Nara Leão – Dez anos depois… o seu retorno à bossa-nova em 1971

 

A trajetória musical de Nara Leão é das mais originais da música brasileira. extremamente inquieta, ela foi inicialmente considerada a musa da bossa nova, onde no apartamento de seus pais surgiram as famosas rodas de violão das quais participavam Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Mendes e seu então namorado Ronaldo Bôscoli. Depois de romper com a bossa nova, interessou-se pelo samba de morro, gravou o extremamente politizado disco Opinião, que gerou o show homônimo, junto com João do Vale e Zé Keti, namorou o tropicalismo e fez parte do famoso disco Tropicália, em 1968, isso com apenas 26 anos.

O rompimento com a Bossa Nova deve-se muito ao rompimento de seu noivado com Ronaldo Bôscoli, um dos principais compositores da Bossa Nova, em face do caso que Bôscoli teve com a cantora Maysa.

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Após o rompimento, entre 1974 até 1970 Nara gravou 10 discos, todos afastados da Bossa Nova. Nara Leão só se reconciliaria efetivamente com a Bossa Nova em 1971, quando gravou o Lp duplo Dez Anos Depois. Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Johnny Alf, Newton Mendonça e Chico Buarque. A produção do disco é de Roberto Menescal, mas não há nenhuma música de Menescal, em face de sua parceria com Ronaldo Bôscoli. Ruy Castro, no livro “A onda que se ergueu no mar (Cia das letras, 2001), relata o episódio:

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“No repertório, um nome se destacava pela ausência: Ronaldo Bôscoli, o homem que ela amara e que escrevera muitas das principais letras da Bossa Nova. Fora Nara que que lhe inspirara ‘O Barquinho’, ‘Nós e o mar’ , ‘Ah, se eu pudesse” e muitas outras canções com Menescal – mas quem as gravara fora Maysa, a mulher com quem ele se envolveu enquanto namorava Nara. Por causa de Maysa, Nara brigou com Bôscoli e, com isso, rachou politicamente com a Bossa Nova. Anos depois, reconciliou-se com a Bossa Nova – mas não com Bôscoli, que, já então, estava casado com sua arquirrival Elis Regina”.

Não obstante a ausência de Bôscoli, o disco é realmente muito bom, a voz de Nara parece combinar com Bossa Nova.

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No entanto, quero chamar atenção para um disco especial de Nara: Dez Anos Depois, gravado em paris no ano de 1971, é um reencontro com a bossa nova.Como dá para ver,  o que se fez de melhor em bossa nova…sobretudo Tom Jobim, autor ou coautor de 19 das 24 músicas do disco. As músicas são:

“Insensatez”
“Samba de Uma Nota Só
“Retrato Em Branco e Preto”
“Corcovado”
“Garota de Ipanema
“Pois É”
“Chega de Saudade”
“Bonita”
“Você E Eu”
“Fotografia”
“O Grande Amor”
“Estrada Do Sol”
“Por Toda Minha”
“Desafinado”
“Minha Namorada”
“Rapaz de Bem”
“Vou Por Al”
“O Amor Em Paz”
“Sabia”
“Meditacão”
“Primavera”
“Este Seu Olhar”
“Outra Vez”
“Demais”

Quem gosta de Bossa Nova vai gostar. Gravado na França, em 1970, é um álbum duplo e representa a versão definitiva da Bossa gravada por Nara. E que seriam gravadas por ela muitos anos antes, não houvesse a briga com Bôscoli. E o mais impressionante é que o álbum ficou fora de catálogo no Brasil, enquanto no Japão, continua em catálogo até hoje.  Por este motivo, “Dez Anos Depois” é um disco indispensável para descobrir ou redescobrir Nara.

 

http://portalnoar.com.br/blogdodjacirdantas/2015/07/05/o-barquinho-da-bossa-nova-enfrenta-a-tempestade-final/

segunda 21 março 2011 17:05 , em Bossa Nova

 

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O dueto de Caetano Veloso e Odair José em 1973

Em 1973, em plena ditadura militar, a Música representava uma das mais fortes expressões dos sentimentos populares. Assim, em maio de 1973, realizou-se um festival no Palácio de Convenções do Anhembi, com o elenco da gravadora Phonogram (Universal), que tinha como contratados a nata da música popular brasileira. .

