Meu papo é reto. Dueto entre Monique Kessous e Ney Matogrosso

Tenho acompanhado Monique Kessous desde o seu primeiro disco. Sua bela voz de soprano e suas músicas românticas no primeiro disco agradavam, embora naquela oportunidade fosse inevitável compará-la com Marisa Monte. A voz e o estilo eram muito parecidos.

Mas, do segundo disco em diante, Monique ficou mais ousada, ganhou mais personalidade e mostrou efetivamente ao que veio.

Uma dessas boas surpresas musicais se mostra no dueto que fez com Ney Matogrosso, chamada “Meu papo é reto”, gravada em 2015.

A música conta a história de um flerte gay ocorrido na porta de uma boate. É interessante a parceria escrita entre Chico César e Monique, em que um deles se vê tentado diante a abordagem em frente a uma boate. A cena reflete uma situação típica de rua. Um deles, curioso; o outro, que fica entre o desejo e o receio de se envolver.

Sobre a composição, Monique afirmou:

Acho interessante poder brincar com os personagens nas músicas. E ser intérprete traz uma liberdade muito grande. Estou num momento de querer ousar mais no meu trabalho e, mais do que tudo, quero falar sobre o meu tempo, sobre as possibilidades de relações entre pessoas e sobre o medo de amar que se reverte em envolvimentos efêmeros, sem vínculos”, afirma a artista

Ney Matogrosso e Monique Kessous

Monique, numa entrevista, contou um pouco a história da canção:

— Fiz “Meu papo é reto” sobre uma letra que Chico César me mandou. Estava ouvindo muito Ney, me deu vontade de ter uma música na voz dele — conta Monique. — Quando fiz, mandei para ele e comecei a cantar nos shows. Então, decidi pôr no disco e o chamei para cantar comigo. Ele pensou que era uma canção de um homem e uma mulher. Expliquei que não. Na gravação, ele perguntou: “Posso virar para você e cantar ‘a gente tem a ver, menino’?”. Eu disse que era isso, e ele: “Nossa, subversivo”.

Ele me deu o bote
Pelo cangote, me disse
Para o boteco da frente
Confesso que eu fiquei doente

E antes que eu quisesse amantes
Ele me disse amigos
Tá tudo certo, eu sou do tipo aberto
Supondo que aguente firme esse seu flerte

E agora, o que é que eu faço
Pra aguentar a tentação
O rosto colado
O beijo esbarrado
E a gente rodando o salão

E agora, será que eu arrisco
Me perder na sua mão
Te olho discreto, mas meu papo é reto
Acho que vou te dar um beijo
E depois eu vejo

A gente tem um lance
A gente tem um quê
A gente tem a ver, menino
A gente tem um lance
Tem um quê
Não faz assim que eu fascino

A gente tem um lance
A gente tem um quê
A gente tem a ver, menino
A gente tem um lance
Tem um quê
Me beija que o resto eu te ensino

Fontes: http://oglobo.globo.com/cultura/musica/monique-kessous-canta-flerte-gay-outras-liberdades-em-novo-disco-19156173#ixzz4P7rIAdqJ
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http://www.heloisatolipan.com.br/musica/dentro-de-mim-cabe-o-mundo-apos-seis-anos-de-hiato-monique-kessous-lanca-seu-terceiro-disco-e-prega-o-amor-minha-mensagem-e-de-liberdade/

http://www.ofluminense.com.br/en/cultura/monique-kessous-%E2%80%98manda-o-papo%E2%80%99-com-tema-atual-em-parceria-com-ney-matogrosso

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Bandeira e Manuel Bandeira

“Bandeira”, de Zeca Baleiro, é uma espécie de réplica a um belo poema de Manuel Bandeira, chamado “Belo Belo”. Marina Vaz faz um belo comentário sobre as relações entre a música e a poesia, que pode ser encontrada no endereço http://espacomusicalbrasileiro.blogspot.com/2009/03/bandeira-de-zeca-baleiro.html

Bandeira

De Manuel Bandeira a Zeca Baleiro

Marina Vaz*

Ouvir a música “Bandeira”, do maranhense Zeca Baleiro, é sempre instigante. Em um primeiro momento, ela pode ser interpretada como uma bela canção que fala dos anseios e desejos humanos, como espécies de “bandeiras” levantadas pelo eu-lírico (a voz que fala na canção). Mas a citação, ao final da música, do verso “Vida noves fora zero”, de Manuel Bandeira, abre caminho para a compreensão das relações intertextuais existentes entre as duas obras. E o que poderia parecer, à primeira vista, escondido na música do compositor torna-se escancarado no próprio título da canção, que homenageia o poeta pernambucano.

