Lágrimas e Chuva – Leoni (um bilhete suicida?)

Leoni é um dos principais compositores que surgiu no Brasil na onda pop/rock que tomou conta do país na década de 80. Ele, inicialmente, era o baixista e principal compositor do Kid Abelha até 1986, quando saiu da banda e fundou  Heróis da Resistência, na qual era vocalista, lançando 3 discos, quando, em 1993, partiu para a carreira solo, como seu maior sucesso individual (Garotos II)…

Em 2003, ou seja, com 10 anos de carreira solo, ele gravou, no estilo voz e violão, muitas de suas composições, que boa parte do grande público não sabia ser de sua autoria. Uma dessas canções é Lágrimas e Chuva.

Pouca gente sabe, mas Lágrimas e Chuva, primeira faixa do Lado A (eu sempre me divirto com a época em que os LP`s, hoje chamados de vinil, tinham lado A e lado B) do disco Educação Sentimental, gravado pelo Kid Abelha em 1985, era gravada com um arranjo pop, leve, que virou hit obrigatório do Kid Abelha, presente em qualquer coletânea da banda, e regravada no cd/dvd acústico, em 2002.

O que pouca gente percebeu, sobretudo pela levada pop do primeiro arranjo, é que Lágrimas e Chuva é uma música sobre suicídio, melhor dizendo, é uma carta suicida. Alguém que está em desespero insone no quarto, e a noite, o tempo faz a ideia suicida parecer mais forte… obviamente, a canção fala da solidão, da chuva que bate no vidro na janela, do “eu-lírico” que não é visto e que vê recorrentemente na noite insone os problemas que quer esquecer (uma nota interessante é que a letra da música fala “dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer”, mas tem gente que canta “tou plantando os meus problemas…”)

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A grande evidência de que se trata de uma carta suicida é o trecho “Será que existe alguém/Ou algum motivo importante/Que justifique a vida/Ou pelo menos esse instante“, isto é, é uma busca de um motivo para viver, pois senão é melhor acabar com as 1001 noites de suspense no quarto… e aí o sujeito vai contando as horas…

Por essa razão, Leoni regravou a música, de maneira triste como a música de fato é, conforme disse numa entrevista ao site universo musical:

a letra é muito densa mas os arranjos são muito pop, muito leves. Ou seja, não se percebia que a letra estava tratando do que tratava. ‘Lágrimas e Chuva’ é um bilhete suicida, mas naquele ritmo o pessoal vai dançar e esquece o que está rolando na letra. E foi o Léo Jaime que disse: “Essa música é tão triste, porque vocês a tocam tão alegres?” E aí quando nós fizemos o show em 98 fizemos um outro arranjo, e é o que eu gravei no disco. E ele cantava comigo no show”.

Segue a letra da canção de Leoni…

Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por que
A noite é muito longa
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer

Será que alguma coisa
Nisso tudo faz sentido
A vida é sempre um risco
Eu tenho medo do perigo

Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão dos meus problemas
Que eu quero esquecer
Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos esse instante
Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto

Fonte: http://www.universomusical.com.br/materia.asp?matcomp2=sim&cod=pr&id=186

sexta 06 maio 2011 03:09 , em Anos 80

30 anos da morte de Raul. A crônica de Marcelo Moreira

No dia 21 de agosto de 1989 completam-se  30 anos da morte de Raul Seixas. Um artista que se notabilizou por carregar o estandarte do rock nos anos 70 e 80, sendo o pioneiro de um gênero em que tinha poucos concorrentes de peso na década de 70. Raul não era grande músico, mas era um grande letrista, e embora fosse roqueiro, brincava com outros ritmos.

Suas letras, seus bordões, sua postura iconoclasta se tornaram um símbolo.

É certo que, por vezes, após a sua morte, suas palavras foram messianizadas por determinadas pessoas que passaram a repetir os refrões de suas letras como se fossem mantras religiosos.

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Mas não se pode, pela postura de alguns fãs, descaracterizar a obra do artista.