No festival, grandes momentos merecem registro: Elis, Gal e Bethânia juntas, Toquinho e  Vinícius, Gil e Chico com Cálice. Mas um momento chamou a atenção e vaias do público. Foi o dueto entre Odair José e Caetano Veloso, cantando a música “Eu vou tirar você desse lugar”, em que o eu-lírico revela o seu amor por uma prostituta e promete resgatá-la, mesmo diante das dificuldades e preconceitos que a situação ensejava.

 

Consta que a vaia no Anhembi foi fenomenal, sobretudo porque Odair José, que há pouco se tornara conhecido pela canção “Pare de tomar a pílula” (que na época causou revolta em setores conservadores do clero), era um representante de uma música considerada “brega” e “alienada”

 

 

Foi justamente a partir desta apresentação que Caetano cravou uma de suas frases emblemáticas: “Não há nada mais Z do que a classe A”.

 

Na gravação acima, não se percebem as vaias, eliminadas no processo de masterização que deu ensejo ao disco , que foi proibido pela censura .

 

Paulo Cesar de Aaraújo, no seu livro “Eu não sou cachorro não”, conta um pouco da história:

 

Caetano então resolveu radicalizar, convidando para seu palco aquele artista considerado o mais redundante, banal e comercial: Odair José. Anunciado como ‘uma noite incrível reunindo o maior espetáculo de música brasileira de todos os tempos’, o show de Caetano Veloso — com o convidado surpresa Odair José — foi o último da mostra Phono 73, que contou naquele mesmo domingo com apresentações de Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão e outros. Espécie de ‘patinho feio’ incluído em uma festa que reunia a nata da MPB, Odair José não poderia deixar de causar reação em um público preso a preconceitos estéticos de sua formação de classe média.” (Paulo César de Araújo, em “Eu não sou cachorro, não”, de 2002).

 

 

Odair, para Paulo Cesar, conta a história da canção:

A história é a seguinte: o cara trabalhava o dia inteiro e ao final do dia, em vez de ir pra casa, ele passava ali para tomar um drinque e tal.
E com esse drinque começava um grande romance. No dia seguinte ele voltava para tomar um segundo drinque, e mais um terceiro,
porque já estava realmente apaixonado por alguém dali. Eu assisti muito isso. Porque ali se encontram moças extremamente dignas, e o fato de estar naquele trabalho é apenas uma opção ou circunstância da vida, porque às vezes você faz planos de vida e a vida muda seus planos.

Sobre a experiência e as vaias, ele conta:

Eu era o maior vendedor da Polygram, mas não estava ali entre a elite. Naquele momento foi um prazer estar com ele (Caetano), um homem muito inteligente, à frente de seu tempo. Mas foi, evidentemente, uma confusão, com vaias, porque eu era um objeto estranho naquele ambiente. Vaias a gente sempre leva na vida, mas aquela foi uma noite especial à qual talvez eu não tenha dado a devida importância” 

O episódio deixa bem claro o caráter tropicalista de Caetano, que através de sua postura conseguiu “legitimar” , ainda que tardiamente, muitas músicas não consumidas por uma chamada “elite” intelectual brasileira, que patrulhava e rotulava artistas. Tanto que foi Caetano que mostrou interesse em Odair, e não o contrário, como ele disse numa entrevista:

 

Como se deu esse encontro com o Caetano Veloso?

Soube através do André Midani (então diretor da gravadora Phonogram) que o Caetano gostaria de se apresentar comigo no Phono 73. Lembro que fretaram um avião para ir ao interior de São Paulo, se não me engano Piracicaba, onde ele estava se apresentando. Cheguei e o Caetano disse que gostava muito da música e queria cantá-la comigo. Tive uma boa impressão do Caetano que, por sinal, é um cara muito simples 

E como foi o show? As vaias o incomodaram?

