“Eu me amo”. Blitz e Ultraje a Rigor, ao mesmo tempo. Plágio?

No ano de 1984, a Blitz lançou uma música chamada “Egotrip”, praticamente ao mesmo tempo em que a banda Ultraje a Rigor lançava a música “Eu me amo”. Na época, a Blitz estava no auge, lançando seu terceiro disco, e o Ultraje a Rigor estava começando sua trajetória. Ambos tinham refrões quase iguais.

Em “Egotrip”, era: Eu me amo/eu me adoro/eu não consigo viver sem mim”

Em “Eu me amo”, era: “Eu me amo/Eu me amo/não posso mais viver sem mim”

Como o Ultraje lançou a música primeiro, Evandro Mesquita, vocalista da Blitz, foi acusado de plágio. Justificou então numa entrevista ao Jornal da Manhã, em 1984:

“Foi coincidência mesmo, essa nem Freud explica: Esse texto eu já utilizava há dois anos numa peça, ‘A incrível história de Nemias Demutcha’. Depois, resolvemos incluir na letra da música. Acredito que o pessoal do Ultraje, gente fina, tenha feito a música deles com praticamente o mesmo refrão na base do acaso. Mas como gravaram primeiro – e nós fomos avisados que o disco deles estava saindo – , resolvemos mudar o refrão. Ficou ainda melhor”  

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Na verdade, o refrão ficou: Eu te amo/eu me adoro/eu não consigo te ver sem mim

Perdeu um pouco o sentido. Na verdade, Roger disse, numa entrevista reproduzida no livro “As Aventuras da Blitz” (Rodrigo Rodrigues, Ediouro, 2009), que a polêmica foi boa para o Ultraje, pois a Blitz era um sucesso e o Ultraje estava sendo conhecido. Houve uma provocação daqui ou dali da imprensa, mas o fato não foi muito adiante.

Rebelde Sem Causa Compacto Ultraje A Rigor Eu Me Amo - Música ...

Andrea Ascenção conta, no livro “Ultraje a Rigor” (Belas Letras), conta que na época da composição  Roger (vocalista ) estava lendo um livro que poderria hoje ser chamado de autoajuda. Ele pensava em fazer algo na linha de “Inútil”, primeiro sucesso da banda.

“Escândalo do Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga e Nair de Teffé

Ninguém nega a importância de Ruy Barbosa, como grande jurista, advogado, escritor e político. Mas ele também tinha suas quizilas e preconceitos. Um deles se refere ao episódio chamado “Escândalo do Corta-Jaca”, em 1914, quando foram revelados alguns dos seus preconceitos musicais, tudo isso motivado por Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, o qual derrotara Ruy Barbosa na eleição de 1910.

Nair de Teffé, caricaturista e tida como “moderninha”, casou-se com Hermes da Fonseca em 1913, após ele ficar viúvo em 1912 de sua primeira esposa, Orsina da Fonseca.

 

Nair, de uma família aristocrática (era filha do Barão de Teffé, sobrinha de Jorge João Dodsworth, Baão de Javari e Neta do Conde von Hoonholtz, era caricaturista, tendo estudado em Paris e Nice, na França, onde passou a infância e adolescência.

Tendo regressado ao Brasil com 19 anos, entre 1905-6, Nair volta ao Brasil influenciada pela Bella Époque, cheia de ideias na cabeça e inspirada nos cartunistas europeus. Assim, começa a desenhar caricaturas para várias revistas como O Malho e a Fon-Fon e os periódicos O Binóculo e A Careta.

No começo ela assinava como o pseudônimo Rian (seu nome ao contrário). Ela foi responsável, entre outras coisas, por lançar a moda de calças compridas para mulheres e montar a cavalos “como homens” (antes, as mulheres montavam a cavalos sentadas de lado. 

Entusiasta da Música popular, promovia saraus no Palácio do Catete (então palácio presidencial), sendo entusiasta da música brasileira e amigo de Catulo da  Paixão Cearense (músico, poeta e compositor que, apesar do nome, é de São Luiz do Maranhão).

 

Nair de Teffé um dia ouviu de Catulo que nas festas palacianas nunca se executava música nacional. Intrigada, ela resolveu consultar Emilio Pereira, seu ex-professor de violão, no momento morando em Petrópolis. Foi ele quem lhe apresentou o tango Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga.

 

O Corta-jaca é o nome popular pelo qual se tornou conhecido a canção “Gaúcho”. Nasceu nos palcos dos teatros musicados, onde foi dançado na cena final da opereta burlesca Zizinha Maxixe, imitada do francês por autor anônimo, representada no Teatro Éden Lavradio, em agosto de 1895.

Em 1914, era uma música conhecida nas ruas do Rio de Janeiro…

 

Na noite de 26 de outubro de 1914, houve um desses saraus, nos quais foram apresentados números musicais de música erudita, tendo na programação músicas de compositores como  Arthur Napoleão, Gottschalk, e Franz Liszt,

Ao final do sarau, Nair pegou o violão (instrumento que então era considerado “menor”, associado à malandragem) e executou o Corta-Jaca, acompanhado de Catulo ….

Pela primeira vez na história do Brasil a música eminentemente popular fora executada na sede do governo, diante do corpo diplomático

O fato gerou muito disse-me-disse, havendo muitas críticas nos jornais e nos meios acadêmicos, pois havia quem considerasse inadequado música popular no Palácio do Catete, sede da Presidência da República.
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O que aconteceu naquela noite de 26 de outubro de 1914 vem relatado e documentado no jornal A Rua do dia 6 de novembro às vésperas da transmissão do cargo de presidente de Hermes da Fonseca para Venceslau Brás, que  ocorreria no dia 15 de novembro.

“Nos salões do palácio do Catete houve no dia 26 do mês passado, uma ‘soirée’ muita fina a que compareceram os representantes do nosso corpo diplomático e da ‘elite’ carioca. Na ‘soirée’, que era a última recepção dada pelo sr. presidente da República, ‘fez-se música’, como costumam dizer os cronistas mundanos.

 

“‘Fez-se música’ e em grande escala. Houve piano, bandurra e até violão…

“Ao som deste último instrumento tocou-se a festejada e dengosa produção da maestrina Francisca Gonzaga — ‘Corta-Jaca’. Os jornais desde esse dia não têm cessado de criticar, de muitos e diferentes modos, a inclusão do tango magnífico no programa de uma festa diplomática no Catete.