Falo disso porque, há 5 anos, perto da ocasião dos 25 anos da morte de Raul,  li um artigo de Marcelo Moreira, no blog Combate Rock,que me pareceu ter uma certa má vontade com Raul Seixas, e uma visão relativamente simplista da música brasileira nos anos 70 (por exemplo, considera a MPB engessada e o Tropicalismo como uma “farsa de pseudointelectualismo barato”)

No artigo, em síntese, ele resume o sucesso de Raul Seixas quase que exclusivamente à falta de concorrentes. Analisa a obra de Raul como razoável do ponto de vista musical (o que é verdade), mas ignora sua qualidade como letrista, sua habilidade em misturar rock com ritmos regionais.

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Reconhece o legado, reconhece o seu caráter transgressor, mas procura, na verdade, atingir, por intermédio de Raul, um certo público universitário que se apropria de alguns refrões adaptáveis de sua música, e que grita “Toca Raul” em apresentações de outros conjuntos musicais.

É uma análise fria, em certos momentos verdadeira; em outros, revela uma má vontade com uma obra que claramente o blogueiro não gosta. Foi massacrado nos comentários pelos fãs de Raul (não poderia ser diferente), mas acho que não merece tanto. Não foi o objetivo aprofundar-se em sutilezas na obra do artista.

Assim, a obra do artista foi examinada a partir do seu legado, e não o contrário.

Mas vale o debate.

http://combaterock.blogosfera.uol.com.br/2014/08/05/25-anos-da-morte-de-raul-seixas-um-artista-reduzido-a-um-bordao/

25 anos da morte de Raul Seixas: um artista reduzido a um bordão

A essência do rock nacional pode ser resumida apenas a um bordão. Ou melhor, o artista que simboliza o rock brasileiro ficou reduzido a um bordão. Por uma dessas injustiças históricas que às vezes abalroam um mito, o famigerado e inacreditável “Toca Rauuuuullll” que se ouve em bares e em shows, em tom de chacota, a cada dia se torna mais forte, a ponto de, em alguns momentos, suplantar a importância de Raul Seixas, que morreu há 25 anos em São Paulo. Não há como negar: a chatice do bordão, tornando-o insuportável e pejorativo, colou no artista de uma forma desagradável. Raul Seixas não merecia isso.

A coisa é tão complicada que, dependendo da situação, o pedido de “Toca Raul” provoca brigas e confusões, como narrei anos atrás o que ocorreu em um bar na região de Campinas, quando um bêbado encheu tanto a paciência da banda que estava no palco que provocou uma briga generalizada.

O mito superou a realidade? O bordão faz justiça à carreira do cantor baiano? Na verdade, isso tudo faz alguma diferença? Amado a ponto de ser considerado messias por uns, e contestado por outros, considerado um artista superestimado e superdimensionado por outros, Raul Seixas conseguiu o que só roqueiros ingleses e americanos obtiveram: tornou-se um símbolo de um gênero musical no Brasil.

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Não é possível falar de rock por aqui sem lembrar de Raul, tamanha a a sua onipresença – para o bem e para o mal. Diante da fragilidade do gênero musical no Brasil, em especial nos anos 60 e 70, e da falta de verdadeiros concorrentes à altura, ficou fácil para o cantor baiano tomar conta de tudo – só Rita Lee era capaz de rivalizar com ele.

Mutantes e Secos & Molhados? Não tiveram metade do carisma e da presença artística do cantor baiano. Falta de competência da concorrência? Pode ser, mas isso não era problema de Raul, que teve os seus méritos para aglutinar a cativar a aura mítica de messias e de gênio, ainda que não o fosse. Em terra arrasada, qualquer vestígio de competência é um grande impulso para o estrelato eterno.

Culpa de Raul? Sim, por ter demonstrado competência e e inteligência em um mercado que quase nunca soube entender o que era rock, o seu poder e o seu significado. Mesmo a aproximação frequente com artistas da MPB não foi suficiente para nublar a postura e a imagem que ele assumiu para si: a do roqueiro esperto, malandro, inteligente, astuto e ousado, com pitadas de maluquice beleza.