Para mim era apenas mais um show em minha vida, não dei tanta importância ao fato até chegar ao palco. Fui muito bem recebido por Caetano mas ficou bem claro para mim a distância de estilos através da reação de parte do público. Nunca tive como meta atravessar o ”outro lado” da MPB, eu só sei fazer o que faço e pronto. Se é brega, popular ou outra coisa não me importo. Eu me lembro que diante das vaias, Caetano jogou o microfone no chão, falou alguma coisa sobre classe A e Z e saiu do palco. Eu permaneci no palco, não tinha porque sair de lá e cantei outras duas músicas” 

 

Curioso, por fim, é saber que há muitas entrevistas perguntando a Odair sobre o episódio, e bem poucas com Caetano…

 

Fontes:

Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro, não”

http://rodrigomattar.grandepremio.com.br/2013/07/discos-eternos-phono-73-o-canto-de-um-povo-1973/

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1511200520.htm

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2014/11/1973-vou-tirar-voce-desse-lugar.html

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2016/10/23/odair-jose-lanca-gatos-e-ratos-e-recusa-rotulo-de-brega-257802.php

https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/entrevista-a-cafonalia-no-crivo-da-censura-492694.html

 

Mudando como um deus o curso da história, por causa da Mulher….

Esta frase termina uma bela homenagem de Gilberto Gil ao feminino, numa canção em que música e letra foram compostas ao mesmo tempo, e que se intitula “Super-Homem – a canção”.

Para quem não sabe, antes mesmo dos filmes sobre Homem-Aranha, X-Men, Batman, Pantera Negra, Homem de Ferro e etc, um filme de super-herói fez história no final da década de 70. Era o Super-Homem – o filme, com Christopher Reeve no papel de Super-Homem, Margot Kidder no papel de Lois Lane, Marlon Brando no papel de Jor-El, pai do Super-Homem e Gene Hackmann no papel de Lex Luthor.

 

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O filme mostra o quanto o super-homem, ao mesmo tempo em que é vulnerável pela kriptonita, é vulnerável também ao amor que sente por Lois Lane, colega de profissão de seu alter-ego, Clark Kent. Super-homem não consegue suportar a ideia da morte de Lois Lane, e então opera um milagre.

A partir da narrativa de Caetano sobre o filme que acabara de ver, surgiu uma das mais conhecidas músicas de Gil, uma homenagem, que ele narra no seu livro Todas as Letras (Cia das letras, 1996).

Eu estava morando na Bahia e não tinha casa no Rio, por isso estava hospedado na casa do Caetano. Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã

De repente eu ouvi uma zoada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Super-Homem. Falava na sala com as pessoas, entre elas a Dedé [Dedé Veloso, mulher de Caetano à época]; eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo para salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme… Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir

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Mas eu não dormi. Estava impregnado da imagem do Super-Homem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa ideia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente: ‘Que linda!’

Gil somente fora ver o filme quando estava nos Estados Unidos para gravar o disco Realce. A canção foi feita, portanto, a partir da narrativa de Caetano Veloso sobre o filme. .

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O significado da canção, que há quase 40 anos foi visto com certa desconfiança pela critica, hoje parece evidente:  é uma homenagem àquilo que é visto como feminino, como características atribuídas naturalmente às mulheres, e que são coisas que fazem o e-lírico melhor, muito mais do que o tradicional mundo masculino. Gil, ainda sobre a letra, arrematou:

 

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Sobre a “porção mulher” – “Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo, e ela é o contrário. O que ela tem, de certa forma, é sem dúvida uma insinuação de androginia, um tema que me interessava muito na ocasião – me interessava revelar esse imbricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano”.

Canção pra Ninar um Neguim

Zeca Baleiro compôs a “canção pra ninar neguinho”  em homenagem a Michael Jackson. Na verdade é um acalanto, foi composta em 1993, quando Zeca viu uma foto de Michael Jackson numa capa de revista com um olhar triste, ou de choro, muito sincero, e a partir daí surgiu a letra da música.

