Ao que vai chegar – de Toquinho para seu filho Pedro (1984)

 

As músicas de pai para filho fazem um capítulo à parte na história da música.Tais músicas tratam de um amor que a gente só sabe que existe quando tem um filho. Por isso as mensagens para os filhos são tenras, cheias de amor e esperança.

Uma dessas canções é Ao que vai chegar, composição de Toquinho e Mutibho, em 1984, João Carlos Pecci e Wagner Homem contam em Toquinho: História das canções (Leya, 2010), A ORIGEM DESSA MÚSICA: 

Em 1984, Toquinho queria muito receber Pedro, o filho que estava para nascer, com um tema musical. Mas a ideia não vinha provavelmente devido à ansiedade de ser pai pela primeira vez. Percebendo a dificuldade do parceiro, Mutinho, durante uma viagem de trem para Milão, deu a Toquinho um gravador com uma fita cassete dizendo: ‘escuta, é a música do Pedro’. Ele ouviu, fez uma cara de felicidade e falou: ‘Estava faltando isso em minha vida!’ E depois fez a letra. E assim o parceiro transformou-se também em parteiro musical”

A música, na primeira parte, associa o filho que vai chegar como uma luz, uma energia…  a letra fala de sol, brilhar, luz, clareia, acende, aurora, enfim, referências constantes à luminosidade que o filho traz para a sua vida.

Na segunda parte, fala-se das coisas boas desejadas ao filho: o brilho da paixão, a fé, a paz, e uma casinha onde se possa ser feliz… quando se conhece a história da canção, ela se torna mais bela e comovente…

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Toquinho conta também a história da música, que foi tema de abertura da novela Livre Para Voar, da Rede Globo:

Ao que vai chegar é uma música muito importante para mim . É uma festa, uma festa utópica, é claro, preparada para essa pessoa especialíssima, para a qual temos um tipo de amor dentro da gente que só sabemos e sentimos quando temos um filho. E antes disso, nem sabemos que esse amor existe. Quando vem essa criança e começamos a conviver com ela, a gente pensa: ‘puxa, eu podia amar tanto e não sabia`… Então, essa música é um pouco isso, a descoberta desse amor que eu tenho dentro de mim e que só aflorou com a presença desse ser estranho que passei a gostar tanto, que é meu filho Pedro”. 

 A letra:

Voa, coração
A minha força te conduz
Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar
Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz
Clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia
Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer
E não esqueça de trazer força e magia,
O sonho e a fantasia, e a alegria de viver
Voa, coração
Que ele não deve demorar
E tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
E traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
E de onde se planta a paz,
Da paz quero a raiz
E uma casinha lá onde mora o sol poente
Pra finalmente a gente simplesmente ser feliz

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10 coisas dos carnavais de 25 anos atrás que não se vê hoje. E uma crônica saudosista…

 

Sempre achamos que “nossa” época é melhor do que a época dos outros. Nossa infância foi mais infância, nossa juventude era mais excitante, nossas experiências, mais enriquecedoras, enfim, que vivíamos num mundo melhor.

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Carnaval no Campo Grande

Talvez seja uma visão nostálgica, na qual nós nos esquecíamos das dificuldades e das coisas desagradáveis que aconteciam. Isso vale para tudo, inclusive para o carnaval. Aí me deparei com uma postagem de Fabio Gagliano, de 2012, com um certo saudosismo do carnaval, cuja postagem vem a seguir. Ele relata com saudosismo um carnaval que não volta atrás. E elege como símbolo do carnaval a mamãe-sacode. O que tinha esse carnaval que acabou no século passado?

 

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1) O bloco era mais importante que o artista. Cada pessoa era associado de um bloco, o “seu” bloco de carnaval. Cada bloco tinha sua característica, seu público. 

2) A vestimenta era mortalha (que durava os 3 dias), apenas em meados da década de 90 vieram o abadá (com o Eva) e com 1 abadá por dia (Com o cheiro);

3) O kit dos blocos incluía mortalha, boné, mamãe-sacode, faixa, adesivo para colocar no carro, e às vezes uma munhequeira para enxugar o suor (há quem usasse para outros fins);

4) No começo do verão todo mundo já conhecia a música dos artistas de seu bloco;

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5) Havia a maior concorrência pelo lugar na fila na avenida; o circuito Barra-Ondina era chamado de circuito alternativo. Quase não passavam trios por lá.

6) Camarote? No máximo as arquibancadas no Campo Grande e a pipoca vendo os blocos passarem na Casa D’Itália.

7)  Na terça-feira, ou os trios desciam para o Farol da Barra, ou iam para o encontro de Trios na Praça Castro Alves;

8)  O carnaval começava na quarta-feira com a Lavagem do Porto da Barra.

