“Fogueira” – de Ângela Ro Ro para Zizi Possi

Histórias de amor deixam marcas e músicas. Algumas músicas, como algumas histórias de amor, são óbvias e não possuem muita coisa de especial. Outras músicas marcam, ficam definitivamente marcadas, como certas e especiais histórias de amor.

Toda história verdadeira de amor tem sua canção ou sua trilha sonora, e sorte de quem consegue traduzir numa bela letra, harmonia e melodia os encantos e desencantos do amor vivido.

Falo isso para analisar “Fogueira” uma das músicas mais belas, senão a mais bela, gravada por Ângela Ro Ro.

 A música foi composta para Zizi Possi, com quem Ângela vivia um romance (ambas moravam juntas), e algumas histórias não bem esclarecidas fizeram com que o romance terminasse. As fontes – nem sempre confiáveis – dão conta de que Ângela teria sido acusada de agredir Zizi.

Angela Ro Ro e Zizi Possi em foto de arquivo: cantoras tiveram relação amorosa turbulenta no início dos anos 80 (Foto: Reprodução)

A outra, que causou mais impacto, foi quando, após o rompimento, Ângela compareceu a um show de Zizi. Na voz de Ângela:

“Mandei comprar ingressos e fiquei em casa, com o meu amigo Claudio conversando e bebendo vinho. Como tivesse sobrado meia garrafa, botamos na mochila dele e saímos. Quando entramos no teatro, as luzes já estavam apagadas. Sentamos, no maior silêncio. Mas comecei a participar do espetáculo, como uma espectadora comum que estivesse adorando o que se passava no palco, cantei junto, aplaudi e gritei “Zizi Possi, eu te amo!”. Acontece que eu sou extrovertida e essa é minha maneira de opinar, tanto para elogiar quanto para protestar. A primeira parte do show terminou com My sweet lord que eu adoro e cantei interinha, do meu lugarzinho. foi quando as luzes se acenderam para o intervalo.”  

No entanto, esta interferência não teria agradado Zizi, que, segundo a mídia da época, teria retrucado:

 “Eu gostaria muito que você entendesse…Usasse toda a sua inteligência e percebesse que é com você que eu estou falando agora. As suas vibrações me incomodam, sua presença me perturba… Você nunca me ajudou, por favor não me atrapalhe, não se interponha em minha vida pois você não me é mais uma pessoa querida. Levanta, levanta por favor vai embora! Levanta, saia do teatro agora! Eu preciso de paz pra tocar e cantar!”

Ângela acabou sendo retirada do Teatro pela polícia. Disse ter sido traída:

“Zizi me traiu. e quando falo em traição, não me refiro a infidelidade. Traição é aquilo que Tiradentes sofreu e eu, que não sou dada a usar coroas de espinhos, não estou afim de entrar nessa… mas não esquento não. Nunca vi um monte de formigas derrubar Gibraltar, a ambição dessa mulher, de ser Sara Bernhardt, já esta quase preenchida, falta chegarmos ao tribunal. Aí sim, a pobre moçoila seduzida pela terrível bêbada e perigosa homossexual”

 

O fato é que a mídia da época, no início dos anos 80, tratava a relação de ambas como um tabu, sendo feitas diversas referências preconceituosas sobre a homossexualidade.

 As razões do rompimento são questões menores e que devem ficar para as revistas de fofocas. O fato é que Ângela fez uma música confessional, uma declaração de amor e de incredulidade por alguém que está sendo magoado. O interlocutor do eu-lírico está machucando, se escondendo, decepcionando um amor profundo, que, apesar de tudo, resiste.

É uma canção que oferece um perdão em nome do amor, que tenta dizer que nem sempre haverá outra oportunidade para vivê-lo e ganhá-lo a cada revés, mas que ao mesmo tempo se contradiz, dizendo ser o amor eterno, não passageiro, que está sempre disposto a perdoar se o objeto do sentimento puder, ainda que brevemente, estender a mão.