O interessante é que Zeca Baleiro conta, nos shows, a origem da música e a plateia dá risada, como se visse em Michael um personagem pitoresco, e por essa razão, Zeca, que jamais acreditara nas acusações contra Michael, chegou a dizer que  que jamais gravaria a canção, sobretudo após a morte do cantor. Por isso Renato Braz gravou primeiro a música

 

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Segue abaixo entrevista de um parceiro de Zeca para o Terra. (http://terramagazine.terra.com.br/in…l+Jackson.html)

No ano em que surgiram as primeiras denúncias de pedofilia contra Michael Jackson, um admirador brasileiro se compadeceu e fez uma música em homenagem ao astro. A composição de Canção Prá Ninar Um Neguim, por Zeca Baleiro, coincide com o ano em que o astro, veio pela segunda vez ao Brasil: 1993.

Zeca Baleiro nunca gravou a música. Toca, de vez em quando em um ou outro show.

Numa tarde de 2002, seu amigo e parceiro Renato Braz se preparava para gravar um disco, Quixote. Passou na casa de Baleiro, em São Paulo, a fim de colher do amigo uma música nova para incluir no CD.

Acabaram tocando, sem combinar, “Canção Prá Ninar Um Neguim”. “Não fui eu que escolhi a música. Foi a música que me escolheu”, diz Braz, que gravou a canção e venceu o Prêmio Visa de MPB naquele ano.

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Um verso:
Neguim jeitoso / É perigoso viver sim senhor / Tem espinho e tem flor / Neguim moderno / O inferno é frio e no céu faz calor / Traz o teu cobertor.

“Foi uma declaração de amor ao Michael Jackson”, conta Braz, cantor de música popular brasileira, de uma tendência não visivelmente marcada pela influência do artista norte-americano. Uma prova da abrangência de Jackson. “Tenho todos os discos. Até os discos que eu acho ruins, porque, quem sabe algum dia, posso me encantar com algo que eu ainda não percebi…”

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“Queria andar com os pés como se tivesse flutuando como ele fazia”, lembra-se Braz. “Embalou minha infância”. Quando criança em São Paulo, conta Braz, “ouvia Tim Maia e Michael Jackson como se fossem da mesma família”. “A musica dele é universal, chegou no subúrbio quando estava só começando”, impressiona-se o cantor.

Braz atribui o sucesso do popstar à “verdade com que ele conduziu sua carreira”. Michael Jackson e Tim Maia, a dupla de novo: “não representavam uma só classe. Fazem música abrangente”.

Confira a letra da música “Canção Pra Ninar Um Neguim” na íntegra:

Preto pretinho
Eu sou do gueto
Branquinho de alma negra como tu
Meu dialeto
Sem preconceito
I don’t know how to dance tua dança
But, I like you
Preto pretinho
Qual o carinho da tua alma blue
Essa África do Sul
Preto pretinho
Será que há jeito de ser como tu
Meio rosa e azul
Chora neguinho
Chuva de efeito e gelo seco
Não sarará a dor
Duerme negrito
Sonha Soweto
Mama no peito da mãe
Que te fez cantor
Neguim jeitoso
É perigoso viver sim senhor
Tem espinho e tem flor
Neguim moderno
O inferno é frio e no céu faz calor
Traz o teu cobertor.

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10 coisas dos carnavais de 25 anos atrás que não se vê hoje. E uma crônica saudosista…

 

Sempre achamos que “nossa” época é melhor do que a época dos outros. Nossa infância foi mais infância, nossa juventude era mais excitante, nossas experiências, mais enriquecedoras, enfim, que vivíamos num mundo melhor.

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Carnaval no Campo Grande

Talvez seja uma visão nostálgica, na qual nós nos esquecíamos das dificuldades e das coisas desagradáveis que aconteciam. Isso vale para tudo, inclusive para o carnaval. Aí me deparei com uma postagem de Fabio Gagliano, de 2012, com um certo saudosismo do carnaval, cuja postagem vem a seguir. Ele relata com saudosismo um carnaval que não volta atrás. E elege como símbolo do carnaval a mamãe-sacode. O que tinha esse carnaval que acabou no século passado?