“Belo belo”, de Manuel Bandeira

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Os versos citados por Baleiro são do poema “Belo belo”, em que Bandeira expõe a frustração com a vida em trechos como: “Tenho tudo que não quero/ Não tenho nada que quero”. Fecha-se um círculo de infelicidade: o eu-lírico não somente tem tudo aquilo que não quer, como também não consegue absolutamente nada do que deseja. E o que, afinal, ele não quer? “Não quero óculos nem tosse/ Nem obrigação de voto”. Reúnem-se aí dois elementos importantes para a compreensão das causas de seu descontentamento: as limitações físicas (“óculos” e “tosse”) e as limitações sociais (representada pela “obrigação de voto”). E as imagens utilizadas para ilustrar suas possíveis fontes de prazer referem-se, invariavelmente, a lugares ou situações inatingíveis: o topo das montanhas (os “píncaros”); a “fonte escondida”; a “escarpa inacessível”; “a luz da primeira estrela”.

O desejo de experimentação também é demonstrado pelo prazer voluptuoso ao ansiar, com mesma intensidade, o “moreno de Estela”, a “brancura de Elisa”, a “saliva de Bela” e as “sardas de Adalgisa”. Mas, por reconhecer que seus desejos estão distantes demais daquilo que, de fato, ele possui, ele trata de voltar à realidade: “Mas basta de lero-lero/ Vida noves-fora zero”. No fim, o que lhe sobra é o resultado de uma conta cruel: no balanço “matemático” de sua existência, o resultado é zero.

Observando a forma como o poema se estrutura, pode-se ver que grande parte dos versos faz referência ao que o eu-lírico quer. Ou seja, considerando a lógica dos primeiros versos (“Não tenho nada que quero”), os versos fazem referência ao que ele gostaria de ter mas não tem. Fica claro que seus desejos e suas necessidades são muito maiores do que aquilo de que ele dispõe na vida. Dessa forma, “Quero quero muita coisa” transmuta-se a um “não tenho muita coisa”.

“Bandeira”, de Zeca Baleiro

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Diferentemente do que acontece no poema “Belo belo”, de Manuel Bandeira, a canção “Bandeira”, de Zeca Baleiro, é tomada, em sua maior parte, por versos panfletários daquilo que o eu-lírico não quer: “Eu não quero ver você cuspindo ódio / Eu não quero ver você fumando ópio”. Assim, o que é rejeitado são as escolhas feitas pelos próprios indivíduos da sociedade justamente para “sarar a dor”.

A dor, neste caso, não se refere mais a problemas de saúde (à “tosse”). A sociedade moderna, que, com os avanços científicos, descobriu a cura de várias doenças, criou, em contrapartida, indivíduos que “cospem ódio” e “choram veneno”. Indivíduos mesquinhos que oferecem “café pequeno” (ou que são, eles mesmos, “cafés pequenos”, expressão pejorativa utilizada para designar os que não têm importância). Diante dessa desilusão, o eu-lírico passa a rejeitar tudo o que provém dessa sociedade, indiscriminadamente: “Eu não quero isso seja lá o que isso for”.

Com os versos “Não quero medir a altura do tombo / Nem passar agosto esperando setembro”, a canção demonstra o desejo de querer-se livrar da prudência excessiva e do hábito de não aproveitar o presente esperando-se o futuro. Por isso, o melhor futuro parecer ser mesmo o que está “hoje escuro”, quando ainda se encontra no plano da idealização.

Depois de o eu-lírico da música falar tudo o que ele não quer (o que, de acordo com a lógica de Manuel Bandeira, é tudo aquilo que, na verdade, ele tem), ele parte então para o que deseja: “Quero a Guanabara quero o rio Nilo / Quero tudo ter estrela flor estilo / Tua língua em meu mamilo água e sal”. Nestes versos, a canção se aproxima ainda mais do poema de Bandeira, com referência claras à “luz da primeira estrela” e à “rosa que floresceu”. Além disso, “a língua no mamilo” poderia muito bem ter deixado resquícios da “saliva de Adalgisa”, citada por Bandeira.

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Enquanto, no poema, o eu-lírico diz muito sobre o que ele quer (ou seja, sobre o que ele não tem), na canção de Baleiro, o foco é o que ele não quer (ou seja, o que ele tem). Isso porque a música, mais atual, retrata o pensamento de alguém já inserido numa sociedade moderna de consumo. Ele tem, mas não está satisfeito com aquilo que possui. Volta-se, então, para os elementos mais simples: a estrela, a flor e as paisagens naturais (ora Pernambuco, Bagdá e Cusco, ora a Guanabara e os rios Nilo e Tejo). Entretanto, o balanço da vida nos dois casos é o mesmo: “Vida noves-fora zero”.

Quando se ouve “Bandeira”, com sua melodia em dó dissonante, basicamente com instrumentos de cordas e sem percussão, vê-se que o poeta modernista e pernambucano está mais do que homenageado…

 

BANDEIRA (Zeca Baleiro)

eu não quero ver você cuspindo ódio

eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor

eu não quero ver você chorar veneno

não quero beber o teu café pequeno

eu não quero isso seja lá o que isso for

eu não quero aquele eu não quero aquilo

peixe na boca do crocodilo

braço da Vênus de Milo acenando “ciao”

não quero medir a altura do tombo

nem passar agosto esperando setembro

se bem me lembro

o melhor futuro este hoje escuro

o maior desejo da boca é o beijo

eu não quero ter o Tejo me escorrendo das mãos

quero a Guanabara quero o rio Nilo

quero tudo ter estrela flor estilo

tua língua em meu mamilo água e sal

nada tenho vez em quando tudo

tudo quero mais ou menos quanto

vida vida noves fora zero

quero viver quero ouvir quero ver

(se é assim quero sim   acho que vim pra te ver)