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Sua relevância pode ser medida pela escolha de Bruce Springsteen quando tocou no Brasil no ano passado: o cantor e guitarrista norte-americano, em cada país onde tocou em sua turnê mundial, abria os shows com uma música importante de um artista importante do país local. Nos shows de São Paulo e no Rock in Rio 2013, abriu suas apresentações com “Sociedade Alternativa”, um hit de Raul Seixas.

Ninguém melhor do que ele fez isso no Brasil, e nada mais justo do que Raulzito se tornar sinônimo de rock nacional no Brasil – para o bem e para o mal, seja pelo pioneirismo , seja pela esperteza ou mesmo inteligência mercadológica. Esses méritos são indiscutíveis, mesmo que tenha dado origem a um messianismo insuportável e a uma deificação injustificável.

Legado incontestável, obra nem tanto

Músico razoável e cantor nem tanto, Raul Seixas teve o grande mérito de cair de cabeça no rock and roll primeiro do que todo mundo neste país tropical e de avançar até onde nenhum artista brasileiro na época ousou.

Seixas era radical e culto, tinha estofo para se mostrar contestador sem ser revolucionário. Tinha jeito e coragem (ou inconsequência) para ser provocador como Chico Buarque foi em algumas de suas letras.

Se os Secos & Molhados chocavam e posavam de transgressores por conta das maquiagens e posturas de palco, Seixas e seu jeitão de hippie deslocado mostrava que ia muito mais além na transgressão com o mergulho fundo no rock e nos aditivos ilícitos – em vários momentos ao lado do amigo doidão e letrista ocasional Paulo Coelho.

O problema é que Raul Seixas foi o único a fazer isso, a fazer rock realmente em uma era dominada por uma música popular supostamente de protesto mas que pouco ou nada serviu de alento, ao menos culturalmente.

Era a mesma MPB engessada de sempre, calcada na canção e no samba, com ecos da bossa nova encardida e plagiada do jazz norte-americano e na farsa do Tropicalismo, envolto em pseudo-intelectualismo barato.

Raul foi muito mais além do que qualquer um em sua época, e tem méritos por isso. Se é que existiu alguma forma de transgressão nos anos 70, época de chumbo do regime militar, essa transgressão era Raul Seixas.

E o músico baiano teve a sorte grande de ter sido o único a fazer isso de forma tão intensa, e usou o rock, o melhor instrumento para esse tipo de transgressão (ou suposta transgressão). E grande parte de sua fama decorre justamente disso, da falta de concorrentes à altura.

Por conta disso, o mito Raul Seixas – artista radical, maldito, marginal – se sobrepõe à real qualidade de sua obra musical, que nunca passou de mediada. Sua melhor música é no máximo razoável. Ok, nunca foi a ambição dele, em termos musicais, de ser inovador, ambicioso ou ousado em demasia. Inovação não era com ele, e isso fica claro em sua obra.

O trabalho do cantor baiano, que  foi executivo de gravadora no começo dos aos 70, é milhões de vezes superior ao de qualquer artista que achava que fazia rock na época, como Secos & Molhados e os Mutantes, mas ainda assim não passava de razoável.

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Suas músicas se tornaram trilha sonora da contracultura e de certa pseudointelectualidade de esquerda por ser palatável e adaptável aos lugares comuns dos discursinhos chatos e vazios de estudantes equivocados.

Também era a trilha sonora perfeita para ambientes pseudopolíticos infectos, como centros acadêmicos de faculdades – a maioria de quinta de categoria – e botecos de pinga nas proximidades das mesmas faculdades. E, com certeza, 85% dessa gente que se apropriou da obra de Raulzito ignorava por completo o significado das letras – e, dependendo da música, acho que até o próprio autor desconhecia.

Ainda que a importância da obra de Raul Seixas seja incontestável, assim como sua figura como símbolo máximo/sinônimo do rock brasileiro, em termos musicais não para constatar: é artista superestimado e cujo mito é muito maior do que a qualidade de sua obra. E o mito ainda tem mais força do que se imagina, pois ainda é capaz de impregnar duas gerações após a sua morte com “sua mensagem”.