 

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1) O bloco era mais importante que o artista. Cada pessoa era associado de um bloco, o “seu” bloco de carnaval. Cada bloco tinha sua característica, seu público. 

2) A vestimenta era mortalha (que durava os 3 dias), apenas em meados da década de 90 vieram o abadá (com o Eva) e com 1 abadá por dia (Com o cheiro);

3) O kit dos blocos incluía mortalha, boné, mamãe-sacode, faixa, adesivo para colocar no carro, e às vezes uma munhequeira para enxugar o suor (há quem usasse para outros fins);

4) No começo do verão todo mundo já conhecia a música dos artistas de seu bloco;

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5) Havia a maior concorrência pelo lugar na fila na avenida; o circuito Barra-Ondina era chamado de circuito alternativo. Quase não passavam trios por lá.

6) Camarote? No máximo as arquibancadas no Campo Grande e a pipoca vendo os blocos passarem na Casa D’Itália.

7)  Na terça-feira, ou os trios desciam para o Farol da Barra, ou iam para o encontro de Trios na Praça Castro Alves;

8)  O carnaval começava na quarta-feira com a Lavagem do Porto da Barra.

9) Ainda havia bailes de carnaval nos clubes. O mais famoso era o Branco e Preto, que ocorria no Baiano de Tênis, mas também tinham Bailes na Associação Atlética e no Clube Espanhol;

10) O auge do desfile é quando os blocos passavam pelo Campo Grande, os puxadores de trio pediam para os foliões levantarem a mamãe-sacode.

 

Obviamente, quem viveu aquele carnaval dificilmente achará divertido um carnaval de camarote. O carnaval de hoje é muito diferente daquele que se praticava há 15, 20 anos.

A questão é: será que era efetivamente melhor? Aquele carnaval não voltará mais, e se esse carnaval de hoje está longe do ideal, é certo de que ele jamais voltará a ser o que já foi um dia. Cada carnaval reflete um pouco de uma época e de uma geração, E não há indícios de que o carnaval de amanhã vai ser m,ais parecido com o carnaval de ontem. Que era espetacular, inesquecível, mas era o carnaval de ontem.

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O importante é reencontrar nas pessoas o brilho e a alegria de fazer parte de uma festa única. E que seja possível encontrar muitos carnavais em um só. O de ontem, hoje e amanhã. E vejo todo mundo nas ruas, por muito mais do que uma semana.

Vejo trios e fanfarras. Vejo fantasias nas ruas. Vejo carnavais no centro histórico, tem de tudo, mas ainda estão no carnaval o samba, os tambores e a guitarra elétrica, tripé que deu base àquilo que chamamos de axé.

O modelo de blocos com milhares de pessoas vai se esgotando, mas os  pequenos bloquinhos que vão pra rua ainda estão lá. Os trios pipoca ainda estão lá, como, há 40 anos, eram Armandinho, Dodô & Osmar (com Moraes Moreira) e o Trio Tapajós. Dá até vontade de sair na rua, fantasiado de folião anos 90 com mamãe-sacode.

Parece que o carnaval da Bahia continua sendo uma metamorfose muito maior do que em qualquer outro lugar. Se um sujeito fosse congelado há 30 anos e acordasse hoje, no século XXI, e visse o carnaval do Rio ou de Olinda, ainda reconheceria aquele espaço de 30 anos. Na Bahia é um pouco diferente. Muita coisa muda. Há espaço para a tradição? Claro! Mas na Bahia nenhuma tradição carnavalesca sobrevive se não houver um sentido, e este sentido está na existência de pessoas pulando e cantando na rua. E que viva o samba, os tambores e a guitarra elétrica…

 

Segue abaixo a crônica que me referi.

 

Roubaram meu Mamãe-Sacode

 

(SALVADOR – Eu quero muito mais que o som da marcha lenta) – Chegou fevereiro. Chegou o Carnaval. E o Carnaval, na Bahia, me leva à infância. Me leva a imagens, sons e sentidos que marcam a minha essência.