“O ‘Corta-Jaca’ andou tanto tempo pelos arraiais da pândega e da populaça que se desmoralizou por completo, tornando-se indigno do Palácio das Águias… por muito que as produções de D. Chiquinha Gonzaga sejam tidas como a essência da música genuinamente indígena.

“E tão mal estão a considerar o pobre tango que muita gente acredita ser toda essa crítica uma simples intriga de oposição.

“O ‘Corta-Jaca’ no Catete?

“Pode lá ser isso, dizia ontem no Senado o velho Sr. Glicério ao sr. Raimundo de Miranda.

“— Esses jornais são medonhos. Pois V. não viu a maneira por que está sendo atacado o Lalau… V. conhece o Lalau e sabe que ele é incapaz dessas coisas…

“Pois se tocou sim. Tocou-se ao violão o ‘Corta-Jaca’, no dia 26, no Catete. E querem provas? A melhor prova que podemos dar é a publicação do programa da festa. Vêde. Ele encima esta notícia.

“Esta, tenham paciência, não foi obra da oposição, não, foi obra e talvez a última dele…”

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Em sessão do Senado Federal, Ruy Barbosa, como dito, opositor de Hermes, solta sua verve contra a atitude da polícia, que reprimia os estudantes das Faculdades de Direito, Engenharia e Medicina, os quais colavam inúmeros cartazes com caricaturas do presidente, ridicularizando o episódio. Vejam as críticas de Ruy:

“Por que, Sr. Presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao Corta-Jaca?

“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao pais o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”(5. Diário do Congresso Nacional, 8/11/1914, p. 2789. Refere-se á 147ª sessão do Senado Federal, em 7 de novembro de 1914.)

Ou seja, o batuque, o cateretê e o samba eram, segundo Ruy, as mais vulgares manifestações populares, que deveriam ser afastadas das solenidades e eventos oficiais. De fato, ainda bem que Ruy Barbosa não se notabilizou por ser crítico musical…

Fontes:

“Caetano, pajé doce e maltrapilho”. A polêmica Caetano x Paulo Francis

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Como Reconvexo, um dos mais belos sambas de Caetano, foi uma espécie de resposta a Paulo Francis, que costumeiramente criticava Caetano em suas crônicas. O ápice do azedume veio quando Caetano, convidado pela extinta TV  Manchete, entrevistou Mick Jagger. Paulo Francis não gostou da entrevista e  escreveu o artigo “Caetano, pajé doce e maltrapilho“, na Folha de São Paulo do dia 25 de junho de 1983. Eis a crônica:

PAULO FRANCIS,de Nova York

Se a intelectualidade oficial no Brasil é representada por bacharéis como Roberto Campos, e é, não é difícil entender por que a juventude se rende a alguém como Caetano Veloso. Tudo é preferível ao pedantismo, à auto-satisfação mascarada de bonomia e humor, à cara selvagem de Campos. Crianças, como animais, sabemos “sentem” os bichos ainda que não saibam o que pretendem.

Caetano, claro é um compositor de talento, ainda que não crie músicas que sobrevivam sem ele, como Tom Jobim e Chico Buarque fazem. E é na minha opinião um cantor que sabe como ninguém unir e valorizar ritmos brasileiros e os subprodutos populares que vieram do “jazz cool” e do “bebop”, esses dois marcos da história da música popular.

 

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Quando não o vejo, gosto. E até vendo no palco, nos tempos pós-golpe de 1964-1968, era uma presença poderosa, naquela minirrenascença que foi a reação das chamadas classes artísticas ao advento do urubu Campos e outros tecnocratas pela mão militar. Nada saiu que perdurasse dessa “mini”, talvez porque o Brasil seja um país de “máxis”. Mas a “mini” foi “legal”. Quem viveu, sabe.
 
Mas Caetano não era então um totem. Não falava de tudo com autoridade imediatamente consagrada pela imprensa, que é mais deslumbrada do que o público em face dele. É evidente, por exemplo, que Mick Jagger zombou várias vezes de Caetano na entrevista na TV Manchete. O pior momento foi aquele em que Caetano disse que Jagger era tolerante e Jagger disse que era tolerante com latino-americanos (sic), uma humilhação docemente engolida pelo nosso representante no vídeo. E não só ele. Li duas matérias, uma na “Folha” e outra no “Jornal do Brasil”, em que as duas repórteres prostradas como sempre ficam diante de Caetano, citaram essa resposta ofensiva sem acharem nada de mais. O totem não pode errar. É Deus na carne humana, Daí a origem tribal de Jesus Cristo.

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O primeiro totem foi Frank Sinatra. Não quero dizer que antes dele (década de 1940) não houvessem cantores, sem falar de estrelas de Hollywood, que o público jovem não adorasse. Mas Sinatra literalmente iniciou o fenômeno de adolescentes tendo ataques de histeria em público, para horror do filósofo Theodor Adorno, exilado nos EUA, que viu nisso uma forma de totalitarismo cultural, em que a massa se submerge sensorialmente a um ruidoso cavalheiro de microfone, como alemães caíram sob a “hipnose” de Hitler. E Adorno só pegou o início da histeria dos anos 60. John Lennon, filósofo, eros encarnado, Paul McCartney, escritor, o rock como filosofia de vida, etc. O pobre Caetano não é bem dessa corrente (que deverá chegar ao Brasil pelos meus cálculos em 1990). 

Na mesma entrevista, ele fez uma pergunta que deve ter dado ao amável e brilhante Roberto D’Ávila vontade contida de matá-lo. É aquela de “como você situa o rock na história da música ?”. D’Ávila e companheiros (Fernando Barbosa Lima e Walter Moreira Salles Jr.) afinal idealizaram a entrevista, um grande evento jornalístico em TV. Caetano é uma atração. Ninguém resistiria incluí-lo. Mas essa pergunta simplesmente não se faz em televisão, ou até em jornal. É de um amadorismo total. Só serve para seminários de “comunicação” no interior da Bahia. Não é uma pergunta jornalística. Jagger começou a debochar aí. Estava delicado com a figura década de 1960 de Caetano. A moda agora é a de Jagger, cabelo curto e roupa simples, sem adornos. Começou aqui e na Europa em 1970. No Brasil chegará também nos 1990 ? E foi nesse charme perverso que Jagger, que lê tudo, não disse a Caetano que rock não é música (ver obras completas de Ellen Willis, entrevistas com Janis Joplin, etc.), mas uma manifestação de vida, ou, clichê abominável, de estilo de vida. Willis sempre se refere desdenhosamente aos “music boys”. Uma leitura ocasional como a minha é do “Rolling Stone” deixaria claro. Mas no Brasil é difícil… Sabemos tudo.

