Sonho meu… Um dos maiores sucessos de D. Ivone Lara

Em abril de 2018 o Brasil perdeu D. Ivone Lara, uma das grandes referências do samba. Vinda de uma família muito vinculada à música, ela se viu orfã de pai aos 03 (três) anos e de mãe aos 16 (dezesseis)

 Teve que lutar para firmar-se como mulher compositora. Foi a  primeira mulher a ser da ala de compositores de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro, a Império Serrano, em 1965, com o samba “Os cinco bailes da história do Rio”.  Só veio a lançar seu primeiro disco em 1974 (ela nasceu em 1921), quando se aposentou das atividades como funcionária pública.

Em sua biografia escrita por Mila Burns (2009), ela revela sua relação com a música desde pequena.

 “Fiquei emancipada por minha conta mesmo. Minha mãe morreu e ninguém ficou tomando conta de mim. Com idade de doze anos, eu que resolvia tudo, me guiava. Vou dizer uma coisa: foi muito bom, porque me fez ser como sou hoje. Tudo o que eu fiz a partir daí foi por decisão própria (…) Lembranças tristes às vezes vêm, mas eu sou guerreira;

Um dos seus maiores sucessos, e a música que a consagrou foi gravada em 1978, em parceria com Delcio Carvalho, cuja história é contada por Ruy Godinho, no livro “Então, foi assim?”

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Dona Ivone Lara e Delcio de Carvalho

Mila Burns afirma que D. Ivone não passava um dia sem cantarolar a melodia. Aquelas notas não saíam da cabeça, ela as repetia dia e noite. “Chamamos o amigo e disse: “Tenho essa melodia, e queria que você fizesse letra, mas queria que você tivesse alguma coisa a ver com sonho, porque até sonhando eu canto essa música. Foi numa época de muita tristeza, e só a música trazia inspiração mesmo. O Délcio fazia letras tristes, porque olhava para mim e sabia o que estava querendo dizer com as melodias que eu escrevia”.

“Sonho meu tem uma história interessante”, confiava Délcio. “Era meio-dia, o dia estava chuvoso e eu fui pra casa de D. Ivone, em Inhaúma. Eu estava com um negócio de mano meu, tio meu, vai buscar quem mora longe, que é muito usado no candomblé. E na época, estava sendo muito divulgada a campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita de presos políticos brasileiros, que estavam exilados em outros países. Aí eu saquei intuitivamente sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu… Quer dizer, já botei o sonho como um substantivo, uma pessoa, uma entidade palpável. E dali eu continuei vai matar essa saudade, sonho meu/com a sua liberdade, sonho meu…Naquele dia mesmo”

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João Bosco e Aldir Blanc também sonhavam naquela época com a volta do irmão Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete…

“A Rosinha de Valença estava produzindo um show com a D. Ivone Lara e o MPB, num lugar chamado Carinhoso, em Ipanema. E lá pelas tantas, ela perguntou: “Você não tem uma música? Eu vou fazer uma produção para a Maria Bethânia e preciso de uma música pra eu botar no disco’. Aí a D. Ivone cantou Sonho Meu. Dias depois, houve uma festa na casa da atriz Zeny Pereira e foi todo mundo lá. Era tempo chuvoso, D. Ivone Lara cantou Sonho Meu, a Maria Bethânia estava lá, aprendeu e na noite seguinte colocou no disco, junta dela estava a Gal Costa que participou da gravação. Foi uma maluquice, uma doideira. Em quinze dias a música estava estourada no Brasil todo”, conta Délcio com entusiasmo.

A música acabou sendo um dos hinos que foram cantados como inspiração para a volta dos exilados políticos que vieram com a Lei de Anisitia, em 1979.

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Da cor do pecado… para uma mulher chamada Felicidade

Esse corpo moreno cheiroso e gostoso que você tem…”

Com esses versos, Bororó compôs uma das músicas sensuais de sua época. Da cor do pecado revela, em cada verso, o desejo que o eu-lírico sente pelo corpo moreno, delgado, depois passando pelo beijo, “molhado, escandalizado”, e depois a voz, que responde “umas coisa com graça”,   e depois o cheiro de mato, saudade tristeza, para enfim voltar ao corpo moreno.

