“Naquela Mesa”. A saudade de um filho (Sergio Bittencourt) após a morte do pai (Jacob do Bandolim

 

Consta que esta música foi composta pelo filho no dia da morte do pai, escrita num guardanapo. Apenas isso seria suficiente para que essa música tivesse uma história. Mais ainda quando o seu compositor, Sérgio Bittencourt, é filho de Jacob do Bandolim, um verdadeiro ícone da música brasileira de todos os tempos.

Resultado de imagem para jsergio bittencourt naquela mesaSérgio Bittencourt

Está relatado no sítio digital do próprio Jacob que, No dia em que Jacob estaria completando 60 anos (que completaria em 14 de fevereiro de 1978, se vivo fosse), o jornalista Jésus Rocha, de Última Hora, à época editor do “Segundo Caderno”, pediu ao filho, Sérgio, um depoimento sobre o pai.

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Jacob do Bandolim

Ao correr da máquina, Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor, escreveu comovente texto acerca da pessoa de Jacob do Bandolim. Trago aqui três pequenos trechos do filho sobre o pai:

O que fiz por ele, fiz e não digo. O que fez por e de mim, foi um tudo. Me lembro: jamais me mentiu. Era capaz de esbofetear um mentiroso, apenas pela mentira. Fosse de que gravidade.

De tudo que me ensinou, certo ou errado, hoje, dentro dos meus já então parcos e paupérrimos preconceitos, retiro, inapelavelmente, uma solução, uma saída, uma parada para pensar, um pouco de coragem para enfrentar, muita coragem para não “aderir” – na última das hipóteses, um sofisma, uma frase feita – estamos conversados!


Aos 37 anos de idade, descrente e exausto, sem Deus nem diabo, é que posso afirmar: Jacob Pick Bittencourt foi mais do que um pai. Do que um amigo. Do que um Ídolo. Foi e é, para mim, um homem.

Com todas as virtudes, fraquezas, defeitos e rastros de luz que certos homens, que ainda escrevemos com “agá” maiúsculo, souberam ou sabem ser. E homem com H maiúsculo, para mim é Gênio.

Tenho certeza e assumo: não sou nada, porque, de fato, não preciso ser. Me basta ter a certeza inabalável de que nasci do Amor, da Loucura, da Irrealidade e da Lucidez de um Gênio.

Um belo depoimento de um filho sobre o pai, sem sombra de dúvida… mas, como digo, as notas de uma canção podem, numa fração de segundo, exprimir sentimentos que mil palavras não conseguem descrever. E a maior homenagem do filho para o pai foi a canção “Naquela mesa”;

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquele mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade ele ta doendo em mim

É inevitável: ouvir essa música e lembrar do seu pai, do seu avô, de alguém querido que se foi. A música materializa a saudade numa mesa. Na mesa onde o pai sentava e, dono da verdade, dava conselhos sobre a vida e contava histórias. O pai que reunia as pessoas em volta de si e carregava consigo a admiração do filho.

E a mesa é uma metáfora, uma personificação, um metonímia, ou quantas figuras de linguagem quisermos, da saudade. A mesa vazia traz as lembranças e a dor do pai que se foi. E a saudade do pai dói….

Reparem como na primeira parte da música se faz referência nostálgica de tudo o que o pai fazia na mesa, e na segunda parte, só resta a dor da saudade e da mesa vazia.

A música foi gravada inicialmente pela “Divina” Elizeth Cardoso, depois por Nelson Gonçalves, e, mais recentemente, pelo cantor Otto.

Tristemente, Sérgio Bittencourt morreu pouco mais de um ano após escrever o texto para o pai, no dia 9 de julho de 1979

sábado 08 outubro 2011 08:20 , em Músicas e Homenagens

Na tonga da mironga do Kabuletê

Começo da década de 70. Vinícius de Moraes iniciava sua parceria com Toquinho, morava em Salvador e era há pouco casado com a baiana Gessy Gesse.