 “Fogueira” foi gravada também por Bethania em 1983, mas seu caráter absolutamente confessional a faz mais bonita quando interpretada por Ângela Ro Ro, cuja voz rouca e o estilo de cantar lembra um pouco a cantora Maysa (e a intensidade dos sentimentos, também).

 Muitos anos depois, em entrevista ao Jornal “Gazeta do Povo”, Ângela esclareceu:

  Não quero ser indelicado, mas o desafeto com a Zizi Possi continua?

Com a Zizi Possi? Não há o menor desafeto. Eu tive uma profunda tristeza da gente. Ela e eu fomos vítimas de manipulações, de más línguas. As pessoas foram muito maliciosas. Muita maldade, muita truculência física e psicológica contra mim. Eu nunca bati em ninguém, muito menos na Zizi e ela sabe disso. Eu acho a Zizi uma pessoa muito bacana. Nunca mais fizemos amizade. Ela tem uma filha linda que canta tão bem quanto ela. Zizi é uma grande artista. Pena que nunca mais fizemos amizade porque eu poderia pedir dinheiro emprestado a ela, né?

.
Anúncios

Paulo Sérgio, o cantor que está por trás de “O inimitável”, grande disco de Roberto Carlos, em 1968

Quando Roberto Carlos surgiu no cenário musical, ele inspirou-se explicitamente em João Gilberto, como já tive oportunidade de tratar aqui. Mas ele não encontrou muito respaldo da “turma” da Bossa Nova (Bôscoli, Menescal & Cia), por ser considerado uma espécie de “João Gilberto dos Pobres”, ou seja, uma imitação de João.

Mas logo que Roberto Carlos despontou como líder da Jovem Guarda, a história se inverteu. Na segunda metade década de 60, ele era a síntese do sucesso da música jovem e popular. Nada mais natural do que surgirem história sobre imitadores de Roberto Carlos.

Um dos mais famosos ditos “imitadores” de Roberto Carlos foi Paulo Sérgio. Capixaba da cidade de Alegre, próximo a Cachoeiro do Itapemirim (cidade natal de Roberto), sua carreira começou  quando um amigo dele convidado para realizar testes na gravadora Caravelle, do empresário Renato Gaetani. Paulo Sérgio era alfaiate, mas tocava violão. Na oportunidade, ele acompanharia o amigo ao violão. Ocorre que, durante o teste, descobriram que Paulo Sérgio também cantava e, após tocar algumas canções, ficaram impressionados. O timbre de voz era muito parecidos com Roberto Carlos.

Foi lançado Logo, lançaram o primeiro disco de Paulo Sérgio, um compacto simples, que continha as músicas “Benzinho” e “Lagartinha”. O sucesso de Paulo Sérgio aconteceu em todo Brasil.

Em 1968, Paulo Sérgio estourou nacionalmente com a música “Última canção”‘, que vendeu mais de 300 mil cópias. Segundo Paulo Cesar de Araújo, no seu livro “Eu não sou cachorro não” Paulo Sérgio surgia com o mesmo sorriso tímido, os mesmos olhos tristes, o mesmo estilo musical e o mesmo timbre vocal de Roberto Carlos ― o que levava a imprensa da época a afirmar que ‘ouvir a voz de um ou de outro, praticamente não faz diferença. Paulo Sérgio é uma espécie de outro Roberto Carlos’ (ARAÚJO, 2015 p. 27)

 

No video abaixo, a semelhança é evidente:

 

Um prato cheio para a imprensa, que passou a explorar uma suposta inimizade entre os dois, como se vê:

 

A CBS, que, como uma espécie de resposta a Paulo Sérgio, lançou no final de 1968 o LP O Inimitável, uma espécie de resposta para reafirmar o caráter único de Roberto.

Resultado de imagem para o inimitável quem

Paulo César de Araújo ainda disse que Paulo Sérgio teria operado a garganta  para que se livrasse da pecha.