9) Ainda havia bailes de carnaval nos clubes. O mais famoso era o Branco e Preto, que ocorria no Baiano de Tênis, mas também tinham Bailes na Associação Atlética e no Clube Espanhol;

10) O auge do desfile é quando os blocos passavam pelo Campo Grande, os puxadores de trio pediam para os foliões levantarem a mamãe-sacode.

 

Obviamente, quem viveu aquele carnaval dificilmente achará divertido um carnaval de camarote. O carnaval de hoje é muito diferente daquele que se praticava há 15, 20 anos.

A questão é: será que era efetivamente melhor? Aquele carnaval não voltará mais, e se esse carnaval de hoje está longe do ideal, é certo de que ele jamais voltará a ser o que já foi um dia. Cada carnaval reflete um pouco de uma época e de uma geração, E não há indícios de que o carnaval de amanhã vai ser m,ais parecido com o carnaval de ontem. Que era espetacular, inesquecível, mas era o carnaval de ontem.

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O importante é reencontrar nas pessoas o brilho e a alegria de fazer parte de uma festa única. E que seja possível encontrar muitos carnavais em um só. O de ontem, hoje e amanhã. E vejo todo mundo nas ruas, por muito mais do que uma semana.

Vejo trios e fanfarras. Vejo fantasias nas ruas. Vejo carnavais no centro histórico, tem de tudo, mas ainda estão no carnaval o samba, os tambores e a guitarra elétrica, tripé que deu base àquilo que chamamos de axé.

O modelo de blocos com milhares de pessoas vai se esgotando, mas os  pequenos bloquinhos que vão pra rua ainda estão lá. Os trios pipoca ainda estão lá, como, há 40 anos, eram Armandinho, Dodô & Osmar (com Moraes Moreira) e o Trio Tapajós. Dá até vontade de sair na rua, fantasiado de folião anos 90 com mamãe-sacode.

Parece que o carnaval da Bahia continua sendo uma metamorfose muito maior do que em qualquer outro lugar. Se um sujeito fosse congelado há 30 anos e acordasse hoje, no século XXI, e visse o carnaval do Rio ou de Olinda, ainda reconheceria aquele espaço de 30 anos. Na Bahia é um pouco diferente. Muita coisa muda. Há espaço para a tradição? Claro! Mas na Bahia nenhuma tradição carnavalesca sobrevive se não houver um sentido, e este sentido está na existência de pessoas pulando e cantando na rua. E que viva o samba, os tambores e a guitarra elétrica…

 

Segue abaixo a crônica que me referi.

 

Roubaram meu Mamãe-Sacode

 

(SALVADOR – Eu quero muito mais que o som da marcha lenta) – Chegou fevereiro. Chegou o Carnaval. E o Carnaval, na Bahia, me leva à infância. Me leva a imagens, sons e sentidos que marcam a minha essência.

Nasci e cresci na Rua da Mouraria, bem próximo à sede do bloco “Os Internacionais”. Acompanhava a elaboração dos figurinos, a escolha da fantasia. Via de perto o nascimento de cada peça, com as costureiras que, incansavelmente, trabalhavam lá, onde morávamos, no seu andar térreo. Estive ao lado da concentração onde o maestro Reginaldo “Bigodão” comandava uma banda de músicos de “não-sei-quantos” homens para sair da Mouraria e conduzir Os Internacionais rumo ao seu desfile. Instrumentos de sopro em cima do caminhão. Instrumentos de percussão ao chão.

Cresci utilizando cada uma das fantasias do bloco, e me apaixonei com a paixão de meu pai, louco por Carnaval mas, principalmente, para “ver o bloco na rua”. Chorei com a sua emoção que derramava lágrimas ao avistar, de longe, o bloco despontando na Avenida com seus 1.500 integrantes e suas alegorias de mão abrindo alas para um espetáculo belíssimo e inesquecível. Angustiava-me com a sua eterna angústia que, ao perceber que o seu bloco estava perfeito, iniciava a torcida para que tudo logo acabasse, sem problemas, sem percalços, sem confusão. O ato de colocar o bloco na rua era a sua paixão, o seu ideal. A percepção, à quarta-feira de cinzas, de não ter havido contratempos, coroava o seu carnaval e alavancava a preparação do ano seguinte.

Em paralelo, via de perto o Cheiro de Amor exalando sua fragrância na Avenida e usando um macacão por 3 dias consecutivos. Imaginem como se encontrava o mesmo no último dia de carnaval, posto que era impossível lavar e secar tal tipo de tecido de um dia para o outro. Vi o Camaleão de Luís Caldas, o Crocodilo do Asa de Águia, o Eva de Ricardo Chaves. Vi as mortalhas invadirem multicoloridas as Avenidas do Centro de Salvador. Vi, ainda os blocos subirem até a Sé, pararem para um leve descanso e descerem para a Carlos Gomes via Praça Castro Alves quando, não raro, encontravam outro bloco em sentido inverso. Me desesperei quando o trio dos Comanches perdeu seus freios na descida da Sé matando inúmeros foliões e gerando o pânico na praça do poeta.