O Brasil está naquela fase do “Pra Frente Brasil”. De um lado, o chamado “Milagre econômico”. De outro, censura, ditadura, repressão.

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Vinícius, ateu “graças a Deus”, se aproxima do candomblé, seguia uma vida sem muitas regras. Um dia, estava em casa com Toquinho, quando Gesse entra pela porta e grita: “Na songa da mironga do Kabuletê!”, afirmando que se tratava de um xingamento que ela ouvira no Mercado Modelo.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves, para a apresentação oficial da dupla.

Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.

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E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Assim, mudaram “songa” por “tonga” e Vinícius mandou todo mundo à “Tonga da Mironga do Kabuletê”.

Mas o que significa?

Segundo o livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia (Cia das letras, 1994), significava “pelo do cu da mãe”. Procurando em sítios digitais, encontram-se outros significados, ou mesmo que a sonoridade não tem sentido nenhum.

No video acima, Toquinho conta a história….

 

Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê

Fontes: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. (Companhia das Letras, 1994); História das canções: Vinícius de Moraes (Leya, 2013).

Originalmente publicado em  11 abril de 2014 09:37 , em Clássicos da Música Brasileira

Prazer em Conhecê-lo . Noel Rosa

 

A obra de Noel Rosa sempre revela surpresas. Uma delas é fruto de uma parceria sua com Custódio Mesquita, chamada “Prazer em conhecê-lo”. Quando ouvi o samba pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de uma música que refletia uma passagem biográfica do autor.

Pesquisando aqui e acolá, achei algumas referências, sendo a mais completa no endereço http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/modestia-a-parte-meus-senhores-noel-rosa-fez-um-samba-no-leblon/, cujos principais trechos transcrevo aqui.

A fonte é o próprio poeta: “A história desse samba está contada nele mesmo. Tudo isso é verdadeiro” (O Globo, 31/12/1932). Um samba que pode ser o primeiro composto no bairro.

O fato aconteceu certa noite, meses antes da entrevista ao jornal, depois de um encontro inesperado do compositor com Clara (Clara Corrêa Neto, , antiga namorada por mais de 5 anos, da época de colégio) , em festa na rua Conde de Bonfim, Tijuca. A dona da casa, sem saber do namoro, apresentou-os como se fossem desconhecidos. Clarinha, acompanhada de um rapaz alto e magro, de olhos azuis e cabelos castanho-claros, estendeu, um tanto sem jeito, a mão:

– Muito prazer.

– O prazer é todo meu, foi a resposta que ouviu.

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Para Noel Rosa, então com 21 anos de idade, a festa acabou naquele momento. Retirou-se. Depois de uma cerveja no Café Ponto Chic, em companhia de dois amigos, os irmãos Arnaldo e Antônio Araújo, testemunhas do cumprimento protocolar de Clarinha, partiu para o Leblon. Para beber uísque e compor um samba.

Noel Rosa chegou ao Leblon com sede de bebida forte. Entrou num bar e pediu uísque, “porque não havia uma bebida nacional desse gênero”. São palavras suas. Queria cachaça ou conhaque, na certa. Acendeu um cigarro e descansou o chapéu de palha na mesa. Deu uns goles e cantarolou baixinho. Nascia, assim, “Prazer em Conhecê-lo”.

Segue, então, a letra:

Quantas vezes, nós sorrimos, sem vontade,
Com o ódio a transbordar, no coração,
Por um, simples dever da sociedade,
No momento, de uma apresentação,
Se eu soubesse, que em tal festa te encontrava,
Não iria desmanchar o teu prazer,
Porque se lá não fosse, eu não lembrava,
Um passado, que tanto nos fez sofrer.
Lá num canto, vi o meu rival antigo,
Ex-amigo,
Que aguardava o escândalo fatal,
Fiquei branco, amarelo, furta-cor,
De terror,
Sem achar, uma idéia genial,
Ainda lembro que ficamos, de repente,
Frente a frente,
Naquele instante, mais frios do que gelo,
Mas sorrindo, apertaste a minha mão,
Dizendo então:
“Tenho muito prazer em conhecê-lo”
Quantas vezes, nós sorrimos sem vontade…
Mas eu notei que alguém, impaciente,
Descontente,
Ia mais tarde te repreender,
Tão ciumento que até nem quis saber,
Que mais prazer,
Eu teria em não te conhecer.