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Caetano é melhor compositor e cantor do que Jagger. Mas não fez nada comparável a “The Citadel”, cuja letra terrível foi adotada pelos soldados americanos no Vietnã, como hino de desespero. E por que não pode ? Quando me lembro que Caetano, esse doce de coco é conterrâneo de Antonio Conselheiro, tremo, tremeria, se ainda conseguisse. Mas ele prefere fazer o que chamei outro dia de “maltrapilho estilizado”. Simbolizar a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro, para efeito de mero consumo visual, enquanto muito agradavelmente acaricia as fantasias de amor ilimitado que fazem o narcisismo da classe média confortável no Brasil, um conforto porque pagam cerca de 100 milhões de brasileiros no nosso “Alagados” nacional. Não é que eu queira que ele faça música “enganjada”. A poesia nada faz acontecer, notou Auden, e concordo, sempre concordei, me forçando muito na época do meu engajamento, é bem diferente do que adular os privilegiados.

Jagger, é claro, é um farsante. Aquele sotaque de Londres (e não “cockney”, que é outra coisa) é pose, pois Jagger é de classe média e estudou na London School of Economics, onde se falasse assim seria rudemente corrigido. É uma pose, uma imitação de trash dos Beatles, estes sim, autenticamente proletários. Mas está zombando quando diz que subiu por sorte. Ninguém sobe por sorte. Não dá para escrever neste jornal de família como se sobe no mundo do “rock”. Jagger tem pelo menos 150 milhões de dólares, segundo meus banqueiros, mas fala de “algum dinheirinho”. Essa grana aplicada  legalmente dá 1,5 milhão de dólares  por mês, depois dos impostos, ou no “negro”, 1 bilhão e 200 milhões de cruzeiros por mês

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Caetano não gostou. Em entrevistas, chamou Paulo Francis de “Bicha amarga”. No seu blog, pode-se encontrar uma resposta inteligente à crítica de Paulo Francis…

Incrível. Como é que o Paulo Francis escreveu que Mick Jagger tinha me respondido que era tolerante com latino-americanos — e ainda pôs um “sic”? Perguntei a Mick de sua tolerância com jovens. Ele fez uma cara safada e respondeu que era tolerante, “especialmente na Colômbia”. Bem, a cara safada foi dirigida ao dono da casa, Julio Santo Domingo, um colombiano que, amigo de Walter Salles, tinha emprestado o apartamento nova-iorquino para a entrevista. Walter era o diretor. Mas quem me convidou para ajudar na conversa com Jagger foi Roberto D’Ávila. Sinceramente, pensei que a cara maliciosa de Mick sugeria sexo: Julio era muito bonito. Mas Waltinho me disse que não (claro): sugeria droga. Colômbia nos anos 1980, você sabe. Mas Francis precisava dizer que Jagger nos humilhara e que eu não tinha sido valente o suficiente para revidar o golpe: ele queria que o leitor aderisse ao rancor contra mim, e para isso apelava ao fácil nacionalismo ressentido. D’Ávila, comigo, chiou do que Francis escrevera e disse que ia responder de público. Nunca vi tal resposta.

Eu não guardei o artigo. Reli agora. Na altura, li a bordo de um avião a caminho da Europa para uma turnê longa. Mostrei a Guilherme Araújo. Rimos, protestamos, e eu, como sempre, tentei sem sucesso dormir no voo. Cheguei a Lisboa exausto e no dia seguinte já estava num palco. No fim da excursão o assunto já era algo remoto. De volta ao Brasil, percebi que não era tão remoto assim. Demonstrei minha indignação caracterizando Francis como bicha travada. Ele respondeu. Primeiro: que eu devia ser infeliz, pois usava como xingamento minha própria condição. Comentei, numa entrevista, que Francis não entendia nada de bicha. Depois: “Fiz uma crítica cultural a Caetano e ele responde com ofensas: puro Brasil.” E eu: Francis é quem me ofendeu, e eu fiz, em resposta, uma crítica cultural à figura dele: “bicha travada” era análise de tipo encontradiço em sua geração. Ele preferiu não entender que o núcleo pejorativo era “travada”, não “bicha”.

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Li outros textos do livro antes desse. Queria sentir o artigo em meio ao que ele escrevia então. Escrevendo sobre mim ele me mostrou demais os defeitos de caráter que se podia notar em quase todo o resto. Por exemplo, ele descreve minha música como fusão ineditamente bem-sucedida de ritmos brasileiros com bebop e cool jazz. Numa frase, ele finge que conhece muito bem o que desconhece. E termina sendo injusto com Tom Jobim. Ninguém fez melhor do que Jobim o que ele descreve. Em outro trecho, ele corrige Deus e o mundo que dizem que Mick imita sotaque cockney: seria sotaque londrino, cockney “é outra coisa”. Que outra coisa? Cockney é o dialeto popular de Londres. Por muito tempo significou simplesmente “de Londres”. Dizer que rock não é música era lugar-comum. Francis faz de conta que eu não sabia. Eu não era (e não estava ali) como jornalista. A certa altura ele afirma que sou melhor compositor do que Jagger, mas pergunta por que eu não fiz “Citadel”, cantada por soldados no Vietnã. A resposta simples seria: porque o Brasil não invadiu o Vietnã.

A força de dominação da cultura anglófona é assunto que pervade tudo. Ninguém mais esmagado por essa força do que o próprio Francis. Ficava no Rio sonhando que conversava no Algonquin. Fez esforço para desprovincianizar o ambiente cultural brasileiro. Tema também meu. Desde sempre. Mas eu não tive oportunidade de bater cabeça para ele. Simplesmente não calhou, no ritmo de sucessão de gerações, de termos um encontro amigável. Glauber, que o arrasou na Bahia, cooptou-o aqui. O Algoquinho carioca grilou com o surgimento de minha geração: Millôr contra Chico, “Pasquim” contra “baihunos”. Zé Agrippino, em 1968, achava Francis um atraso de vida. Seus esforços de aggiornamento me atingiram em Santo Amaro, em 1959, na revista “Senhor”. Devo muito a Francis.