É uma música sinestésica, pois vai descrevendo as sensações do eu-lírico ao chegar perto da dona desse corpo, do beijo, do cheiro, da voz, tudo isso presente no corpo moreno.  “Da cor do pecado” é um grande samba, talvez o melhor que se tem notícia que tenha sido composto por Bororó (Alberto de Castro Simões da Silva), gravado por Silvio Caldas, mas também por João Gilberto, Elis Regina, Nara Leão, Ney Matogrosso, entre outros.

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 Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello contam um pouco da musa desta canção, gravada em 1939:

Brejeiro, malicioso, possui uma das letras mais sensuais de nossa música popular: “Este corpo moreno / cheiroso, gostoso/ que você tem / é um corpo delgado / da cor do pecado / que faz tão bem…”.

Segundo o autor, “a musa desses versos chamava-se Felicidade, uma mulher de vida pregressa pouco recomendável”, que trabalhava em frente ao Tribunal de Justiça e lhe foi apresentada por Jaime Távora, oficial de gabinete do ministro José Américo. Iniciou-se assim um romance de vários anos em que Bororó foi responsável pela mudança de vida da moça. Mais tarde ela se casaria com um médico, tendo morrido ainda jovem em consequência de uma gripe mal curada.

De melodia e harmonia elaboradas, acima da média dos sambas da época, “Da cor do pecado” tem seu aspecto mais interessante nas modulações da primeira para a segunda parte e na volta desta para a primeira. Ainda quanto à melodia, tal como se repetiria em “Curare”, a frase final – “eu não sei bem porquê / só sinto na vida o que vem de você” – é um primor de preparação para o acorde de dominante que conduz ao tom da primeira parte.

Fontes: Instituto Moreira Salles – Acervo Musical; A Canção no Tempo – Vol. 1 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34.

 

 

 

Onde fica Maracangalha?

 

Poucas Músicas de Dorival Caymmi são tão conhecidas quanto Maracangalha. Na verdade, trata-se de uma letra simples, uma melodia também simples, que faz da música uma daquelas que parece ter sido feita desde sempre… Stella Caymmi, neta do compositor, contou assim a história da música, no seu livro “Dorival Caymmi: o mar e o tempo

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 “O samba foi feito na tarde do dia 29 de julho de 1955, uma sexta-feira, em São Paulo, enquanto pintava um auto-retrato, em seu apartamento. De repente, veio em sua mente uma frase de Zezinho, seu amigo de infância em Salvador: ‘Eu vou pra Maracangalha’. Dorival se lembra que ‘toda vez que eu dava a ideia dele vir ao Rio, ele desconversava. Isso me intrigava’. Mas logo depois o amigo se abriu. Zezinho tinha uma amante em Itapagipe, Áurea, e com ele tinha quatro filhos. 

– Como é que você sustenta essa filharada? – O compositor perguntou espantado 

– Eu me viro. Respondeu Zezinho. 

Mas Dorival queria saber mais

– Como é que você faz para vê-la sem que Damiana desconfie? 

– Eu forjo um telegrama para mim mesmo e digo: ‘Eu vou pra Maracangalha’. É lá que eu compro saco de encher açúcar para embarcar, e ela não desconfia. – Explicou Zezinho.

“Maracangalha saiu por isso. Fiquei apaixonado pela sonoridade da palavra. Agradeço tanto a Zezinho” – Comenta o compositor, revelando a fonte de sua inspiração.

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É importante salientar que  Maracangalha é um distrito do município de São Sebastião do Passé (BA).

Por causa da música, há no distrito uma Praça Dorival Caymmi (em forma de violão, construída em 1972). Além disso, há a Usina Cinco Rios (1912), e que chegou a produzir 300 mil sacas de açúcar por ano. Era lá que Zezinho comprava as supostas sacas de encher açúcar. 

 

Numa entrevista, Caymmi conta também que recebeu uma “sugestão” para que o nome de Anália fosse modificado:

Caymmi conta a história no vídeo abaixo:

Daí, comecei a cantarolar a música e a letra nascendo ao mesmo tempo. Eu vou pra Maracangalha/Eu vou!/Eu vou de liforme branco/Eu vou!/Eu vou de chapéu de palha/Eu vou!. Estava bom eu estava gostando, Então continuei e quando cheguei à parte que diz: “Eu vou convidar Anália’, uma vizinha, dona Cenira, perguntou lá na janela pra minha mulher: – Dona Stela, o que é que seu Dorival está cantando aí, tão bonitinho? E Stela, “Caymmi, diona Cenira quer saber o que você está cantando. Respondi. Estou fazendo uma música que fala de um sujeito, que sai de casa feliz pra se divertir. Ele vai pra Maracangalha, vai convidar Anália,   ao que interrompa a vizinha:

– E por que o senhor não põe Cenira, em lugar de Anália?

