10 coisas dos carnavais de 25 anos atrás que não se vê hoje. E uma crônica saudosista…

 

Sempre achamos que “nossa” época é melhor do que a época dos outros. Nossa infância foi mais infância, nossa juventude era mais excitante, nossas experiências, mais enriquecedoras, enfim, que vivíamos num mundo melhor.

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Carnaval no Campo Grande

Talvez seja uma visão nostálgica, na qual nós nos esquecíamos das dificuldades e das coisas desagradáveis que aconteciam. Isso vale para tudo, inclusive para o carnaval. Aí me deparei com uma postagem de Fabio Gagliano, de 2012, com um certo saudosismo do carnaval, cuja postagem vem a seguir. Ele relata com saudosismo um carnaval que não volta atrás. E elege como símbolo do carnaval a mamãe-sacode. O que tinha esse carnaval que acabou no século passado?

 

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1) O bloco era mais importante que o artista. Cada pessoa era associado de um bloco, o “seu” bloco de carnaval. Cada bloco tinha sua característica, seu público. 

2) A vestimenta era mortalha (que durava os 3 dias), apenas em meados da década de 90 vieram o abadá (com o Eva) e com 1 abadá por dia (Com o cheiro);

3) O kit dos blocos incluía mortalha, boné, mamãe-sacode, faixa, adesivo para colocar no carro, e às vezes uma munhequeira para enxugar o suor (há quem usasse para outros fins);

4) No começo do verão todo mundo já conhecia a música dos artistas de seu bloco;

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5) Havia a maior concorrência pelo lugar na fila na avenida; o circuito Barra-Ondina era chamado de circuito alternativo. Quase não passavam trios por lá.

6) Camarote? No máximo as arquibancadas no Campo Grande e a pipoca vendo os blocos passarem na Casa D’Itália.

7)  Na terça-feira, ou os trios desciam para o Farol da Barra, ou iam para o encontro de Trios na Praça Castro Alves;

8)  O carnaval começava na quarta-feira com a Lavagem do Porto da Barra.

9) Ainda havia bailes de carnaval nos clubes. O mais famoso era o Branco e Preto, que ocorria no Baiano de Tênis, mas também tinham Bailes na Associação Atlética e no Clube Espanhol;

10) O auge do desfile é quando os blocos passavam pelo Campo Grande, os puxadores de trio pediam para os foliões levantarem a mamãe-sacode.

 

Obviamente, quem viveu aquele carnaval dificilmente achará divertido um carnaval de camarote. O carnaval de hoje é muito diferente daquele que se praticava há 15, 20 anos.

A questão é: será que era efetivamente melhor? Aquele carnaval não voltará mais, e se esse carnaval de hoje está longe do ideal, é certo de que ele jamais voltará a ser o que já foi um dia. Cada carnaval reflete um pouco de uma época e de uma geração, E não há indícios de que o carnaval de amanhã vai ser m,ais parecido com o carnaval de ontem. Que era espetacular, inesquecível, mas era o carnaval de ontem.

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O importante é reencontrar nas pessoas o brilho e a alegria de fazer parte de uma festa única. E que seja possível encontrar muitos carnavais em um só. O de ontem, hoje e amanhã. E vejo todo mundo nas ruas, por muito mais do que uma semana.

Vejo trios e fanfarras. Vejo fantasias nas ruas. Vejo carnavais no centro histórico, tem de tudo, mas ainda estão no carnaval o samba, os tambores e a guitarra elétrica, tripé que deu base àquilo que chamamos de axé.

O modelo de blocos com milhares de pessoas vai se esgotando, mas os  pequenos bloquinhos que vão pra rua ainda estão lá. Os trios pipoca ainda estão lá, como, há 40 anos, eram Armandinho, Dodô & Osmar (com Moraes Moreira) e o Trio Tapajós. Dá até vontade de sair na rua, fantasiado de folião anos 90 com mamãe-sacode.

Parece que o carnaval da Bahia continua sendo uma metamorfose muito maior do que em qualquer outro lugar. Se um sujeito fosse congelado há 30 anos e acordasse hoje, no século XXI, e visse o carnaval do Rio ou de Olinda, ainda reconheceria aquele espaço de 30 anos. Na Bahia é um pouco diferente. Muita coisa muda. Há espaço para a tradição? Claro! Mas na Bahia nenhuma tradição carnavalesca sobrevive se não houver um sentido, e este sentido está na existência de pessoas pulando e cantando na rua. E que viva o samba, os tambores e a guitarra elétrica…

 

Segue abaixo a crônica que me referi.