Fonte: http://feiticodonoel.blogspot.com.br/2009/11/as-mulheres-de-noel.html

domingo 19 dezembro 2010 20:25 , em Samba

Canto das três raças – Paulo Cesar Pinheiro

Paulo Cesar Pinheiro

Vez ou outra, passeando pelos diversos caminhos musicais, acabo me encontrando com as canções de Paulo César Pinheiro, e ele tem uma dimensão maior do que aparenta ser para a grande imprensa. Ele tem diversas canções que parecem pérolas, e já passaram de 1000 composições gravadas… para se ter apenas uma ideia, ele é parceiro de de Pixinguinha João Nogueira, Baden Powell, Joyce, Tom Jobim, D. Ivone Lara, Lenine, apenas para citar alguns.

 E para fazer justiça foi lançado o livro, pela Editora LeYa, “Histórias das minhas canções”, em que conta a história de 65 canções…. escolhi aqui, como um símbolo, trazer a história da bela canção canto das três raças, gravado por Clara Nunes: 

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

 

Conversávamos, certa vez, eu e Mauro, sobre samba-enredo. Sua estrutura melódica, sua cadência, seu desenvolvimento de acordo com o tema proposto, seu tamanho, seus cantos de refrão. Ele era, particularmente, fã de Silas de Oliveira, a quem considerava o maior compositor desse gênero, de todos os tempos. Foi seu amigo. Acompanhava sua trajetória. Papo vai, papo vem, resolvemos compor algum que guardasse essas características tradicionais. Ali mesmo iniciamos nosso esboço musical.

Com o rascunho sonoro adiantado fui para casa devanear, buscar o motivo, procurar uma história conveniente ao que se tinha imaginado. Lembrei da formação racial do Brasil especialmente da minha genética índia e européia por parte de mãe, e negra do meu lado paterno. As três raças fundamentais desse país mestiço. Veio-me à mente o soneto “Canto Brasileiro”, que deu nome ao meu primeiro livro publicado. Era isso. O canto triste nascido dessa miscigenação. O aperto de saudade do branco colonizador, o banzo africano e a dolência nativa, “Um soluçar de dor” foi a expressão que me brotou imediatamente, e dessa frase parti pro poema. Fui ajeitando a melodia aqui e ali em função da letra.

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Depois de terminado dei por falta do que julgava ser o principal, o miolo, a célula: o canto de lamento. Na verdade, era o mais difícil, era a marca, o carimbo, a identificação do samba. Fiz vários antes do definitivo. Cada vez que ia cantar, saía de um jeito. Quando Clara entrou em estúdio pra gravar, sentei com o Maestro Gaya, que faria o arranjo, pra passar a melodia corretamente. Belíssima a harmonização criada por ele, mas na hora do estribilho surgia á dúvida. Era sempre um lamento diferente o que eu entoava.

– Define o canto, Paulinho – dizia Gaya.

De repente, influenciado por acordes que ele sequenciava ao piano, a melodia veio por inteiro. O Gaya gostou, fixou na minha cabeça com um solo e fechou a tampa.

Resultado de imagem para paulo cesar pinheiroPaulo Cesar Pinheiro e Clara Nunes

Propus ao Carlinhos Maracanã esse tema pra Portela. Só que escola de samba é outro papo. É problema. É guerra. Não se chega sugerindo um samba e pronto. Tem todo um processo complicado que envolve ego, grana, disputa, prestígio interno. Na minha ingenuidade imaginei que magnífico desfile poderia ser pra azul e branco. Sonho, apenas. Desisti logo. Até hoje, porém, ainda visualizo esse cortejo na Passarela do Samba.  