– Fica para outra vez, Dona Cenira, eu lhe disse, me desculpando.

 

Eu vou pra Maracangalha

Eu vou!

Eu vou de uniforme branco,
Eu vou!

Eu vou de chapéu de palha,
Eu vou!

Eu vou convidar Anália,
Eu vou!

Se Anália não quiser ir,
Eu vou só!

Eu vou só!

Eu vou só!

Se Anália não quiser ir,
Eu vou só!

Eu vou só!

Eu vou só sem Anália
Mas eu vou!…

 

Fonte: Caymmi, Stella. Dorival Caymmi. O mar e o tempo, São paulo, Ed. 34, 2001, p. 329.

https://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/05/maracangalha.html

sábado 16 outubro 2010 17:27 , em Clássicos da Música Brasileira

 

“Naquela Mesa”. A saudade de um filho (Sergio Bittencourt) após a morte do pai (Jacob do Bandolim

 

Consta que esta música foi composta pelo filho no dia da morte do pai, escrita num guardanapo. Apenas isso seria suficiente para que essa música tivesse uma história. Mais ainda quando o seu compositor, Sérgio Bittencourt, é filho de Jacob do Bandolim, um verdadeiro ícone da música brasileira de todos os tempos.

Resultado de imagem para jsergio bittencourt naquela mesaSérgio Bittencourt

Está relatado no sítio digital do próprio Jacob que, No dia em que Jacob estaria completando 60 anos (que completaria em 14 de fevereiro de 1978, se vivo fosse), o jornalista Jésus Rocha, de Última Hora, à época editor do “Segundo Caderno”, pediu ao filho, Sérgio, um depoimento sobre o pai.

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Jacob do Bandolim

Ao correr da máquina, Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor, escreveu comovente texto acerca da pessoa de Jacob do Bandolim. Trago aqui três pequenos trechos do filho sobre o pai:

O que fiz por ele, fiz e não digo. O que fez por e de mim, foi um tudo. Me lembro: jamais me mentiu. Era capaz de esbofetear um mentiroso, apenas pela mentira. Fosse de que gravidade.

De tudo que me ensinou, certo ou errado, hoje, dentro dos meus já então parcos e paupérrimos preconceitos, retiro, inapelavelmente, uma solução, uma saída, uma parada para pensar, um pouco de coragem para enfrentar, muita coragem para não “aderir” – na última das hipóteses, um sofisma, uma frase feita – estamos conversados!


Aos 37 anos de idade, descrente e exausto, sem Deus nem diabo, é que posso afirmar: Jacob Pick Bittencourt foi mais do que um pai. Do que um amigo. Do que um Ídolo. Foi e é, para mim, um homem.

Com todas as virtudes, fraquezas, defeitos e rastros de luz que certos homens, que ainda escrevemos com “agá” maiúsculo, souberam ou sabem ser. E homem com H maiúsculo, para mim é Gênio.

Tenho certeza e assumo: não sou nada, porque, de fato, não preciso ser. Me basta ter a certeza inabalável de que nasci do Amor, da Loucura, da Irrealidade e da Lucidez de um Gênio.

Um belo depoimento de um filho sobre o pai, sem sombra de dúvida… mas, como digo, as notas de uma canção podem, numa fração de segundo, exprimir sentimentos que mil palavras não conseguem descrever. E a maior homenagem do filho para o pai foi a canção “Naquela mesa”;

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquele mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade ele ta doendo em mim

É inevitável: ouvir essa música e lembrar do seu pai, do seu avô, de alguém querido que se foi. A música materializa a saudade numa mesa. Na mesa onde o pai sentava e, dono da verdade, dava conselhos sobre a vida e contava histórias. O pai que reunia as pessoas em volta de si e carregava consigo a admiração do filho.

E a mesa é uma metáfora, uma personificação, um metonímia, ou quantas figuras de linguagem quisermos, da saudade. A mesa vazia traz as lembranças e a dor do pai que se foi. E a saudade do pai dói….