 

Roubaram meu Mamãe-Sacode

 

(SALVADOR – Eu quero muito mais que o som da marcha lenta) – Chegou fevereiro. Chegou o Carnaval. E o Carnaval, na Bahia, me leva à infância. Me leva a imagens, sons e sentidos que marcam a minha essência.

Nasci e cresci na Rua da Mouraria, bem próximo à sede do bloco “Os Internacionais”. Acompanhava a elaboração dos figurinos, a escolha da fantasia. Via de perto o nascimento de cada peça, com as costureiras que, incansavelmente, trabalhavam lá, onde morávamos, no seu andar térreo. Estive ao lado da concentração onde o maestro Reginaldo “Bigodão” comandava uma banda de músicos de “não-sei-quantos” homens para sair da Mouraria e conduzir Os Internacionais rumo ao seu desfile. Instrumentos de sopro em cima do caminhão. Instrumentos de percussão ao chão.

Cresci utilizando cada uma das fantasias do bloco, e me apaixonei com a paixão de meu pai, louco por Carnaval mas, principalmente, para “ver o bloco na rua”. Chorei com a sua emoção que derramava lágrimas ao avistar, de longe, o bloco despontando na Avenida com seus 1.500 integrantes e suas alegorias de mão abrindo alas para um espetáculo belíssimo e inesquecível. Angustiava-me com a sua eterna angústia que, ao perceber que o seu bloco estava perfeito, iniciava a torcida para que tudo logo acabasse, sem problemas, sem percalços, sem confusão. O ato de colocar o bloco na rua era a sua paixão, o seu ideal. A percepção, à quarta-feira de cinzas, de não ter havido contratempos, coroava o seu carnaval e alavancava a preparação do ano seguinte.

Em paralelo, via de perto o Cheiro de Amor exalando sua fragrância na Avenida e usando um macacão por 3 dias consecutivos. Imaginem como se encontrava o mesmo no último dia de carnaval, posto que era impossível lavar e secar tal tipo de tecido de um dia para o outro. Vi o Camaleão de Luís Caldas, o Crocodilo do Asa de Águia, o Eva de Ricardo Chaves. Vi as mortalhas invadirem multicoloridas as Avenidas do Centro de Salvador. Vi, ainda os blocos subirem até a Sé, pararem para um leve descanso e descerem para a Carlos Gomes via Praça Castro Alves quando, não raro, encontravam outro bloco em sentido inverso. Me desesperei quando o trio dos Comanches perdeu seus freios na descida da Sé matando inúmeros foliões e gerando o pânico na praça do poeta.

Enquanto isso, saía no Domingo e na Terça fantasiado de romano, marajá, gondoleiro, pierrot, chinês, imperador inca, príncipe, pirata, dentre outros. Isso nos Internacionais, onde os homens estavam dentro das cordas e as mulheres compunham o séquito no lado de fora.

No Sábado e na Segunda, a coisa mudava de figura. A família inteira estava reunida no “Eu e Ela”, utilizando-se de mortalhas e, assim como em “Os Internacionais”, a condução era realizada pela grande banda Chiclete com Banana. Os foliões dançavam, brincavam, curtiam, namoravam, bebiam. Eu estava vendo o Carnaval sendo feito e utilizado pelas mesmas pessoas. O organizador era folião. O ambulante, idem. O cantor, também. O radialista, igualmente. Bem como os artistas, intelectuais, políticos e todos os segmentos sociais.

Apesar de muito pequeno, vivi tudo muito de perto. Minhas primeiras imagens da infância me remetem à rotina matutina da organização carnavalesca, com a chegada do trio, a preparação das cordas, o teste do som, a dinâmica dos caminhões com os “engradados de cerveja” abastecendo os bares e ambulantes na área do quartel dos Aflitos, o mamãe-sacode empunhado com orgulho…

Ah…. os Mamães-Sacode… Esses eram, talvez, as maiores referências do Carnaval da Bahia. Compunham elementos de estética visual indescritíveis que, ao serem atiçados conjuntamente ao ar davam, ao espectador, uma visão sublime, que demonstrava indelevelmente o fracasso ou o sucesso do artista de trio, do puxador de bloco.

O bloco Tiete Vips, popularíssimo, através do saudoso Val Valle e da Banda Tiete Vips nos brindavam com um espetáculo deslumbrante ao adentrar a área do palanque do Campo Grande. Quem não lembra do famoso grito de guerra: “Tiete Vips chegoooooou, ê aê aô”.