Passou parte da juventude em Nova York: natural que visse em mim o tabaréu. Ele percebia que entendo mal o inglês falado. Algo da crítica seria utilizável. Até por mim. Mas o que há de bebop ou cool em “Tropicália”, “É proibido proibir” ou “Nine out of ten”? E ele me descreve talvez com imagens já então velhas da paródia de grupo que foi Doces Bárbaros. Depois da entrevista, Marina Schiano fez um jantar para mim, com Mick, Bianca, Jerry Hall, Warhol. Este me perguntou se eu não o queria para fazer a capa do meu novo disco. Era “Uns”. Respondi que já tinha capa (de Oscar Ramos), em que apareço de cabelo curto e terno. Mick Jagger nunca teve cabelo curto. O fato de ele ser inglês encandeia Francis. Jovens paulistanos com veleidades de gênios da crítica o seguiriam como cães alemães.

No artigo sobre mim ele está dando adeus às agressões a Roberto Campos e acenando pela última vez para quem chora com frases como “adular os privilegiados”. Dois anos depois ele saudava Campos como um guerreiro. Um pouco mais e ele louvava Collor por ser “bonito e branco”.

Mas o retrato de Jango, as análises que juntam Schumpeter e Lenin, a ligeireza com que narra as conversas de Golbery com Ênio Silveira, toda essa competência periodística compensa o desconforto da prosa de seus romances, embora não dê para justificar as tiradas racistas. Sou vítima de uma delas. Ele escreveu que o Rio começou a decair quando Bethânia substituiu Nara no Opinião e, com ela, “veio essa gente”.

Tropicalistas são referência. Francis não emplacou nem uma frase no “NYT”.

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Terminando a saga sobre a histórica briga entre Paulo Francis e Caetano Veloso, segue aqui uma reportagem de Ruy Castro sobre o assunto. Durante a polêmica, Ruy Castro escreveu a reportagem que segue abaixo, com histórias divertidas.

QUEM FAZ MAIS A SUA CABEÇA: PAULO FRANCIS OU CAETANO VELOSO

Por RUY CASTRO
8 de outubro de 1983 – Ilustrada
Com colaboração de Âmbar de Barros

É a polêmica do século. Ou a deste fim de semana – por aí. A cidade está acompanhando, entre perplexa e apaixonada, a briga entre o jornalista Paulo Francis, correspondente da Folha em Nova York, e o cantor e compositor Caetano Veloso, pelas páginas deste caderno. Há algumas semanas, Paulo Francis criticou a entrevista que Caetano realizou com Mick Jagger no programa “Conexão Internacional”, da TV Manchete, classificando de reverente e submissa a postura de Caetano diante do complacente líder dos Stones.

Caetano não gostou e, numa entrevista coletiva nesta terça-feira, rompeu publicamente com Francis, a quem sempre admirou, chamando-o de “bicha amarga” e “boneca travada”. A resposta de Paulo Francis foi publicada na edição de quinta, em que ele devolve a Caetano os epítetos e lamenta que um argumento cultural seja respondido com insultos.

Tsk, tsk. Mas a briga existe e não se fala em outra coisa. Espera-se que ela sirva pelo menos como base de discussão sobre o conceito do intelectual no Brasil, a liberdade de expressão e a maior ou menor qualidade da nossa atual produção artística. Afinal, ambos têm mais do que cacife para isso.

São pessoas corajosas, inteligentes e talentosas. E estão entre os intelectuais e artistas que mais fizeram cabeças neste país nos últimos 20 anos. Quem faz mais a sua cabeça: Paulo Francis ou Caetano Veloso? Esta foi a pergunta que a Folha fez a várias pessoas influentes. Eis as respostas. (E, ah sim, antes que eu me esqueça: nenhum dos dois é bicha.)

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AUGUSTO DE CAMPOS, poeta e tradutor: “Não tem dúvida: sou 100% Caetano”.

JÚLIO MEDAGLIA, maestro e um dos inventores do tropicalismo: “Neste momento, Paulo Francis é mais criativo. Ultimamente, Caetano só tem feito boleros”.

DÉCIO PIGNATARI, poeta e professor de literatura: “Os dois fazem igualmente a minha cabeça. Paulo Francis é um homem claramente ideológico e às vezes incursiona no terreno artístico. Caetano é o contrário”.

MINO CARTA, jornalista e editor da revista Senhor: “Com respeito por ambos, nem um nem outro”.

GILBERTO BRAGA, autor de novela “Louco Amor”: “Pela emoção, Caetano. Pela razão, Paulo Francis. Mas, pelo que andam dizendo um do outro, eu poria os dois de castigo durante uma hora”.

CARLOS BRICKMAN, jornalista, editor de economia da Folha: “Entre os dois, graças a Deus fico com Millôr Fernandes”.

HENFIL, cartunista: “Paulo Francis. Pela sabedoria, pelo compromisso com as outras pessoas e pelo seu orgulho de ter sido preso por suas idéias, enquanto Caetano se envergonha disso. Caetano diz que não lê jornais, mas é capaz de citar o dia e a página de qualquer jornal que tenha falado dele, mesmo que seja a ‘Gazeta de Nanuque’. E eu gosto mais da música do Francis”.

BELISA RIBEIRO, apresentadora do programa “Canal Livre”: “Caetano. Porque, por ele, dá para a gente se apaixonar”.

ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL, colunista: “Paulo Francis. Eu faço parte da macaquice do auditório dele”.

FÁBIO MAGALHÃES, secretário da Cultura municipal: “Nenhum dos dois”.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo e professor: “Os dois não fazem nem o meu pé, quanto mais a minha cabeça”.

CARLITO MAIA, publicitário: “Quem faz a minha cabeça é o Goulart, que me corta o cabelo”.

FLÁVIO GIKOVATE, psicanalista: “Caetano Veloso. Sem comentários”.

JOÃO CÂNDIDO GALVÃO, jornalista, editor-assistente de Veja: “Paulo Francis, porque é mais paradoxal. Caetano anda muito óbvio”.

SÓCRATES, jogador do Corinthians e da Seleção: “Admiro os dois como profissionais destacados em suas respectivas áreas, mas nenhum deles faz a minha cabeça. Aprecio informações do Paulo Francis, gosto de muitas músicas do Caetano, mas nenhum deles influi na minha maneira de pensar ou agir”.

CASAGRANDE, centroavante do Corinthians: “Caetano Veloso. É um poeta. Gosto também do comportamento dele, que é agressivo com a sociedade. Aliás, como o meu”.

MARÍLIA GABRIELA, apresentadora do programa “TV Mulher”: “Quando eu quero poesia, prefiro Caetano. Quando quero bom jornalismo, prefiro Paulo Francis”.

JOÃO DÓRIA JR., presidente da Paulistur: “Nenhum dos dois. Mas eu prefiro a doçura musical do Caetano à acidez redacional do Paulo Francis”.