Nasci e cresci na Rua da Mouraria, bem próximo à sede do bloco “Os Internacionais”. Acompanhava a elaboração dos figurinos, a escolha da fantasia. Via de perto o nascimento de cada peça, com as costureiras que, incansavelmente, trabalhavam lá, onde morávamos, no seu andar térreo. Estive ao lado da concentração onde o maestro Reginaldo “Bigodão” comandava uma banda de músicos de “não-sei-quantos” homens para sair da Mouraria e conduzir Os Internacionais rumo ao seu desfile. Instrumentos de sopro em cima do caminhão. Instrumentos de percussão ao chão.

Cresci utilizando cada uma das fantasias do bloco, e me apaixonei com a paixão de meu pai, louco por Carnaval mas, principalmente, para “ver o bloco na rua”. Chorei com a sua emoção que derramava lágrimas ao avistar, de longe, o bloco despontando na Avenida com seus 1.500 integrantes e suas alegorias de mão abrindo alas para um espetáculo belíssimo e inesquecível. Angustiava-me com a sua eterna angústia que, ao perceber que o seu bloco estava perfeito, iniciava a torcida para que tudo logo acabasse, sem problemas, sem percalços, sem confusão. O ato de colocar o bloco na rua era a sua paixão, o seu ideal. A percepção, à quarta-feira de cinzas, de não ter havido contratempos, coroava o seu carnaval e alavancava a preparação do ano seguinte.

Em paralelo, via de perto o Cheiro de Amor exalando sua fragrância na Avenida e usando um macacão por 3 dias consecutivos. Imaginem como se encontrava o mesmo no último dia de carnaval, posto que era impossível lavar e secar tal tipo de tecido de um dia para o outro. Vi o Camaleão de Luís Caldas, o Crocodilo do Asa de Águia, o Eva de Ricardo Chaves. Vi as mortalhas invadirem multicoloridas as Avenidas do Centro de Salvador. Vi, ainda os blocos subirem até a Sé, pararem para um leve descanso e descerem para a Carlos Gomes via Praça Castro Alves quando, não raro, encontravam outro bloco em sentido inverso. Me desesperei quando o trio dos Comanches perdeu seus freios na descida da Sé matando inúmeros foliões e gerando o pânico na praça do poeta.

Enquanto isso, saía no Domingo e na Terça fantasiado de romano, marajá, gondoleiro, pierrot, chinês, imperador inca, príncipe, pirata, dentre outros. Isso nos Internacionais, onde os homens estavam dentro das cordas e as mulheres compunham o séquito no lado de fora.

No Sábado e na Segunda, a coisa mudava de figura. A família inteira estava reunida no “Eu e Ela”, utilizando-se de mortalhas e, assim como em “Os Internacionais”, a condução era realizada pela grande banda Chiclete com Banana. Os foliões dançavam, brincavam, curtiam, namoravam, bebiam. Eu estava vendo o Carnaval sendo feito e utilizado pelas mesmas pessoas. O organizador era folião. O ambulante, idem. O cantor, também. O radialista, igualmente. Bem como os artistas, intelectuais, políticos e todos os segmentos sociais.

Apesar de muito pequeno, vivi tudo muito de perto. Minhas primeiras imagens da infância me remetem à rotina matutina da organização carnavalesca, com a chegada do trio, a preparação das cordas, o teste do som, a dinâmica dos caminhões com os “engradados de cerveja” abastecendo os bares e ambulantes na área do quartel dos Aflitos, o mamãe-sacode empunhado com orgulho…

Ah…. os Mamães-Sacode… Esses eram, talvez, as maiores referências do Carnaval da Bahia. Compunham elementos de estética visual indescritíveis que, ao serem atiçados conjuntamente ao ar davam, ao espectador, uma visão sublime, que demonstrava indelevelmente o fracasso ou o sucesso do artista de trio, do puxador de bloco.