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor

domingo 01 agosto 2010 11:54 , em Samba

O Encontro de Elza Soares e Louis Armstrong na Copa do Mundo do Chile, em 1962

 

Em 1962, Elza Soares era madrinha da seleção brasileira. Foi lá, inclusive, que foi escrito um dos capítulos de sua história de amor com Garrincha. Antes disso, contudo, ela conheceu Loius Armstrong, e com ele teve um encontro curioso, narrado no no Memória Roda Viva.

Nessa entrevista, ela relata seu encontro com Louis Armstrong, com quem cantou na copa de 1962, no Chile. Armstrong, o mais popular músico americano do jazz e um dos melhores trompetistas do gênero, ficou impressionado com a voz de Elza Soares, e diz a lenda que Elza só não foi para os Estados Unidos com Armstrong porque ficou ela mais impressionada por um gênio de pernas tortas chamado Garrincha.

Eis o trecho da entrevista de Elza no Roda Viva:

Pois é… Foi terrível. Eu cometi muita gafe. Eu acho isso maravilhoso. Eu estava no Chile, que eu fui como madrinha de seleção de 1962, que eu não sabia o que era ser madrinha da seleção. Fui levada por um grande empresário, que era o Edmundo Klinger, na época. E eu, cantando no Chile, estava cantando “Rei do mundo”: [Elza canta] “Rei do mundo nunca sabe bem o que faz!”  E escuto um trompete fazendo aquelas variações, e as pessoas, os músicos estavam todos nervosos e diziam: “Olha para trás, olha para trás”. Eu olhei e vi  Monsueto (compositor brasileiro, que compôs canções como “Mora na Filosofia” e “Me deixa em paz”), parecia um Monsueto. E aquele negão, se parece mesmo.  Lindo, né, aquele lenço. Eu falei: “Tá bom, aqui é a Elza Soares”.

Elza faz piada com sua própria ignorância em inglês;;;;

Quando eu terminei de cantar, ele pediu que me levasse ao camarim. E me levaram ao camarim dele, aquela coisa toda. E veio aquele negão. E ele dizia: “Yeeaaah!” Eu olhava… Que coisa é esta? Não entendia nada de inglês. E o negão lá: “Yeaaah!!! I’m doctor!” O que é isso? Ainda me traz aqui e me chama de doutora, pô! E ele: “Yeah, doctor”. Eu falei: “Por que está me chamando de doutora, cara? Você não viu que eu me chamo, Elza”?  E eu acho que o cara pensou que eu estivesse brincando. Ele disse: “Você não sabe o que quer dizer doctor”?  Falei: “Doctor, eu sei, é doutora”. E ele: “Não, daughter in English”, quer dizer filha”. Eu digo: “Não tem nada a ver, doutor!”

E depois, quando instada a falar com Louis, ela arrematou:

Agora vai lá e faz um carinho no cara. Eu digo: “Começo por onde?” Parecia um armário, “faz um carinho no cara”! Eu digo: “Começo por onde, meu Deus do céu”! [risos] “Vai lá, faz um carinho nele e chama ele de “my father!”. Eu digo: “Não, aí não, agora pega”. “Como é que eu vou chegar perto do cara e dizer: “my father”? [risos] Ele disse: “Mas você não sabe o que quer dizer isso”? Eu disse: “Lógico que eu sei o que quer dizer father, todo mundo sabe, só não vou chamar o cara para mim, pô”. Ele disse: “Não, vai e diz isso daí que ele vai gostar muito”! Falei: “Olha, que eu vou dizer agora, logo agora”. E cheguei perto dele e disse assim: “My… father!” E ele disse: “Yeeeaaahh!” E eu digo: “Ele gostou da coisa”, agora o que é que eu disse pra ele”? “Você chamou ele  de pai”. E eu disse: “É, tem a ver, father e filha!” Assim que eu conheci o Louis Armstrong. Foi uma paixão, que ele queria que eu fosse embora com ele, mas não tinha…”