Enquanto isso, saía no Domingo e na Terça fantasiado de romano, marajá, gondoleiro, pierrot, chinês, imperador inca, príncipe, pirata, dentre outros. Isso nos Internacionais, onde os homens estavam dentro das cordas e as mulheres compunham o séquito no lado de fora.

No Sábado e na Segunda, a coisa mudava de figura. A família inteira estava reunida no “Eu e Ela”, utilizando-se de mortalhas e, assim como em “Os Internacionais”, a condução era realizada pela grande banda Chiclete com Banana. Os foliões dançavam, brincavam, curtiam, namoravam, bebiam. Eu estava vendo o Carnaval sendo feito e utilizado pelas mesmas pessoas. O organizador era folião. O ambulante, idem. O cantor, também. O radialista, igualmente. Bem como os artistas, intelectuais, políticos e todos os segmentos sociais.

Apesar de muito pequeno, vivi tudo muito de perto. Minhas primeiras imagens da infância me remetem à rotina matutina da organização carnavalesca, com a chegada do trio, a preparação das cordas, o teste do som, a dinâmica dos caminhões com os “engradados de cerveja” abastecendo os bares e ambulantes na área do quartel dos Aflitos, o mamãe-sacode empunhado com orgulho…

Ah…. os Mamães-Sacode… Esses eram, talvez, as maiores referências do Carnaval da Bahia. Compunham elementos de estética visual indescritíveis que, ao serem atiçados conjuntamente ao ar davam, ao espectador, uma visão sublime, que demonstrava indelevelmente o fracasso ou o sucesso do artista de trio, do puxador de bloco.

O bloco Tiete Vips, popularíssimo, através do saudoso Val Valle e da Banda Tiete Vips nos brindavam com um espetáculo deslumbrante ao adentrar a área do palanque do Campo Grande. Quem não lembra do famoso grito de guerra: “Tiete Vips chegoooooou, ê aê aô”.

Vi o Frenesi de Adhemar e Banda Furta Cor. Vi, ainda, a deslumbrante Banda Mel com o seu Prefixo de Verão e a sua Baianidade Nagô. Acompanhei a Reflexus com o seu Madagascar Olodum e o Canto para o Senegal.

Acompanhei os “gênios” do carnaval baiano que, sob a aura da modernidade, extirparam a nossa mais pura cultura. Os magos criadores do abadá e carrascos das fantasias e mortalhas. Não há mais alegorias de mão. Não há mais a alegria do mamãe-sacode eclodindo no ar das ruas centrais de Salvador. Criaram o circuito alternativo na Barra e desterraram a Avenida. A partir do momento em que ficaram de um lado os criadores e, do outro, os foliões, o Carnaval da Bahia passou a ser um espetáculo midiático, de compra e venda de pacotes publicitários, perdendo toda a sua verdadeira essência. Os camarotes são excrescências deste processo, onde se ouve 90% de música eletrônica e, muito raramente, surge alguém que recorda estar no Carnaval da Bahia e vai dar uma espiadinha no trio que está a passar.

Há alguns anos, acreditem, fiz a bobagem de  participar de um bloco puxado pelo tal do Tuca Fernandes, o bloco Eu Vou. A cena que presenciei era dantesca. Inúmeros adolescentes não estavam nem um pouco interessados em dançar, pular, brincar. Era uma sequência tão bizarra quanto assustadora. Parecia um filme de zumbis, ou mesmo o seriado “The Walking Dead”. Adolescentes totalmente dopados, olhos vermelhos, bocas abertas, babando e procurando outras bocas para consumar um ato que, em nada, se lembra ao clássico beijo de carnaval. Nem Kubrick poderia descrever um cenário tão aterrador.

Arlequim morreu. Colombina se prostituiu. Pierrô abriu uma seita fanática religiosa. O folião não quer mais folia. O cantor não quer saber do folião, e sim da mídia. Ninguém agita mais ninguém para que o seu bloco seja o mais animado da Avenida. O cantor só faz cena para aparecer nas telinhas da Band Folia ou atrasa a apresentação para entrar ao vivo no Jornal Nacional.

Queimaram a fantasia. Extirparam a magia. Roubaram, enfim, o meu mamãe-sacode.

  http://cronicativa.blogspot.com/2012/02/roubaram-meu-mamae-sacode.html

 

Depoimentos sobre Dorival Caymmi

 

A minha primeira postagem no antigo blog (musicaemprosa.musicblog.com.br) foi sobre Dorival Caymmi. Sobre sua música que parece o canto das coisas em si, sobre os sambas sacudidos, sobre o mar (que é o mar, é o mar é o mar, como canta em “O bem do mar”) e trouxe um artigo que revela o espanto e a admiração de Camus com as músicas de Caymmi.