“Eu operei a garganta para ver se minha voz ficava diferente da voz de Roberto Carlos e não adiantou. Estou desesperado, já não aguento mais ouvir todo mundo dizendo que eu imito o Brasa” (ARAÚJO, 2015 p. 30).

 

Consta que, em Em 1973, Paulo Sérgio e Roberto Carlos se encontraram num show beneficente no Hospital das Clínicas em São Paulo, quando ambos fizeram  questão de esclarecer que a inimizade entre os dois eram apenas boatos.

O fato é que a pecha de imitador incomodou Paulo Sérgio por anos, tanto que, em1980, pouco antes de morrer, Paulo Sérgio falou sobre a polêmica:

Muita gente se preocupa em saber se eu imito ou não o grande ídolo Roberto Carlos, de quem sou fã.  Não me preocupo em  imitar Roberto Carlos, porque cada um de nós deve realmente adquirir sua própria personalidade e só o tempo pode dizer. Deus me deu esta voz e colocou diante do público através do disco, nesta hora.  Todos criam uma dúvida sobre minha carreira artística e assim a coisa vai passando. Tomara Deus que eu um dia possa provar a todos e convencer que meu ideal é enviar uma mensagem de paz de muito otimismo e amor. Minhas músicas são assim, um pouco carinhosas, todos podem notar. Se o Roberto Carlos teve o direito de subir e ser o fenômeno que realmente o é, que diferença tem entre ele como ser humano e eu que também sou filho de Deus?  Sei perfeitamente que o próprio Roberto Carlos não está nem se preocupando com os falatórios. Quem iria falar de um cachorro morto numa estrada? Ninguém….”

 

O fato é que Paulo Sérgio Morreu em 1980, precocemente, e sua pecha de suposto “imitador” de Roberto o acompanhou durante toda sua vida..

 

Fontes:

https://musica.uol.com.br/listas/as-maiores-rivalidades-da-jovem-guarda.htm?mobile&cmpid=copiaecola

https://musicaemprosa.wordpress.com/2016/09/22/roberto-carlos-joao-gilberto-e-a-turma-da-bossa-nova/

http://leandrojosemuniz.blogspot.com.br/2016/10/paulo-sergio-e-roberto-carlos.html

http://memoriadampb1.blogspot.com.br/2012/11/paulo-sergio.html

http://nossajovemguarda.blogspot.com.br/2012/08/paulo-sergio.html

Paulo Cesar Araújo. Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar. Record, 2002

Uma noite em 67 que mudou a história da música

Em 21 de outubro de 1967, a música popular brasileira não era mais a mesma. Um festival de música popular estabelecia um contraponto e uma dialeticidade entre o novo e o velho; entre a música nacional tradicional e a influência das guitarras elétricas; a Bossa Nova e a Jovem Guarda. Tudo isso no meio da ditadura militar.

O que deveria ser um programa de televisão transformou-se num evento de proporções políticas, históricas, sociológicas, culturais… nunca música foi coisa tão séria…

Imagem relacionada

Tendo o festival ocorrido em plena ditadura militar, o pano de fundo está no duelo  ideológico entre a “verdadeira” música brasileira, e a música dita “jovem”. Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão, Nana Caymmi, Jair Rodrigues, MPB-4 e Elis Regina, todos eles estavam ali defendendo canções belíssimas, cada uma com sua história.

Esta noite, em 21 de outubro de 1967, foi de forma belíssima registrado no documentário “Uma Noite em 67”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Kalil, onde mostra o surgimento de uma série de vertentes que, nas décadas seguintes, passaram a ser chamadas de MPB.

umanoite04

No período que antecedeu à noite, havia um clima de efervescência política, cultural, ideológica, com passeatas (inclusive uma contra a  guitarra elétrica que tomou a avenida Brigadeiro Luís Antônio em junho de 67,  liderada por Elis Regina) tomando conta do país.