Vi o Frenesi de Adhemar e Banda Furta Cor. Vi, ainda, a deslumbrante Banda Mel com o seu Prefixo de Verão e a sua Baianidade Nagô. Acompanhei a Reflexus com o seu Madagascar Olodum e o Canto para o Senegal.

Acompanhei os “gênios” do carnaval baiano que, sob a aura da modernidade, extirparam a nossa mais pura cultura. Os magos criadores do abadá e carrascos das fantasias e mortalhas. Não há mais alegorias de mão. Não há mais a alegria do mamãe-sacode eclodindo no ar das ruas centrais de Salvador. Criaram o circuito alternativo na Barra e desterraram a Avenida. A partir do momento em que ficaram de um lado os criadores e, do outro, os foliões, o Carnaval da Bahia passou a ser um espetáculo midiático, de compra e venda de pacotes publicitários, perdendo toda a sua verdadeira essência. Os camarotes são excrescências deste processo, onde se ouve 90% de música eletrônica e, muito raramente, surge alguém que recorda estar no Carnaval da Bahia e vai dar uma espiadinha no trio que está a passar.

Há alguns anos, acreditem, fiz a bobagem de  participar de um bloco puxado pelo tal do Tuca Fernandes, o bloco Eu Vou. A cena que presenciei era dantesca. Inúmeros adolescentes não estavam nem um pouco interessados em dançar, pular, brincar. Era uma sequência tão bizarra quanto assustadora. Parecia um filme de zumbis, ou mesmo o seriado “The Walking Dead”. Adolescentes totalmente dopados, olhos vermelhos, bocas abertas, babando e procurando outras bocas para consumar um ato que, em nada, se lembra ao clássico beijo de carnaval. Nem Kubrick poderia descrever um cenário tão aterrador.

Arlequim morreu. Colombina se prostituiu. Pierrô abriu uma seita fanática religiosa. O folião não quer mais folia. O cantor não quer saber do folião, e sim da mídia. Ninguém agita mais ninguém para que o seu bloco seja o mais animado da Avenida. O cantor só faz cena para aparecer nas telinhas da Band Folia ou atrasa a apresentação para entrar ao vivo no Jornal Nacional.

Queimaram a fantasia. Extirparam a magia. Roubaram, enfim, o meu mamãe-sacode.

  http://cronicativa.blogspot.com/2012/02/roubaram-meu-mamae-sacode.html

 

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“Olhos negros, cruéis tentadores…”

 

Pouca gente sabe, mas a letra de uma das mais famosas músicas de carnaval da Bahia não foi escrita por um baiano. “Chão da praça” tem a música de Moraes Moreira (baiano de Ituaçu), mas a letra é de um cearense, Fausto Nilo. Moraes Moreira, no seu livro “Sonhos Elétricos” (Azougue Editorial), conta como foi a composição desta música:

 

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“Liguei para Fausto, dizendo que tinha uma ideia para uma nova música. Ele me disse do outro lado que também tinha uma nova letra, então marcamos o encontro. Para a nossa alegria e espanto, música e letra foram se encaixando de maneira tal que, dentro de pouco tempo, já tínhamos pronto um frevo de quatro partes que até nos pareceu grande, mas diante da fluência que se dava entre elas deixamos rolar e tudo aconteceu. Era na verdade uma grande homenagem à praça do Poeta, que já vinha sendo referenciada também por outros artistas.”

O toque oriental que havia na composição foi realçado no arranjo e principalmente pela guitarra baiana de Armandinho que detonava o som. Foi assim, misturando oriente e ocidente, dor e prazer, pranto e alegria, que balançamos literalmente o “Chão da Praça”.

 

Fausto Nilo, numa entrevista, contou como ele, anônimo, foi atrás de sua própria música no carnaval:

 “Cheguei a Salvador na sexta-feira de carnaval, fiquei no hotel São Bento, perto da praça Castro Alves. Meu quarto era de frente para a rua. Eu estava sonhando que estava na Bahia com um carnaval qualquer passando com a minha música. Quando acordei, era realidade. Saí de chinelo e bermuda, era uma caminhonetezinha do subúrbio, com alto-falantes. Fui atrás da minha música”.