Reparem como na primeira parte da música se faz referência nostálgica de tudo o que o pai fazia na mesa, e na segunda parte, só resta a dor da saudade e da mesa vazia.

A música foi gravada inicialmente pela “Divina” Elizeth Cardoso, depois por Nelson Gonçalves, e, mais recentemente, pelo cantor Otto.

Tristemente, Sérgio Bittencourt morreu pouco mais de um ano após escrever o texto para o pai, no dia 9 de julho de 1979

sábado 08 outubro 2011 08:20 , em Músicas e Homenagens

Na tonga da mironga do Kabuletê

Começo da década de 70. Vinícius de Moraes iniciava sua parceria com Toquinho, morava em Salvador e era há pouco casado com a baiana Gessy Gesse.

O Brasil está naquela fase do “Pra Frente Brasil”. De um lado, o chamado “Milagre econômico”. De outro, censura, ditadura, repressão.

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Vinícius, ateu “graças a Deus”, se aproxima do candomblé, seguia uma vida sem muitas regras. Um dia, estava em casa com Toquinho, quando Gesse entra pela porta e grita: “Na songa da mironga do Kabuletê!”, afirmando que se tratava de um xingamento que ela ouvira no Mercado Modelo.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves, para a apresentação oficial da dupla.

Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.

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E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Assim, mudaram “songa” por “tonga” e Vinícius mandou todo mundo à “Tonga da Mironga do Kabuletê”.

Mas o que significa?

Segundo o livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia (Cia das letras, 1994), significava “pelo do cu da mãe”. Procurando em sítios digitais, encontram-se outros significados, ou mesmo que a sonoridade não tem sentido nenhum.

No video acima, Toquinho conta a história….

 

Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê

Fontes: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. (Companhia das Letras, 1994); História das canções: Vinícius de Moraes (Leya, 2013).

Originalmente publicado em  11 abril de 2014 09:37 , em Clássicos da Música Brasileira

Prazer em Conhecê-lo . Noel Rosa

 

A obra de Noel Rosa sempre revela surpresas. Uma delas é fruto de uma parceria sua com Custódio Mesquita, chamada “Prazer em conhecê-lo”. Quando ouvi o samba pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de uma música que refletia uma passagem biográfica do autor.

Pesquisando aqui e acolá, achei algumas referências, sendo a mais completa no endereço http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/modestia-a-parte-meus-senhores-noel-rosa-fez-um-samba-no-leblon/, cujos principais trechos transcrevo aqui.

A fonte é o próprio poeta: “A história desse samba está contada nele mesmo. Tudo isso é verdadeiro” (O Globo, 31/12/1932). Um samba que pode ser o primeiro composto no bairro.

O fato aconteceu certa noite, meses antes da entrevista ao jornal, depois de um encontro inesperado do compositor com Clara (Clara Corrêa Neto, , antiga namorada por mais de 5 anos, da época de colégio) , em festa na rua Conde de Bonfim, Tijuca. A dona da casa, sem saber do namoro, apresentou-os como se fossem desconhecidos. Clarinha, acompanhada de um rapaz alto e magro, de olhos azuis e cabelos castanho-claros, estendeu, um tanto sem jeito, a mão:

– Muito prazer.

– O prazer é todo meu, foi a resposta que ouviu.

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Para Noel Rosa, então com 21 anos de idade, a festa acabou naquele momento. Retirou-se. Depois de uma cerveja no Café Ponto Chic, em companhia de dois amigos, os irmãos Arnaldo e Antônio Araújo, testemunhas do cumprimento protocolar de Clarinha, partiu para o Leblon. Para beber uísque e compor um samba.

Noel Rosa chegou ao Leblon com sede de bebida forte. Entrou num bar e pediu uísque, “porque não havia uma bebida nacional desse gênero”. São palavras suas. Queria cachaça ou conhaque, na certa. Acendeu um cigarro e descansou o chapéu de palha na mesa. Deu uns goles e cantarolou baixinho. Nascia, assim, “Prazer em Conhecê-lo”.