ANGELI, cartunista: “Eu misturo os dois. Pego o lado doce do Paulo Francis e o ferino do Caetano”.

GERALDO MAYRINK, jornalista, editor-assistente de IstoÉ: “Paulo Francis – porque, pelo menos, nunca pediu a minha cabeça, como fez o outro. Além disso, Francis se tornou um dos maiores entertainers do nosso show business”.

EDUARDO MASCARENHAS, psicanalista: “Caetano, claro, porque tem mais humor, talento e arte que o sr. Paulo Francis. Caetano já me faz a cabeça há 15 anos. Já o sr. Paulo Francis, no que respeita a subjetividade, é extremamente primário. Mas eu não sei como andam os interiores do sr. Paulo Francis”.

WASHINGTON OLIVETTO, publicitário: “Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!”.

ANTONIO MASCHIO, ator e proprietário do Spazio Pirandello: “Paulo Francis, sem dúvida. É um homem do mundo. Caetano, quando muito, é um homem do Brasil. Se todas as bichas do Brasil fossem ‘travadas’ como o Paulo Francis, este país estaria muito melhor”.

CLODOVIL, costureiro: “Eu, hein? Nesse angu, eu não me meto!”.

APARÍCIO BASÍLIO DA SILVA, escultor e perfumista: “Paulo Francis. É um conselheiro literário formidável”.

PIETRO MARIA BARDI, diretor do Museu de Arte de São Paulo: “Na minha idéia, é Paulo Francis, hoje o maior, mais atual, mais vivo, mais inteligente e mais inventivo escritor brasileiro”.

TÃO GOMES PINTO, jornalista da Folha: “Caetano Veloso”.

CAIO TÚLIO COSTA, jornalista, secretário da Redação da Folha: “Entre a razão e a emoção, eu fico com Paulo Francis”.

MARTA SUPLICY, sexóloga: “Eu gosto dos dois, mas nenhum faz a minha cabeça”.

TAVARES DE MIRANDA, colunista social da Folha: “Quem faz a minha cabeça é Jesus Cristo”.

RUBENS GERCHMAN, artista plástico: “Paulo Francis. Ele está há anos no centro da ação –sempre no front”.

JOSÉ GUILHERME MERQUIOR, diplomata, ensaísta e acadêmico: “Não gosto da expressão ‘fazer a cabeça’. Acho-a alienada. Quem faz as minhas idéias, com muita dificuldade, sou eu mesmo. Não tenho nada a considerar sobre esses dois personagens”.

THOMAZ FARKAS, produtor cinematográfico e empresário: “Os dois me fazem a cabeça, cada qual do seu jeito”.

HELENA SILVEIRA, jornalista e colunista da Folha: “Quem me faz a cabeça é Anthonio Carlos, meu cabeleireiro. Admiro Paulo Francis como colega, gosto de Caetano com restrições. Guru é coisa que já era”.

JOSÉ ROBERTO AGUILAR, artista plástico: “Caetano é meu amigo, moramos três anos juntos em Londres. Mas o Francis também é genial e seus livros são monumentais. O problema do Francis é que ele é de uma geração que só ouve jazz e música clássica, e passou a largo da geração do rock. Assim, fica reduzindo tudo a uma coisa de ‘lumpenproletariat’. Mas o rock não é só isso. O rock já tem sua literatura e sua cultura”.

CARLOS VOGT, lingüista e professor da Unicamp: “Gosto da música do Caetano e acho divertida a destemperança com que escreve Paulo Francis”.

JOSÉ MIGUEL WISNIK, professor de literatura: “Cada um de nós faz a sua própria cabeça, mas as sete faces do Caetano ressoam mais em mim do que a cabeça de papel do Paulo Francis”.

JULIO BRESSANE, cineasta: “Minha cabeça é feita pelos dois. A região que Caetano ocupa, que é a da poesia e onde habito, é a maior. Mas o Paulo Francis, que é hoje o maior articulista do Brasil, também ocupa uma região imprescindível. Inclusive já começamos a trabalhar juntos numa adaptação para o cinema do seu romance ‘Cabeça de Papel'”.

ZIRALDO, teatrólogo e humorista: “Sou Caetano. Mas não assumo”.

MILLÔR FERNANDES, pensador e humorista: “Olhem, não me meto em briga de baianos”.

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“Pós-Tudo – 50 Anos de Cultura na Ilustrada”
Autor: Marcos Augusto Gonçalves (org.)
Editora: Publifolha

http://www.caetanoveloso.com.br/blog_post.php?post_id=934

Reconvexo. Como uma resposta de Caetano a Paulo Francis virou um belo samba….

 

“Meu som te cega, careta, quem é você…”

 

A letra de Reconvexo, um belo samba de roda de Caetano Veloso gravado por Maria Bethania, revela um orgulho de ser brasileiro, de ser baiano, de ser de uma parte do mundo que é “out“, e que, pelo mesmo motivo, é “in“.

A canção estabelece uma dicotomia entre o “eu” – que é uma séria de referências baianas, brasileiras e universais – e o “você”, o careta, “que não que não e nem disse que não”. Assim a identidade do eu-lírico é construída pelos sons, pelas imagens, pelas referências, em contraposição àquilo que o “careta” não consegue perceber.

A música faz muitas referências baianas (a novena de dona Canô, a elegância sutil de Bobô, o Olodum balançando o Pelô), brasileiras (o mendigo Joãozinho/Beija Flor – em referência ao célebre enredo “ratos e urubus- larguem minha fantasia” de Joãozinho Trinta na Beija-Flor de 1989, a destemida Iara da Amazônia), e universais (A risada de Andy Warhol, o suingue do Francês da Guiana Henri Salvador, o americano negro com brinco de ouro na orelha).

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Caetano e Paulo Francis vez ou outra protagonizavam polêmicas.  Francis vivia em Nova Iorque e tinha um estilo sarcástico/irônico sobre o Brasil.

Então, ao reafirmar ao todo tempo o que é Recôncavo (fazendo referência à região da Bahia no entorno da Baía de Todos os Santos), e ao “careta” que sequer pode ser Reconvexo (um neologismo, como uma forma de dizer que ele sequer pode ser o outro lado, a antítese do que é o Recôncavo), a música faz uma homenagem a “Gita” de Raul Seixas (que viria a falecer naquele ano) e a “Fruta Gogóia”, canção folclórica gravada por Gal Costa no famoso disco “Fa-Tal: Gal a todo vapor”. A estrutura do “eu sou, eu sou eu sou” como se fosse uma lista tem inspiração em ambas as canções

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Caetano, no livro “Sobre as letras”, organizado por Eucanaã Ferraz (Cia das Letras, 2003), explica a canção:

 

Compus para Bethania gravar. Eu estava em Roma quando um dia acordei e vi os carros empoeirados, todos cobertos de areia. Perguntei: ‘Gente, o que tem nesses carros aí?’. Uns italianos, amigos meus, responderam: ‘isso é areia que vem do deserto do Saara, que o vento traz’. Com essa imagem, comecei imediatamente a compor a música. 