 A música Chão da Praça é um dos hinos do carnaval da Bahia. Certamente daqui a 50 anos ainda as pessoas vão vibrar na Bahia quando alguém entoar “Olhos negros, cruéis, tentadores, das multidões sem cantor”…

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Há uma série de referências. Primeiro, às “multidões sem cantor”, quando não havia cantores nos trios elétricos (e vindo ser Moraes Moreira o primeiro deles). A referência a um passado de baile de fantasias (eu era menino, beduíno), e as relações entre a dor que balança e a dança que substitui a dor, “porque já todo pranto rolou”.

Fred de Goes afirma em seu livro “O país do carnaval elétrico”, que as “multidões em cantor” seriam uma homenagem a Orlando Silva, também conhecido como cantor das multidões, falecido em 1978.

Moraes já disse que seu propósito era fazer músicas de carnaval daquelas que se cantam para sempre, como as marchinhas dos dois primeiros terços do século passado. Ele conseguiu. A letra de chão da praça entoa, como diz Moraes, Oriente e Ocidente, dor e prazer, e a grande sensação de ver a praça tremer…

Fontes: MOREIRA, Moraes. Sonhos Elétricos, Saalvador: Azougue Editorial, 2010

http://www.revistaforum.com.br/noticias/2011/01/17/os_dois_lados_do_espelho/

A volta de Netinho ao carnaval da Bahia

Quando anunciaram que Netinho estaria de volta ao carnaval da Bahia, ainda que fosse num camarote, e não num trio elétrico, muito se especulou.

Chegaram a dizer que ele não iria, ou que cantaria apenas 2 ou 3 músicas.

Ledo engano.

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Um dos maiores puxadores de trio de todos os tempos estava lá. Depois de 5 anos, um avc, ficar entre a vida e a morte.

No camarote do Nana.

Sábado de carnaval, 2017.

Muitos só foram lá por causa dele. Outros, só conheciam “Mila” do seu repertório. Pouco importa. Ele conquistou e reconquistou a todos, com positividade, com alegria, com emoção.

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Netinho não estava mais como o “malhado” do final dos anos 90. Estava de turbante, bermuda, colete, um colar vermelho no pescoço e descalço. Disse que iria fazer uma viagem musical pelos anos 90, época de alegria, de positividade…

Começou cantando “Preciso de você”, certamente não por acaso.

A todo tempo, ressaltava a alegria de estar ali. Não tinha a mesma mobilidade. Se apoiava para dar algum pulo. Pediu para diminuir a iluminação porque deixava ele tonto.

Depois de umas poucas canções, chamou ao palco o médico médico Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês. Chorando, agradeceu o dom de viver.  Agradeceu a Douglas, seu fonoaudiólogo que recuperou sua voz.

“Em 2013, fui dado como morto em Salvador e em São Paulo uma pessoa me curou. Quem acredita em Deus sabe da força que ele tem. Deus esteve comigo o tempo todo”.

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E tocou o repertório completo. Tocou alguns de seus maiores sucessos desde a Banda Beijo, como “Beijo na Boca”, “Jeito Diferente”, “Barracos”, “A vida é festa”, “Capricho dos Deuses”, “Fim de semana”.

Ao puxar “Estrela Primeira”, disse que só quem pulou carnaval de mortalha, na Avenida, saberia o significado daquilo tudo.

Às vezes, sentava no chão, num banquinho, mas estava firme. Quando tocou a música de Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, chorou muito. Muito emocionado, agradeceu. Mas não foi apenas um show comovente, Teve pouco papo e muito som.  Prometeu estar em cima do trio no ano que vem.

E no final, pediu que todos abrissem os braços e dissessem “obrigado”. Obrigado a você, Netinho, protagonista da história do Carnaval da Bahia. Quem já pulou nos Blocos Beijo e Pinel sabe bem disso. Vida longa e muitas canções para Netinho. Fechando esse mês de postagens carnavalescas….

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Timbalada – cada cabeça é um mundo

Um ritmo ou um estilo musical não é bom ou mau, do ponto de vista “ontológico”. Nem toda bossa nova é boa e nem todo sertanejo é ruim. Obviamente, há variações de gosto por quem cultua a música nacional ou estrangeira, ou para quem prefere rock ou axé.

Qualquer gênero de música tem coisas boas, razoáveis e ruins. O discernimento sobre o que é bom ou não dependerá da sensibilidade musical de cada um. Digo isso porque é fácil rotular uma música como boa ou ruim apenas pelo seu estilo, sem uma análise pormenorizada de melodia, ritmo, letra e harmonia. Lembro quando, numa conversa com um amigo completamente rock’n roll (talvez o som mais suave que ele se permitia ouvir era Deep Purple), ele acabou por ouvir a versão de “Girl from Ipanema“, com João Gilberto, Astrud Gilberto, o piano de Tom Jobim e o sax de Stan Getz, e ele terminou por dizer: “Não tenho como dizer que essa música não é boa”.