 

 

BELO BELO (Manuel Bandeira)

Belo belo minha bela

Tenho tudo que não quero

Não tenho nada que quero

Não quero óculos nem tosse

Nem obrigação de voto

Quero quero

Quero a solidão dos píncaros

A água da fonte escondida

A rosa que floresceu

Sobre a escarpa inacessível

A luz da primeira estrela

Piscando no lusco-fusco

Quero quero

Quero dar a volta ao mundo

Só num navio de vela

Quero rever Pernambuco

Quero ver Bagdá e Cusco

Quero quero

Quero o moreno de Estela

Quero a brancura de Elisa

Quero a saliva de Bela

Quero as sardas de Adalgisa

Quero quero tanta coisa

Belo belo

Mas basta de lero-lero

Vida noves fora zero

 

 

 

Zeca Baleiro – Por onde andará Stephen Fry?

Zeca Baleiro tem esse apelido por causa de ser um implacável consumidor de doces, balas e toda sorte de guloseimas, de modo que as pessoas sempre o procuravam, porque ele sempre tinha alguma guloseima disponível. É um daqueles cantores que brinca com as palavras, e se mantém fiel a si mesmo mais do que fiel a um rótulo ou a um estilo musical. Ele mesmo afirmara, numa entrevista em 2003:

Rótulo é um mal necessário. A indústria e a imprensa precisam dele, é óbvio, mas o artista não. A partir do momento em que você aceita um rótulo, você vira escravo dele, e o maior bem de um criador é a sua independência, sua liberdade. E se amanhã eu quiser fazer um disco de samba, quem vai me impedir, ou um disco de hardcore?… Nada me proíbe de transitar por praias diversas, vários gêneros, etc. Não há limites ou freios para a criação. Tenho tentado mostrar isso com meus discos esquizofrênicos.

Há vários trechos, de várias letras que surpreendem pela originalidade e pela musicalidade, e além disso, pelo sentido que Zeca Baleiro atribui a ela. É do Maranhão, mas absolutamente universal .

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Apesar de ter já uma carreira como artista “underground”,como disse Luis Antônio Giron ao apresentar o primeiro disco “Por onde andará Stephen Fry?”, o marco da sua carreira,que jogou os spots sobre sua qualidade musical, foi sua participação no CD “Acústico”, de Gal Costa, em 1997 (na época, Zeca Baleiro já tinha 31 anos, embora sua carreira tivesse começado desde os 19. No disco, há um Pot-Pourri entre um clássico de Gal Costa, chamado “Vapor Barato” com a música “Flor da Pele”, cuja letra é de Zeca Baleiro; “Um barco sem porto/Sem rumo, Sem vela/Cavalo sem sela/ Um bicho solto/Um cão sem dono/Um menino, Um bandido/Às vezes me preservo noutras suicido.”

Para não fazer um texto longo demais, vou, primeiro, fazer uma análise do seu primeiro disco, gravado em 1997, pela Universal.

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Nesse primeiro disco, já se percebe seu universalismo, sem perder suas referências de cantor maranhense e sua bagagem cultural, mas chama atenção o tempero entre lirismo, bom-humor, e um sutil e ácido tom crítico em algumas canções.

Começando, por exemplo, com Heavy Metal do Senhor, descrito como um “metal-repente diabólico”, e me divirto comparando a letra e os arranjos de Zeca com os Gospel-rocks que a gente vê por aí.

Vejo também a irônica homenagem à beleza de uma mulher, na suingada “salão de beleza”, na qual ele relata a beleza da mulher que é maior do que a beleza de qualquer salão, em que revela a “a beleza do erro do engano da imperfeição.

A brincadeira e o trocadilho do “parque do Juraci”, com Jurassic Park, com participação do impagável Genival Lacerda e a participação de Chico César em “Mamãe Oxum”.

Mas, para mim, a melhor música do disco é Bandeira, com a sua clássica referência à poesia de Manuel Bandeira, que merecerá um comentário à parte…

Um grande sucesso de Zeca Baleiro foi gravado por Simone, que, com um sotaque bem baiano, gravou “Lenha”, que tem uma harmonia simples, cujas notas lembram o dos básicos rocks dos Titãs, mas cuja letra é também intrigante. Um trecho de Letra: “eu não sei dizer/o que quer dizer/o que vou dizer/eu amo você/mas não sei o que/isso quer dizer/eu não sei por que/eu teimo em dizer/que amo você/se eu não sei dizer/o que quer dizer/o que vou dizer”

Sobre o fato da Música ter virado um Hit, para quem o considera um cantor Cult,  ele responde, com tranqüilidade:

É bom, o destino das canções é esse mesmo, a banalização. Quero ver o porteiro do prédio assoviando minha música.

 

sábado 27 março 2010 23:39 , em Musica Contemporanea