja voz rouca e o estilo de cantar lembra um pouco a cantora Maysa (e a intensidade dos sentimentos, também).

 Muitos anos depois, em entrevista ao Jornal “Gazeta do Povo”, Ângela esclareceu:

  Não quero ser indelicado, mas o desafeto com a Zizi Possi continua?

Com a Zizi Possi? Não há o menor desafeto. Eu tive uma profunda tristeza da gente. Ela e eu fomos vítimas de manipulações, de más línguas. As pessoas foram muito maliciosas. Muita maldade, muita truculência física e psicológica contra mim. Eu nunca bati em ninguém, muito menos na Zizi e ela sabe disso. Eu acho a Zizi uma pessoa muito bacana. Nunca mais fizemos amizade. Ela tem uma filha linda que canta tão bem quanto ela. Zizi é uma grande artista. Pena que nunca mais fizemos amizade porque eu poderia pedir dinheiro emprestado a ela, né?

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Ao que vai chegar – de Toquinho para seu filho Pedro (1984)

 

As músicas de pai para filho fazem um capítulo à parte na história da música.Tais músicas tratam de um amor que a gente só sabe que existe quando tem um filho. Por isso as mensagens para os filhos são tenras, cheias de amor e esperança.

Uma dessas canções é Ao que vai chegar, composição de Toquinho e Mutibho, em 1984, João Carlos Pecci e Wagner Homem contam em Toquinho: História das canções (Leya, 2010), A ORIGEM DESSA MÚSICA: 

Em 1984, Toquinho queria muito receber Pedro, o filho que estava para nascer, com um tema musical. Mas a ideia não vinha provavelmente devido à ansiedade de ser pai pela primeira vez. Percebendo a dificuldade do parceiro, Mutinho, durante uma viagem de trem para Milão, deu a Toquinho um gravador com uma fita cassete dizendo: ‘escuta, é a música do Pedro’. Ele ouviu, fez uma cara de felicidade e falou: ‘Estava faltando isso em minha vida!’ E depois fez a letra. E assim o parceiro transformou-se também em parteiro musical”

A música, na primeira parte, associa o filho que vai chegar como uma luz, uma energia…  a letra fala de sol, brilhar, luz, clareia, acende, aurora, enfim, referências constantes à luminosidade que o filho traz para a sua vida.

Na segunda parte, fala-se das coisas boas desejadas ao filho: o brilho da paixão, a fé, a paz, e uma casinha onde se possa ser feliz… quando se conhece a história da canção, ela se torna mais bela e comovente…

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Toquinho conta também a história da música, que foi tema de abertura da novela Livre Para Voar, da Rede Globo:

Ao que vai chegar é uma música muito importante para mim . É uma festa, uma festa utópica, é claro, preparada para essa pessoa especialíssima, para a qual temos um tipo de amor dentro da gente que só sabemos e sentimos quando temos um filho. E antes disso, nem sabemos que esse amor existe. Quando vem essa criança e começamos a conviver com ela, a gente pensa: ‘puxa, eu podia amar tanto e não sabia`… Então, essa música é um pouco isso, a descoberta desse amor que eu tenho dentro de mim e que só aflorou com a presença desse ser estranho que passei a gostar tanto, que é meu filho Pedro”. 

 A letra:

Voa, coração
A minha força te conduz
Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
E não esqueça de trazer força e magia,
O sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
Que ele não deve demorar
E tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
E traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
E de onde se planta a paz,
Da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
Pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

O dueto de Caetano Veloso e Odair José em 1973

Em 1973, em plena ditadura militar, a Música representava uma das mais fortes expressões dos sentimentos populares. Assim, em maio de 1973, realizou-se um festival no Palácio de Convenções do Anhembi, com o elenco da gravadora Phonogram (Universal), que tinha como contratados a nata da música popular brasileira. .

No festival, grandes momentos merecem registro: Elis, Gal e Bethânia juntas, Toquinho e  Vinícius, Gil e Chico com Cálice. Mas um momento chamou a atenção e vaias do público. Foi o dueto entre Odair José e Caetano Veloso, cantando a música “Eu vou tirar você desse lugar”, em que o eu-lírico revela o seu amor por uma prostituta e promete resgatá-la, mesmo diante das dificuldades e preconceitos que a situação ensejava.

 

Consta que a vaia no Anhembi foi fenomenal, sobretudo porque Odair José, que há pouco se tornara conhecido pela canção “Pare de tomar a pílula” (que na época causou revolta em setores conservadores do clero), era um representante de uma música considerada “brega” e “alienada”

 

 

Foi justamente a partir desta apresentação que Caetano cravou uma de suas frases emblemáticas: “Não há nada mais Z do que a classe A”.

 

Na gravação acima, não se percebem as vaias, eliminadas no processo de masterização que deu ensejo ao disco , que foi proibido pela censura .

 

Paulo Cesar de Aaraújo, no seu livro “Eu não sou cachorro não”, conta um pouco da história:

 

Caetano então resolveu radicalizar, convidando para seu palco aquele artista considerado o mais redundante, banal e comercial: Odair José. Anunciado como ‘uma noite incrível reunindo o maior espetáculo de música brasileira de todos os tempos’, o show de Caetano Veloso — com o convidado surpresa Odair José — foi o último da mostra Phono 73, que contou naquele mesmo domingo com apresentações de Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão e outros. Espécie de ‘patinho feio’ incluído em uma festa que reunia a nata da MPB, Odair José não poderia deixar de causar reação em um público preso a preconceitos estéticos de sua formação de classe média.” (Paulo César de Araújo, em “Eu não sou cachorro, não”, de 2002).