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Toda essa introdução é para falar de um disco de musica baiana, axé, samba-reggae ou como queiram falar. Para mim, um dos dez melhores discos da música dançante baiana de todos os tempos: “Cada cabeça é um mundo“, lançado pela Timbalada em 1994.

Na época, Carlinhos Brown ainda não tinha carreira solo, e a Banda despontava com três bons cantores (Ninha, Xexéu e Patrícia) e uma batida percussiva firmada nos timbaus, bem distinta da batida de samba-reggae do Olodum, que dominava a música baiana no início da década de 90.

Além da nova batida, o aspecto visual da banda, todos pintados, provocava no público um efeito frenético.

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Quem escuta o disco, percebe uma energia musical impressionante, que contagiam apenas por ouvir a música em estúdio, quanto mais quando tocada ao vivo em cima de um trio elétrico .

O disco é muito bom, dançante, destaco algumas músicas. A minha preferida é “Se você se for“, com uma bela homenagem incidental à marcha carnavalesca “Máscara Negra” (Quanto Riso, ó quanta alegria…”). Tem também as frenéticas “Sambaê” e “Camisinha” (que, injustamente, tornou-se a música mas conhecida do disco). Mas o sucesso dessas músicas se deve à grande voz da história da Timbalada: Ninha, que, segundo consta, começou a compor “Sambaê”  num avião (há um detalhe também. Embora se atribua a Compadre Washington o fato de chamar as mulheres de “ordinária”, oi Ninha, em “Sambaê, que num momento da música, fala “samba ordinária”, antes mesmo da explosão do Gerasamba e do É o Tchan)

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Tem também “Toneladas de desejo”de Carlinhos Brown, que depois ganhou uma versão com Marisa Monte.

Enquanto Ninha cantava as músicas que tinham um ritmo mais acelerado, Xexéu servia como contraponto, cantando músicas mais suingadas, como “Papá Papet”, até a quase  balada “Namoro a dois”. Patrícia complementava como a voz feminina do grupo.

Em relação à Timbalada pode-se dizer mais do que isso. E para tanto, transcrevo a letra de Pracumcum Babá, desse disco:

A rapaziada
Vai cantar num só refrão
Quando ouvir a Timbalada
Timbalando os corações

Reconquistando a importância do timbau
Com seu pracumcum babá
Não se vê nada igual

Tambores ao alto
Marcações a rufar
Aí vem a Timbalada
Timbalando sem parar

Timbalada
Leva eu
Timbalada
Leva eu com meu amor

sábado 22 maio 2010 10:42 , em Musica Baiana

Axé: Canto do povo de um lugar

Você já assistiu “Axé: canto do povo de um lugar?” Não, então vá… parafraseando Caymmi na sua conhecida canção “Você já foi à Bahia?”, o filme de Chico Kertesz faz uma recapitulação histórica de um movimento musical que surgiu nas ruas, no carnaval, como algo espontâneo, e que tomou conta do Brasil.

Tudo aquilo que foi de mais importante foi, de uma forma ou de outra, contada no documentário: a importância do trio elétrico, a influência da música negra, os blocos de trio, tudo isso ganhou seu destaque.

 

Os principais artistas também passaram por lá. Na década de 80 e 90, Luiz Caldas, Sarajane, Olodum,  Gerônimo, Banda Reflexu’s, Chiclete com Banana, Aas de Águia, Cheiro de Amor, banda Mel (nas suas várias composições), Netinho e Banda Beijo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Timbalada, Araketu, Ivete Sangalo, É o Tchan, Psirico, Terra Samba, Claudia Leitte e Saulo Fernandes.

Vale também por personagens que estavam nos bastidores, como Wesley Rangel, Cristóvão Rodrigues…. outros personagens que eram também importantes, como Marcionílio, Missinho, Ademar….

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Não estiveram de fora as grandes histórias dos bastidores. Como Luiz Caldas foi parar no programa do Chacrinha, como a Banda Beijo acabou acionando os alarmes das casas num trio elétrico em Turim, como Daniela Mercury parou a Avenida paulista, como surgiu a express~]ao “Axé Music”. Várias vezes se vê artista baianos e multidões, no trio e em palcos, seguindo e levantando as mãos.