“A letra fala em Gita Gogóia, porque a letra de Gita diz ‘eu sou, eu sou, eu sou’… e porque a a canção ‘Fruta Gogóia’ também se estrutura do mesmo modo  eu sou, eu sou, eu sou’. 

A letra é meio contra o Paulo Francis, uma resposta àquele estilo de gente que queria desrespeitar o que era brasileiro, o que era baiano, a contracultura, a cultura pop, todo um conjunto de coisas que um certo charme jornalístico, tipo Tom Wolf, detestava e agredia. 

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Segue a letra e o belo samba de roda, que descarta quem “não é recôncavo e nem pode ser reconvexo”

 

eu sou a chuva que lança
areia do Saara
sobre os automóveis de Roma
sou a sereia que dança
destemida Iara, água e folha
da Amazônia
eu sou a sombra da voz
da matriarca da Roma negra
você não me pega
você nem chega a me ver
meu som te cega careta
quem é você?
que não sentiu o suingue
de Henri Salvador
que não seguiu olodum
balançando o pelô
e que não riu com a risada de
Andy Warhol
que não que não
e nem disse que não
sou um preto norte-americano
forte com um brinco de ouro na orelha
sou a flor da primeira música
a mais velha e a mais nova
espada e seu corte

sou o cheiro dos livros desesperado
sou Gita Gogóia
seu olho me olha
mas não me pode alcançar
não tenho escolha careta
vou descartar

quem não rezou a novena de
D. Canô
quem não seguiu o mendigo
Joãozinho Beija-flor
quem não amou a elegância sutil
de bobô
quem não é recôncavo e nem pode
ser reconvexo

 

quarta 09 junho 2010 21:56 , em MPB

 

 

 

 

 

Olhos coloridos. Origem de um episódio de racismo…

A canção “Olhos Coloridos”, que se tornou sucesso na voz de Sandra de Sá em 1982, é o resultado de um episódio de racismo vivenciado pelo seu compositor, Macau, na década de 70.

Macau era morador da Cruzada São Sebastião, na Zona Sul do Rio, onde muitos moradores tinham origem na Favela da Praia do Pinto, na mesma região, que foi destruída por um incêndio em 1969.

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Macau já era cantor e compositor na década de 70. Ele foi com seu amigo Jamil, no começo da tarde,  para ver um evento escolar no Estádio de Remo da Lagoa. Negros, eles estavam com roupas simples e cabelo black, quando foram abordados  foi interpelado por um policial militar, considerados  e convidado a passar por uma averiguação.

Ele, inicialmente, se recusou a ir, pois disse que não estava fazendo nada errado. O policial, então, disse que se ele não fosse, seria levado á força.

Conduzido para uma sala, foi ofendido por um sargento. “Ele me levou para um escritório. E tinha um sargento, baixinho, que quando eu cheguei ele ficou rindo e disse: ‘eu estou vendo você lá de baixo, você não é fácil, hein? Você ri demais, fala demais’”, conta Macau.

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Macau e Sandra de Sá

As ofensas continuaram: “esse cabelo enrolado, esse sorriso, essa roupa, ao cabelo, a roupa que ele vestia e ao local onde ele morava, quando Macau alegou, em sua defesa, que era morador da Cruzada São Sebastião.

“O policial disse: ‘Você mora naquela lama ali, cheia de bandido’. Eu disse que bandido não, ali não tem bandido. Eles são moradores da Cruzada São Sebastião.

Macau, então, começou a discutir com o policial, dizendo que não tinha feito nada de errado: “Mas qual é o problema do meu cabelo, da minha roupa? O cabelo é meu, eu uso como eu quero, a roupa eu uso como eu quero….

Nas palavras de Macau:

Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.

 

Aí Macau chegou para o policial e disse a frase que acabou acarretando sua prisão:

Eu sou negro e você também é , você é sarará crioulo, o sangue que corre nas minhas veias é o mesmo que o seu, então somos da mesma origem e você é sarará….

O sargento ficou furioso, deu um tapa em Macau e mandou que ele fosse conduzido.

 

 

Macau foi preso e colocado em um camburão no meio da tarde. O veículo circulou por toda a cidade, vários “suspeitos” foram também colocados ali dentro e, no fim das contas, ele só chegou à delegacia à 1h do dia seguinte. “Era uma escuridão, eu sendo esmagado de gente, eu me senti dentro de um porão. Eu fiquei muito mal, fragmentado, com a alma ferida”.

Ele e todos os homens que estavam aglomerados foram colocados em uma cela apertada, onde Macau passou a noite, ao lado de um vaso sanitário, agachado por causa da falta de espaço.

Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.

Quando foi libertado, o padre fez menção de levá-lo para casa, mas ele não quis. “Eu fiquei tão revoltado que queria explodir. Eu falei: ‘Eu vou para o mar, quero ficar sozinho’”, conta Macau.

Diante do mar do Leblon, Macau, revoltado, sentou na areia e ficou refletindo…. e compôs a letra em que ele falava com deus e consigo mesmo, isso acabou anestesiando a raiva… a letra veio de uma vez só. “Eu comecei a olhar o mar e veio, de uma forma única, o texto dos ‘Olhos coloridos’. Eu comecei a chorar, veio na minha mente todo esse texto. Eu corri para casa, peguei o violão e comecei a tocar a canção”, conta o cantor.

 

 

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/11/autor-de-olhos-coloridos-conta-que-musica-surgiu-de-caso-de-racismo.html

 

O cantor Macau fala sobre sua carreira

 

Back in the USSR. Quando os Beatles se inspiraram nos Beach Boys e chegaram a ser acusados de comunistas.

Back in the USSR, que integra o famoso álbum branco dos Beatles, em 1968, é uma canção escrita sobretudo por Paul McCartney e tem uma série de homenagens e curiosidades.

 

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O título foi inspirado numa canção de de Chuck Berry, “Back in the USA”, e surgiu a partir de uma influência dos Beach Boys, banda californiana contemporânea ao Beatles.