O bloco Tiete Vips, popularíssimo, através do saudoso Val Valle e da Banda Tiete Vips nos brindavam com um espetáculo deslumbrante ao adentrar a área do palanque do Campo Grande. Quem não lembra do famoso grito de guerra: “Tiete Vips chegoooooou, ê aê aô”.

Vi o Frenesi de Adhemar e Banda Furta Cor. Vi, ainda, a deslumbrante Banda Mel com o seu Prefixo de Verão e a sua Baianidade Nagô. Acompanhei a Reflexus com o seu Madagascar Olodum e o Canto para o Senegal.

Acompanhei os “gênios” do carnaval baiano que, sob a aura da modernidade, extirparam a nossa mais pura cultura. Os magos criadores do abadá e carrascos das fantasias e mortalhas. Não há mais alegorias de mão. Não há mais a alegria do mamãe-sacode eclodindo no ar das ruas centrais de Salvador. Criaram o circuito alternativo na Barra e desterraram a Avenida. A partir do momento em que ficaram de um lado os criadores e, do outro, os foliões, o Carnaval da Bahia passou a ser um espetáculo midiático, de compra e venda de pacotes publicitários, perdendo toda a sua verdadeira essência. Os camarotes são excrescências deste processo, onde se ouve 90% de música eletrônica e, muito raramente, surge alguém que recorda estar no Carnaval da Bahia e vai dar uma espiadinha no trio que está a passar.

Há alguns anos, acreditem, fiz a bobagem de  participar de um bloco puxado pelo tal do Tuca Fernandes, o bloco Eu Vou. A cena que presenciei era dantesca. Inúmeros adolescentes não estavam nem um pouco interessados em dançar, pular, brincar. Era uma sequência tão bizarra quanto assustadora. Parecia um filme de zumbis, ou mesmo o seriado “The Walking Dead”. Adolescentes totalmente dopados, olhos vermelhos, bocas abertas, babando e procurando outras bocas para consumar um ato que, em nada, se lembra ao clássico beijo de carnaval. Nem Kubrick poderia descrever um cenário tão aterrador.

Arlequim morreu. Colombina se prostituiu. Pierrô abriu uma seita fanática religiosa. O folião não quer mais folia. O cantor não quer saber do folião, e sim da mídia. Ninguém agita mais ninguém para que o seu bloco seja o mais animado da Avenida. O cantor só faz cena para aparecer nas telinhas da Band Folia ou atrasa a apresentação para entrar ao vivo no Jornal Nacional.

Queimaram a fantasia. Extirparam a magia. Roubaram, enfim, o meu mamãe-sacode.

  http://cronicativa.blogspot.com/2012/02/roubaram-meu-mamae-sacode.html

 

“Olhos negros, cruéis tentadores…”

 

Pouca gente sabe, mas a letra de uma das mais famosas músicas de carnaval da Bahia não foi escrita por um baiano. “Chão da praça” tem a música de Moraes Moreira (baiano de Ituaçu), mas a letra é de um cearense, Fausto Nilo. Moraes Moreira, no seu livro “Sonhos Elétricos” (Azougue Editorial), conta como foi a composição desta música:

 

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“Liguei para Fausto, dizendo que tinha uma ideia para uma nova música. Ele me disse do outro lado que também tinha uma nova letra, então marcamos o encontro. Para a nossa alegria e espanto, música e letra foram se encaixando de maneira tal que, dentro de pouco tempo, já tínhamos pronto um frevo de quatro partes que até nos pareceu grande, mas diante da fluência que se dava entre elas deixamos rolar e tudo aconteceu. Era na verdade uma grande homenagem à praça do Poeta, que já vinha sendo referenciada também por outros artistas.”

O toque oriental que havia na composição foi realçado no arranjo e principalmente pela guitarra baiana de Armandinho que detonava o som. Foi assim, misturando oriente e ocidente, dor e prazer, pranto e alegria, que balançamos literalmente o “Chão da Praça”.