Naquele momento começavam a surgir canções de protesto. O Tropicalismo, com Gil e Caetano, ali dava sinais de que revolucionaria a música brasileira.

Aquele festival, que foi conhecido como o festival da vaia, mescla imagens do festival com depoimento dos artistas, mais de 40 anos depois. Narra o momento histórico de Sérgio Ricardo, que vaiado de maneira incompassível com Beto Bom de Bola, quebra o violão e o atira contra a plateia.

Imagem relacionada

O documentário, depois de mostrar a célebre cena de Sérgio Ricardo (que diz não ter se arrependido do que fez, mas hoje, jogaria, no máximo, um cavaquinho).

Elis Regina ganhou o prêmio de melhor intérprete, com o “cantador” , e as cinco primeiras colocadas em muito refletem sobre a música brasileira da época.

A quinta colocada, Maria, Samba e Carnaval, um belo samba, mostra como Roberto Carlos, vaiado de maneira violentíssima, consegue ser um intérprete espetacular. Divertido é seu jeito durante as entrevistas.

Caetano se coloca no centro do debate, colocando a Guitarra Elétrica e com sua música Alegria, Alegria, muito vaiada no início, e consagrada no final com gritos de “já ganhou” do público. Embora tenha ficado em quarto lugar, foi o maior sucesso após o festival. Plantada a semente do Tropicalismo.

Chico Buarque, o “mocinho” do espetáculo, segundo  Paulo Machado de Carvalho, já que, para ele, o festival era como um programa de luta livre. “Tinha que ter o mocinho, o bandido, a heroína etc”. Chico diz ter se surpreendido com Gil e Caetano com Guitarras e trajes modernos: “Eles (Chico, Caetano, os Mutantes) estavam lá todos fantasiados e eu de smoking. Aí fiquei com aquela cara… de smoking”, diz Chico, que defendeu a belíssima Roda-Viva, que ficou em terceiro lugar.

Gilberto Gil apresentou Domingo no Parque, música genial que ficou em segundo lugar (Sérgio Cabral, um dos jurados, diz ter se arrependido de não ter votado nela para primeiro lugar – eu concordo com ele). Domingo no Parque era acompanhado pelos Mutantes (Sérgio, Arnaldo e Rita Lee, lindíssima), em arranjo cheio de acordes elétricos. Poucos sabem, mas Gil estava em pânico duas horas antes do festival começar. Precisou ser retirado da cama para se apresentar.

As entrevistas nos entreatos são engraçadas (há muitos cigarros, engraçado como mudou a concepção do ato de fumar), fala-se dos cílios postiços de Maria Medalha (que defendeu com Edu Lobo a campeã Ponteio (numa bela letra de capinam para a música de Edu).

Edu Lobo e Chico mostram que ficaram incomodados por serem chamados de “velhos” pelos “Tropicalistas”, e Chico confessa ter se sentido só em certo momento.

Ponteio, como campeã, é uma bela música, de Edu Lobo e Capinam, e coroa um espetáculo em que vaia, efervescência política, guitarras elétricas e juventude, fez com que a música brasileira jamais fosse a mesma.

Zuza Homem de Mello, no seu livro “A era dos Festivais: uma parábola”, arremata:

Inegavelmente, porém, o que mais marcou as propostas musicais apresentadas no III Festival da Record foi a evolução dos dois artistas baianos: Gilberto Gil e Caetano veloso. As letras de suas composições tinham coincidentemente a mesma forma de slides; os arranjos soavam com uma ruptura dos padrões estabelecidos, ainda que sobre ritmos essencialmente brasileiros (baião e marcha), dando ao resultado final o esboço de uma estética sintonizada com o que acontecia no mais efervescente  período da década de 60″

Zuza também faz referência que as músicas de festival, a partir daí, passaram a ser um veículo de crítica social, sobretudo contra a ditadura militar, mas cantadas de forma a parecerem canções inocentes, de modo que a Censura não percebesse, mas a plateia, sim.