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Como conta Steve Turner, no livro “The Beatles:a História por Trás de Todas as Canções”,

 

“em fevereiro de 1968, os quatro Beatles e suas parceiras viajaram para Rishikesh, Índia, para estudar meditação transcendental com o Maharishi Mahesh Yogi. Outros três músicos profissionais participavam do mesmo curso – o cantor escocês Donovan, o flautista americano Paul Horn e o Beach Boy Mike Love. Eles acabaram passando muito tempo juntos, conversando, tocando e compondo.

Uma das músicas que surgiu desse encontro é “Back In The USSR”, escrita por Paul como um pastiche dos Beach Boys e de Chuck Berry. A gênese da canção foi um comentário de Love para Paul feito durante um café da manhã. “Não seria divertido fazer uma versão soviética de ‘Back In The USA’?”, Love sugeriu, referindo-se ao single chauvinista de 1959 em que Berry declara como está feliz por voltar aos civilizados EUA, com seus cafés, drive-ins, arranha-céus, hambúrgueres e juke boxes. Os Beach Boys tinham usado “Back In The USA” e “Sweet Sixteen”, de Berry, como inspiração para “California Girls” e “Surfin’ USA”, em que exaltam as virtudes das garotas e das praias locais.

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Paul seguiu a sugestão de Love e criou uma paródia que fazia pela USSR o que Berry tinha feito pelos EUA, e pelas mulheres soviéticas o que os Beach Boys tinham feito pelas garotas da Califórnia.

 

 

Então, vê-se a sequência: os Beach Boys haviam sido influenciados por “Back in the USA”  para criar “California Girls” e “Surfin Usa”. E Paul se inspirou nos Beach Boys para Fazer Back in the USSR

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Prossegue Turner: Após uma década de canções que faziam poesia com lugares como no rock’n’roll. “Eu simplesmente gostei da ideia de garotas da Geórgia falando de lugares como a Ucrânia como se fossem a Califórnia disse Paul. Em homenagem a Love, a gravação final dos Beatles imitou os backing vocal dos Beach Boys.

Em uma entrevista de rádio em novembro de 1968, Paul declarou:

“Na minha cabeça, é só sobre um espião (russo) que ficou muito tempo nos EUA e se tornou muito americano, mas quando volta para a União Soviética diz ‘deixe para desfazer minha mala amanhã, querida, desligue o telefone’, e tudo o mais, mas para mulheres russas”.

A letra realmente fala sobre garotas de várias partes da URSS (Ucrânia, Moscou e Geórgia), inspirando-se como o ‘California Girls’ do Beach Boys falam das garotas da California.

 

Uma curiosidade: durante as gravações, Ringo desentendeu-se e brigou com a banda. Conta o site undiscovermusic:

Embora a concepção da música possa ter sido relativamente direta, sua apresentação foi menos fácil. Como muitas das músicas do “White Album” escritas na Índia, o grupo gravou uma demo de ‘Back In The USSR’ no esher de George Harrison , Kinfauns, em maio de 1968, logo após retornar à Inglaterra. Mas quando eles gravaram a música no Abbey Road, já era meados de agosto e as tensões estavam aumentando.

Ringo estava se sentindo infeliz com a maneira como as coisas estavam indo. “Eu senti que não estava tocando muito bem, e também senti que os outros três estavam realmente felizes e eu era um estranho, disse ele mais tarde. Durante a sessão de ‘Back In The USSR’, o baterista decidiu que já bastava e saiu, passando algumas semanas no iate de Peter Sellers no Mediterrâneo antes de retornar ao redil depois que os outros o asseguraram de seu valor. para o grupo.

Nesse meio tempo, McCartney assumiu funções de percussão e, juntamente com John Lennon e George Harrison, a banda completou ‘Back In The USSR’ em apenas dois dias (22 e 23 de agosto de 1968), adicionando efeitos sonoros de um avião de passageiros, ao que era uma parede surpreendentemente pesada de bateria latejante, guitarras trituradas, baixo de condução, piano batendo e uma escalada de rock’n’roll. Então, acenando com a inspiração inicial, como Paul colocou: “Adicionamos harmonias no estilo Beach Boys”. E com isso, um dos mais famosos álbuns duplos da história pop teve sua faixa de abertura.

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O curioso é que a canção foi taxada pelos mais conservadores americanos como uma apologia comunista. Prossegue SteVe Turner: 

“Back In The USSR” perturbou os americanos conservadores porque, em tempos de Guerra Fria e conflito no Vietnã, parecia celebrar o inimigo. Depois de admitir o uso de drogas, os rapazes de cabelo comprido estavam abraçando o comunismo?

O ativista antirrock americano David A. Noebel, autor de Communism, Hypnotism and the Beatles, mesmo não tendo conseguido encontrar as carteirinhas da banda de membros do partido, jurava que eles estavam promovendo a causa revolucionária do socialismo. “John Lennon e os Beatles eram parte integrante do meio revolucionário e receberam grandes elogios da imprensa comunista, especialmente pelo White Album, que continha ‘Back In The USSR’ e ‘Piggies’. Um trecho da ‘Back In The USSR’ deixou os anticomunistas sem palavras: ‘You don’t Know how lucky you are boy/Back in the USSR, ele escreveu.

Tivesse feito uma pesquisa mais cuidadosa, Noebel teria descoberto que o discurso oficial soviético era que os Beatles eram a prova da decadência do capitalismo. Assim como os nazistas declaram que o jazz e a pintura abstrata eram “degenerados”, os comunistas atacaram o maligno rock’ n’ roll e promoveram o folk, que enaltecia as virtudes do Estado.

Os jovens da União Soviética ficavam tão animados com a música dos Beatles quanto os jovens do lado ocidental da cortina de ferro, mas tinham de se contentar com gravações piratas, contrabandos e transmissões de rádio dos EUA e da Inglaterra.

Em 1988, com a Guerra Fria prestes a se transformar em mais um episódio da história mundial, Paul fez um tributo aos fãs soviéticos gravando um álbum de standards do rock pela gravadora oficial do governo, Melodia. Em maio de 2003 ele fez um show na Praça Vermelha e teve uma reunião particular no Kremlin com Vladimir Putin, que contou a ele que ouvia os Beatles na adolescência. “Era muito popular. Mais do que popular, era um sopro de ar fresco, uma janela para o mundo lá fora”, ele disse a Paul.