 

Fausto Nilo, numa entrevista, contou como ele, anônimo, foi atrás de sua própria música no carnaval:

 “Cheguei a Salvador na sexta-feira de carnaval, fiquei no hotel São Bento, perto da praça Castro Alves. Meu quarto era de frente para a rua. Eu estava sonhando que estava na Bahia com um carnaval qualquer passando com a minha música. Quando acordei, era realidade. Saí de chinelo e bermuda, era uma caminhonetezinha do subúrbio, com alto-falantes. Fui atrás da minha música”.

 A música Chão da Praça é um dos hinos do carnaval da Bahia. Certamente daqui a 50 anos ainda as pessoas vão vibrar na Bahia quando alguém entoar “Olhos negros, cruéis, tentadores, das multidões sem cantor”…

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Há uma série de referências. Primeiro, às “multidões sem cantor”, quando não havia cantores nos trios elétricos (e vindo ser Moraes Moreira o primeiro deles). A referência a um passado de baile de fantasias (eu era menino, beduíno), e as relações entre a dor que balança e a dança que substitui a dor, “porque já todo pranto rolou”.

Fred de Goes afirma em seu livro “O país do carnaval elétrico”, que as “multidões em cantor” seriam uma homenagem a Orlando Silva, também conhecido como cantor das multidões, falecido em 1978.

Moraes já disse que seu propósito era fazer músicas de carnaval daquelas que se cantam para sempre, como as marchinhas dos dois primeiros terços do século passado. Ele conseguiu. A letra de chão da praça entoa, como diz Moraes, Oriente e Ocidente, dor e prazer, e a grande sensação de ver a praça tremer…

Fontes: MOREIRA, Moraes. Sonhos Elétricos, Saalvador: Azougue Editorial, 2010

http://www.revistaforum.com.br/noticias/2011/01/17/os_dois_lados_do_espelho/

Da cor do pecado… para uma mulher chamada Felicidade

Esse corpo moreno cheiroso e gostoso que você tem…”

Com esses versos, Bororó compôs uma das músicas sensuais de sua época. Da cor do pecado revela, em cada verso, o desejo que o eu-lírico sente pelo corpo moreno, delgado, depois passando pelo beijo, “molhado, escandalizado”, e depois a voz, que responde “umas coisa com graça”,   e depois o cheiro de mato, saudade tristeza, para enfim voltar ao corpo moreno.

É uma música sinestésica, pois vai descrevendo as sensações do eu-lírico ao chegar perto da dona desse corpo, do beijo, do cheiro, da voz, tudo isso presente no corpo moreno.  “Da cor do pecado” é um grande samba, talvez o melhor que se tem notícia que tenha sido composto por Bororó (Alberto de Castro Simões da Silva), gravado por Silvio Caldas, mas também por João Gilberto, Elis Regina, Nara Leão, Ney Matogrosso, entre outros.

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 Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello contam um pouco da musa desta canção, gravada em 1939:

Brejeiro, malicioso, possui uma das letras mais sensuais de nossa música popular: “Este corpo moreno / cheiroso, gostoso/ que você tem / é um corpo delgado / da cor do pecado / que faz tão bem…”.

Segundo o autor, “a musa desses versos chamava-se Felicidade, uma mulher de vida pregressa pouco recomendável”, que trabalhava em frente ao Tribunal de Justiça e lhe foi apresentada por Jaime Távora, oficial de gabinete do ministro José Américo. Iniciou-se assim um romance de vários anos em que Bororó foi responsável pela mudança de vida da moça. Mais tarde ela se casaria com um médico, tendo morrido ainda jovem em consequência de uma gripe mal curada.

De melodia e harmonia elaboradas, acima da média dos sambas da época, “Da cor do pecado” tem seu aspecto mais interessante nas modulações da primeira para a segunda parte e na volta desta para a primeira. Ainda quanto à melodia, tal como se repetiria em “Curare”, a frase final – “eu não sei bem porquê / só sinto na vida o que vem de você” – é um primor de preparação para o acorde de dominante que conduz ao tom da primeira parte.

Fontes: Instituto Moreira Salles – Acervo Musical; A Canção no Tempo – Vol. 1 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34.