Eu tenho um cd duplo, “Caymmi inédito”, lançado pela universal, que tem algumas das maiores jóias de Caymmi (ou melhor seria dizer pérolas, em homenagem ao mar?), como É doce morrer no mar, A preta do Acarajé, A lenda do Abaeté, O que é que a Baiana tem, Eu fiz uma viagem, Peguei um Ita no norte, Maracangalha, Acalanto, João Valentão, O samba da minha terra, marina, Dois de fevereiro, Oração de Mãe Menininha, entre tantas outras, embora sinta falta de O bem do mar, Rosa Morena e Lá vem a Baiana… um cd duplo ainda é pouco.

Mas na verdade, uma coisa que gostei muito no CD foram alguns depoimentos sobre Caymmi. Dois de Músicos: Tom Jobim e Caetano Veloso. Interessante que  Tanto na análise de Jobim como na de Caetano, parece que falar da música de Caymmi não é tão fácil… Jobim fala muito do Caymmi pintor, dizendo que como músico, “nem se fala”. Caetano deixa transparecer sua admiração por João Gilberto, e tece sua admiração por Caymmi (“fácil demais e ao mesmo tempo difícil de falar”) através da admiração de seu mestre João.

Adiante, tem depoimento de outros dois baianos ilustres de sua geração: Jorge Amado, numa bela metáfora sobre o Caymmi músico, e Carybé, num depoimento que fala da preguiça de Caymmi. Aqui abaixo os depoimentos.

ANTONIO CARLOS JOBIM

 

Eu conheci o Dorival Caymmi nos idos de 48, 49. Eu estava assim muito empenhado, eu queria ser músico de qualquer jeito, me aproximei dele e depois nos tornamos grandes amigos. O Dorival Caymmi é um gênio, uma pessoa assim que se eu pensar em música brasileira eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível, eu digo isso sob o ponto de vista musical, sem falar do poeta e do pintor, porque o pintor, inclusive, eu ganhei um quadro dele, eu dei uma flauta ao filho dele e ele me deu um quadro que é uma maravilha. Eu outro dia perguntei a Danilo Caymmi: mas, rapaz, como é que seu pai pinta assim? Ele disse, ele estudou. Um negócio! Porque o Dorival é um grande pintor mesmo, não é negócio de brincadeira não, e nas músicas, então, nem se fala…  

 

CAETANO VELOSO

 

Caymmi é fácil demais e, por isso mesmo, um pouco difícil falar de Caymmi. Porque ele é uma paixão total, assim, o amor que eu tenho por ele e que eu posso conceber que se tenha por ele, é assim total, sem limitações, é uma coisa assim de uma beleza ilimitada, e ao mesmo tempo é uma coisa muito simples. Ele é um compositor até que não é, como é que se diz, prolixo, ele não tem canções demais, ele tem um número grande de canções, mas relativamente pequeno, comparado com outros compositores, mas cada canção dele é uma joia, assim perfeita, e todo o clima dele é uma clima de quase uma sabedoria muito profunda que ele parece ter tido desde sempre, é uma coisa, calhou acontecer aquele homem, não é? O João Gilberto fala sempre que o Caymmi é que é o gênio da raça. O João Gilberto diz que aprendeu tudo com Caymmi e que a gente deve estar sempre aprendendo com Caymmi. “Aprenda tudo com ele…” o João Gilberto fala de Caymmi. Você vê, é engraçado porque… são três gerações: o Caymmi, o João Gilberto e eu, e o João Gilberto diz isso pra mim, pra mim e pros meus colegas de geração, pros meus companheiros, e o João Gilberto foi o mestre imediato da minha geração, porque nós somos uma geração que começou com uma admiração, por uma admiração pela bossa nova, não é?… E a bossa nova foi que nos formou e o João Gilberto que era o núcleo, o centro da bossa nova, assim, ele sempre viu o Caymmi como o exemplo máximo do artista como deve ser e do homem como deve ser.

JORGE AMADO

 

Caymmi representa um dos momentos mais altos da criação brasileira e da criação baiana, em particular. Quer dizer, a poesia mais profunda da vida baiana, do povo baiano. Caymmi é uma flor nascida lá em cima que desabrocha de toda essa terra trabalhada, da cultura popular adubada com suor, com sangue, com sonho, com esperança, com todas as dificuldades possíveis que o homem encontra, com toda a magia, e que de repente produz uma flor de cultura, uma coisa esplêndida, única, luminosa, que é a obra de Caymmi, desse poeta extraordinário.