Não creio que era esse o destino que o músico baiano imaginava para o seu legado: quase ser suplantado por um bordão e virar trilha sonora de gente equivocada e com pouca bagagem intelectual de um lado; de outro, de se tornar sinônimo de chatice e inconveniência com o bordão “Toca Raul!”.

Ele merecia isso? Eu achava que sim, por conta da chatice de muitas de suas músicas. Mudei de ideia: reavaliando, ele não merecia passar por isso, justamente porque, goste-se ou não (e eu não gosto que seja assim, a a vida é assim), ele se tornou sinônimo de rock brasileiro. Jamais poderia ter sido reduzido a um bordão. Quem sabe não seja por isso, entre tantas outras coisas, que o rock nacional tenha mergulhado em tamanho ostracismo?

Mentiras sinceras me interessam… Por trás da canção “Maior Abandonado”, de Cazuza/Frejat, no auge do Barão Vermelho

“Maior abandonado” é uma das músicas mais significativas do Barão Vermelho . Composta em 1984, a música retrata, à primeira vista, uma pessoa maior “que está solta no mundo, precisa da proteção do governo e não tem” (Cazuza, Preciso dizer que te amo, Org. Lucinha Araújo, Globo, 2001).

 

No entanto, a letra é mais do que isso. Para além de uma espécie de denúncia sobre os maiores abandonados, que se interessam pelas “migalhas dormidas do teu pão“, das “raspas e restos“, a canção retrata em certa medida um abandono afetivo quando chega a maioridade, e, com ela, a responsabilidade.

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Cazuza e Frejat já trataram disso, no  livro organizado por Lucinha Araújo:

 

Cazuza: “É também aquele que está vivendo o trauma dos 18 anos.É quando você fica mais carente, porque sabe que está ficando mais velho e ainda não é muito safo (…) ‘mentiras sinceras me interessam’ , um verso da letra, é uma discreta e candente referência ao estertor da carência afetiva. parece um cara, às cinco horas da madrugada, andando pelas ruas, sozinho, atrás de uma mulher. E que dali saia um grande amor. O amor da sua vida. Pura ilusão  

  Frejat: “quase todos somos ´maiores abandonados’ no sentido afetivo, nessa de querer ficar com qualquer pessoa, só para não ficarmos sozinhos. Porque 99,9% da população é, ou já foi, algum dia, maior abandonado” 

 

A letra, então, transita pelas duas questões: o abandono material e o abandono afetivo. O primeiro deles é retratado nas raspas e nos restos, nas migalhas do pão; o segundo, nas “mentiras sinceras”, nas “porções de ilusão”  de alguém que está absolutamente carente do ponto de vista afetivo.

 

Assim, pode-se dizer que o maior abandonado é uma canção sobre carência. Primeiramente, carência daquele que está perdido e sozinho no mundo, sem nenhum amparo material. E também carência afetiva. O eu-lírico aceita qualquer coisa do outro, como um cachorro faminto que aceita qualquer coisa do seu dono. O maior abandonado, nesta visão, seria quase como um vira-lata querendo ser adotado, material ou afetivamente.

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Assim, a letra usa a imagem de alguém sozinho, carente, pedindo a proteção do outro. E a utilização de elementos de humor, em que em vez que o ato de pedir a mão tem um duplo sentido: como um pedido de casamento, pelo ato do noivo pedir a mão da noiva, mas também usando aquele ditado popular “você dá a mão, mas te pedem o braço”. O eu-lírico assume que, ao pedir a mão, quer mais do que isso. A utilização do advérbio “pouquinho” indica a submissão, mas o desejo de alguém que está perdido e quer um norte… (“me leve para qualquer lado”)

Numa entrevista a Danilo Gentilli, Frejat relatou uma discussão com Cazuza sobre um verso que acabou sendo excluído:

 

 