E não faltaram também os grandes sucessos. “Fricote”, “Faraó”, “Eu sou negão”, “O canto da Cidade”, “Beijo na Boca”, “É o Bicho”, “Grito de Guerra”, “A Roda”, “Alô paixão”, “Madagascar Olodum”, “Prefixo de Verão”, “Baianidade Nagô”, “É D’Oxum”, “Raiz de todo bem”.

Mas o eu vale o filme é a sensação de pertencimento. Alguém que não é baiano olhará o filme com outros olhos. A crítica especializada dos principais portais fala com uma certa condescendência do tom de exaltação. Mas ainda há muito a dizer.

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A música baiana foi a primeira que não teve vergonha de ser escancaradamente feliz. Surgida no momento da redemocratização do Brasil, a música da Bahia tinha ritmo e picardia. Pode-se falar de letras e refrões onomatopeicos, mas quando se compara com as letras atuais, percebe-se que a crítica não tem tanto fundamento assim.

Uma música que celebrava o negro baiano, que via na música o orgulho de ser negro.  Música que era feita para dançar, que não tinha “rock doido”, como dizia uma conhecida canção do Olodum.

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Uma música jovem, de sucesso, cheia de energia, que bebia de raízes da África a Pernambuco, da Salsa caribenha ao galope nordestino, e que não precisava da chancela do eixo Rio-São Paulo. Que Paul Simon e Michael Jackson foram buscar no Brasil.

Uma música surgida nas ruas, das ruas para as rádios, e não o contrário. Por isso o título é apropriado. Canto do povo de um lugar. Uma manifestação que faz parte da identidade de baianos, que faz rir e emocionar…

Pra quem gosta de música; pra quem gosta da Bahia; pra quem gosta de história; pra quem gosta de cultura; pra quem não resiste ao som dos tambores; pra quem quer rir ou se emocionar; pra quem quer, de alguma forma, se ver em algum momento dessa história….

Não teve rock doido….

“A banda do Pelô, arrasou no carnaval….”

A partir da segunda metade dos anos 80, uma certa revolução aconteceu na Bahia, Surgiu o samba-reggae, que aliou a tradição do trio elétrico com os tambores afro-brasileiros.

Era comum ver, do Bonfim ao Rio Vermelho, do Cabula a Itapuã, pessoas trazendo instrumentos como timbales, repeniques, enfim, uma onda percussiva que permitia vislumbrar, em cada canto de Salvador, um canto percussivo que conferia uma sensação de pertencimento a uma coisa nova que surgia.

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A música que passou a ser dominada “axé” não seria a mesma, contudo, sem o Olodum. O “Fricote” que surgiu com Luiz Caldas, em 1985, inspirado, pode-se dizer, em “Assim pintou Moçambique”, de Moraes Moreira, já flertava entre o som do Trio elétrico e a pegada percussiva dos blocos afro em Salvador.

Mas, em 1987, veio “Deuses, Cultura Egípcia, Olodum” conhecida como “Faraó”. No fim do ano, veio Gerônimo, com “Eu sou Negão”, e a música afro passou a ser incorporada no Trio Elétrico.

Surgia uma música de entretenimento, alegre, mas que manifestava uma identidade, e a assunção do orgulho da Bahia como cidade negra. E nessa década o Olodum tinha protagonismo.

E nisso destaco a música “Olodum, a Banda do Pelô”, de Jaguaracy Esseerre, que louvava justamente o sucesso “da Banda do Pelô” no Carnaval, seu reggae maneiro fazia com que o “rock doido” fosse desnecessário, o que prevalecia era a “levada de quintal”.

Gravada em no disco Núbia, Axum, Etiópia (1988), ela exaltava a alegria em que todos os baianos eram negros e cantavam, “Olodum sou eu”

A alegria e a jovialidade da música fazia com que, em cada roda de sambão, em cada “lavagem” fora de época que acontecia em Salvador, ao ser puxada a primeira estrofe, todos acompanhavam…

A banda do pelô,

Arrasou no carnaval

Com seu reggae maneiro,
O swing foi legal
Não teve rock doido,
Só levada de quintal

Aiê iê, Oiô
Arerê, qui oiôo
Os tambores rufavam
E os negros clamavam
Olodum sou eu
Embaixo, em cima
Na tres e na dois
No samba do samba
Abalando a terra, E depois
Até o infinito se foi
Zina ziná zinaê
Zira zirá quilelé