 

 

Odair, para Paulo Cesar, conta a história da canção:

A história é a seguinte: o cara trabalhava o dia inteiro e ao final do dia, em vez de ir pra casa, ele passava ali para tomar um drinque e tal.
E com esse drinque começava um grande romance. No dia seguinte ele voltava para tomar um segundo drinque, e mais um terceiro,
porque já estava realmente apaixonado por alguém dali. Eu assisti muito isso. Porque ali se encontram moças extremamente dignas, e o fato de estar naquele trabalho é apenas uma opção ou circunstância da vida, porque às vezes você faz planos de vida e a vida muda seus planos.

Sobre a experiência e as vaias, ele conta:

Eu era o maior vendedor da Polygram, mas não estava ali entre a elite. Naquele momento foi um prazer estar com ele (Caetano), um homem muito inteligente, à frente de seu tempo. Mas foi, evidentemente, uma confusão, com vaias, porque eu era um objeto estranho naquele ambiente. Vaias a gente sempre leva na vida, mas aquela foi uma noite especial à qual talvez eu não tenha dado a devida importância” 

O episódio deixa bem claro o caráter tropicalista de Caetano, que através de sua postura conseguiu “legitimar” , ainda que tardiamente, muitas músicas não consumidas por uma chamada “elite” intelectual brasileira, que patrulhava e rotulava artistas. Tanto que foi Caetano que mostrou interesse em Odair, e não o contrário, como ele disse numa entrevista:

 

Como se deu esse encontro com o Caetano Veloso?

Soube através do André Midani (então diretor da gravadora Phonogram) que o Caetano gostaria de se apresentar comigo no Phono 73. Lembro que fretaram um avião para ir ao interior de São Paulo, se não me engano Piracicaba, onde ele estava se apresentando. Cheguei e o Caetano disse que gostava muito da música e queria cantá-la comigo. Tive uma boa impressão do Caetano que, por sinal, é um cara muito simples 

E como foi o show? As vaias o incomodaram?

Para mim era apenas mais um show em minha vida, não dei tanta importância ao fato até chegar ao palco. Fui muito bem recebido por Caetano mas ficou bem claro para mim a distância de estilos através da reação de parte do público. Nunca tive como meta atravessar o ”outro lado” da MPB, eu só sei fazer o que faço e pronto. Se é brega, popular ou outra coisa não me importo. Eu me lembro que diante das vaias, Caetano jogou o microfone no chão, falou alguma coisa sobre classe A e Z e saiu do palco. Eu permaneci no palco, não tinha porque sair de lá e cantei outras duas músicas” 

 

Curioso, por fim, é saber que há muitas entrevistas perguntando a Odair sobre o episódio, e bem poucas com Caetano…

 

Fontes:

Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro, não”

http://rodrigomattar.grandepremio.com.br/2013/07/discos-eternos-phono-73-o-canto-de-um-povo-1973/

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1511200520.htm

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2014/11/1973-vou-tirar-voce-desse-lugar.html

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2016/10/23/odair-jose-lanca-gatos-e-ratos-e-recusa-rotulo-de-brega-257802.php

https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/entrevista-a-cafonalia-no-crivo-da-censura-492694.html

 

Mudando como um deus o curso da história, por causa da Mulher….

Esta frase termina uma bela homenagem de Gilberto Gil ao feminino, numa canção em que música e letra foram compostas ao mesmo tempo, e que se intitula “Super-Homem – a canção”.

Para quem não sabe, antes mesmo dos filmes sobre Homem-Aranha, X-Men, Batman, Pantera Negra, Homem de Ferro e etc, um filme de super-herói fez história no final da década de 70. Era o Super-Homem – o filme, com Christopher Reeve no papel de Super-Homem, Margot Kidder no papel de Lois Lane, Marlon Brando no papel de Jor-El, pai do Super-Homem e Gene Hackmann no papel de Lex Luthor.

 

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O filme mostra o quanto o super-homem, ao mesmo tempo em que é vulnerável pela kriptonita, é vulnerável também ao amor que sente por Lois Lane, colega de profissão de seu alter-ego, Clark Kent. Super-homem não consegue suportar a ideia da morte de Lois Lane, e então opera um milagre.

A partir da narrativa de Caetano sobre o filme que acabara de ver, surgiu uma das mais conhecidas músicas de Gil, uma homenagem, que ele narra no seu livro Todas as Letras (Cia das letras, 1996).

Eu estava morando na Bahia e não tinha casa no Rio, por isso estava hospedado na casa do Caetano. Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã

De repente eu ouvi uma zoada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Super-Homem. Falava na sala com as pessoas, entre elas a Dedé [Dedé Veloso, mulher de Caetano à época]; eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo para salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme… Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir

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Mas eu não dormi. Estava impregnado da imagem do Super-Homem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa ideia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente: ‘Que linda!’

Gil somente fora ver o filme quando estava nos Estados Unidos para gravar o disco Realce. A canção foi feita, portanto, a partir da narrativa de Caetano Veloso sobre o filme. .

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O significado da canção, que há quase 40 anos foi visto com certa desconfiança pela critica, hoje parece evidente:  é uma homenagem àquilo que é visto como feminino, como características atribuídas naturalmente às mulheres, e que são coisas que fazem o e-lírico melhor, muito mais do que o tradicional mundo masculino. Gil, ainda sobre a letra, arrematou:

 

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Sobre a “porção mulher” – “Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo, e ela é o contrário. O que ela tem, de certa forma, é sem dúvida uma insinuação de androginia, um tema que me interessava muito na ocasião – me interessava revelar esse imbricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano”.