 

segunda 16 agosto 2010 12:04 , em Festivais

Gal Costa e a polêmica do show “O sorriso do gato de Alice”

 

No começo da Carreira, Gal costa, pelo seu timbre único e pelo seu jeito suave de cantar, chegou a ser chamada de “João Gilberto de Saias”. Mas por trás daquela voz inconfundível existe uma mulher ousada, que arrisca, e não foram poucas vezes que Gal saiu da sua zona de conforte de uma das maiores cantoras da música brasileira de todos os tempos  para arriscar.

Apenas para citar de memória, posso fazer referências a “Divino, Maravilhoso”, que apresentou em 1968, no Festival da Record, com cabelo black power, roupas berrantes e atitudes agressivas, ou a capa do disco India, em que logo na capa do LP, tinha uma foto em close da cantora, somente com uma tanga vermelha (na verdade, a foto era da tanga de Gal).

Resultado de imagem para gal o sorriso do gato de alice show

Mas poucos escândalos foram tão comentados quanto o show”O Sorriso do Gato de Alice”. O show foi dirigido pelo controvertido o diretor teatral Gerald Thomas. Estreou no Rio de Janeiro, em setembro de 1994, e causou muita polêmica.

Duas cenas chamam inicialmente a atenção: a primeira, logo no início do espetáculo, quando Gal surgiu, arrastando-se sobre um teto cenográfico como se fosse uma gata vagando pela cidade sob a lua. O público, na noite da estreia, chegou a vaiar Gal.

 

Resultado de imagem para gal o sorriso do gato de alice show

 

Mas o melhor estava por vir.  Durante a música Brasil (Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim), de Cazuza, Gal, que cantava com algo que parecia um pijama, abriu a blusa e cantou com os seios à mostra.

Imagem relacionada

Foi praticamente capa de todos os jornais do Brasil. Vieram inúmeras críticas, piadas; alguns, mais moralistas, indignados; outros, fãs de Gal, aturdidos.  Chegaram a dizer que as propostas de Gerald Thomas oprimiam Gal.

Em duas entrevistas, Gal se manifestou sobre o tema. A primeira delas foi no ProgramaRoda Viva, da TV Cultura:

Gal Costa: Não me arrependi em nenhum momento de ter feito o espetáculo com Gerald Thomas. Era o que eu queria. Acho que eu tenho muita honra e muito orgulho de ter feito esse espetáculo. Acho que era um espetáculo belíssimo, cenicamente era lindo, era uma espetáculo bem acabado, que eu acho o Gerald Thomas talvez o melhor encenador – estou falando encenador – brasileiro. A luz era deslumbrante, o cenário era lindo. Eu não me arrependo em nenhum segundo. Eu fazia o espetáculo com o maior prazer, não me sentia oprimida, como a imprensa falou, que o Gerald me oprimiu, não me oprimiu, porque eu fiz aquilo que eu quis. Eu só faço aquilo que eu quero. E eu me sentia bem e acho que faz parte da minha história. Quem conhece a minha história sabe que eu sou ousada e que eu faço essas coisas. Eu sei que elas têm um preço, mas eu encaro.

 

Gal Costa: Eu, na verdade, eu fiquei um pouco surpresa. Eu sabia que algumas pessoas iriam se chocar com essa atitude. Eu fiquei impressionada com a quantidade, com o número de pessoas que se chocaram por ver um peito de uma mulher de fora, num palco. Eu acho que aquilo era colocado de uma maneira tão digna, era um momento tão importante, quer dizer, no momento em que eu cantava Tropicália, era um momento que estava ligado à história do Tropicalismo, à história dessa irreverência, dessa coisa que ele falou, de comportamento. Estava ligado a isso. Na verdade, aquilo era um pouco uma retomada da minha carreira. Eu cantei coisas do início da minha carreira, gravações. E a atitude também de entrar no palco, a atitude inusitada de entrar no palco como uma gata, não entrar como uma estrela, é engraçado como isso também incomodou as pessoas. E as pessoas reclamam, reclamam que a gente é igual. O que eu tenho medo é de me estagnar, de ficar igual. Podia entrar no palco, ao som de uma banda, com um vestido lindo, uma mulher bonita, e pronto…cantar, mas não é isso que eu quero. Eu prefiro, entendeu, ir por caminhos mais difíceis até porque eu sei que essas coisas provocam reação, provocam polêmica, mas para mim são mais enriquecedoras, porque me dão coisas novas, à minha personalidade.