 

 

CARYBÉ

Jorge Amado, Caymmi e Carybé

O Axé de Opó-Afojá, Candomblé de Mãe Senhora, uniu três pessoas que hoje em dia são três irmãos de esteira — cada um tem uma esteira. Agora, um é Obá Onicoí, outro é Obá Olorum e o outro é Obá Onoxocum. Em português, seriam Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé. E, aí nos unem laços assim secretos e misteriosos, não é?… Agora na vida comum eu acho que ele é fabuloso. Agora, ele tem uma coisa contra que não consegue fazer as coisas por causa da preguiça, porque o grande inimigo dele é a preguiça, ou amigo, deve ser amigo, mais do que inimigo, porque não há dúvida que preguiça é uma coisa gostosa, não é? Com bicho-do-pé, se tiver, ainda melhor. Ele fica lá naquele Rio das Ostras, comendo ostra, tocando violão, limpando garrucha, punhais, colecionando bengalas… Então ele vai levando a vida assim… Pinta um quadrinho, e tal, todos eles são bons, menos o meu retrato porque o meu retrato é o Retrato de Dorian Gray, que ele vai pegando, assim, cada dois anos, três anos, um ano e meio, então, mudo… De repente eu estou mais mocinho, daqui a pouco ele faz um coroco, e, enfim, é isso…

 

Publicado originariamente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em 14 março de 2010 07:49 , em Clássicos da Música Brasileira

Copo Vazio

A música “Copo Vazio”, composição de Gilberto Gil, foi gravada por Chico Buarque no disco “Sinal Fechado” (1974), em que Chico grava canções de outros compositores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura. A letra da canção é magnífica, misturando o vazio do copo que está cheio de ar, com o olhar vazio de um rosto que está cheio de dor; o ar é substituído pelo vinho, que visa substituir a dor, que está cheia num rosto vazio, assim como vazio está o copo – mas cheio de ar.

A música foi feita sob encomenda para Chico Buarque, e Gil conta como fora a composição da Música:

Quando Chico me pediu, pensei: “meu Deus, fazer uma música para Chico!”. Achei melhor procurar algo que ficasse entre o fazer e não-fazer. À noite, o pessoal já tinha ido dormir, peguei o violão, acendi um cigarro, pus vinho num copo e fiquei pensando. Quando olhei, o copo estava vazio. Mas estava cheio de ar. Aí bateu: “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. “Isso é filosofia popular, o Chico vai gostar”, pensei”…

No livro “Todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, Gil complementa:

Chico Buarque estava sendo hiper-censurado [pela ditadura militar] naquele momento e quis responder a isso fazendo um disco só com músicas de colegas [trata-se do disco Sinal fechado, lançado por Chico Buarque em 1974]. Por isso, pediu ao Paulinho da Viola, a Caetano [Veloso], a mim e a outros que compusessem para ele. Eu estava em casa, sentado no sofá, já de madrugada,…”, aí eu já tomando o processo da criação: “…tinha tomado um copo de vinho no jantar e o copo tinha ficado na mesa. Pensando no que é que eu ia fazer para o Chico, eu, de repente, vi o copo vazio e concentrei o olhar nele para dali extrair emanações de imagens e significados. A princípio, como se para nada obter, mas logo constatando: ‘O copo está vazio, mas tem ar dentro!’ Disso, me vieram idéias acerca das camadas de solidificação e rarefação que vão se sucedendo nas coisas. E, disso, a música. A letra faz uma viagem ao mundo das coisas sutis, transcendentes. Mas suas primeiras frases são muito significativas nos termos do que estava acontecendo: regime de repressão, censura, o Chico privado de sua liberdade artística plena, etc. Embora não fosse essa a intenção principal, as dificuldades da situação contingencial estavam necessariamente metaforizadas e qualquer crítica à canção, em termos de fuga da realidade, esbarraria no fato de que, ao contrário, a letra parte da realidade e não foge dela. Foge com ela, se for o caso.”

 

Gilberto Gil depois regravaria a canção no disco Gil Luminoso, em 2006. Chico e Gil gravaram juntos a canção no projeto do filme “Rio, eu te amo”, em 2014.

 

Fontes: Gilberto Gil: Todas as letras. Org. Carlos Rennó

http://www.nordesteweb.com/not07_0906/ne_not_20060902b.htm

 

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.com.br em 26 de fevereiro de 2010

Adeus, batucada

Caetano Velloso e Gilberto Gil provocaram uma verdadeira revolução com a Tropicália no final da década de 60. Modernizaram a música popular brasileira, cuja vertente “universitária”, típica dos Festivais da Record, e em seguida, da Globo, era extremamente conservadora.

 A “Frente única da Música Popular Brasileira” negava qualquer influência estrangeira, sobretudo das guitarras elétricas, vistas como uma espécie de símbolo do colonialismo americano (vide uma passeata contra a guitarra elétrica promovida e liderada por Elis Regina, Geraldo Vandré e Edu Lobo, em 1967 – o alvo era Roberto Carlos e a Jovem Guarda, vista como mera imitação do iê-iê-iê decorrente da Beatlemania).

 O movimento da chamada “verdadeira” MPB também rechaçava a produção nacional tida como popularesca e de mau gosto – O símbolo máximo da breguice era Chacrinha.