 

Memória Roda Viva é um novo canal de pesquisa na Internet, voltado para estudantes, professores e público em geral. Resultado de uma parceria entre a Fundação Padre Anchieta, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por meio de seu Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (Labjor) e Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP). Este canal oferece aos internautas um espaço para pesquisa de grandes temas nacionais e internacionais, a partir dos debates exibidos no Roda Viva. Os usuários têm acesso às transcrições integrais das entrevistas realizadas pelo Roda Viva nos últimos 21 anos, além de um vídeo do programa e verbetes explicativos.http://www.rodaviva.fapesp.br/

Publicado originariamente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 26.03.2010

 

Caco velho, o sambista gaúcho

 No DVD “Infinito ao meu redor”, Marisa Monte, num show ao vivo, logo antes de cantar um belíssimo samba(Vai saber, de Adriana Calcanhoto), faz referência que as pessoas costumam dizer que o samba nasceu na Bahia, mas que ela vai cantar um belo samba de uma gaúcha. Isso me fez pensar se no Rio Grande do Sul há samba, ou se por lá o que faz sucesso mesmo é Teixeirinha, Lupicínio, Kleiton e Kledir.

 E, pesquisando aqui e acolá, encontrei referência àquele que parece ter sido o maior sambista gaúcho. Matheus Nunes, conhecido como Caco Velho. Nascido em 1919, diz-se que seu apelido “Caco Velho” surgiu por causa de um samba homônimo de Ary Barroso, gravado em 1934.

 Embora haja diversas referências a caco velho como um menino prodígio, que começou a tocar com 9 ou 10 anos, o certo é que em 1937 já era pandeirista e cantor na Orquestra de Paulo Coelho, no Café Florida. Em 1938, já contratado pelo “Conjunto Regional de Piratini”, que tocava na Rádio Gaúcha. Nessa época, além de cantar, tocar pandeiro e tamborim, também toca contrabaixo. Faz diversas excursões pelo interior do Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai.

No final da década de 1930, Caco Velho já fazia muito sucesso no Rio Grande do Sul, formando com Nino Martins a dupla de cantores “Dupla Tupinambá”. No começo da década de 1940, feito uma viagem ao Rio de Janeiro para apresentar algumas de suas composições. Lá impressionou Walt Disney, que fizera uma viagem ao Brasil (e segundo Caio Silveira Ramos, na biografia que escreveu sobre Germano Mathias – discípulo do compositor –  Caco Velho foi um dos principais modelos que inspirou Disney a criar o personagem Zé Carioca), além de apresentar suas músicas para que fossem gravadas por artistas cariocas.

Entre 1942 e 1943 Caco Velho muda-se para São Paulo, e logo se torna um Sucesso na capital paulista. Em outubro de 1944, “Caco Velho” se firmou no Rádio gravou seu primeiro disco pela gravadora Odeon, que recebe o número 12497, com os sambas “Briga de Gato” (Lupicínio Rodrigues – Felisberto Martins) e “Maria Caiu do Céu” (Caco Velho – Nilo Silva – com Conjunto de Claudionor Cruz).

Caco Velho recebe a alcunha de “Sambista Infernal”. É atração do programa “Roleta Colgate”, na Radio Tupi Paulista, ao lado de Arrelia, Xisto Guzi e demais artistas consagrados.

 No Rio de Janeiro, Caco Velho, já chamado de “Sambista Infernal”, canta na Rádio Nacional, Rádio Guanabara, Boates “Béguin”, “Ranchinho” em Copacabana, no Hotel Gloria e também no “Casablanca” com Dolores Duran e o notável “Bola Sete”.

 Caco Velho também tem algumas incursões no cinema, sendo “Carnaval na Atlântida”, em que atuou somente participando dos números musicais. Fez, em 1955/6, uma temporada de sucesso em Paris.

 Embora não seja vinculado à bossa nova, nas décadas de 40 e 50 já apresentava uma característica muito cara aos bossanovistas: um domínio da divisão rítmica que conferia uma extrema modernidade a seu som.