Fontes: http://galcostafatal.blogspot.com/search/label/1994%20-%20SHOW:%20O%20SORRISO%20DO%20GATO%20DE%20ALICEhttp://www.rodaviva.fapesp.br/materia/41/entrevistados/gal_costa_1995.htm;http://www.galmariacosta.com.ar/portugues.php?idnota=2363

 

Gilberto Gil cantando Marighella?

 

Quem assistiu o filme “O que é isso, Companheiro” (dirigido por Bruno barreto inspirado na obra homônima de Fernando Gabeira),  percebe, numa cena perto do final do filme, a personagem interpretada por Fernanda Torres dizer que Gilberto Gil, numa determinada canção, gritaria o nome “Marighella”… para em seguida dizer que, para que fosse ouvido o nome corretamente, teria que ser ouvido ao contrário.

Resultado de imagem para o que é isso companheiro filme

Fiquei curioso e fui atrás da famosa canção. Em inúmeros sítios digitais e blçogs, encontrei a alegada resposta: o Grito estava na canção Alfômega, que consta de um disco gravado por caetano em 1969 (o LP tem a capa branca com a assinatura de Caetano. Foi gravado pouco depois que saíram da prisão).

Resultado de imagem para caetano disco branco

No meio da canção, Gil faz algumas onomatopeias vocais, e vi muita gente jurar que Gilberto Gil gritava nitidamente o nome “Marighella”. E, para quem não sabe, Marighella foi um dos principais personagens da luta armada contra a ditadura militar no Brasil, morto pela ditadura em novembro de 1969.

Resultado de imagem para marighella

Marighella

No livro “O que é isso, companheiro”, Gabeira relatou, após o sequestro do embaixador americano, sua mania de ouvir discos bem baixinho, quando estava escondido, na clandestinidade, para não incomodar os vizinhos:

“…Num deles, Gil gritava Marighella. No princípio foi interessante reconhecer aquele nome, mais ou menos gritado às pressas, propositalmente, não articulado. Depois era fácil acompanhar a música que, dentro de alguns segundos, ia dizer Marighella. Finalmente, era insuportável ouvir aquele grito de Marighella, repetido mil vezes, ao longo daqueles dias. Sobretudo porque num deles a televisão anunciava a morte de Marighella, assassinado em São Paulo. A morte de Marighella foi a resposta que o governo deu ao sequestro do Embaixador americano...” 

Ouvindo atentamente a canção, parece que, em certa altura, Gil, canta algo que parece ser assim: “iê, ma-ma-mar-guella!”  Veja no minuto 1:31 do vídeo abaixo 

Só que recentemente, Gilberto Gil, no documentário: “Canções do exílio: a labareda que lambeu tudo”, (que conta a trajetória de Gil, Caetano, Jorge Mautner e Jards Macalé sobre as prisões que sucederam ao AI-5, no fim de 68), desmente que tenha gritado o nome de Marighella na canção:

“Dizem, as pessoas, muita gente diz que ouvia num trecho de uma das músicas daquele disco que eu fiz quando saí do Brasil, que eles ouviam o grito do Marighella, coisa que eu nunca fiz. Eu insistentemente ouvia pra ver e eu não achava nem parecido com alguém gritando Marighellla. E na verdade o que acontecia ali eram aqueles gritos normais que eu dou até hoje no meio das minhas músicas, uma daquelas onomatopeias típicas do meu modo de me exprimir musicalmente. Mas nunca, nunca fiz menção ao Marighella, até porque eu tenho impressão que era muito destemor, seria muito destemor da minha parte, naquele momento, diante daquela situação toda fazer esse tipo de coisa.  É um mito, é uma lenda…” 