 Ocorre que, em 1967, Gilberto Gil, com Domingo no parque, e Caetano Velloso, com Alegria, Alegria, causaram furor no festival da Canção da Record, mesmo não tendo vencido o festival (Gilberto Gil ficou em segundo; Caetano, em quarto. A vencedora foi Ponteio, de Edu Lobo). Tudo isso se devia menos ao uso das guitarras elétricas, e mais pelo caráter moderno das músicas, sobretudo a sinestesia que provocam, pois ambas são músicas muito visuais.

 Em 1968, no Festival Internacional da Canção da Rede Globo, o choque ficou mais intenso, comQuestão de Ordem, de Gilberto Gil, e, principalmente, com Proibido Proibir, de Caetano, cujo discurso diante das vaias do público do festival repercute até hoje.

 Caetano e Gil foram presos, e, em seguida, exilados em Londres. Pelos relatos na bibliografia sobre o assunto, parece que Gil encarou melhor a prisão e o exílio do que Caetano. Carlos Callado, no seu livro Tropicália – a História de uma revolução musical, narra que Gil conseguiu um violão no presídio, e, uma vez em Londres, procurou um curso de inglês, frequentava shows de música, buscava formar uma banda, enquanto Caetano ficava triste, deprimido. Callado cita um trecho de Caetano, publicado no Pasquim  de 27 de novembro de 1969:

“Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos” 

O disco que Caetano gravou no exílio também deixa claro esse espírito, sobretudo em If you hold a Stone, Maria Bethânia e Asa Branca.

 Em janeiro de 1971 Caetano obtém permissão para voltar ao Brasil. Não definitivamente, mas para assistir às bodas de rubi de seus pais, Seu Zezinho e Dona Canô. Conta Callado, na obra acima citada, que Caetano foi interrogado, intimidado, proibido de dar entrevistas ou cortar o cabelo e, para atribuir uma aparente normalidade, uma apresentação no programa Som Livre Exportação,  da Rede Globo.

 Em 4 de fevereiro de 1971, para quem esperava um Caetano ainda mais revolucionário quando voltasse de Londres, com mais sons modernos e psicodélicos (lembrando que há 40 anos não havia computador, internet, celular), Caetano saiu-se com um samba lindo de Sinval Silva, Adeus, batucada, imortalizado na voz de Carmen Miranda. A letra:

 Adeus, adeus
Meu pandeiro de bamba
Tamborim de samba
Já é de madrugada
Vou-me embora chorando
com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada

Em criança com o samba eu vivia sonhando
Acordava, estava tristonha chorando
Jóia que se perde no mar só se encontra no fundo
Samba mocidade
Sambando se goza nesse mundo
E do meu grande amor sempre me despedi sambando
Mas da batucada agora eu despeço chorando
E trago no peito esta lágrima sentida
Adeus batucada, adeus batucada
Querida

 Nelson Motta, em seu Noites Tropicais, comenta o fato:

“Mas na gravação do programa, no Rio, ele surpreendeu o auditório jovem e roqueiro, que esperava dele algo elétrico, pesado, mais próximo de Os Mutantes do que de Elis e Ivan Lins. Ao contrário, sem gritos nem guitarras, apenas se acompanhando ao violão, Caetano cantou, radicalmente gilbertiano, um antigo e belíssimo samba de Sinval Silva, gravado por Carmen Miranda.  

 Caetano comenta essa passagem no seu livro Verdade Tropical

A plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham uma idéia pop-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Era bem uma platéia sintonizada com essa sigla, tal como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da minha saída e eu me via frente a frente com o pós tropicalismo. Os garotos nus da cintura pra cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e mais sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com samba – jazz carioca. Entrei apenas com meu violão e cantei Adeus Batucada, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante como samba – jazz e com a fusion, uma referência à Carmen Miranda – e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que “ia embora chorando, mas com o coração sorrindo”, pois ia” deixar todo mundo valorizando a batucada”. A garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou despercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.

Não quero aqui fazer comentários, mas apenas suscitar a imaginação de vocês… Caetano, preso, exilado, visita o Brasil num clima de terror, participa de um programa de televisão (Som Livre Exportação, apresentado Por Ivan Lins e Gonzaguinha) que o próprio Caetano diz ser um “filho do tropicalismo”, encontra um público jovem, ansioso por novidades, e encontra Caetano em seu violão, lírico e metafórico, cantando Adeus, batucada…

 Publicado orignalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em fevereiro de 2010

Movimento contra a “alienação” musical, exclusão das guitarras e preservação de uma chamada “verdadeira” música popular.