Segue, então, a letra:

Quantas vezes, nós sorrimos, sem vontade,
Com o ódio a transbordar, no coração,
Por um, simples dever da sociedade,
No momento, de uma apresentação,
Se eu soubesse, que em tal festa te encontrava,
Não iria desmanchar o teu prazer,
Porque se lá não fosse, eu não lembrava,
Um passado, que tanto nos fez sofrer.
Lá num canto, vi o meu rival antigo,
Ex-amigo,
Que aguardava o escândalo fatal,
Fiquei branco, amarelo, furta-cor,
De terror,
Sem achar, uma idéia genial,
Ainda lembro que ficamos, de repente,
Frente a frente,
Naquele instante, mais frios do que gelo,
Mas sorrindo, apertaste a minha mão,
Dizendo então:
“Tenho muito prazer em conhecê-lo”
Quantas vezes, nós sorrimos sem vontade…
Mas eu notei que alguém, impaciente,
Descontente,
Ia mais tarde te repreender,
Tão ciumento que até nem quis saber,
Que mais prazer,
Eu teria em não te conhecer.

Fonte: http://feiticodonoel.blogspot.com.br/2009/11/as-mulheres-de-noel.html

domingo 19 dezembro 2010 20:25 , em Samba

Canto das três raças – Paulo Cesar Pinheiro

Paulo Cesar Pinheiro

Vez ou outra, passeando pelos diversos caminhos musicais, acabo me encontrando com as canções de Paulo César Pinheiro, e ele tem uma dimensão maior do que aparenta ser para a grande imprensa. Ele tem diversas canções que parecem pérolas, e já passaram de 1000 composições gravadas… para se ter apenas uma ideia, ele é parceiro de de Pixinguinha João Nogueira, Baden Powell, Joyce, Tom Jobim, D. Ivone Lara, Lenine, apenas para citar alguns.

 E para fazer justiça foi lançado o livro, pela Editora LeYa, “Histórias das minhas canções”, em que conta a história de 65 canções…. escolhi aqui, como um símbolo, trazer a história da bela canção canto das três raças, gravado por Clara Nunes: 

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

 

Conversávamos, certa vez, eu e Mauro, sobre samba-enredo. Sua estrutura melódica, sua cadência, seu desenvolvimento de acordo com o tema proposto, seu tamanho, seus cantos de refrão. Ele era, particularmente, fã de Silas de Oliveira, a quem considerava o maior compositor desse gênero, de todos os tempos. Foi seu amigo. Acompanhava sua trajetória. Papo vai, papo vem, resolvemos compor algum que guardasse essas características tradicionais. Ali mesmo iniciamos nosso esboço musical.

Com o rascunho sonoro adiantado fui para casa devanear, buscar o motivo, procurar uma história conveniente ao que se tinha imaginado. Lembrei da formação racial do Brasil especialmente da minha genética índia e européia por parte de mãe, e negra do meu lado paterno. As três raças fundamentais desse país mestiço. Veio-me à mente o soneto “Canto Brasileiro”, que deu nome ao meu primeiro livro publicado. Era isso. O canto triste nascido dessa miscigenação. O aperto de saudade do branco colonizador, o banzo africano e a dolência nativa, “Um soluçar de dor” foi a expressão que me brotou imediatamente, e dessa frase parti pro poema. Fui ajeitando a melodia aqui e ali em função da letra.

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Depois de terminado dei por falta do que julgava ser o principal, o miolo, a célula: o canto de lamento. Na verdade, era o mais difícil, era a marca, o carimbo, a identificação do samba. Fiz vários antes do definitivo. Cada vez que ia cantar, saía de um jeito. Quando Clara entrou em estúdio pra gravar, sentei com o Maestro Gaya, que faria o arranjo, pra passar a melodia corretamente. Belíssima a harmonização criada por ele, mas na hora do estribilho surgia á dúvida. Era sempre um lamento diferente o que eu entoava.

– Define o canto, Paulinho – dizia Gaya.

De repente, influenciado por acordes que ele sequenciava ao piano, a melodia veio por inteiro. O Gaya gostou, fixou na minha cabeça com um solo e fechou a tampa.

Resultado de imagem para paulo cesar pinheiroPaulo Cesar Pinheiro e Clara Nunes

Propus ao Carlinhos Maracanã esse tema pra Portela. Só que escola de samba é outro papo. É problema. É guerra. Não se chega sugerindo um samba e pronto. Tem todo um processo complicado que envolve ego, grana, disputa, prestígio interno. Na minha ingenuidade imaginei que magnífico desfile poderia ser pra azul e branco. Sonho, apenas. Desisti logo. Até hoje, porém, ainda visualizo esse cortejo na Passarela do Samba.  

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor

domingo 01 agosto 2010 11:54 , em Samba