Falando sobre a música na revista Playboy em 1984, McCartney disse: “Também foram as mãos sobre a água, das quais ainda estou consciente. Porque eles gostam de nós lá fora, mesmo que os chefes do Kremlin não gostem. As crianças fazem. E isso para mim é muito importante para o futuro. ”

 

Na verdade, quando a cortina de ferro caiu, restou claro que, no Leste Europeu, a música Back in the USSR era uma das preferidas do público e item obrigatórios nas apresentações de Paul McCartney.

 Quando Paul finalmente tocou a música ao vivo na Praça Vermelha, em 2003, a pura alegria nos rostos dos fãs mostrou o quão longe as coisas haviam chegado desde que foi escrita, nos dias mais frios da Guerra Fria. A frase “garotas de Moscou me fazem cantar e gritar” recebeu a maior alegria da noite.

Paul McCartney disse à revista Mojo , em outubro de 2008, a música contém uma paródia dos Beach Boys que antecederam Pet Sounds . Ele acrescentou: “O resto é (canta as primeiras barras da linha de melodia do verso de abertura) mais Jerry Lee (Lewis). E o título é Chuck Berry, de Back in the USA , e a música em si é mais uma tentativa de Chuck. Você traria esses soldados de volta da Coréia ou do Vietnã, onde quer que seja, e Chuck estava entendendo isso. Eu pensei que era uma ideia engraçada falsificar isso com a coisa mais improvável do caminho de volta na Sibéria.

E fica bem engraçado quando no refrão se fala “Back in the US (referência a United States) , Back in the US, Back in the USSR….

 

https://www.songfacts.com/facts/the-beatles/back-in-the-ussr

‘Back In The USSR’: The Story Behind The Beatles’ Song

Turner, Steve. Beatles: A história por trás de todas as canções

Quando Rod Stewart foi acusado de plagiar Jorge Bejnjor

 

Às vezes nos deparamos com que certos artistas brasileiros façam versões, se inspirem  ou copiem descaradamente músicas ou trechos de músicas estrangeiras. Mas, vez por outra, percebemos situações constrangedoras que envolvem também artistas estrangeiros copiando artistas nacionais.

Um caso que ganhou repercussão mundial foi a acusação de que Rod Stewart teria, na sua canção “Do you think I’m sexy?”, copiado acintosamente o conhecido refrão do “tê-tê-teteretê” de Taj Mahal. É certo que boa parte da composição foi creditada ao baterista de Rod, Carmine Appice.

 

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Carmine, num depoimento que consta do sítio digital http://www.songfacts.com, passou ao largo da discussão:

“Estávamos no estúdio e Miss You, dos Rolling Stones, era sucesso na época. Rod sempre foi um cara que costumava ouvir o que acontecia ao redor dele. Estava sempre de olho nas paradas musicais, ouvindo tudo, e era fã dos Rolling Stones. Então, quando eles lançaram Miss You, o som discoteca era a sensação do momento. Rod queria gravar uma espécie de canção com influência da disco music, algo mais ou menos como Miss You, mas que não fosse tão disco como Gloria Gaynor”.

Carmine continua: “Ele sempre nos falava, ‘quero uma canção desse jeito’ ou ‘quero uma canção daquele jeito’. Fui para casa e bolei uma melodia. Apresentei ao Rod através de um amigo, Duane Hitchings, um compositor que tinha um pequeno estúdio. Fomos para o estúdio dele com as baterias e teclados e ele deu uma lapidada na melodia. Entregamos ao Rod um demo dos versos e a estrofe e Rod criou o refrão. Tocamos repetidas vezes com a banda antes de acertarmos os arranjos com Tom Dowd” (lendário produtor musical).

Acontece que, em 1978, seis anos após o lançamento de Taj mahal, sai Blondes Have More Fun, nono disco de Rod Stewart. O álbum marcou a passagem definitiva do artista para o mundo do pop/disco e vendeu mais de 14 milhões de cópias no mundo todo, puxado pelo sucesso de faixas como a divertida “Da Ya Think I’m Sexy”e seu refrão contagiante.

Ocorre que a parte da canção (que foi um dos maiores sucessos de Rod Stewart, chegando a figurar na lista das 500 maiores canções da Revista Rolling Stones) era manifestamente uma cópia do refrão de Taj Mahal, de um disco gravado por Jorge Ben em 1972. É só reparar a sequência harmônica e melódica. O assunto foi reportagem no Fantástico de fevereiro de 1979, e se discutia um processo que Jorge Ben moveria contra Rod Stewart.

Na sua autobiografia, Rod Stewart confessou:

Só para complicar as coisas, o músico brasileiro Jorge Ben Jor apontou a semelhança da melodia do refrão com uma canção dele, de 1972, chamada ‘Taj Mahal’. E reivindicou direitos autorais.

Levantei a mão imediatamente. Tinha como me defender.

Não que eu tivesse me levantado no estúdio e dito: ‘Aqui, já sei, vamos usar aquela melodia do Taj Mahal como o refrão e pronto, acabou. O autor mora no Brasil, nunca vai descobrir’.

Mas por acaso eu tinha passado o Carnaval no Rio em 1978, com Elton [John] e Freddie Mercury, e lá duas coisas significativas aconteceram:

1. Desenvolvi uma breve e impossível paixão por uma atriz de cinema lésbica, que não me deixava chegar perto dela;

2. Eu tinha escutado várias vezes, por toda parte, ‘Taj Mahal’, de Jorge Ben Jor. Ela fora relançada naquele ano, e evidentemente a melodia ficou registrada na minha memória e ressurgiu quando eu tentava encontrar uma frase que ajustasse aos acordes. Plágio inconsciente, pura e simplesmente. Cedi os direitos e mais uma vez imaginei se por acaso “Da ya think I’m sexy?’ não seria um tato amaldiçoada.”

 

Para livrar-se dessa situação (até porque o disco que continha a canção, Blondes Have More Fun, já vendera mais de 4 milhões de cópias), Rod Stewart terminou cedendo os direitos autorais da canção à UNICEF, o que fez com que Jorge Ben não tivesse recebido nada pela cópia da canção….

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Fontes:

Stewart, Rod. Autobiografia. Globo, 2013

http://fantastico.globo.com/platb/fantastico30anosatras/tag/plagio/

http://danielcouri.blogspot.com.br/2011/08/o-que-rod-stewart-e-jorge-benjor-tem-em.html

http://www.songfacts.com/detail.php?id=1306

https://omusicologo.wordpress.com/2012/09/04/originais-originados-jorge-ben-x-rod-stewart-taj-mahal-da-ya-think-im-sexy/

domingo 21 outubro 2012 18:32 , em Polêmicas