Conferir o site http://historia.abril.com.br/politica/censura-brega-434196.shtml

Caetano na Contracapa do Tapajós

Qual era o cenário musical em 1980? A mistura do frevo com o ijexá já começava a aparecer nas ruas. Moraes Moreira era o rei do carnaval, e o Trio Elétrico Tapajós era uma referência no Carnaval da Bahia. Orlando Campos, também conhecido como Orlando Tapajós, foi o primeiro seguidor do Trio Elétrico de Dodô e Osmar. Orlando foi responsável pelo trio ter-se perpetuado e se expandido como referência do carnaval baiano.

Em 1972, o Tapajós lançou a Caetanave para homenagear Caetano Veloso, que voltava do exílio em Londres, o que causou a Caetano uma emoção indescritível.

caetanave

Assim, em 1980, era lançado o disco (LP) Tapajós- Ave Caetano, e nada mais  justo do que Caetano fazer o texto da contracapa do disco. Segue aqui o texto de Caetano, num depoimento histórico:

“O primeiro disco de trio elétrico que se fez no Brasil foi um disco do TAPAJÓS e eu tive a honra de, então, escrever a contracapa. Agora, mais de dez anos depois, estamos aqui outra vez. Seria talvez melhor dizer: estamos aqui ainda. Uma das maiores emoções da minha vida foi, em 72, voltando do exílio em Londres, ver a CAETANAVE surgir no topo da Ladeira da Montanha e entrar na Praça Castro Alves sob a forte chuva que começava, tocando meu frevo Chuva, Suor e Cerveja. Eu não sabia que o carro deles naquele ano levaria esse nome e, se já estava chorando quando o caminhão entrou na praça, dobrei o choro quando li a nova palavra escrita na proa da transcendental embarcação. A essa altura da minha vida eu já tinha muito o que agradecer ao TAPAJÓS e aos trios elétricos em geral. A partir daquele momento de imenso carinho minha dívida se multiplicou por mil. Eles me ajudaram a curtir a adolescência, a bolar o Tropicalismo (que abriu espaço pra Milton casar barroco mineiro com Edu Lobo e Beatles; para a gente ouvir sem susto a transa de Egberto; pra Hermeto misturar jazz com rock e xaxado; pra mil coisas) e depois, a explicar o Tropicalismo e justificá-lo. E, naquele carnaval de 72, me davam a compensação afetiva para a prisão e o exílio. É muito.

Da época em que o primeiro disco do trio foi gravado pra cá, muita coisa rolou. Este disco é muito mais bem gravado do que o outro, do que os outros. Sobre a beleza única desse som de trio elétrico não posso dizer nada. Apenas quero registrar que é lindo que o TAPAJÓS não tenha ficado indiferente à volta de Dodô e Osmar com as inovações de Armandinho e muito menos às conquistas geniais de Moraes Moreira que entre outras coisas, casou o trio elétrico com com o afoxé (meu sonho com o de Gilberto Gil). E chega de muitas palavras, eu fico baiano demais quando se trata desse assunto de trio elétrico. Vamos ouvir o TAPAJÓS e continuar agradecendo a generosidade. Ave TAPAJÓS.”

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Polêmicas de Carnaval – Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho no carnaval de 2010

Lobo mau e Chapeuzinho vermelho

 “Eu sou o lobo mau,
Lobo mau, lobo mau
Eu pego as criancinhas
Pra fazer mingau”

Praticamente toda criança já ouviu esse trecho da música do Lobo mau, da autoria de Braguinha. Não conheço quem, em defesa das pobres criancinhas, defenda a proibição de tal canção, sob o argumento de que é um estímulo à violência contra crianças (aliás, inúmeras canções infantis são recheadas de toques de crueldade – como o “boi da cara preta” que pega o “menino que tem medo de careta” ou a conhecida “atirei o pau no gato” que ainda assim “não morreu”).

 A história de Chapeuzinho Vermelho é, em si mesmo, ambígua: a imagem da inocente garota que é enganada por um lobo inicialmente gentil, e que depois devora a inocente Chapeuzinho na cama da vovó gera discussões psicanalíticas intermináveis, pela carga sexual presente desde a escolha da cor vermelha, notoriamente associada ao sexo, passando pela sedução do lobo, de olhos e mãos tão grandes (No aspecto, conferir “PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS, de BRUNO BETTELHEIM)

 Por causa dessa ambiguidade explícita, não foram poucas vezes que a história do lobo mau (representando um homem sedutor, o típico “cafajeste”) procura seduzir uma inocente Chapeuzinho (a jovem inocente) foi utilizada na música popular, com certo fetichismo, é claro, quase sempre com picardia…

Na sexta-feira do carnaval de 2010, em Salvador, não se falava de outra coisa, senão a polêmica criada pelo cantor Tatau, ex-vocalista da banda  Ara Ketu, recusando-se a cantar a música “Lobo Mau”, sob o argumento de que, tendo ele participado de uma campanha contra a violência sexual contra crianças e adolescentes. A declaração de Tatau:

“Estou numa campanha do Ministério Público contra a pedofilia. Me perdoem, mas não vou cantar essa música, pois ela estimula a pedofilia.”