Segundo Frejat, havia um verso que ele considerava muito agressivo: “eu tô baixando o calção por qualquer trocado” . Frejat achava que a letra estava completa.  Cazuza acusou Frejat de ser careta, ao que este ponderou que não era questão de caretice, mas que este verso iria limitar a quantidade de pessoas que iriam se identificar com a música. Cazuza teria concordado, contrariado

 

Fonte: ARAÚJO, L. Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta. Rio de Janeiro: Globo, 2001, p-78

Raul Seixas Preso

 

 

O video acima trata de uma história curiosa envolvendo Raul Seixas. Em maio de 1982, ele estava fazendo um show na cidade de Caieiras, e o público começou a duvidar que Raul Seixas era ele mesmo. Veja o texto do site http://www.caieiraspress.com.br:

Cerca de trezentas pessoas que assistiam a seu show não acreditaram que fosse ele mesmo, mas sim um impostor, que se estava apresentando na Feira do Folclore local. Vaiado a cada música que interpretava, Raul Seixas, desde o início, não foi reconhecido pelo público da cidade, até que, sem condições de continuar o espetáculo, e ameaçado de linchamento, foi para o camarim. Pouco depois, chegaram alguns policiais e o levaram para a delegacia, sob a acusação de ser impostor (obviamente, ele estava sem documentos). Isso porque, sentindo-se logrados com a apresentação do que juravam ser outra pessoa, vários espectadores foram até a casa do delegado, exigindo que este autuasse o cantor. O delegado atendeu e, na delegacia, tratou-o como se fosse um vagabundo, afirmando que conhecia o “verdadeiro” Raul Seixas, para em seguida obrigá-lo a cantar “para provar sua identidade”. Além disso nesse mesmo “teste de identidade”, o delegado perguntou se Seixas sabia onde tinha nascido Chacrinha. Como não soube responder, recebeu tremendas bofetadas, acabando trancafiado por duas horas no xadrez da dita delegacia.

 

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Percebe-se que o Delegado, com uma truculência típica dos anos 70, duvidou que se tratava do verdadeiro Raul, que estava sem seu documento de identidade. Raul ficou muito nervoso mas que revela algo do caráter frágil e marginal do artista, não de Raul Seixas, mas de qualquer artista que é um refém do público. Consciente ou inconscientemente o artista é mambembe, viajante, carente. Historicamente o artista se revela em que a transgressão . A imagem simbólica do artista como um rebelde, que revela as tensões e resiste à violência de um sistema, cuja população admira esteticamente o belo das canções, ou dos poemas, ou das telas, mas, ao mesmo tempo em que admira a coragem do artista, o afasta, o marginaliza, o deixa à própria sorte.

Essa a ideia de um artista que acaba sendo um impostor de si mesmo. Frágil artista. Grande Raul.

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No Jornal de Caieiras de 21 de maio de 1982, o editorial assim narrou:

O caso Raul Seixas: o que de fato aconteceu?

Dos fatos sobre o show do cantor Raul Seixas no último sábado em Caieiras, muitas são as versões, muitas são as controvérsias. Ao que parece, a única certeza que se pode ter é de que realmente foi Raul, e não um sósia seu, quem esteve em Caieiras, ao contrário do que o público presente ao show, a polícia e a própria Comissão responsável pelo show pensavam.

As dúvidas começam na própria realização do show, pois enquanto todo o público presente afirma que o cantor teria cantado apenas três músicas, o empresário do cantor, o Dinho, em entrevista concedida ao jornal “A SEMANA”, foi categórico em dizer: “o cantor completou o show”. E tem a seu favor um forte argumento: “a Comissão pagou o que foi contrado por todo o show”. O raciocínio do empresário é simples: “Se o Raul não tivesse concluído o show, ele não teria recebido”.

Mas as dúvidas não param por aí. Na versão do empresário, completado o show, o cantor teria sido agredido pela platéia, e, não fosse a pronta intervenção da polícia, o cantor poderia ter sido até linchado. Por outro lado, quem assistiu ao show afirma que as agressões começaram pelo próprio cantor que teria chingado constantemente a platéia.