 

Resultado de imagem para gil canções do exilio a labareda marighella

Está aí a canção. Reparem nos vocais de Gil. Está no minuto 1:30 do video aqui postado.  Conseguem perceber? Ou será que é apenas uma lenda?

domingo 12 fevereiro 2012 02:10 , em As lendas

A “homenagem” e a recusa de Tom Zé na São Paulo Fashion Week em 2004

 

No ano de 2004, o estilista mineiro Ronaldo Fraga resolveu fazer uma homenagem ao compositor “Tom Zé” na São Paulo Fashion Week do mesmo ano. O seu desfile seria intitulado “São Tom Zé”, numa expressa referência à canção “São, São Paulo Meu Amor”, vencedora do Festival da canção da Record em 1968.

Considerado pelo estilista como “genuíno tropicalista”, e que confere “estatuto de arte e vanguarda à cultura popular”, Ronaldo Fraga desejava fazer uma homenagem a Tom Zé, só que se esqueceu de combinar com ele, que, ao saber da homenagem, pediu R$ 30 mil pela utilização de sua obra no desfile.

 

Resultado de imagem para tom zé ronaldo fraga humilhado

O estilista, contrariado, disse à Folha de São Paulo:  ‘Não entendi, eu estava fazendo uma homenagem. Fiquei muito triste, mas respeitei. Não adiantaria eu discutir que arte é arte e que, uma vez que ele fez uma música, não é mais dono dela. Ele é gênio, pode fazer o que quiser.’

E isso coloca em voga a questão (recentemente bem abordada, sobre o ponto de vista jurídico, pelo também professor e amigo Rodrigo Moraes no seu blog), sobre a questão da propriedade da arte, da ideia, da inspiração.

Imagem relacionada

Por mais que se discuta se a arte é criação, recriação, transformação, compilação, é certo que ela representa algo valioso e caro para o artista. E isso tem um preço, que será pago se o público entender que isso tem valor. Até porque, ao contrário do que muitos pensam, não é fácil sobreviver de ideias…

E, nessa linha, Tom Zé divulgou um texto na Folha de São Paulo, como resposta ao episódio, intitulado “Isso que está acontecendo me deixa muito humilhado”. No texto, após elogiar o trabalho do estilista Ronaldo Fraga, Tom Zé desabafa:

 Pela lei brasileira, um trabalho musical passa a ser considerado de domínio público 150 anos depois da morte do autor. É verdade que fui enterrado vivo em 1970, na divisão do espólio do tropicalismo. Mas, mesmo de acordo com essa contagem, só tenho 34 anos de morto. Então minha música ainda não é de domínio público.

Cacilda Becker que me ajude: não posso dar de graça a única coisa que tenho para vender. Senti muita humilhação com esse episódio. Tenho 67 anos, e o assunto da sobrevivência é tema de pensamento de grande parte dos meus dias, pois até hoje não descobri ainda outro meio de ganhar a vida, de sustentar minha família, de ter dignidade e respeito próprio, a não ser vendendo o que faço

Ronaldo Fraga alega que está fazendo divulgação de minha obra. Divulgação, é claro, é necessária em qualquer ramo. Ora, várias vezes comprei na loja de Ronaldo Fraga e sempre paguei o que comprei. Apresentei-me em programas de Serginho Groismann e de Ana Maria Braga, por exemplo, usando roupas dele, nem por isso me considerando divulgador visual da marca. Jamais me passou pela cabeça pedir abatimento, quando da compra, porque estaria fazendo divulgação. Quanto mais, alegando que eu estava me convertendo em passivo modelo da loja, argumentar que ele deveria me dar as roupas de graça.