A Dançarina Carla Perez seguiu o embalo e se recusou a cantar a música “Lobo Mau”,

“Desculpem, eu trabalho com as crianças, sou mãe, tenho filhos. Quero cantar músicas que vocês pedem, mas tenho respeito pelas crianças.”

As crianças, alheias a tudo isso, cantam bastante a música do Lobo mau, como dançavam as coreografias de Carla Perez quando ela integrava o Gera Samba, depois rebatizado de É o Tchan. O mais engraçado é que a mesma Carla Perez cantou músicas como “libera geral”, de Xuxa, que num trecho da letra diz “Libera o corpo pra poder sentir/Os desejos, as vontades, o que pedir”. Parece contraditório, não?

Qual é, enfim, a letra da música:

 Chapeuzinho pra onde você vai, diz aí menina que eu vou atrás
Chapeuzinho pra onde você vai, diz aí menina que eu vou atrás
Chapeuzinho pra onde você vai, diz aí menina que eu vou atrás
Eu sou o lobo mau, hau, hau
Eu sou o lobo mau, hau, hau
Eu sou o lobo mau, hau, hau
Eu sou o lobo mau
E o que você vai fazer

vou te comer, vou te comer, vou te comer,
vou te comer, vou te comer, vou te comer,
vou te comer, vou te comer, vou te comer,
vou te comer, vou te comer, vou te comer,

Merenda boa, bem gostozinha
quem preparou foi a vovozinha.
êta danada, êta!
Merenda boa, bem gostozinha
quem preparou foi a danadinha
êta danada, êta!

 Não estou aqui para discutir o gosto ou a qualidade da música, que nada mais é do que uma bobagem de carnaval. No entanto, a seriedade (desprovida de qualquer fundamento) com a qual a mesma música foi levada apenas faz chamar atenção para as polêmicas que ano após ano se instala no carnaval. Já se disse que a música “Xô Satanás”, do Asa de Águia, estimulava a intolerância religiosa, a música Tapa na Cara, da banda Pagod’art, estimulava a violência contra a mulher, e a música Lança, Lança, da Banda Jammil, era uma apologia às drogas.

Na verdade, a música Lobo Mau,  da até então desconhecida banda chamada O Báck estimula a pedofilia na mesma medida em que a história de Chapeuzinho Vermelho o faz. Deve-se perguntar se Tatau ou Carla Perez contam a “inocente” história de chapeuzinho vermelho a seus filhos. Talvez sim. O certo é que o carnaval não é exatamente o momento do politicamente correto, mas, ainda assim, não vejo intenções criminosas na canção. Até porque incitação ou apologia à pedofilia é crime, previsto nos artigos 286 e 287 do Código Penal.

E não vejo nada de criminoso (no máximo, um crime contra o bom gosto – mas o que é bom gosto?) numa canção que apenas reproduz, de maneira explicitamente sexual, o que já está implícito na história.

Menções ao lobo mau estão pulverizadas na Música Popular Brasileira, e a primeira lembrança que me veio quando da polêmica, bem lembrada por Ivete Sangalo no domingo de Carnaval, a música Lobo Bobo, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (dois compositores das origens da bossa nova), gravadas por João Gilberto, e cujas primeiras frases são “

 

Era uma vez um lobo mau

Que resolveu jantar alguém

Estava sem vintém, mas arriscou

E logo se estrepou

Um Chapeuzinho de maiô

Ouviu buzina e não parou

Mas Lobo Mau insiste e faz cara de triste

Mas Chapeuzinho ouviu os conselhos da vovó

Dizer que não pra lobo, que com lobo não sai só

Lobo canta, pede, promete tudo até amor

E diz que fraco de lobo é ver um Chapeuzinho de maiô

Mas Chapeuzinho percebeu

Que Lobo Mau se derreteu

Pra ver você que lobo também faz papel de bobo

Só posso lhes dizer, Chapeuzinho agora traz

Um lobo na coleira que não janta nunca mais

 

Mas são inúmeras canções que fazem referência ao “lobo mau”. Basta citar as conhecidas canções Lobo Mau  da Jovem Guarda (Me chamam lobo mau, me chamam lobo mau, eu sou o tal, tal, tal, tal, tal), Sandra de Sá (Gosta mais do que não presta/E não presta atenção/É o lobo da floresta/Quer ter tudo na mão/Tem os dentes afiados/E não mede a tentação)  e Sampa Crew (Eu sou o lobo mau eu sou o lobo mau/Só quero as garotas pra ficar legal).

O certo é que o patrulhamento ideológico de músicas sempre produz o efeito contrário. E, por mais simplória que a música seja, rotulá-la, associando-a com uma conduta criminosa em nada ajuda no combate à pedofilia.

terça 16 fevereiro 2010 19:26