 

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Você sabe onde nasceu o chacrinha?
As maiores controvérsias, no entanto, aparecem exatamente quando o cantor chegou à delegacia. Segundo o “Dinho”, Raul Seixas teve sua barba puxada pelo delegado, que duvidava de sua identidade, dizendo conhecer o “verdadeiro Raul”. Teria o cantor ainda sido agredido pelo delegado, e sido trancafiado em uma cela, não sem antes ter sido também agredido por um cabo ali presente, a socos e golpes de cassetete.

Segundo o empresário, o delegado teria feito o cantor cantarolar algumas de suas músicas, e ainda teria ele feito um “teste” para avaliar a identidade do cantor: “Você sabe onde nasceu o chacrinha?” – teria perguntado o delegado. E, como Raul soubesse, teria sido agredido pelo policial.

O delegado de polícia, Dr. José Gomes Santos, no entanto, nega essa versão, dizendo que o cantor foi muito bem tratado na delegacia, jamais agredido.

Raul Seixas estaria bêbado. É o que diz o boletim de ocorrência
Segundo o empresário “Dinho”, quando foram esclarecidas as dúvidas sobre a identidade do cantor – ele faz questão de esclarecer que foi ele quem telefonou para a esposa de Raul, pedindo-lhe que enviasse os documentos do cantor por um rádio-táxi, pois o delegado não teria permitido ao cantor que telefonasse para a família – aí sim o cantor foi bem tratado. “Só que – diz o empresário – o delegado não quis lavrar o B.O. naquele momento. Fê-lo apenas no dia seguinte, e fez contestar que Raul estava bêbado, o que não era verdade”.

 

 

“Como eu quero”, uma falsa canção de amor

O refrão “Eu quero você como eu quero” pode enganar.  A expressão “como eu quero” pode ser interpretada como intensidade, mas na verdade acaba querendo dizer “do meu jeito”

O Eu-lírico feminino, em primeira pessoa,  estabelece os pedidos (ordens) para promover o retoque para o seu parceiro de relacionamento. Ela estabelece quais são as condições para que ele se torne uma pessoa melhor, sendo que o “melhor” é que ele seja do jeito dela.

No começo, já fala um pouco da postura do parceiro. “Diz pra eu ficar muda” e “cara de mistério” revela que ele deve ter uma atitude mais dominadora e inacessível.

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Em seguida, quando afirma  “tira essa bermuda, Que eu quero você sério”, é uma sugestão de que o parceiro abandone a informalidade da bermuda e traje algo mais compatível com um homem.

Os meros “solos de guitarra” não são suficientes para ela…

 

Durante todo o tempo, ela desvaloriza o “rascunho” que é seu parceiro e valoriza a “arte final” que é a forma com a qual ela acha que ele deve ser.

Assim, o refrão quando diz: “Eu quero você como eu quero”, quer dizer que ela não o quer do jeito que ele é, tanto que, longe do seu domínio, ele vai de mal a pior… e ela ensina como ele deve ser melhor.

 

No site http://decifrandoamusica.blogspot.com.br há um manuscr

Paula Toller e Leoni, em entrevistas, falaram um pouco da música:

Como eu quero nunca passou pra mim como a relação nociva de um casal, mas sim de uma música que falava daquele cara que tenta, mas não consegue enganar a mulher, pois ela com seu olhar ´raio x’ consegue ver tudo que ele tenta esconder ou suas gracinhas para conquistá-la ou distraí-la.”

a ideia da letra surgiu por causa de um amigo meu e da Paula que tinha sérios problemas com a namorada. Ela queria transformá-lo, que parasse de tocar e de compor para fazer uma coisa “mais séria”. E a música fala exatamente disso: “de como eu quero”, “você tem que ser do jeito que eu quero” e não “te desejo tanto” como muita gente confunde”, conta Leoni. Por isso que Paula Toller considera essa música muito tirana.