Isso que está acontecendo com a minha música me deixa realmente muito humilhado. Não sou uma vedete, mas imagine se Ana Paula Arósio, que é naturalmente muitíssimo divulgada pela Embratel, não recebesse um honrado pagamento pelo seu trabalho.
Pedi R$ 30 mil, mas, quando João Marcello Bôscoli, presidente da Trama, minha gravadora, me chamou ao telefone, compreendi que, do ponto de vista de artista da gravadora, eu deveria levar em consideração o problema da divulgação. Tanto que autorizei João a negociar com Ronaldo Fraga e aceitar um preço a que chegassem, por acordo.
Para estudantes, cineastas, dramaturgos, encenadores, profissionais iniciantes, concedo uma média superior a dez autorizações por mês, abrindo mão de quaisquer direitos autorais, quando eles me consultam para inserir minhas músicas em seus trabalhos. Em tais casos, estou dialogando com a nova geração, ainda desprovida de recursos, e concedendo-lhe, na minha medida, o que considero meu dever, um mínimo de possibilidades.”

Todos os dias diversos blogs fazem divulgações de músicas, numa multiplicação virtual do efeito boca a boca. Mas ainda não temos uma cultura de valorização da obra intelectual. E deve ter doído ainda mais a Tom Zé a ciência de que, se ele estivesse em plena evidência, ninguém discutiria o pagamento de direitos autorais. O certo é que ele é dono, e somente ele pode distinguir o que é homenagem e o que é enriquecimento ilícito da sua obra.

 

P.S. 1. Na verdade, os direitos  patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória da lei civil. (Lei 9.610/98, artigo 41)

P.S. 2. O desfile não se chamou ‘São Tom Zé’, mas ‘São Zé’. As músicas da trilha não foram do bardo tropicalista, mas de Hermeto Pascoal e Cordel do Fogo Encantado.

P.S. 3. Acho Tom Zé Genial

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u45405.shtmlhttp://www.rodrigomoraes.adv.br/artigos.php

sexta 23 dezembro 2011 19:39 , em Pol?micas

 

Baby Consuelo e Pepeu Gomes – Barrados na Disneylandia

Resultado de imagem para barrados na disneylândia

Pepeu Gomes e Baby Consuelo formaram certamente o casal mais divertido da música brasileira. Da realidade Hippie dos Novos Baianos da década de 70, eles viraram um símbolo do rock, com seu estilo punk, com seus filhos com nomes alternativos (Riroca – que depois mudou para Sarah Sheeva – Zabelê, Nana Shara, Kriptus Rá Baby, Krishna Baby e Pedro Baby), seus cabelos coloridos e visual extravagante típico da década de 80.

O visual que eles usavam era tão espalhafatoso que eles chegaram a ser barrados na Disney. Baby contou recentemente o fato, numa entrevista a Fernanda Young:

 

 “Eu estava grávida de sete meses do meu quinto filho e fui com o Pepeu toda colorida, do cabelo até os pés, para a Disney. Era quatro de julho e depois que compramos o ticket, quando estávamos para entrar, vi um carrinho tipo uma prisão, era tão bonitinho que eu pensei ser um carrinho qualquer do parque. O cara começou a falar inglês comigo e eu não entendia nada. Uma pessoa traduziu para mim e disse que estávamos sendo barrados por chamar mais atenção do que os brinquedos do lugar. Adorei! Me acabei de rir!”.

Resultado de imagem para baby pepeu cabelos coloridos

Em uma entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo, há alguns anos, Pepeu comentou sobre o episódio: “Fui barrado na Disney por ter o cabelo com sete cores, e foi uma discriminação. Naquela época já daria processo, a gente é que amarelou. Mas era meu sonho de criança, fiquei chorando na porta. Foi uma coisa séria aquilo.”

domingo 03 outubro 2010 03:04 , em Anos 80