 No entanto, como seu samba (e suas fusões com outros gêneros musicais) não eram intimistas como a bossa-nova, o final da década de 50 e começo da década de 1960 não foram fáceis para Caco Velho. No entanto, em 1963, Caco Velho grava, pela Continental, o Disco “O Comendador da Bossa Nova”, que, embora tivesse esse nome, continuava a ser um disco de samba.

 Em 1964, Caco Velho embarca para os Estados Unidos, para uma temporada em Las Vegas, permanecendo depois em San Francisco, indo, em 1966, para Lisboa (Portugal). Lá concede uma entrevista, e num trecho comenta as relações entre samba e bossa nova:

Gosto, acima de tudo, de escrever samba puro. A Bossa Nova é “Bossa Velha”, porque já há anos eu a improvisava. E note que a Bossa Nova não tem riqueza melódica. O samba sim, esse é melodia.

– Não considera que a Bossa Nova esteja a destronar o samba?

– O samba nunca será destronado pela Bossa Nova nem por qualquer outra. O samba é a maior expressão da música do Brasil.Todos os compositores que o escrevem começam por “bater” a caixa de fósforos, só assim ganhando o sentido de ritmo. E samba é a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o gaúza. Samba é Brasil.

 João Augusto Marques de Andrade, Genro do Sambista, narra (site http://www.samba-choro.com.br/artistas/cacovelho), narra que “Conhecendo e apresentando-se em boa parte das cidades do continente, “Caco Velho”, vai atuar em “Funchal”, grande cidade da Ilha da Madeira. Torna-se atração nos cassinos “Lar Madeirense”, “Cassino da Madeira”, entre outros entretenimentos, daquela conhecidíssima Ilha Portuguesa, um verdadeiro Paraíso”.

Interessante é que Caco Velho passa a residir na ilha da Madeira, faz um curso de massagem, e passa a dividir a profissão de músico com a de massagista.

“No final de 1969, Caco velho, com Câncer, retorna ao Brasil, deixando, todavia, todos os seus instrumentos na “Ilha da Madeira” com a esperança de retornar com a família a “Perola do Atlântico”.

 Ainda segundo João Augusto Marques de Andrade, “Entrevistado para a imprensa escrita, pelo jornalista “Oswaldo Mendes”, do Jornal Última Hora, “Caco Velho”, narra, “As Queixas do Sambista”, onde compara à Bossa Nova com o IE-IE-IE (Jovem Guarda), respeitando este ultimo, dando maior ênfase à Bossa Nova e M.P.B., elogiando a chegada dos cantores baianos, enaltecendo a riqueza nas poesias do poetinha e seu fiel maestro, no conteúdo das palavras de nossa linguagem, simultaneamente, comentado, o esquecimento das emissoras, pelos nossos grandes e eternos sambistas, lembrando de muitos nomes”.

 Caco Velho morreu em 14 de setembro de 1971.

 São sucessos de Caco velho: Por um Beijo Teu Mania da Rita, Nega Velha, “Samba Russo”, “Barriga Vazia, Chinesinha, Deu Cupim, Não Faça Hora, Desenho Animado, Meu Fraco é Mulher, É Doloroso,Alegria de Pobre Novo Cartaz, Vida Dura Até Onde Vai o Tubarão, O Azar de Jacó, A Sanfona do Gaudêncio, Chico Pança, Uma Crioula, Tempo Feliz,Samba do Meu Tio. A composição “Barco negro”, um famoso fado cantado por Amália Rodrigues, é, na verdade, uma adaptação da música “Mãe Preta” de Caco Velho e Piratini, e ainda é tocada em muitos países europeus.

Fontes: Caio Silveira Ramos, Sambexplícito: as vidas desvairadas de Germano Mathias;http://www.samba-choro.com.br/artistas/cacovelho (texto escrito por João Augusto Marques de Andrade);

publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em março de 2010