Como eu quero começou com uma ideia da Paula. Eu me lembro dela ter umas frases, dela me dizer estas frases, a gente andando de carro, ela meio falando coisas, quase oral, depois tinha que anotar pra não esquecer. Depois a terminou a música em casa, violão e voz

Muita gente descobre essa musica em camadas, muita gente acha que é uma música de amor e não é… a gente vivia num meio de músicos, e tinha essa menina que vivia no nosso meio mas ela não queria que o namorado dela fosse músico, queria que o namorado dela fosse sério, “eu quero você como eu quero” , era essa a brincadeira que a gente achava que era muito fácil das pessoas perceberem …”eu quero você como eu quero que você seja”

Consta que a inspiradora da canção seria a namorada de Beni Borja, então baterista da banda

Esse começo: Seja autoritário comigo, seja macho, não seja uma pessoa doce, sensível, adulto, nada de bermuda, “solos de guitarra não vão me conquistar”, vá fazer outra coisa, 

E ela denuncia: você está numa cilada, fala claramente e as pessoas fazem questão em não perceber isso:  você está por mim, eu estou por mim, estamos todos por mim, é só eu que interessa, e as pessoas ainda acham que é uma canção de amor”  

Interessante que a Durante a produção do álbum discutia-se qual seria a música de trabalho. A gravadora (Warner Music) insistia para que fosse Alice (Não me escreva aquela carta de amor), mas a banda fincou pé e resolveu trabalhar em cima da música Pintura Íntima.

Pouco antes de fechar o álbum, faltando ainda uma música, Como Eu Quero, que havia sido descartada pelo produtor, foi escolhida para completar o LP, numa decisão pessoal de Leoni e Paula.

“Tivemos que bater o pé para entrar ‘Como eu quero’. Faltava uma música e o Liminha foi escutar o que a gente tinha. Na época, a gente achava que balada não tinha nada a ver” PAULA TOLLER

Diz-se que Liminha (produtor do disco) não gostou muito do refrão original, que seria meio triste, e Leoni mudou no dia seguinte e gravou e acabou sendo a grande balada do disco, talvez o maior sucesso.

http://decifrandoamusica.blogspot.com.br/2012/09/como-eu-quero-leoni-e-paula-toller-1983.html

http://www.geocities.ws/kidabelharulez/fofocas.htm

 

Marina (Lima). Fullgás. Quando os discos tinham encarte

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes.

Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia.

Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua “ordem”. E a ordem dos caretas e, e sempre foi, a da fidelidade às tais “raízes” ou “purezas” ou sabemos lá o que…

Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer “arte”, mas de viver.

Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave…

Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.

Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente.

Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da “vanguarda” sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais “vulgar” que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo”. Fullgás (Marina Lima e Antônio Cícero)

 É por essa e outras razões que sinto falta dos discos (LP’s ou CD’s) que pouco a pouco vão sendo substituídos por MP3 players, downloads e coisas do gênero. Os encartes dos discos. Talvez numa época em que se discutia música.

Esse texto está no encarte do disco FULLGÁS, lançado por Marina (depois Marina Lima) em 1984. O disco representa um momento pré-Rock in Rio, quando a música brasileira, apesar da Tropicália, ainda guardava muitas resistência ao elétrico e às influências da música internacional.

É uma justificativa do ingresso cada vez mais presente de referências ao pop-rock internacional, e uma certa crítica ao patrulhamento ideológico-musical. Trata-se, portanto, de uma espécie de manifesto pós-tropicalista, e que valoriza a liberdade.  

E nesse momento a música brasileira começa a descobrir o mundo sem preconceito. Em 1984 já havia Thriller, de Michael Jackson, e começavam a se descortinar as portas para o rock nacional. Nesse contexto Marina e seu irmão Antônio Cícero produzem um manifesto contra um conservadorismo musical, segundo o qual toda música nacional deve observar suas origens e raízes, como se tudo o que se gravasse no Brasil deveria ser derivado do samba, forró ou bossa nova.

Faz uma velada crítica à música engajada politicamente, e termina por ser um texto claramente pós-tropicalista, mesmo que escrito mais de 15 anos após. Começava a abertura de um novo capítulo na Música Brasileira. Fullgás….

PUBLICADO NO http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 09 de abril de 2010